sábado, 30 de setembro de 2017

O que faz boa a Administração?

                              

          As boas administrações são tão difíceis assim de aparecerem? Será a pergunta da vez, que volta e meia se repete, em um quadro amiúde decepcionante.
          Porque ventos de mudança costumam trombetear o homem público com imaginação e audácia.
           Se olharmos para o passado, e encontrarmos alguém que pareça diverso e mais inspirador do que os personagens do presente, talvez isso baste para que alguém nos rotule de saudosista e até mesmo de passadista...
           Quando o ceticismo se entranha e pode mesmo descer às profundezas do cinismo, vale dizer a descrença erigida em princípio, como se poderá reacender a pira das emoções e da participação na promessa de um novo governo?
           Um candidato quando se apresenta ao povo - que é o verdadeiro soberano na república - ele precisa trazer consigo dois trunfos: a credibilidade, que é a folha corrida do seu passado, e a inteligência nova, que é o seu programa para o futuro.
           Uma está ligada à outra. Se ele se desempenhou bem no passado, ele trará consigo nessa folha corrida a indicação de o que estará em condições de realizar. Assim, a sua visão do porvir será necessariamente uma consequência de seu trabalho como homem público
          Assim, alguém sério, estudioso e trabalhador poderá apresentar aos eleitores um programa que mereça fé.
           Se ele, ao contrário é limitado, mesmo se prometer milagres e muitas realizações, lhe faltará a credibilidade, que constitui uma espécie de avaliação para o eleitor, de que o seu passado dá uma espécide de atestado.
           Assim, o eleitor que se perde e se confunde, preferindo o candidato ruim ao bom, a quem ele poderá culpar se o governante não der certo senão a si próprio?
           Há pouco tivemos nos Estados Unidos a confirmação dessa verdade. Se não há comparação possível entre os dois candidatos, a razão da vitória de Donald Trump só pode ser explicada pela prevalência da aposta errada sobre aquela correta. Escolher alguém como Donald Trump ao invés de Hillary Clinton constitui um pesado erro. É raro encontrar tanta desproporção entre a capacidade de um candidato e a da sua rival.
           Nas democracias, se a escolha é livre, realizá-la dessa forma, preferindo o menos preparado em detrimento da candidata mais bem preparada para enfrentar o desafio, será um ato que terá suas consequências que se traduzem em oportunidades perdidas, mas também em muitos problemas, e alguns de maior gravidade.
            É o velho princípio que vem desde a Antiguidade clássica. Se existe a liberdade do eleitorado de escolher uma em detrimento da outra opção, esse mau passo terá muitas consequências, em geral más.

            Se a história há de castigar tais erros, o mais triste nisso tudo, está não só na oportunidade desperdiçada, mas talvez - e quem sabe de forma ainda mais grave - se a incapacidade do candidato vencedor vá criar ainda mais males do que os antes existentes.

Rocinha: os Militares em retirada

 

        Desejada ansiosamente pelo governo estadual de Pezão,  a ocupação militar da Rocinha, que contou com o empenho do Ministro Raul Jungmann (PPS-PE), ao cabo de uma semana se desfaz. Nenhuma prisão de chefe do tráfico foi realizada nesses sete dias.
           Além do recolhimento de armas, a permanência do destacamento foi bastante breve.  A grande crise que afronta o governo do Rio de Janeiro terá decerto muitas causas. A administração Sérgio Cabral pelo seu índice de corrupção - de que o governador, que a princípio despontara como um novo valor para o Rio, por motivos surpreendentes jogou fora marcante perspectiva de liderança política, e se deixou enredar por uma floresta de comissões e outros ganhos ilícitos. Ele que era esperança da esquerda - e para tanto disporia, em várias comissões, do apoio pontual do PT - acabaria afundando junto com o partido de Lula.
             Quanto ao torneiro-mecânico que virou presidente cabe ora esperar como o TRF-4 vai julgar a sentença condenatória do Juiz Sérgio Moro - as perspectivas não são boas, por uma recente decisão dos desembargadores que é a primeira câmara superior no caminho da Lava-Jato. Por sua vez, a cascata de condenações que se inicia na Lava-Jato carioca com o igualmente bom juiz Marcelo Bretas se encaminha para outra vertente, que visa a resolver segundo a Lei as estripulias da Turma do Lenço.
             Quanto aos problemas do Estado e do governador Pezão, essas visitas de médico das ocupações militares, se continuarem a seguir tais parâmetros de brevidade, quem poderá acreditar em sã mente que possam resolver algo de forma duradoura?
              Milagres não ocorrem nesse gênero de questão.
              O problema principal a ser enfrentado é o malogro da medicação recomendada pelo ex-Secretário Beltrame.  Sério e honesto, ele já bateu em retirada, vencido pela falta de recursos, confiança, e apoio da Administração.
              As UPPs, o que são atualmente? A começar pela de Santa Marta, que veio para marcar o início de nova era, e nas demais, qual é a situação da luta contra o tráfico?
               Visitas de médico, que se caracterizam pela brevidade, que significado podem ter? A fortiori,  quando o paciente está acometido por enfermidades bem mais sérias, que demandariam resolução, empenho e recursos que por ora não se vêem na antes alegre terra carioca ?
           
( Fontes:  Folha de S. Paulo,  O Globo )

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A exploração dos médicos cubanos

                    

             Ainda no governo petista de Dilma Rousseff,  o Brasil contratou com o regime de Havana a vinda de médicos cubanos.
         Os médicos cubanos viriam para atuar em áreas afastadas e com deficiente atendimento clínico da população brasileira, e dentro dos programas do governo petista se destinavam a atender amplo setor em que havia falta de cuidados clínicos à população.  
        Destinavam-se, assim, a regiões em que existia uma real carência de indispensáveis atenções clínicas com a população, fosse ela interiorana, fosse ela rural.
        Como correspondia a uma real necessidade, o programa teve sucesso e, por isso, ele seria renovado pelo governo que sucedeu ao petismo, tão logo determinada pelo Congresso o impeachment  da Presidente Dilma Rousseff.
        Por isso, como a ideia do aproveitamento dos médicos cubanos correspondia a  necessidade efetiva, e os profissionais daquele país atendiam às expectativas, o programa continuou.
        Há, no entanto, na aplicação do programa, uma falha que é típica do regime comunista de Cuba.  Sem o saberem, os médicos cubanos ganham na realidade muito menos do que a Administração brasileira paga ao governo cubano. É uma brutal plus valia que vai direto para o tesouro do regime comunista, eis que os médicos diplomados percebem vinte e cinco por cento do que o Brasil paga a Cuba, o resto indo obviamente para os cofres do governo de Havana.
         De modo a assegurar que o profissional não tenha conhecimento de o que está na realidade percebendo (e por conseguinte, perdendo) os vencimentos dos médicos são pagos por Cuba, uma vez recebida do Estado brasileiro a totalidade da transação. O que desperta revolta no profissional médico é saber que ele trabalha duro, mas paga um imposto socialista de 75% sobre os respectivos vencimentos.
          Como o pagamento é interestatal, e Cuba não tem interesse em informar a seu nacional que ele está sendo cortado em 75% do que ele efetivamente ganhou, compreende-se que a reação dos profissionais, quando isso vem à tona, é de revolta.
              O que está agora acontecendo é que os médicos vão à Justiça brasileira para serem ressarcidos, e a consequência é que os pagamentos passem a ser feitos diretamente entre o Estado do Brasil contratante dos serviços, e o profissional cubano, que trabalha duro para atender às necessidades clínicas da população brasileira em áreas rurais e afastadas.
              O nó foi desatado pela Justiça brasileira, que acionada pelos interessados agiu para evitar essa exploração do médico pelo Estado comunista de Cuba.


( Fonte:  The New York Times )

Protestar contra Maduro é crime inafiançável?

                    

      Ao contrário de o que afirma o governo venezuelano, é isto o que parece.  Pois,  dos 27 estudantes detidos  durante a onda de protestos contra a ditadura de Nicolás Maduro entre abril e junho  de 2017, nenhum deles até o presente foi libertado.
         É o que afirma a ONG Foro Penal Venezuelano (FPV). 

        Dentro do habitual jogo de falsas notícias,  a despeito de publicar que a liberdade fora concedida, na realidade nada ocorreu, eis que a Justiça venezuelana apenas outorgou "liberdade com restrições" aos jovens.
        Em outras palavras, cinicamente a ordem judicial determina que eles não deixem o Estado de Arágua, nem participem de outras manifestações contra Maduro.
      


( Fonte:  O Estado de S. Paulo )          

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O que fazer de Julian Assange?

               
        O asilado de Londres, Julian Assange, que há cerca de cinco anos vive na embaixada do Equador - e cujo site WikiLeaks teve participação não de todo esclarecida na eleição americana, em que favoreceu, sabe-se bem a mando de quem, a candidatura de Donald Trump, com divulgações do respectivo site tendentes a prejudicar a sua adversária, Hillary Clinton - agora entra no espaço da Catalunha.
         O seu escopo é o de favorecer a causa catalã. Nesse sentido, Assange falou nesta última terça-feira, por video-conferência, a centenas de catalãos  reunidos na Universidade de Barcelona, assegurando que os outros países estão olhando para a região para ver se ela tem sucesso na sua tentativa de organizar um plebiscito sobre a indepedência.
         Como se sabe, Julian Assange, acolhido pelo então Presidente Rafael Correa, do Equador, refugiou-se na sua embaixada em Londres, ameaçado que estava de ou ser entregue aos Estados Unidos (por causa da difusão do site WikiLeaks), ou a Suécia, por conta de uma acusação de estupro. Por motivos diversos aos que levaram Edward Snowden a lograr - de uma forma rocambolesca - asilar-se no aeroporto de Moscou, eis que no caso deste último a motivação era política, enquanto no de Assange era penal - o hoje asilado na chancelaria equatoriana está sem tratamento médico-dentário por todos esses anos, eis que não parece funcionar para a polícia inglesa a motivação humanitária, e tampouco lhe é agradável a perspectiva ou de ser expedido para os States ou para a Suécia, esta por motivos penais, aqueles políticos.
            O WikiLeaks teve também dúbia participação no recente processo eleitoral americano. Sobre esse assunto penso aprofundá-lo mais em um blog ulterior. De qualquer forma, Assange parece afinado com gospodin Putin, pois a sua intervenção no pleito americano não foi decerto para ajudar a causa de Hillary Clinton.
             Também ajuda a compor o quadro do entorno da sua atuação, em que surge o analista de programas da NSA, Edward Snowden, e o canal de tv russo RT já nos dá para ter uma forte suspicácia de quem esteja por trás dessa composição.
              Como a Espanha não é uma grande potência, e consoante a velha interrogação  cui prodest (a quem aproveita), semelha importante saber qual o objetivo da Federação Russa de Putin de unir-se ao libertário movimento catalão.  Porque a composição acima assinalada já tira qualquer dúvida quanto ao interesse do Presidente Putin na criação de mais um mini-estado na União Européia. Como formam a Federação Russa um bom número de nacionalidades, a motivação de gospodin Putin carece de ser aprofundada para um melhor entendimento. Que não é decerto pelos belos olhos da Catalunha que a Rússia está participando desse movimento, que se bem sucedido, enfraquecerá a Espanha e criará talvez problemas para a União Europeia.
               Juntando-se aos líderes separatistas catalãos, que insistem em realizar a consulta popular, apesar da proibição do governo de Madri e da Justiça - que consideram o plebiscito inconstitucional, disse Assange, da sua torre não-exatamente de marfim, em Londres: "A pergunta é como se observa na era moderna uma tentativa de reprimir as pessoas? É possível para os serviços de segurança do Estado reprimir um movimento democrático sério? "
                 E complementou da sua torre de exilado, refugiado e condottieri à distância: "Isto está sendo observado por outros países e pelo Ocidente", aduziu Julian Assange, pedindo aos catalães que mantenham a calma.  
               Entrementes de seu refúgio dito diplomatico, nos meios espartanos das saletas  da chancelaria  que o acolheu, mal se diria que esse asilado - condição que é para muitos a epítome da precariedade - possa marcar tanta presença, ainda que confinada no angusto espaço deste fugitivo moderno, em que reaparece o revolucionário seja ele quem for, e  os seus eventuais senhores, sejam eles apenas esgazeados, distantes vultos, por mais antinômica que surja para os eventuais visitantes o vulto marcado por estranha solidão, que convive com a névoa das conjuras e a respiração opressa das grandes, mas longínquas multidões.             


(Fontes: The New Yorker, O Estado de S. Paulo)

A "reforma fiscal" de Trump e o GOP

           
             Infelizmente, o Partido Republicano detém a maioria tanto no Senado, quanto na Câmara. Nesta última, é público e notório que em muitos estados o GOP realizou um gerrymander para valer, e por isso, em estranhíssimo fenômeno - de que a imprensa estadunidense só reporta de forma raríssima - nas eleições - que para a Câmara de Representantes ocorrem de forma bianual -  é praticamente impossível que o Partido Democrata obtenha a maioria nessa Câmara e logre designar Nancy Pelosi outra vez como  Madam Speaker, essa possibilidade tende para zero, enquanto não forem redesenhadas as circunscrições políticas em muitos Estados, de forma a que a regra da igualdade seja observada. 
              Antes de ir além, darei exemplos para que o leitor entenda o que está acontecendo em boa parte dos Estados Unidos.
               Tomem, por exemplo, o estado de Ohio, importante e populoso estado, no centro norte dos Estados Unidos. Nesse estado, não é impossível que o Partido Democrata eleja um ou os dois senadores, porque funciona para as eleições majoritárias (como Senador, Governador e Presidente) todo o Estado como se fosse um grande distrito.  Já para os deputados, tanto estaduais quanto fede-rais, cada um representa no Estado um distrito, onde é eleito por votação majoritária. É aí que funciona a deformação criada pelo gerrymander.  Os distritos eleitorais são traçados pela Câmara Estadual, a cada dez anos (de acordo com o censo). Há gerrymander se tais distritos forem divididos de forma a que se maximize a representação do partido A contra a do partido B. Sendo os democratas um partido de esquerda e os republicanos, uma agremiação de direita, a fórmula do gerrymander  é dividir o estado de forma a que o voto liberal-democrata seja concentrado em distritos maiores (cada distrito elege um deputado), enquanto o voto conservador é distribuído a assegurar sua presença majoritária em um maior número de distritos. No exemplo do Ohio, por exemplo, por vezes - como o Estado forma um só colégio para Presidente e para Senador - tende a vencer o Partido Democrata. Já para a Câmara, diante do redesenho dos distritos, segue para Washington um maior número de deputados republicanos...
                  Para um conhecedor, essa discrepância é facilmente determinável. Se há gerrymander,  na delegação de deputados federais preponderam os republicanos, e em contraste, nos votos majoritários (Senador e Presidente) não despertará maior surpresa se o total do Partido Democrata supera aquele do GOP...
                  Como qualquer pessoa há de verificar,  o gerrymander é uma fraude, e como tal deveria ser combatido. No entanto, a sua supressão é muito difícil, primo porque é defendido atualmente pelo Partido Republicano, e tende a contrabalançar - ainda que de forma faltosa - a maioria democrata em muitos casos, como sobretudo os distritos para a Câmara de Deputados. É por isso que a chefe de fila dos democratas, a deputada Nancy Pelosi durante todos os oito anos de Barack Obama só foi presidente da Câmara nos primeiros dois anos... E como o mesmo pode ocorrer em muitos outros estados, entende-se porque na Câmara Baixa o gerrymander determine a contínua maioria republicana desde então...
                    É provável que o gerrymander continue na Câmara de Representantes. Quanto ao Senado,  como não parece possível - pelas suas mostras iniciais - que Mr Donald Trump faça um bom governo, é provável que no Senado pelo menos a aumente a bancada de Chuck Summer, o líder democrata.  Trump tem falado bastante sobre a sua reforma fiscal... Sabemos como são as reformas fiscais dos republicanos. São cortados os impostos para os ricos, feitas módicas reduções para os impostos que atingem a classe média, e sobre os pobres recairão impostos e sobretudo taxas que em nada os favorecerão. Porque não é à toa que o Grand Old Party (GOP), o muito falado partido republicano do Presidente Abraham Lincoln,  na verdade desde muito abandonou o que o caracteriza no governo do melhor presidente estadunidense de todos os tempos.  Hoje o Partido Republicano é o partido dos ricos, e é por isso que o orçamento a ser aprovado por Trump - enquanto tiver maioria no Legislativo - favorecerá os ricos, com grandes cortes - como já se está verificando.  Em consequência disso, a tal "grande reforma" buzinada por Trump se caracterizará pelo aumento do déficit orçamentário, eis que a fórmula do GOP assim funciona.  Enquanto os governos democratas buscam chegar a um equilíbrio orçamentário, os republicanos cortam sem misericórdia os impostos e as taxas... para os ricos, de forma que o déficit orçamentário é uma característica dos governos do GOP.
                     E da maneira que se está prefigurando a dita "reforma orçamentária" buzinada e enaltecida por Trump  o que teremos pela frente será a repetição de o que houve com outros Governos republicanos desse século, como o de Bush júnior, aquele que inventou a caça às armas de destruição em massa (WMD) do líder iraquiano Saddam Hussein - que na verdade não existiam - mas serviram para justificar uma das guerras mais desastrosas e ruinosas dos Estados Unidos,  que rapou os cofres americanos, e iniciou um movimento preocupante quanto ao início da diminuição do poder da Superpotência, situação similar talvez às causas do livro de Oswald Spengler, a Decadência do Ocidente, no caso o Reich  Alemão do Kaiser Wilhelm II, com a sua derrota na Primeira Guerra Mundial.
                    Nos Estados Unidos, isso tomou o nome de decline (declínio) de que essa coluna já se ocupou mais de uma vez.


( Fontes:  The New Yorker, The New York Times, George Packer )


Supremo x Senado ?

                         

        Há clara discordância no Supremo quanto ao seu poder respectivo, em relação aos outros poderes. Como mostra o editorial de hoje do Estadão, "a decisão da Primeira Turma do STF, por três votos a dois, de afastar Aécio Neves (PSDB-MG) do Senado e de mandar que ele cumpra recolhimento domiciliar noturno é tão absurda, em tantos sentidos, que não resta alternativa ao plenário do Senado senão desconsiderá-la, pelo bem do equilíbrio  entre os Poderes, pelo respeito à Constituição, e para salvar o Supremo desse vexame."
        E acrescenta o editorial do Estado de S. Paulo: "Esse tribunal, cuja atribuição primária é zelar pelo cumprimento das diretrizes constitucionais, afrontou a Carta Magna como poucas vezes se viu nesses tempos já bastantes esquisitos."
         Ainda o editorial de hoje recorda que a "Procuradoria-Geral da República havia pedido em julho, pela segunda vez, a prisão de Aécio e a suspensão de suas funções parlamentares, sob a acusação de corrupção e obstrução de Justiça, com base na delação do empresário Joesley Batista. Na primeira vez, o pedido foi parcialmente aceito pelo Ministro Edson Fachin, relator do caso no Supremo, que afastou o senador de seu mandato, algo que somente o Senado pode fazer, e ordenou que ele deixasse de ter contatos políticos, mas evitou mandar prendê-lo por considerar que não havia flagrante de crime inafiançável, único caso em que um parlamentar no exercício do mandato pode ser preso. A esdrúxula decisão do ministro Fachin foi revista pelo colega Marco Aurélio Mello, que na ocasião lembrou o óbvio: "Cumpre ser fiel aos ditames constitucionais e legais, sob pena de imperar o descontrole institucional, com risco para a própria democracia".
           Como mostra ainda o editorial, a primeira turma do Supremo não só reafirmou a punição a Aécio, "atropelando a Constituição, como alguns de seus integrantes resolveram dar lições de moral ao senador. O mais eloquente foi o ministro Luiz Fux,(...) que disse que o senador deveria ter 'se despedido' do mandato quando foi acusado, mas como "ele não teve esse gesto de grandeza, nós vamos auxiliá-lo a pedir uma licença para sair do Senado Federal." Como assinala o editorial, "o ministro resolveu fazer blague com coisa séria."
               Por sua vez, o ministro Luís Roberto Barroso votou de acordo, segundo ele, com a coerência. Argumentou ele que "seria uma incongruência" manter em prisão domiciliar os supostos cúmplices de Aécio e não punir o próprio senador de forma semelhante, pois "há indícios, bastante suficientes a meu ver, de autoria e materialidade."   Ou seja, como assinala o editorial, o ministro do Supremo parece ignorar que um senador da República (art.53 da Constituição) só pode ser preso com a autorização de seus pares, razão pela qual sua situação é muito diferente da de seus supostos cúmplices.
                 O editorial assinala outrossim a antecipação de juízo condenatório, embora Aécio Neves nem réu seja. Já o voto da Ministra Rosa Weber "também foi nessa linha e acrescentou absurdos, ao dizer que Aécio deveria sofrer restrições de movimentos porque descumpriu  as determinações do ministro Edson Fachin de não ter contatos com políticos, o que equivaleria, sob qualquer aspecto, à cassação de direitos políticos do senador. A arbitrariedade desse voto é evidente: basta lembrar que há um deputado, Celso Jacob, que está preso em regime semiaberto e continua a exercer o mandato na Câmara, com autorização da Justiça. Ou seja, enquanto um condenado pode continuar a fazer política, um senador que nem réu ainda é, não pode."
                     Diante disso, e se Aécio resolver "ignorar as determinações do Supremo, não há como sancioná-lo, pois não há previsão legal sobre o que fazer nesse caso, já que a decisão dos ministros foi uma invencionice jurídica.
                    "Em resumo,o voluntarismo e o ativismo que há tempos acometeram uma parte do Supremo parecem ter atingido o estado da arte. Cabe ao Senado desfazer a lambança."


( Fonte: O Estado de S. Paulo )

O Califa continua vivo?

                               
         O Exército Islâmico divulga  gravação de o que seria alocução de seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi. Com a duração de 46 minutos, teria  duplo objetivo: dar alento às combalidas forças do E.I. e desmentir rumores acerca de sua morte.
         O auto-proclamado califa hoje tem sob suas ordens espaço geográfico bastante reduzido, dada a perda em julho último de Mosul, no Iraque, cidade de um milhão de habitantes.  Raqqa, a capital do grupo na Síria, é cenário de intensos combates, e o Isis ainda mantém controle sobre parte remanescente de terras sírias. 
         Há divergências sobre se al-Baghdadi esteja morto ou não, mas o Secretário de Defesa americano, Jim Mattis, declarou em julho último que acreditava em que ainda estivesse vivo.
          Quanto à Raqqa, o assédio mantido pelas forças apoiadas pelos Estados Unidos se intensifica e, para o Ocidente, os líderes do E.I. não mais lá estariam, tendo buscado refúgio em áreas vizinhas.
           É de presumir-se também que o E.I. tenha perdido o acesso a fontes de petróleo. Com o encolhimento crescente de sua base territorial, a própria capacidade de resistência tende a debilitar-se sempre mais.


( Fonte: The New York Times )

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O novo decreto de Trump e a Venezuela

                     
      Ser incluída nos regimes suspeitos no novo decálogo do Presidente Trump - que, na essência, é a versão revista da tentativa anterior  de por no index os muçulmanos e os países árabes, versão esta que a resistência das cortes americanas muito contribuíu para diluir e conter o respectivo viés xenófobo  - a par de não surpreender ( alguma reação deve haver contra a ditadura de Maduro ),  Caracas não pode aspirar a que os Estados Unidos possam considerá-la como um regime similar às demais democracias en Latino America, quando basta um exame perfunctório para que se tenha ideia de que estamos diante de ditadura, que não respeita os direitos mais comezinhos da população.
        Por isso, que se aplique ao governo venezuelano e seus representantes um tratamento diferenciado é uma reação natural, eis que o regime instalado em Caracas não é democrático, e o governo só persiste no poder pelo reiterado recurso a procedimentos inconstitucionais, seja no desrespeito ao direito de interromper o mandato executivo, seja na convocação inconstitucional de Constituinte reunida na 'marra', e sem qualquer sombra de respeito à universalidade na respectiva consulta ao Povo venezuelano.
         Tampouco se respeita a autonomia dos órgãos judiciais. Assim como com os órgãos policiais - que são instrumentos da ditadura de Maduro - não há sombra de respeito pelos direitos humanos, o que caracteriza o regime ditatorial venezuelano é o inverso da defesa da Justiça na democracia. Os serviços de segurança não passam de instrumentos do poder executivo, é este quem designa os eventuais 'inimigos' ou pessoas a serem trancafiadas nos calabouços e nos cárceres do poder instaurado.
          Por isso, não deve despertar mossa que representantes de um regime corrupto e ditatorial sejam barrados em suas eventuais tentativas de visitar os Estados Unidos.
     Entretanto, os nacionais venezuelanos que comprovem o seu apreço pela democracia e não sejam funcionários ou simpatizantes da ditadura de Maduro, não podem ser vitimizados pelo fato de viverem em um país hoje anti-democrático. De acordo com a sua vocação democrática, os Estados Unidos precisa distinguir entre os seus visitantes, os que têm apreço pela democracia, e aqueles cujo mister é perseguir os partidários da democracia.


( Fonte: Folha de S. Paulo )

O verbo de Palocci

                               
      Antonio Palocci, no dia em que completou um ano na prisão, enviou carta à Senadora Gleisi Hoffmann (PT/PR), hoje presidente nacional da legenda, pela qual oferece sua desfiliação e faz duro relato sobre o "acúmulo de eventos de corrupção" nos governos Lula e Dilma Rousseff.

      Palocci  afirma que viu  Lula se dissociar do "menino retirante" e "sucumbir ao pior da política".  Nesse contexto, relata detalhes sobre o suposto pedido de propina à Odebrecht no Palácio do Alvorada, compara o PT a uma 'seita' submetida à "autoproclamação do 'homem  mais honesto do País' ", sugerindo inclusive que o ex-presidente tente transferir  a responsabilidade por ilegalidades à ex-primeira-dama Marisa Letícia, morta em janeiro último.

       Palocci, já se referindo aos desastrosos governos de Dilma Rousseff, afirma que Dilma destruíu  programas sociais e a economia, acrescentando que o PT precisa fazer acordo de leniência se quiser se reconstruir.
       Em nota, a Senadora Gleisi Hoffmann,  presidente nacional do PT, acusa Palocci de mentir para escapar da condenação de doze anos, dois meses e vinte dias.  


( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Na curva do caminho

                              
    
      A coluna de Vera Magalhães, sob o título, "mau presságio", faz sinalização importante quanto a decisão do TRF4ª Região, que confirma a condenação de José Dirceu  e eleva em dez anos a pena a ele imposta pelo juiz Sérgio Moro.

      No entender da articulista tal sentença seria mau sinal  para o ex-presidente Lula em diversos aspectos.
      O mais relevante deles está em um trecho do voto do relator, desembargador João Pedro Gebran Neto. Reportando-se ao tipo de crime pelo qual o ex-ministro foi condenado, assinala: "Embora nesses casos dificilmente haja provas das vantagens indevidas, adoto a teoria do exame das provas acima de dúvida razoável".

       No entender de Vera Magalhães "trata-se do caminho que deve ser seguido pela corte também para a análise da sentença de Moro contra Lula no caso do tríplex do Guarujá." Se porventura adotada no juízo do TRF4ª Região quanto ao caso do tríplex do Guarujá, isso viria a contrariar a principal alegação da defesa do ex-presidente Lula, "a da falta de provas na condenação do petista".

        Ter-se-á presente a tendência deste tribunal de 2ª instância da Lava-Jato em ampliar 1/3 das penas de primeira instância.



( Fonte: O Estado de S. Paulo )

A boa Lei resiste

                    

      Embora o Congresso seja republicano - o GOP tem maioria nas duas Casas - a despeito da furiosa pressão vinda da Casa Branca, cujo morador atual não suporta a permanência de Lei aprovada no início do mandato do Presidente Barack Obama - a Lei do Tratamento Custeável - e malgrado a oposição que lhe é feita por muitos líderes republicanos, mas não todos, e capitaneada pelo sucessor Donald Trump, a tentativa de substitui-la por outra lei, com grandes lacunas, que lhe retiravam o suporte indispensável às  classes menos favorecidas (no clássico modelo republicano), acabou morrendo na clássica prova da má legislação.
       Por diversos motivos, o líder Mitch McConnell soou a corneta da retirada. O mais importante está no cômputo dos votos. Um a um foram caindo os apoios à nova lei. Como todo fracasso, essa investida contra o detestado (pelo Tea Party e outras franjas reacionárias do Partido Republicano) Obamacare mostrou estar carente daquilo que é indispensável no Congresso - o número bastante de sufrágios que esteja disposto a enfrentar o Flak adversário e transformar o projeto republicano no substitutivo da maioria.
         John McCain fora o primeiro a mostrar que não seria exatamente um passeio o enterro da reforma da saúde aprovada por votos democratas, no primeiro biênio da Administração Obama. Os substitutivos, lançados de afogadilho,  pela desenfreada incitação do presidente Donald Trump, se chocavam com a realidade que punha em risco diversos mandatos de senadores republicanos, por negarem o apoio dado pela presente lei àqueles contribuintes americanos, de baixa ou média renda.
           Por outro lado, existem diversos senadores republicanos que pensam possível fazer a reestruturação dos impostos, sem carecer de votos democratas. Dada a complexidade da matéria, careceria da aprovação de outro projeto de orçamento, de modo a proteger o projeto de um filibuster democrata, o que de novo poria a assistência sanitária no centro das atenções nas próximas eleições de meio-termo. E como há vários senadores republicanos em situação desconfortável no seu reencontro com os eleitores, as possibilidades de aprovação desse tipo de legislação não são das melhores.  



( Fonte: The New York Times )

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Trump ou a desconfiança com o estrangeiro

                    
              Como se sabe, a Administração Trump teve começo marcado por decretos presidenciais com viés xenófobo, notadamente no que tange a países árabes e muçulmanos.
               Dada a circunstância de que a base legal - e mesmo constitucional - desses documentos apresentava muitas falhas e lacunas, não foi difícil que muitos deles fossem derrubados por juízes de primeira instância ou mesmo por tribunais.
                Ainda no primeiro ano, a segunda batelada de decretos visa ao ingresso de estrangeiros nos Estados Unidos, e não mais se restringe a países árabes. De certa maneira, na rede de Trump não mais cairão indiscriminadamente os candidatos a uma visita ou a temporada em terra americana. Mas isso não quer dizer que o Tio Sam mostre uma face risonha para qualquer tipo de estrangeiros. Muitos desses arrostarão um carrancudo não.
                 A começar pelo mês de outubro, a maior parte dos cidadãos procedentes do Irã, Líbia, Síria, Iêmen, Somália, Chad e Coréia do Norte  estão proibidos de ingressarem nos Estados Unidos. No que tange ao Iraque e alguns grupos de pessoas (ligados ao governo Maduro e ao chavismo) da Venezuela também têm o ingresso cerrado às terras de Tio Sam.
                 Precavendo-se em que as restrições não fossem do tipo de abarcar o islamismo de  forma genérica - abrindo-as, portanto, à acusação de preconceito contra o Islã,  a Administração Trump tomou o cuidado necessário para que as medidas não fossem tomadas  como inspiradas com  viés anti-islâmico.
                 Mas por mais cuidado que tomem os funcionários encarregados de armarem as novas barreiras à imigração, já  leitura perfunctória delas transmite a impressão de que o pé atrás contra os países islâmicos de parte do governo Trump é uma realidade.   
                As restrições mais severas impostas pela Administração Trump se aplicam à Coréia do Norte e à Síria. Todos os cidadãos desses dois países terão o visto de entrada denegado.
                   Já a maioria dos cidadãos do Chad, Líbia e Yemen está proibida de entrar nos Estados Unidos, porque esses países não têm capacidade tecnológica  de fornecer a identidade desses viajantes, e em muitos casos essa fraqueza tecnológica abre caminho para que redes terroristas lá se instalem.
                   Por sua vez, se a Somália passou raspando pelas exigências de salvaguarda contra o terrorismo estabelecidas pela autoridade americana, os seus cidadãos estão sujeitos a uma proibição no que tange à emigração, e sofrerão medidas de controle mais acentuado, pela circunstância de que a Somália é um abrigo para terroristas.
                  A par disso, o Irã, dado o resfriamento de relações com o governo Trump, não mostrou maior cooperação, e por isso os seus nacionais sofrerão  proibição mais ampla em termos de viagem, posto que Trump tenha aberto uma exceção concernente a estudantes e à troca de vistos.
                    Já a Venezuela de Nicolás Maduro sofreu a restrição de vistos para funcionários governamentais e suas famílias, o que se insere nas medidas já tomadas pela Administração Trump contra aquelas pessoas ligadas ao presente regime - que já vem sendo objeto de várias medidas tendentes a cortar o intercâmbio comercial e financeiro com a Venezuela.
                    Resta a determinar como se desenvolverão nas alfândegas e nos aeroportos as novas imposições e restrições a viajantes estrangeiros. Mais uma vez, em casos tópicos, o recurso à Justiça e à importância do intercâmbio cultural será acentuada.


( Fonte:  The New York Times )

Colcha de Retalhos E 37

                              

A independência dos Curdos


      Os curdos,essa etnia, que por um capricho da política internacional,  se defronta sem um torrão que possa considerar nacional, votou ontem, segunda-feira 25 de setembro, no território iraquiano que vem ocupando há algum tempo. Apesar das diversas tentativas de dissuadi-los de votar nesse referendo, os curdos não cederam, e maciçamente sufragaram a alternativa da liberdade nacional.
      O Iraque  deles se serviu através dos combatentes peshmerga, para expulsar do território iraquiano os jihadistas do estado islâmico.
       Os curdos são hábeis combatentes e muito tem participado para reforçar diversas lutas no Oriente Médio.  Constituem minorias importantes tanto na Turquia de Erdogan, quanto nessa região do norte do Iraque. Essa última constitui a sua principal base territorial.
       Por primeira vez, dispõe de área territorial que é governada e defendida por essa etnia.

Condenação de Anthony Weiner


       Ex-marido de Huma Abedin, a competente secretária de Hillary Clinton no Departamento de Estado,Anthony  Weiner, de 53 anos, foi condenado  a 21 meses de prisão por enviar mensagens com conteúdo sexual a uma adolescente de quinze anos. Tal ocorreu em 2016, e deu lugar a tentativas de exploração política. O próprio então diretor do FBI, James S. Comey, durante a eleição de 2016 andou vistoriando o referido computador, supostamente a cata de mensagens que dissessem respeito a Hillary. Chegou mesmo a anunciar, na época da votação antecipada, que estava examinando o computador de Weiner,  à cata de algo que incriminasse Hillary.  Nada encontraria de pertinente, mas não há a menor dúvida que terá cumprida a respectiva missão pensando encontrar algo que só Mr James Comey achava fosse possível aí deparar. Foi uma das muitas estranhas mensagens passadas,  seja  ao Congresso, seja aos votantes por antecipação (um costume americano) por esse diligente chefe do F.B.I. Apesar de que tais intervenções por agentes públicos - e notadamente o diretor do Federal Bureau of Investigations - sejam formalmente desaconselhadas pela Secretaria de Justiça (a que está subordinado o FBI) em período eleitoral, pelas claras implicações envolvidas, tal não foi absolutamente levado em conta pelo zeloso Mr Comey. Ele, apesar de republicano, fora indicado para o FBI por Barack Obama, em comovente gesto de bipartidismo (pena é que os  republicanos jamais reciproquem tais gentilezas...)


Chelsea é indesejável no Canadá



         Chelsea Manning - que recentemente operou-se para mudar de sexo - fora perdoada por Barack Obama - no conjunto de perdões, que, por tradição, o presidente americano, ao encerrar suas funções,pode outorgar a personalidades que ele julgue façam jus ao perdão presidencial.
           Pois vejam só, a lei do Canadá a proibiu de ingressar naquele país. Malgrado o indulto presidencial, a lei canadense continua a valer. Segundo documento emitido na fronteira,  ela não pode ser admitida no Canadá  em razão de delitos graves cometidos fora do Canadá, incluindo o de traição. 
           Como se sabe, Chelsea como soldado foi analista dos serviços de inteligência americanos, que está por trás do escândalo de WikiLeaks, que também envolve Julian Assange, atualmente asilado na embaixada do Equador em Londres (lá está desde junho de 2012).      


( Fontes:  The New Yorker; O Estado de S. Paulo)

Os "Jogos" da Guerra Nuclear

                   

     Nos passados exercícios de simulação de enfrentamentos nucleares, não creio se terá imaginado a versão ora apresentada a uma opinião pública mundial tão perplexa, quanto assustada, que é a de  confronto entre a maior superpotência mundial e um país atrasado e subdesenvolvido, submetido à dinástica ditadura, que por uma série de disfunções do sistema internacional de prevenção à nuclearização de estados piratas, logrou acessar tecnologia  a que jamais teria oportunidade de utilizar se o sistema acima mencionado fosse submetido a regras compatíveis com a ameaça que representa para a Humanidade o seu eventual desrespeito.
     É conhecido o lugar-comum que a realidade, com os seus desvãos e minúcias, costuma sobrepujar as fabricações da mais desenfreada imaginação criativa.
      É o que estamos ora assistindo no farsesco confronto entre a Superpotência estadunidense e a hiperditadura da Coréia do Norte - este um país atrasadíssimo, que só subsiste porque a sua existência apraz ao regime comunista chinês, a que interessa dispor de  vassalo subdesenvolvido na própria cercania.
       No entanto, Pyongyang dá muitas indicações de que o seu atual soberano Kim Jong-un - em  regime submetido a uma ditadura híper-oriental, a qual, apesar de declarar-se comunista, é na realidade uma monarquia, em que os soberanos se sucedem - sempre à sombra de Beijing - com a população submetida aos próprios caprichos do líder máximo.
        Se os soberanos anteriores tiveram o bom-senso de não afrontar a ordem mundial, parece que tal não mais agrada ao presente autocrata da Coréia do Norte. Sem dúvida, a sua escolha encontrou as condições ideais para frutificar, eis que o último pleito americano - com as suas idiossincrasias - criou o cenário necessário para que, com as respectivas irresponsabilidades, surgisse a situação ideal para um estúpido confronto entre dois chefes de estado que, normalmente, em um cenário tradicional, ou pelo menos respondendo a condições mínimas de experiência e capacidade previsível de atuação internacional, não estaria ora presente tanto em Washington, quanto em Pyongyang. Nenhum dos antecessores desse jovem que ora é o soberano absoluto da Coréia do Norte - com todos os defeitos inerentes à constituição do respectivo poder - jamais adentrara um curso de ação que de longe se assemelhe às juvenis provocações do Presidente Kim Jong-un.
        Tampouco, é difícil imaginar que fôssemos encontrar na Casa Branca um dirigente político nas condições de Donald J. Trump. Nunca arrogância e ignorância formaram conjunto mais disruptor e consternador do que as características principais desse ultra-demagogo que, por um conjunto infeliz de circunstâncias, se acha hoje sentado na Casa Branca, ou, como diriam os italianos, está aboletado en la stanza dei bottoni   (i.e., na sala dos botões do governo).
        Que esses senhores estejam na situação em que se encontram, infelizmente não há nada a fazer. Aquele, pelos direitos das monarquias, que funcionam por via hereditária; este por um azíago conjunto de circunstâncias, em que participam a raiva de gospodin Putin, a displicência de Barack Obama e as brincadeiras de uma eleição em que até o diretor do F.B.I. resolve interferir, com as suas seguidas e estranhas mensagens ao Congresso Americano. 



( Fontes: The New York Times; What Happened, de Hillary Clinton. )

Sobrevive o Obamacare

                              

        Instigados pelo Presidente Trump que deseja 'afundar' o 'Obamacare', que é a pejorativa alcunha republicana da Lei da Reforma de Saúde Sustentável, que representa a maior realização da Administração Obama - quando os democratas, no início do mandato do Presidente Obama, tinham maioria nas duas câmaras - e que lograra então fazer aprovar a lei do ACA, sem um voto sequer do GOP.

         Esta emenda à Reforma da Saúde introduzida pelos democratas teria resultado desastroso, ao mutilar a lei existente - que funciona a inteiro contento e que é o suporte para a população de menor renda - pois a 'reforma republicana' retiraria dos segmentos com menos recursos a possibilidade de obter tratamento médico acessível.
         Como o referido 'Obamacare' é reforma que passou inclusive pelo 'teste de constitucionalidade' na Suprema Corte (com maioria republicana) - e o seu eventual descarte representaria apenas 'vingança'  de Trump contra tal legislação que tem grande efeito para o acesso às classes de menor renda a  tratamento acessível de saúde, a inanidade da oposição da nova Administração fica exposta, a que se agrega a irresponsabilidade de retirar de uma população carente a alternativa de valer-se de tratamento de saúde acessível. 

          Agora,  com as oposições dos senadores republicanos Susan  Collins (Maine), John McCain (Arizona) e Rand Paul (Kentucky) o substitutivo republicano tornou-se inviável,  e a Administração Trump se verá forçada a 'engolir' mais uma vez a legislação aprovada no primeiro biênio dos dois mandatos de Barack Obama.   


( Fontes:  The New York Times,  internet )

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Pós-eleição de Ângela Merkel

                              

         A confirmação do governo de Ângela Merkel, com a sua vitória nas eleições de ontem, 24 de setembro,  com 32.5 da votação geral, mostra de um lado, as resistências encontradas  (foi o menor total de apoio, se comparado com as três eleições anteriores), e por outro, o inegável carisma da Chanceler.
          Por sua vez, o parceiro na coalizão, o SPD, anunciou por intermédio de seu líder, Martin Schulz , que não seguirá na grande coalizão, pois os 20% da votação recebida estão bem abaixo de suas projeções. A mudança no cenário político germânico não cria maiores dificuldades para a Merkel, que reconstituirá a necessária maioria com os votos da CSU - que é a sucursal bávara da CDU, esta última o partido da Merkel.  Os candidatos a formarem aliança com os cristãos-democratas estão entre os do FDP (FreiDemokratisch-Partei) liberais e os verdes.
            É inegável, no entanto,  que os cerca de 13,5% obtidos pela AfD (Alternativa para a Alemanha) colocam no Bundestag , que é a Assem-bléia Federal, um partido da execrável linha nazista. É um fenômeno que vemos, com os matizes nacionais, aparecer  tanto na França, com Marine Le Pen, na Grécia, com a Aurora Dourada, e, por conseguinte, não parece suscetível de ser localizado.
           A extrema-direita é, decerto, particularmente incômoda - e pelas óbvias conotações, particularmente na RFA - mas ela, em geral, responde a condições de inadaptação a certas situações, como, v.g. , o aumento da presença de correntes étnicas em determinado país, em que parte majoritária da população tende a vê-las como potencial ameaça. A res-posta democrática, como é a da Merkel, será sempre a mais apropriada.
             Tampouco a postura do Presidente Trump é a mais inteligente, ao continuar - como agora se verifica - a tentar criar óbices de imigração a estrangeiros, na linha da ultradireita do húngaro Viktor Orban. A sua primeira investida terminara, como se sabe, com a memorável resposta da testemunha democrata às perguntas de Senador Ted Cruz,  republicano pelo Texas, que teve de bater em apressada retirada, diante da inesperada e brilhante réplica da testemunha, que havia sido sumariamente exonerada pelo Presidente Trump, do seu posto interino na Secretaria de Justiça. O episódio em apreço foi objeto de menção específica pelo blog.


( FonteThe New York Times )

domingo, 24 de setembro de 2017

Eleição alemã (Contd.)

                              
        Com base em pesquisas de saída de votantes - já estão fechadas as seções de votação - os resultados dessa eleição trazem pesada carga de decepção para os principais partidos. Nesse sentido, a principal atingida é  a  CDU de Ângela Merkel  que sai com 32,5% dos votos, muito abaixo de suas projeções anteriores.
        A SPD, de Martin Schulz, bate em 20%, resultado decepcionante. para os sociais democratas. Terá sido em função dessa queda na votação, que Schultz já se manifesta contra um repeteco da "grande coalizão".  Quer apostar em projetar-se como alternativa no futuro para dirigir o gabinete, o que estaria, na prática,  inviabilizado enquanto estiver a reboque de gabinete encabeçado pela CDU e a Chanceler Merkel.
          Por outro lado, o crescimento assustador da Alternativa para a Alemanha, com 15% dos votos - que torna a AfD a terceira força política na Alemanha, já faz a SPD como que entrar na esfera de ação dos neo-nazistas, o que poderia enfraquecer os socialistas ainda mais.
          Há muitas opções para a coalizão com os cristãos-democratas. O gabinete que já é formado pela CDU/SDU, esta última a seção da Baviera que compõe sempre a representação cristã/democrata, irá agora, com a Merkel, partir para as negociações com os partidos menores, para completar a coalizão.
           O FDP - FreiDemokratischPartei - são os liberais que, por vezes, têm dificuldade em atingir o quociente de 5%, o que desta feita foi completado, mas a dificuldade é de princípio. Como o FDP é um parceiro tradicional da CDU, e somente quando não logra atingir o quociente é que a CDU, em geral, parte para a negociação da grande coalizão (CDU-SPD), desta feita tal opção não semelha possível, pela posição do líder socialista contrária à grande coalizão com a CDU.  Surge, portanto, o FDP, com maior possibilidade que os verdes, de formarem  aliança com a CDU.
             No entanto, a novidade inquietante do crescimento dos neo-nazistas, diminui o brilho da vitória de Angela Merkel, no seu quarto mandato. A explosão dos neo-nazistas é sem dúvida decorrência indireta da decisão corajosa da Merkel de abrir as seções de imigração na RFA para mais de um milhão de refugiados da guerra civil na Síria. Esse brutal aumento no número de estrangeiros determinado pela resolução humanitária da Chanceler criou, contudo, condições favoráveis para o crescimento da AfD de extrema-direita, diante das questões e dos choques provocados por esse enorme ingresso de refugiados na RFA, e as consequentes pressões e dificuldades de alojamento e de convivência criadas por esse enorme aumento de estrangeiros na Alemanha. Assinale-se que a Chanceler Merkel foi a única dirigente de país ocidental que adotou  posição aberta e corajosa diante do desafio da guerra civil na Síria, e o grande número de refugiados ocasionado pelo conflito.


( Fontes:  internet, CNN)

Significado da eleição alemã

                    
       Dentre os líderes ocidentais, Ângela Merkel (CDU) constitui quase uma exceção. No quarto mandato, ela será provavelmente reeleita, superando o adversário Martin Schulz, do SPD (social-democrata).
      Tem-se levantado na mídia muita especulação quanto ao possível retorno ao Bundestag (parlamento federal alemão) do AfD (Alternativa para a Alemanha). Para tanto, ele carece de superar a barreira de cinco por cento do total dos votos.[i]  Seria lamentável que um partido de extrema direita, na linha neonazista, consiga voltar ao Parlamento, o que é resultado da insatisfação do eleitorado, não com o governo da Merkel, mas com o número de imigrantes admitidos pela RFA - ao contrário de outros países ocidentais, que fecharam as portas para os desalojados pela guerra civil na Síria.

          É importante ter presente que esse AfD é um sucessor do Partido Nazista, aquele de Adolf Hitler, que fez a Europa e o mundo remergulhar em um novo conflito mundial, além de patrocinar a execrável solução final, vale dizer a perseguição sem quartel aos judeus, que causou o extermínio de mais de cinco milhões de pessoas. Que um partido como esse AfD (Alternativa para a Alemanha) tente voltar ao parlamento federal e - o que é pior - seja pronunciado com chance de lográ-lo, é um momento triste para a democracia alemã. Que 72 anos tenham passado da descoberta pela Humanidade dos execráveis fornos crematórios e campos de concentração nazistas não é tempo suficiente para que essa ideologia criminosa volte às assembléias.



[i] Ao contrário do Congresso brasileiro, que instituiu uma ridícula cláusula de barreira, que possibilitará o ingresso na Câmara de muitos nanicos.

sábado, 23 de setembro de 2017

Correa já quer voltar ao poder

                          

        O ex-presidente Rafael Correa deve estar arrependido de sua decisão de afastar-se do poder e jogar todas as fichas na eleição do sucessor. O seu plano era um período de estudos na Bélgica. Com esforço lograra eleger presidente o próprio vice, Lenin Moreno.
        Não estava nos planos de Correa que, após lograr eleger o seu anterior vice-presidente como sucessor, este se haja afastado das políticas de Correa. Moreno passou, inclusive, a investigar aliados suspeitos de corrupção.
         Correa, diante da autonomia do sucessor,  logo começou a desentender-se com ele.  Moreno diverge do ex-padrinho em questões como economia, combate à corrupção e relações com a imprensa.
        A crise entre Moreno e o antigo chefe, Correa, ameaça fraturar o partido Alianza País, que é de esquerda.  Ao assumir, Moreno prometeu realizar 'cirurgia' contra a corrupção  e estendeu a mão à oposição,  prometendo um governo de união.
        Consoante o sociólogo Simón Pachano, da Flacso, Lenin Moreno tem posição diversa da de Correa no combate à corrupção: "enquanto ele promete investigar as denúncias, Correa as jogava para baixo do tapete."
        A situação política naquele país andino agravou-se com a decisão de Moreno de retirar as funções até então exercidas pelo vice-presidente Jorge Glas. Este é da curriola de Correa, e está envolvida em denúncias de corrupção.  A Justiça deverá determinar em breve se Glas será indiciado.
         Correa promete voltar em breve. Pretende impulsionar uma "Constituinte". Não está claro em que condições, e se acaso tenciona imitar o exemplo de Nicolás Maduro, o que não parece seja o caso, eis que por decisão própria Rafael Correa é no atual momento um mero cidadão.
          Quanto ao partido situacionista, a tendência seria a de dividir-se entre os partidários do ex-presidente e aqueles de Moreno.


( Fonte:  O Estado de S. Paulo  )

O estranho efeito Merkel

                              

        A imprensa parece ter dificuldade com o êxito e a boa administração. Sob certos aspectos, dá até para entender. Uma administradora medíocre, tipo Theresa May, é prato melhor para os jornais do que Angela Merkel, que, em um  mar de almirante, dá a impressão de dirigir-se para o seu quarto período de governo.        Em um mundo de governos medíocres, compreende-se porque a Merkel incomode.  Ela é competente, a população alemã não parece ter problemas em apoiá-la e é por isso que os radicais tentam vaiá-la.

        Vejam a confusão que a May aprontou com o Brexit... Quando li já faz tempo que um dos irmãos Johnson tinha feito dois artigos - publicou apenas um - em que num deles apoiara o separatismo da União Europeia e no outro pregava a união da Álbion com Bruxelas - creio que será difícil encontrar alguém que carregue tanto cinismo - ou tal apartamento da realidade, a ponto de julgar-se capaz de defender dois pontos de vista opostos - como se leitor de boa fé não poderá vislumbrar a parcela de cinismo que tal bi-cefalismo encerra?

          E será por isso que Frau Merkel põe nervosos muitos de seus interlocutores, dada a sua objetividade, a própria experiência e o controle democrático que exibe no próprio país?
          Lembram-se, acaso, da estranha entrevista de Frau Merkel na Casa Branca com o Presidente Trump? Ao invés de seu relacionamento com a May - quem esquecerá as mãozinhas dadas? - Trump sequer quis cumprimentar a Chanceler alemã... O bom governo deve ser anátema para o mercurial Donald Trump. Daí o seu visível desconforto com Frau Angela Merkel...



( Fontes:  CNN; The New York Times )