segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Alemanha e o problema Trump

                      

       Angela Merkel, a Chanceler alemã, e a quem o Presidente Donald Trump se recusara, dentro de seu estilo sorrateiro, de, na Casa Branca cumprimentar com aperto de mão, a líder da reunificada Alemanha, ao regressar do encontro dos oito - e tendo presente a recentíssima reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), veio a público para afirmar a seus conacionais que "a Europa não mais pode confiar em outros". Depois da recente visita de Trump, a Chanceler não deixou dúvidas a quem ela se referia, mas acrescentou que a "Europa deve tomar o próprio destino nas suas próprias mãos".
        A Chanceler alemã não poderia oferecer repúdio mais claro e forte quanto à liderança do presidente estadunidense.
        Nesse contexto, e pescando talvez em águas turvas, temos a queridinha de Trump, a radicalizadora na implementação do brexit, i.e.,  Theresa May, a atual Primeira Ministra de Sua Majestade Britânica.
        Sentindo-se já um tanto fora da UE - os seus mais longínquos antecessores em Downing Street 10, ou se terão revirado na tumba, ou imprecado contra a falta de visão da May, que optou pela forma mais radical do afastamento do Mercado Comum, que tantos esforços consumira adentrar aos já afastados predecessores dos anos setenta, quando afinal se viram livres do veto do general de Gaulle - a May dentre as várias opções à disposição, preferiu o divórcio radical, cortando muitas possibilidades de manutenção de laços, que poderiam ser de grande serventia aos insulares ingleses.
            Por isso, ela já é havida  como uma 'mole', i.e. alguém que não hesitaria em divulgar informes que poderiam ser danosos para a União Européia.
            A próxima eleição, convocada por Theresa May para dispor de confortável maioria, pode sair-lhe pela culatra, seja com  vitória pouco expressiva, seja com a afirmação de Jeremy Corbin, o líder trabalhista, o que tornaria o quadro da negociação do brexit ainda mais confuso.                 
            Entrementes, a saída do Reino Unido pode levar a uma espécie de diarquia de Alemanha e França na União Européia. A tal respeito, Emmanuel  Macron tem dado muitas indicações de que apoiará  Merkel.
            Indicativos da disposição filo-germânica do novo presidente francês estão no seu especial cuidado em  designar para os postos ministeriais que mais tenham a ver com a RFA personalidades francesas que estejam bem inteiradas das questões ligadas à Alemanha, e que inclusive  dominem o idioma de Goethe.
             A postura radical de Donald Trump, ao negar-se a assumir encargos que pela ordem natural das coisas caberiam à Superpotência em circunstâncias ditas normais, tende de certo modo a dar uma nova imagem aos Estados Unidos, como se o tão falado decline (declínio), que terá resultado das ruinosas campanhas da presidência de Bush Jr. (sobretudo a guerra no Iraque) seja um fato real, conforme vários articulistas, com George Packer à frente, tem afirmado.
             Resta a determinar quais são as causas reais desse suposto declinio americano, e se a posição do presidente Trump, com a sua insólita proximidade com a Rússia de Putin, em tantos aspectos tão heterodoxa e mesmo heteróclita, poderá contribuir para uma reação do poder americano.
            Em função das diversas questões relacionadas aos laços de Donald Trump com o Kremlin, em especial o seu líder Vladimir V. Putin, é importante ter presente a recentíssima designação pelo Senado americano de Robert S Mueller III, antigo e respeitado Diretor do FBI, para encarregar-se da investigação sobre os laços de Donald Trump com a Rússia.
             Dessarte, o enfraquecimento da liderança de Trump - refletida também nas suas posições que se afastam da linha de seus predecessores ao se dissociar, v.g., da preservação da Aliança Norte-Atlântica - é suscetível de provocar reações imprevisíveis, seja enquanto à Organização do Tratado do Atlântico Norte, seja nos seus eventuais reflexos no Continente Europeu.
            Princípio básico da política é o seu horror ao vácuo. Colocados diante de tal problema, e confirmada a sua realidade fática (o que ainda não está demonstrado) as potências interessadas tratarão de encontrar soluções aceitáveis e práticas para enfrentar o desafio.


( Fontes:  The New York Times, Washington Post,  imprensa britânica, George Packer).  

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