domingo, 23 de outubro de 2016

O Cais do Valongo

                                          
          Dois séculos depois de soterrado, ao ensejo das obras de  revitalização da zona portuária do Rio de Janeiro, foi reexposta   a área que, entre os séculos XVI e XIX, constituíra sítio da chegada, trazidos pelos naus negreiras, de cerca de quatro milhões de africanos que para cá vinham para serem transformados em escravos.
          Dentre esses sítios, guarda especial significado arqueológico aquele do chamado Cais do Valongo, erguido às margens da antiga praia do Valongo, a partir de 1811, e em que por vinte anos desembarcou cerca de um milhão de homens e mulheres, até que o tráfico infame fosse descontinuado pela pressão inglesa.
           Trata-se de ancoradouro rudimentar, mas calçado em pedra, o que lhe assegurou a permanência depois de aterrado. A maior parte dos locais reservados ao desembarque de escravos não foi conservada, pelo seu caráter precário, que não ensejava uma eventual redescoberta futura.
            Daí a importância do cais do Valongo, ora descoberto na Zona Portuária, ao ensejo dos trabalhos de reurbanização da área.

            Segundo Milton Guran, antropólogo que coordena o processo da candidatura - que está sendo processada no âmbito da UNESCO - o aludido cais do Valongo "trata-se do único vestígio material de um porto de desembarque de africanos nas Américas. Todos os outros foram destruídos ou encobertos."
              Segundo assinala a matéria de O Globo, até o anúncio da decisão da Unesco, que deverá sair em junho de 2017, a candidatura do Cais do Valongo será analisada por especialistas em duas reuniões técnicas.  Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Brasil deverá ter acesso a relatório com o posicionamento do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios em maio. No mês seguinte, será realizada a avaliação final do processo pelo Comitê do Patrimônio Mundial.

              O cais do Valongo foi desativado em 1831, quando o tráfico negreiro foi proibido por força da pressão inglesa, a grande potência da época, e, em seguida, acabou sendo soterrado, remodelado e rebatizado para receber a princesa Teresa Cristina, da nobreza italiana (Reino das Duas Sicílias), que para cá  veio para ser a esposa de Pedro II.
                Como sói acontecer, já na República, em 1911, houve uma grande reurbanização da área, vale dizer tudo foi aterrado, dando lugar a uma praça.
                  Por sorte, a área do chamado Cais do Valongo  permaneceu inteira, a despeito da citada construção,  em meados do século XIX, do cais da Imperatriz. Não destruído, o cais do Valongo possibilitaria que, ulteriormente, a negritude brasileira - que a área do Valongo havia  preservado - fosse colocada diante dos olhos do presente século XXI de forma incontestável.


( Fonte:  O Globo )

Nenhum comentário: