domingo, 26 de fevereiro de 2017

Quadros do Carnaval

                              

         De uns anos para cá,  minha visão do carnaval mudou. Na verdade, passam  os anos e  teu quadro tem que modificar-se.
         É difícil lembrar do meu primeiro carnaval. Foi,talvez, no Rio Grande. Carnaval de cidade pequena.  Muita gente na rua. Os carros passavam no corso, muitos foliões nos estribos - naquele tempo os automóveis tinham estribos, até largos, de onde moças e moços jogavam confete e serpentina.
          Mais tarde, estou em Porto Alegre. Fomos para onde? Talvez a Rua da Praia. Os cordões passavam e os blocos também.
          Cuidado, meu filho, com o lança-perfume. Tem gente ruim que mira nos olhos.
           Depois, a primeira festinha. Puseram-te uma fantasia: tirolês?
           Então,vem um ano em que vejo de longe o carnaval. Minha mãe está de luto; meu pai partiu.
            Nos anos seguintes, no Rio Grande, as brincadeiras voltam. Serpentina, confete lança-perfume.  Na cidade pequena, passam os corsos,  jogam confete  e tens de escapar do lança-perfume.
            Depois da viagem ao Rio, as férias - e o carnaval - são para mim na Paulicéia. O tio-padrinho te leva à avenida Paulista, mas gostas mais das festinhas dos clubes. Correria nos cordões, confetes, a brincadeira do lança-perfume.
             No ano seguinte, no aperto das mesinhas, e a corrida nos cordões, revês a namoradinha do ano passado, o prefeito, os óculos de aros pretos, sentado na mesinha, mas não vejo a filha. Alguém lhe chega mais perto, cochicha algo ao ouvido, e ele responde com o sorriso cansado do político.
              Os anos vão passando. Me lembro da chegada no Rio, ali na rua do Passeio, gente bastante mas sem atropelo. Ouço Chiquita bacana lá da Martinica, se veste com casca de banana nanica... Começavam os tempos em que a marchinha do ano estourava novinha...
             Os blocos passam. Criança ainda, vejo os outros se divertirem.
              É muito raro que me fantasiem.  Embora quisesse, não peço, porque sinto minha mãe com pouco dinheiro.
              Mais adiante, seja em São Paulo, seja no Rio, participo nos clubes nas festinhas da tarde. Às vezes, uma que outra namoradinha, que passa fugaz, na animação dos blocos e dos cordões.
              Vêm então os bailes da juventude, sempre no Rio. O transporte é o bonde. A máscara e o confete substituem a fantasia, que é inatingível.
               Os carnavais passam, uma que outra conquista. Vamos ao hotel Central (hoje sepultado debaixo de edifício-monstro que ocupa um quarteirão).  Me lembro de assistir, do terraço do hotel, as escolas passarem  na avenida Rio Branco.  Ali, reluzentes, as moças e as baianas  quase ao alcance da tua mão...
                Naquele tempo também havia o desfile dos carros alegóricos - Fenianos, Tenentes do Diabo...  O espetáculo não tinha a riqueza de hoje,  mas estava mais à mão...
                 Como os rios e as ruas em que passavam, as escolas de samba foram mudando.
                  O meu próximo encontro com o Carnaval foi numa rua de Paris.  Quem estava comigo me disse - Imagina, Mauro, o carnaval está fervendo, e nós aqui...
                   Olhei pra ela e ri.  Achei graça porque era verdade. Em Lutécia, vida normal, azáfama diária... Ao invés, no Rio, aquele fuzuê. Aí, eu que não era muito carnavalesco, senti saudade.
                    Me lembro de um estágio no Brasil - diplomata, falava como os meus companheiros. Então o desfile passara para a Presidente Vargas. Estávamos em Petrópolis e descemos para o Rio, pra ver de uma sala de escritório na Presidente Vargas o espetáculo.
                     Não gostamos do que vimos. Houve confusão com a assistência que ficava no nível da rua. Tempos cinzentos, os meganhas distribuíam cacetadas a rodo. A festa fica diferente depois da violência.
                     Não tardou muito, voltamos no mesmo fusquinha para Petrópolis.  Carnaval não combina com porrada.
                     O diplomata pode ser um viajante no tempo. De Paris fomos para Quito.  Da Cidade Luz para a luz das estrelas.
                     São Francisco de Quito era ainda mais bucólica naquele tempo. Estávamos na Seis de Diciembre,  logradouro importante da cidade colonial, e vaquinhas pastavam a erva dos campos diante do muro de nossa casa.
                      Lá, tínhamos um pastor alemão puríssimo, que latia forte se protegido pelas grades, mas que me aprontava senhores vexames com a sua covardia diante de atrevidos totós...
                       Em Quito, a permanência foi curta, mas deu para atravessar outro carnaval, que era uma espécie de entrudo adaptado. Feito na base das bexigas d'água, nos desaconselhavam rodar pela cidade. Nada a ver com as ruas de paralelepípedo, mas tudo a ver com as bexigas e os baldes d'água que deixam encharcados o público e até mesmo os motoristas.
                       Ao ver aquilo, pensava nas brincadeiras do entrudo colonial. Em Quito, não adiantava refugiar-te no carro, para escapar  desses banhos involuntários.  Brincalhões, paravam o carro, e punham jornais molhados nas vidraças do veículo.  Como não se vê nada,  quem dirige tem que sair, para descolar o papel e, assim, tomar seu banho d'água fria, por vez mal-cheirosa... 
                         Mas a ciranda do tempo não pára. Para mim, longe do tríduo momesco carioca,  se encontram espécimes estranhos que a gente do lugar  pode até chamar de carnaval...
                          Dizem, por exemplo, que o carnaval nasceu em Veneza. Mas nada a ver com a nossa festança. Nas ruelas daquela cidade, estivemos por acaso durante um carnevale.  Lá, o que faz o carnaval é o folião solitário, vestido às vezes de pierrô,  que passeia sozinho, o rosto coberto de pó d'arroz, a postura triste nos olhos maquiados de negro.
                           Como uma sombra ele passa por ti, não diz palavra, e a mim parecia a ambulante tristeza dos olhos, jamais se detendo, como alguém que tem algo a dizer-te, mas já o esqueceu faz muito.
                           Outra particularidade do carnaval - que se vê na Itália, mas também em outros cantos da Europa - é a dos adultos que vestem as crianças  com trajes de festa, rodados, e saem com elas pela mão, a pateticamente passearem pelas ruelas e becos das vetustas aldeias.
                            Às vezes eles andam assim, como se fossem para uma festa a rigor de que esqueceram o endereço.  É  um  hábito sobretudo da gente do povo.  Vedi i nostri bambini como sono carini...
                             É desfile que para nós pode parecer um tanto patético,  mas é decerto resto antigo de costume entranhado, em que as mães se empenham em bem vestir para uma imaginária festa os seus risonhos e rechonchudos rebentos.    
                             Sempre que ouço dizer que o carnaval é festa pagã - e há gente, coitada, que pensa assim - eu penso que as pessoas ouviram mal,  e o repete pior ainda.
                             Para o tempo da quaresma - seja ela real ou metafísica -careces de muitas razões de alegria para atravessar um tempo de tristeza.  Em toda cultura há o yin e o yang, o avanço e o recuo, e tudo isso é vida. O carnaval - mesmo visto da minha longínqua janela da senectude - é a alegria, o excesso, o ímpeto e tudo o mais que com vida e eros tem a ver. Não estranhes, portanto, que a violência e o grito nele estejam presentes, se bem que, por vezes, disfarçados na dança, no canto e em outras demonstrações humanas de afeto.
                              Aqui, bem do alto, a visão mais se parece com a de um helicóptero, passando rápida, perdida na pressa a conexão com a cálida realidade do humano contato, e tudo se vê de passagem, em caótica mistura de muito grito e pouco sentido, pois tudo se vê à distância, até que te afastes, o sinuoso silêncio se vá insinuando, e as imagens e as cores vivas mal se distingam, enquanto a noite vai caindo sédula, súbita e serpejante. De longe, os rostos desaparecem, enquanto a noite se despenca com as suas promessas.  E até a maldita quarta-feira,  o carnaval se reinventa, tantos nos lúridos encontros, quanto nas descobertas das ilusões renovadas, que ali estão na esquina da vida, à disposição dos belos tipos faceiros e das moçoilas que luzem na formosura dos sorrisos que desvanecem tanto nas imaginárias promessas, quanto nas súbitas decepções nascidas das sombras.

                             Bom carnaval a todos!    



( Fontes: A.Toynbee,  Montaigne ) 

Um comentário:

Mauro disse...

Gostei muito, Pai. Belo texto.