sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Trump ataca os juízes

          
          Segundo tudo indica, a incontinência verbal de Donald J. Trump está prejudicando bastante a posição presidencial, evidenciada por seus decretos determinando o banimento de sete nacionalidades árabo-islâmicas, assim como os cancelamentos dos respectivos vistos de residência.
          Exasperado pela resistência da magistratura contra os seus decretos, que a partir dos juízes de New York e de Seattle começaram a derrubar os cruéis mandados contra inúmeros imigrantes de procedência de países islâmicos, muitos deles vindos aos Estados Unidos para continuar seus estudos, o presidente vem recorrendo a comentários cada vez mais agressivos contra os magistrados.
          Pensando que a iniciativa presidencial contra as sete nacionalidades islâmicas seria aceita pelos juízes (e as cortes superiores) com a deferência que Trump crê lhe seja devida, o novel Presidente experimenta uma resistência a que decerto jamais pensara surgisse pela sua augusta frente.
          Dada a irritação que sente, como alguém todo-poderoso que por isso crê lhe seja devida não só atenção e deferência, mas também - e tal se semelha quase improvável, as cortes judiciais ora cuidam de ministrar-lhe essa lição do respeito devido à toga - a obsequiosa concordância que o presidente imaginara viesse a moldar as respostas afirmativas da magistratura às suas ásperas ordens de expulsão e banimento de alienígenas procedentes dos sete países islâmicos com que a sua família não tem maiores ligações econômico-financeiras.
           Se a posição jurídica dos ukases presidenciais já semelhava deveras enfraquecida pela magnífica aliança da intelectualidade universitária e da magistratura, muitos desses até então ignotos, levantando o braço togado e escrevendo novas páginas da longa história da defesa da liberdade e do direito de ir e vir com a coragem e a segurança de magistrados, que parecem saídos de páginas escritas pelo maior representante do iluminismo penal, o milanês Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria[1].
              Mas uma vez a árvore frondosa da democracia americana nos mostra como os seus ramos podem por vezes entrelaçar-se, por mais inconspícuos que tenham sido até o presente. Coube no passado fazer frente à arrogância do poder real, hoje sucedido pelo presidencial. Sem embargo, a árvore da justiça cresce com imponência na democracia. Ao ver por toda a parte juízes de cortes singulares, ou de tribunais superiores, escrever uma vez mais nas tábuas da lei os direitos do cidadão e do estrangeiro, não posso evitar o cotejo com uma cena em Kirov em que adversário político, tribuno corajoso, Aleksei A. Navalny teve de ouvir, através da voz quase inaudível do magistrado russo a sentença de prisão suspensiva de cinco anos, que lhe fora decerto ditada pelo todo-poderoso Vladimir V. Putin.
               Como se vê, grande, na verdade abismal é a diferença entre a autocracia e a democracia. Pelo esforço próprio, o povo americano tem juízes com voz firme, que se curvam diante do poder das Leis, mas não perante aquele do Soberano.
               Dentro desse contexto, a notícia dada pelo New York Times acerca das observações em privado do Juiz Neil M. Gorsuch - que acaba de ser designado pelo Presidente Trump  para a Suprema Corte (o Senado deve ratificar a escolha presidencial, e lá isso não é mera formalidade). Gorsuch em particular manifestou consternação nesta quarta-feira acerca dos ataques de Mr Trump crescentemente agressivos contra o Judiciário, a ponto de considerar tais críticas de juízes independentes como "desmoralizantes" e  "desestimulantes".   
                 A notícia transmitida pelo New York Times acrescenta que os comentários foram feitos em visita de cortesia ao Senador Richard Blumenthal, democrata de Connecticut, dentro do círculo de contactos habitualmente feito no quadro da avaliação pelo Senado, ao ensejo da próxima votação acerca da confirmação ou não da proposta do Governo. 

( Fonte: The New York Times )



[1] autor da obra "Dos Delitos e das Penas", que trouxe a humanidade para o Direito Penal. Nasceu e morreu em Milão, no século XVIII (1738-1794)

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