quinta-feira, 26 de julho de 2018

O Apelo dos Campos Santos



                                   

          A situação da segurança em Manágua se deteriora bastante. Com cem dias de protestos e violência política, o cotidiano do terror toma conta das ruas.
           Há dois toques de recolher: quando principia a cair a noite,  passa a existir um informal. O fato de estar na rua, além de representar perigo para o transeunte,  cria situação nova, em que todos os que circulam em logradouros públicos se tornam suspeitos.
           É a hora da geral suspeição. Basta estar na rua, não importa causa ou motivo, para que o transeunte seja questionado e de forma intrusiva, como se a sua própria situação já o incriminasse.
           Uma atmosfera kafkiana prevalece por toda a parte.  Para aumentar o medo,  em termos de que o poder paralelo da suposta segurança passe a dominá-lo, com as revistas abusivas, além da ritual retirada dos celulares, em verdade arrancados das pessoas - seria como espécie de anúncio de o que surge como a manifestação de outra ordem, que nada tem a ver com o cotidiano dos centros citadinos. Será a orgia do terceiro-mundismo?
             Compõem a atmosfera de um poder mais alto, em que os cidadãos viram, na prática, objetos de suspeição e, por conseguinte, passam à virtual dependência do poder policiesco. Aqui, igualmente comparecem  as cores do subdesenvolvimento da ínsita violência.  Assim, caravanas de dez  picapes sem placa cruzam em alta velocidade as ruas de Manágua. Parecem ter pressa na sua peculiar transgressão em difundir o terror vazio e, ao mesmo tempo, ameaçador: levam policiais (com rostos cobertos, mas uniformizados ) e paramilitares, com fuzis AK-47,  metralhadoras e granadas.    
              Que as ruas fiquem ermas, não há de surpreender.

           A estúpida morte  da brasileira  Raynéia Gabrielle Lima faz parte desse sádico ritual do horror nessa lúrida atmosfera.  Em tal ambiente, em que transeuntes e carros não conhecidos nos arredores são alvo - e aqui não se trata de gentil metáfora - da paranóia profissional dos seguranças de plantão pode, se não explicar,  pelo menos jogar alguma luz num lugar em que toda a gente de fora torna-se suspeita, e, por conseguinte, alvo de reações em que a realidade vira a apropriada  imagem distorcida para espicaçar os piores instintos nos indivíduos a que a "segurança" é confiada. Pois será essa  gente preparada para tudo, tangida por tosco aprendizado, que mais parece a oportunidade - por estranha ironia - de servir-se do poder que lhe vem da sua situação e da arma nas mãos, para apagar com a esponja daquela pistola, as pequenas humilhações a que se sentira imposto por um cotidiano brutal e miserável.
              Sobre quem recai a responsabilidade dos crimes cometidos nesse rodopio sem sentido, enquanto as caminhonetes, com a sua carga de celerados, rodam as ruas ao longo das frestas que, dessas janelas, espiam temerosas aquela súbita, antecipada invasão? No frenesi da pressa que não tem sentido, senão no medo que inflige aos pedestres  de ter seu  cotidiano nas mãos, esse tenebroso cortejo se inebria no rudimentarismo selvagem  que a velha pistola traz, que um voyeur intelectual definiria como  poderes  taumatúrgicos.

              Na Nicarágua, um velho ditador resiste à ideia de abandonar o poder. Para infelicidade de muitos,  o esquemão sandinista está ainda implantado, e tem o apoio de grupo decerto movido por ideias ultrapassadas, e cuja chefia se recusa a reconhecer que a grande maioria da sociedade nicaraguense o repudia.  Por isso, contra os estudantes, a Igreja e outros segmentos que já lhe condenam a violência enquanto sistema, o ditador  Daniel Ortega e sua vice-presidente Rosario Murillo se encarniçam.
               A pobre Raynéia, que já estava próxima de completar os estudos médicos, cai vítima de tiroteio que a ditadura sequer admite possa vir de seu exército de capangas, seguranças e soldados.

               Muita gente está morrendo na Nicarágua. Uma violência fora do tempo pensa poder ir em frente, movida por ideologia que em outros cantos já foi consignada ao silêncio de tantos cenotáfios  que abarrotam  os seus brancos, alvos campos, que só prometem da morte o silêncio.    


( Fontes: Carlos Drummond de Andrade, despachos da Nicarágua).

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