segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Salvini rouba a cena política ?


                          
       Como se sabe, o atual gabinete italiano é presidido pelo Primeiro Ministro Giuseppe Conte.  Não tendo apoio de base partidária, a sua força relativa tende a ser administrativa. Em um universo de líderes partidários, o seu papel político tende a ser menor.
       Tal não é o caso  de Matteo Salvini. Ele compartilha com Luigi di Maio, ministro do Trabalho, e líder do movimento Cinco Estrelas (esquerdista), a posição de vice-Premier.
        Enquanto Ministro do Interior,  Salvini - líder da ultra-direitista Liga Norte, que foi criada na década de noventa, em que preconizava a secessão da Itália (hoje abandonada). A princípio, ficou na sombra  de Berlusconi e o Forza Italia, até o último março,quando desbancou o parceiro na coligação conservadora.
         O outro parceiro importante no gabinete italiano atual é o Movimento Cinco Estrelas. Até o presente, a despeito de posições contrastantes, os chefes dos dois partidos, Salvini e Di Maio deram, segundo o diretor Molinari  de La Stampa, " a resposta certa à classe média, projetando uma imagem de proteção contra a desigualdade,  a corrupção e os imigrantes".  Ainda no entender de Molinari, "Salvini é mais forte, porque é mais fácil vender uma mensagem de proteção na seara da imigração do que na da desigualdade."
           Há um traço demagógico, e até mesmo com cores xenofóbicas, em Salvini, que faz relembrar posições anteriores da Liga Norte. Sem embargo, para o professor universitário Fulco Lanchester, de Ciência Política, o trunfo do ministro do Interior  é lançar ataques contra alvos claros: uma elite cosmopolita e sua suposta falta de amor pela pátria.
           A cruzada do Vice-Premier inclui declarações em que os associa a estupros, roubos e tráfico de drogas. Além disso, tem ações concretas,  que não tendem a projetar imagem favorável para a Itália: proibição de desembarque de navio de resgate de africanos que ficaram à deriva a caminho da Europa.
          A despeito do caráter un po rozzo de certas posturas de Salvini, Antonio Villafranca, coordenador de pesquisa do Instituto para Estudos de Política Internacional, vê continuidade em relação ao governo anterior, de centro-esquerda,  do respeitado Matteo Renzi.
           "Salvini usa palavras mais duras, mas a natureza dos pedidos que o país faz à União Europeia é a mesma." Assim, "pede-se a introdução de um mecanismo permanente de realocação de refugiados dentro do bloco e se negocia com milícias que controlam a Líbia para estancar o fluxo dos que se lançam ao mar.  Isto já existia."
              Há outros traços, no entanto, do comportamento de Salvini que lembram mais a sua atuação, com alegadas simpatias fascistas, na Liga Norte.
                Há dificuldades na relação com a UE em termos de economia. A proposta de orçamento para 2019 prevê déficit de 2,4% do PIB, que seria necessário, segundo o governo, para financiar obras de infraestrutura e uma renda básica universal, que iria impulsionar a economia.
                Bruxelas discordou. A previsão de gastos em nada contribuía para diminuir a dívida pública (hoje, em 131% do PIB). Pediu por isso nova versão, que voltou com o mesmo prognóstico de déficit.  O clima com Bruxelas não é, portanto, dos melhores.
                Tampouco ajuda que Salvini e Di Maio se aproximem dos fascistóides Viktor Orban (Hungria) e do polonês Andrzej Duda...

( Fonte: Folha de S. Paulo )

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