terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Papa Francisco e Donald Trump

                              

        Não podia demorar muito que se aventasse a possibilidade de choques entre o Pontífice e o novel presidente Trump. E como o novo líder americano não é avesso a conflitos, tampouco a grande imprensa tardaria em especular acerca dessa eventualidade.
        A esse propósito, é oportuno que se recorde a crítica feita pelo Santo Padre ao então pré-candidato presidencial no partido Republicano. Em fevereiro de 2016, o Papa regressava de visita feita ao México. Indagado acerca das ideias do candidato quanto à imigração e sobre a intenção de forçar o México a pagar pela construção de um muro ao longo da fronteira, Sua Santidade respondeu:
         "Alguém  que só pensa em construir muros, aonde quer que estejam, e não em levantar pontes, não é Cristão."
          Igualmente dada a postura de Papa Francisco, não pode ser de seu agrado a dureza das promessas de campanha do então candidato em deportar mais imigrantes.
          O guru do presidente Trump, como se sabe, é Steve Bannon, cuja posição política, é vizinha à extrema direita. Não admira, portanto, que, enquanto católico, se relacione mais com os da linha ultraconservadora na Igreja. Se com Papa João Paulo II essa preferência lhe asseguraria acesso a prelados importantes na Igreja, hoje em dia, florescendo a linha liberal na Igreja de Cristo, as suas possibilidades de contato encolheram bastante.
          Com efeito, é grande a popularidade de Papa Francisco, e o seu pontificado retém muitas similitudes com o de Papa Giovanni (João XXIII), que no Concílio  que para muitos então o teria escolhido como 'Papa de transição'  (depois do longo reinado de Papa Pacelli - Pio XII), e que para surpresa de muitos de seus eleitores ao ser perguntado que nome empregaria disse Johanen (João), nome que não era usado por Sumo Pontífice desde 1334! Assinale-se aí a primeira mensagem de Papa Giovanni:  como o apóstolo João, ele se voltaria para a evangelização e a difusão da fé cristã.  
           Nesse contexto, é importante acentuar as muitas semelhanças existentes entre o Papa do Concílio (João XXIII), e o atual Pontífice, que desde cedo - e nisso o ajudou a simplicidade e a convivência com a pobreza da ordem franciscana - se aproximou dos pobres e dos presos.
          Não surpreende, portanto, que Bannon venha recebendo do 46º presidente encargos que de longe superam o usual, como, v.g., ser membro do Conselho de Segurança Nacional.
         Por enquanto, é muito cedo para opinar sobre as possibilidades de que Bannon, nas funções civis (e de segurança) que lhe foram atribuídas pelo Presidente Trump, logre exercer papel influente e não o que ocorre amiúde, quando íntimos presidenciais são catapultados para posições na alta hierarquia política e de segurança, lá ficando encapsulados, sem exercer qualquer papel de monta em funções que estão em esferas para as quais a vida (seja profissional ou laica) não os preparou.
        Nessa faixa extremista a que o artigo do New York Times se reporta, em geral estão escanteados da Igreja de Francisco e, por conseguinte, constituem tipos um tanto patéticos que podem até papaguear fins apocalípticos  para o pontificado atual. No entanto, basta assistir a uma das audiências de Francisco para que se tenha ideia de sua penetração e da grande popularidade, comparável a de seu antecessor Papa Giovanni, com que o distingue o mundo católico.
          Esses ultraconservadores dispunham de ouvidos mais atentos e abertos nas cortes de Papa Wojtyla, que tanto perseguiu os teólogos da Teologia da Libertação (Karl Rahner, Hans Kung e E.Schillebeeckx, entre outros) Tampouco é de admirar que Bannon mantenha boas relações com o arquiconservador Cardeal Raymond Burke, que é adversário declarado de Papa Francisco, e que foi por ele afastado da posição de realce na Cúria que então ocupava...
           Não foi por acaso que o grande teólogo Karl Rahner S.J. aludiu ao Inverno na Igreja, que muitos entenderam como alusão ao pontificado do Papa polonês, com muita movimentação, bastante realce dado a figuras conservadoras, algumas até polêmicas, e que ao cabo iriam desaparecer do visor  após a partida de Papa Wojtyla.
            Ao final, em retoques de grande oportunidade, o artigo alude ao cardeal João Braz de Aviz, que é prelado próximo do Pontífice.  Assim, perguntado sobre a influência da ascensão de Donald Trump sobre os aliados do prócer presidencial Steve Bannon, que seriam influenciados a intensificar a respectiva oposição conservadora e a forçar (sic) o Papa a seguir linha mais ortodoxa, o cardeal deu de ombros.
             A tal propósito, o Cardeal de Aviz disse: "A doutrina está segura" e acrescentou que a missão da Igreja se destina mais a salvaguardar os pobres. É também - como recordou aos seus colegas de linha tradicionalista - servir São Pedro, cuja autoridade é passada através da sucessão dos papas. "E hoje, Francisco é Pedro."  


Fontes:  The New York Times; Annuario Pontificio; Karl Rahner S.J, Saggi sulla Chiesa; Hans Kung, The Church).

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