quarta-feira, 25 de julho de 2018

Incêndios do Verão


                              
         O verão helênico é comumente associado a paradisíacas ilhas espalhadas no mar jônico, em especial naquelas maiores, mas também ao sul, nas florestas de Ática e  Peloponeso.
           Mas há um detalhe nesse período estival, que costuma irromper levando destruição e morte aos esgarçados bosques nas montanhas e junto das pedreiras de travertino, de que tanto se serviram para gravar textos que se sobrepunham ao tempo ou à fragilidade do papiro.
           Por isso os turistas na Hellas, sejam os que se servem de carros alugados, sejam os caminhantes que se orientam pelos textos de Pausanias, buscam conviver com as montanhas que ainda ostentam templos das  épocas arcaica e pré-clássica, como aqueles do Peloponeso, alguns nas faldas  de montes sagrados. Ali Eolos sopra com raiva e força, a ponto de que cercaram o antigo templo com patéticas cortinas de lona, que lá estão para proteger as frágeis estruturas da antiguidade clássica e mesmo pré-classica dos ventos inconstantes.
             Lá os piores inimigos costumam ser guimbas de cigarro tolamente lançadas ao capricho dos ventos.  São florestas ralas e, por vezes, desgrenhadas pelas anônimas, irresponsáveis intempéries dos milênios.
              Diante das alvas fachadas dos prédios nas avenidas de Atenas, se o olhar passasse pelo Liceu até enfurnar-se nas desgrenhadas montanhas aonde se refugiam os galhos escassos de antigas, despojadas florestas, poderá por vezes surpreender às vistas indiferentes os caprichosos rolos de fumaça que se espreguiçam e alçam das profun-dezas da rocha travertina para espalharem na longínqua vizinhança estranhos contornos que,  como maldito corredor de esquecidas maratonas, se espoja no chão duro, gretado e pedregoso, e nos restos da piromania do último verão.
                 À distância, mas com o aparente sádico cuidado de acenar com o maldito próprio poder de arrastar-se por pedras tão àsperas quão pontiagudas, e pelas espalhadas cinzas,  o fogo, essa divindade indolente, que ora se arrasta pelo chão, ora se lança aos pinheiros e àquela casinhola que escapou de vulcano, para anunciar mais um espetáculo de fogo e luzes, que os bombeiros exaustos intentem circunscrever, que frágeis aviões teco-teco e cessnas lançam patéticos, mas sinceros bolsões de água que semelham evaporar-se ao misturar-se às chamas que irrompem aqui e ali, lá e acolá, na hedionda brincadeira estival das piromanias dos deuses cruéis, cuja visita será sempre inesperada por mais que se repita nas pedras, nas ameaças e nos perversos acenos de uma luta maldita, que, como sacrifício a divindade infernal, jamais acena a extinguir-se.

( Fontes: Atenas, Suddenly last summer.)

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