quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake

                                      
         Este filme de Ken Loach ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes de 2016. Apesar da qualidade da película, ainda assim foi surpresa a conquista do prêmio máximo do Festival pelo Diretor britânico, de 79 anos (nascido em 1936, completou oitenta anos pouco depois).
         
        O roteiro é a um tempo simples e complexo, eis que trata do delicado linchamento aplicado pelos serviços estatais de seguro de saúde no carpinteiro recentemente infartado. Ele está em welfare (licença de saúde), e aspira poder voltar logo a ter um emprego de verdade (e assim tornar a ganhar de forma condizente).
          
          É um atendimento de cartas marcadas. De forma lacônica, supostos especialistas recebem  seus pedidos, tão insistentes quanto crescentes, a que respondem de forma burocrática, sem qualquer mostra de ânimo ou mesmo emoção. Toda a tentativa do operário de apelar para a via do bom senso - não se menciona sequer o toque de justiça - será sempre indiretamente rechaçada através da leitura de anódinos, pasteurizados até, boletins do invisível serviço médico.
         
        Ao lerem os sumários boletins  que sempre  o mandam voltar para ulteriores exames, a rotina caminha para o  exasperante, na medida em que a sua repetição lhe vai tirando aos poucos a ilusão de que algum dia poderá retornar ao ofício no qual sempre se assinalou pela experiência, destreza e capacidade. O operário qualificado não desiste, apesar de ir gradualmente percebendo que é impossível convencer aqueles autômatos da possibilidade de uma verdadeira recuperação. As próprias tentativas do mestre-carpinteiro de asseverar que está bem são denegadas pelos atendentes que, em resposta às suas perguntas, apõem sempre o adjetivo médico às respectivas funções. Assim, eles e elas declinam a própria condição  supostamente humilde de assistente medicinal ao reafirmar a determinação superior de que deve ainda esperar até que se recupere do infarto que sofrera durante o próprio trabalho.
        
         Malgrado a sua tenacidade, a ânsia de tornar ao trabalho é sistematicamente truncada, pela certeza que vem dos pronunciamentos lacônicos dos empregados do welfare que jamais lhe abrem a porta de provável, e, por conseguinte, desejada recuperação. Como estaca que lhe é fincada no peito, a inevitabilidade da sua dispensa e a negra visão de um futuro com pensão insuficiente para manter-se - logo a ele, Daniel Blake, que se sente ainda válido, sem embargo de todos os baldes frios dos pseudodiagnósticos que lhe são lançados pelos assistentes que se ornam do adjetivo médico, embora pareçam para o operário infartado apenas peças da máquina infernal que jamais lhe oferece qualquer perspectiva tangível de recuperação.
           
           Para completar a lúrida travessia do mestre-operário, o roteiro do filme de Loach ajunta um cast de perdedores, dos quais o personagem mais marcante, apesar de seu destino previsível, é o de Hayley Squires, que como Katie encarna a mãe-solteira de dois filhos de que busca desesperadamente prover a manutenção e a escolaridade. Atraente, ainda jovem, do modelo buxom[1], ela acaba caindo nas malhas da prostituição, depois de n tentativas de lograr posições em empregos regulares, que  por um motivo ou outro, lhe são denegadas.
         
          Esse episódio é traçado com muita discrição por Ken Loach, consciente dos perigos desse sentimentalismo dito barato diante das desventuras de personagem clássico dos dramas burgueses.
             
           Já próximo do fim, o carpinteiro parte para o desespero e busca tornar-se o público ícone do próprio calvário, agora agravado pelo ritual corte, causado por motivo fútil, que lhe faz perder  toda a esperança, não de adentrar o paraíso do reemprego, mas sim ao invés o condena às tribulações de limbo tão cruel quanto definitivo.
           
            Pelo cuidado na apresentação, pelos traços austeros e por suas cores propositalmente contidas, Ken Loach bosqueja o retrato impiedoso, menos do personagem central, do que do destino tão anódino, quanto implacável que lhe é escrito com os garranchos do capitalismo de estado, que condena Daniel Blake sem mesmo sequer dignar-se enunciar-lhe a sentença.


( Fontes: I Daniel Blake, Dante Alighieri, Karl Marx )   



[1] bonita e com contornos atraentes.

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