sexta-feira, 7 de julho de 2017

O desafio da Venezuela

                    
        A Venezuela apresenta um claro desafio e não só para a América Latina. Instalou-se em Caracas, depois do desaparecimento de Hugo Chávez, como sucessor ideológico, o seu suposto herdeiro, Nicolás Maduro, que se tem mostrado claramente incompetente, em gerir o Estado sob qualquer paradigma, inclusive o chavista.
        Há uma clara situação de descalabro no atual regime venezuelano. Por deixar de atender ao mecanismo constitucional do recall, não cumprindo com a regra a que Chávez a seu tempo cumprira e vencera, o presidente Maduro, para evitar que fosse legalmente afastado do poder - não permitiu que o processo de coleta de assinaturas fosse levado a termo, com o claro objetivo de evitar a realização do recall, que, pela calamitosa situação do país, levaria necessariamente à sua destituição.
        Apesar de hipócrita promessa de em tudo seguir o exemplo de Chávez, sob pretexto espúrio, Maduro cancelou o procedimento, que certamente o afastaria do poder, para o bem da sociedade venezuelana.
        O governo chavista, sob Nicolás Maduro atualmente preside à situação de inquietante calamidade pública. Diante de sua comprovada inépcia administrativa, Maduro tem procurado responder ao desafio, através de crescente radicalização, seja metaconstitucional, seja pela criação de estado policial, em que prevaleça, em última análise, a vontade do Supremo Lider.
          À medida, no entanto, em que a situação social se desagrega, por força da hiperinflação, da desenfreada crise financeira, com a desvalorização do bolívar, aumenta o desabastecimento pela falta de condições mínimas de estruturação do mercado. Fatores paralelos que entram em ação provocam  a paralisia  econômica - por falta de condições mínimas de funcionamento do sistema capitalista - com o consequente desabastecimento generalizado, que costuma, em geral, atingir de forma mais forte às classes de menor renda.
          Por outro lado, cresce, além das condições cataclísmicas acima referidas, a tendência de vestir pulsões economico-financeiras (i.e., a incapacidade do Estado chavista de lidar com tal desafio) com o suposto voluntarismo de forças econômicas, a que se atribuem desígnios malévolos. Dentro da geral incompetência e do atraso desse Estado - marcado pela má-gestão das forças econômicas e financeiras - se passa a atribuir supostas 'culpas' de designados bodes expiatórios, ao que não passa de má-gestão da economia e das finanças, com a concessão excessiva de subsídios e de preços artificiais, a que as contas públicas não tem condições de sustentar.
           A orientação do chavismo, seja sob Hugo Chávez, seja sob seu sucessor (até que os fatores econômicos a inviabilizaram) só poderia dar no que está dando, com o exagero dos subsídios econômicos (que o Tesouro estatal paga enquanto tem recursos), que levará necessariamente aos depósitos vazios nos entrepostos.  Por outro lado, o desperdício das rendas do produto essencial do Estado venezuelano - que hoje não passa de mono-cultura, a do petróleo - já encetado no tempo da bonança por Hugo Chávez, subvencionando Cuba e outros países como Nicarágua, e até novas organizações internacionais, montadas para servir à vaidade do Caudillo, só poderia à la longue dar no que deu.
            Apesar de toda a panóplia chavista, o regime econômico da Venezuela não passa de monocultura, com base na cotação internacional do petróleo.  Desdenhando - ou afugentando - o investimento internacional,  a situação petrolífera por força de fatores que são exógenos à influência da pobre Venezuela, a cotação internacional do barril do petróleo brent despencou. Como as condições do próprio ente nacional de explotação do ouro negro também decaíram, por causa da administração inepta do órgão estatal a que incumbe todo o processo ligado à produção e à venda desse precioso bem, será fácil de compreender que um misto de incompetência funcional, de falta de adequação da produção  e da velha corrupção,  terão sido fator importantíssimo para a crescente falta de recursos do Tesouro venezuelano de atender às necessidades do mercado, and last but not least, de sua sociedade, que a ambição de Hugo Chávez, assumindo uma penca de clientes onerosos, uma vez transmitida a seu inepto sucessor - com o agravante da nova situação econômica-financeira ainda menos favorável - produziu as condições negativas que se traduzem na hiper-inflação, na insuficiência da oferta e por conseguinte da criação de condição calamitosa de desabastecimento generalizado, hiperinflação e desmonetização generalizados.  
              As estantes vazias e a falta de mercadorias é o resultado de moeda que já não tem poder de compra, pela sua desvalorização, que tende necessariamente para zero. Os substitutos disso são o mercado negro e o entesouramento, através do qual os agentes econômicos recusam a moeda que perdeu na prática todo o valor, como é o caso do bolívar.
              Não há nada mais simbólico no que tange, seja aos planos mirabolantes de Hugo Chávez (acreditando poder bancar a Cuba e a uma penca de outros países inadimplentes chavistas, como, v.g. a Nicarágua - até malas de dinheiro mandou para a rica Argentina, então sob os peronistas de Cristina Kirchner, com vistas a estipendiar campanha eleitoral).
              Desaparecido o mercado que favorecera o sobrepreço do petróleo - desperdiçado, na época, por Chávez em busca de mirífica grandeza política - surge a presente situação. Pode-se aplicar até fábula de Esopo para a inadimplência atual do regime de Maduro (a cigarra e a formiga), mas talvez ela se aplicasse inclusive ao petismo. Interessante, no caso, é a cegueira dos líderes desse tipo de regime. Lula, por exemplo, continua achando que as demonstrações de 2013 foram um complô sinistro de Tio Sam, quando, na verdade, a velha economia e finanças empurraram os demonstrantes - a princípio, estudantes paulistas, e depois generalizou (o fogo queima a planície quando a grama está seca pela improvidência ou maldades de Papai do Céu). Que a gente brasileira continue em número preocupante em aceitar tais teorias, isso depõe mais contra a deseducação e a ignorância generalizada, do que da força de demagogos espertos, que se alimentam desta credibilidade que a par disso acredita em lobisomem e mula sem cabeça...
            Sobre o facismo pretendia escrever, mas, como se vê, demagogos como Mussolini não surgem por acaso.  Por isso, da triste parecença entre chavismo e fascismo, deixo para cuidar em nova oportunidade...


(as fontes são muitas, aprendidas a seu tempo, pelo escriba) 

Nenhum comentário: