sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aproxima-se o fim do Exército Islâmico?

                              
      Depois dos enormes aumentos territoriais conseguidos militarmente pelo Exército Islâmico, a partir de 2014, o E.I. tem ultimamente  sofrido pesadas perdas. Para que se tenha ideia do tamanho da queda, neste ano de  2014, o grupo controlava ativos de US$ 2 trilhões e tinha renda anual de US$ 2,9 bilhões. Parte desse dinheiro vinha de impostos sobre a população de seus territórios. Tais tributos incidiam sobre transportes, merces e salá-rios. Exemplos disso eram a cobrança de US$ 800 por caminhão que en-trasse no Iraque, vindo da Jordânia e da Síria, uma taxa de 5% coletada para a seguridade social e salário,   e US$ 200 cobrados de motoristas no norte iraquiano.
      A par disso, para permitir o saque a sítios arqueológicos, os terroristas levavam 50% em Raqqa e 20% em Alepo.  Para que se tenha ideia, da dispersão da memória arqueológica da região, só o contrabando de artefatos históricos de áreas controladas pelo grupo na Síria rendeu US$ cem milhões nos últimos dois anos.  Esse total terá sido muito maior nos anos anteriores, quando o domínio do E.I. sobre o território dessa área era muito maior.
       Em consequência da reação estadunidense e do apoio de outros países na área, milícias apoiadas pelos Estados Unidos no Iraque e na Síria lograram ontem duas relevantes vitórias contra o E.I., nas cidades de Mossul e Raqqa. Nesse mesmo período, o Exército Islâmico já perdeu 60% do seu território e 80% de sua receita, nos últimos dois anos.
        Recordam-se da foto no balcão da mesquita em que o líder do E.I., Abu Bakr al-Baghdaadi proclamou seu fugaz "califado", em julho de 2014? Pois soldados iraquianos retomaram a mesquita Al-Nuri, de onde o líder do Exército Islâmico proclamara seu "califado", em julho de 2014.
        Por outro lado, se a capital religiosa  do EI foi reconquistada no Iraque a sua capital administrativa Raqqa, na Síria, está atualmente cercada por milícias curdas apoiadas pelos Estados Unidos.
         O desmoronamento do E.I. se deve notadamente a perdas financeiras e territoriais.  Dessarte, entre o segundo trimestre de 2015 e o segundo tri-mestre de 2017, a receita obtida pelo Estado Islâmico com tributos arrecadados em locais sob seu domínio e com o contrabando do petróleo e antiguidades caíram em 80% - de US$ 81 milhões para US$ 16 milhões. Só a renda mensal da venda de petróleo do EI teve um corte de 88%. Por sua vez, os ganhos com impostos e contrabando de antiguidades recuaram 79%
           Como é óbvio, são as "perdas territoriais o princípal fator por trás do colapso financeiro do E.I.".  A assertiva é de Ludovico Carlino, analista da IHS Markit. Nessa linha, "perder o controle de Mossul, uma cidade populosa, e de áreas petrolíferas em Raqqa e Homs(na Síria) teve impacto crucial nisso."
            Foi essencial para a preponderância e, por fim, a eventual derrota do E.I. o apoio dado pelo Ocidente, notadamente os Estados Unidos, através de intervenções aéreas e de comandos militares. Dentre as forças locais, os aguerridos curdos tem dado boa parte da infantaria para levar a cabo desmantelamento das forças do E.I.
             Sob o viés da arqueologia, a preponderância do E.I. terá sido ruinosa para área tão rica em tesouros e construções arqueológicas. Infelizmente, não foi das menores a incidência criminosa do E.I. sob o patrimônio da área, com a consequente perda de inúmeros tesouros de valor inestimável.  Também o centro de Palmira terá sido muito afetado tanto pelo vandalismo do E.I., quanto pelo saqueamento irresponsável de tesouros da Humanidade.Infelizmente, inexiste, em termos práticos, na UNESCO nada que se possa comparar ao mecanismo do tombamento.  É lógico que os vândalos do E.I. e os seus mentores, muito ávidos para o ganho, não se deteriam diante de disposições desse gênero. Contudo, um levantamento topográfico e fotográfico realizado de forma abrangente e conscienciosa tenderia a contribuir para u'a maior preservação desses tesouros da Humanidade. Todos nós temos presente a boçal destruição dos monumentais Grandes Budas do Afeganistão.
              O mal produzido pelo E.I., ainda que vestido de um caráter de extrema intolerância religiosa, na verdade se devia sobretudo à cínica postura mercantilista. A ganância dos filisteus e seu consequente desapreço pela arte nas suas diversas formas não é uma atitude que seja unicamente própria desses grupos dominados pelo fanatismo e a referida intolerância..



( Fonte:  O  Estado de S. Paulo )

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