segunda-feira, 27 de março de 2017

Trump e o círculo infernal

                                            

        O deputado Devin Nunes, republicano da Califórnia, segundo o Washington Post, terá desejado ajudar o Presidente Donald Trump, com  observação sobre o suposto grampo por ele sofrido por ordem  do então Presidente Barack Obama.
        No entanto, o que Devin Nunes terá conseguido foi criar problemas para o respectivo comitê de Inteligência na Câmara de Representantes, enquanto a sua credibilidade para analisar a alegada intromissão russa na última eleição se vê bastante comprometida.
        Por outro lado, está em marcha o exame feito pelo Federal Bureau of Investigations, sob a chefia do Diretor James Comey, com vistas a aprofundar o que realmente houve em termos da suspeitada intervenção do governo do Presidente Vladimir Putin no processo democrático americano, entre outras ações, as do hacking do Comitê Democrata (com o intúito de divulgar informes de viés negativo desse Comitê, através do site Wiki-Leaks,  por conta do asilado equatoriano Julian Assange).
         Chamuscado pela pesada derrota na sua tentativa de esvaziar  as acusações contra Trump,  Devin Nunes volta não exatamente de mãos abanando ao trabalho de seu Comitê na Câmara de Representantes. A pergunta que se coloca a respeito do deputado republicano da Califórnia diz respeito não só à própria credibilidade em analisar questões que podem respingar e bastante no seu patrão, e ainda mais, no que tange a envolver-se de forma ainda mais crível aos inúmeros tópicos que carecem de ser apro-fundados se realmente terá condições políticas de deslindar o que, por ora, supostamente ele se empenha em confrontar.
         Essa crise, como uma sucuri, vai crescendo nos seus nós que, pouco a pouco, envolvem os inúmeros  membros do núcleo de Trump. Como isto vai acabar é pergunta que muitos fazem em Washington, golpeados que foram pela rapidez da involução do Governo Trump.
          As crises muita vez não se saciam com a turma de médio escalão. Elas, de resto, nutridas pela indiscrição de uns, os maus passos de outros, e a sua peculiar lógica que, tanto admite uma suposta salvação in extremis, quanto súbito agravamento na corte de Rei Trump.
              A sofreguidão quase sempre é péssima conselheira, como se verificou  no episódio da investida contra a aborrecida Obamacare.  Adversários, mesmo aparentemente à terra, não carecem de ser subestimados.
               No seu afã, tão juvenil quanto vazio, de derribar o pavilhão democrata, Trump no seu pressuroso  afã quase juvenil pensara que poderia reduzir  e destruir  o Affordable Care Act, a que os republicanos detestam, primo por ter sido aprovado sem um único voto do Grand Old Party, e secondo, por lograr amplo e sólido sucesso, de que são prova os vinte milhões de pessoas a que tem servido e atendido com proficiência.
                Na sua alegada campanha contra o pavilhão democrático,  Donald John Trump agiu como o monarca vão, que ataca, sem cuidar da própria retaguarda, a fortaleza provada por sete anos de bons serviços prestados não à moça Raquel, personagem de seus sonhos, mas à Lia que viria a ser-lhe empurrada goela abaixo. Indivíduos estouvados como o é Trump tem sede de glória e felicidade.  Ele esquece, no entanto, que nenhuma lei surge do nada, e se o detestado Obamacare  lograra vencer todas as campanhas  alimentadas pelo ódio e a mentira,Trump, na sua lua de mel com o poder, imaginara que a hora da verdade tinha chegado.
                 Na sua ânsia de levar adiante a grande conquista, humilhando o predecessor  - como todo indivíduo vão, Trump acredita no que lhe dizem os próprios cortesãos - amarga surpresa lhe estava reservada. No seu sétimo aniversário, esta grande Lei  humilharia a quem se acreditara votado à inebriante travessia, com o incenso dos triunfos romanos.
                  Vão, vaidoso e da vitória voluptuoso, Donald Trump, sem o saber,  abria a porta das intempéries - logo ele que pensa transformar  os aguaceiros  no céu azul que eles escondem -  e dava solene início à prematura  temporada da inclemência e dos sonhos ruins.
                   A primeira derrota será sempre lembrada, e não por saudosismo,mas por negar, com golpes imprevistos e traições fementidas,  que o solene cortejo do triunfo se veja fustigado pelas intempéries, tanto as temíveis, quanto aquelas materiais, todas elas porém engordando o malévolo cortejo dos inimigos.As desditas do rei e soberano, tanto as passadas, quanto as vindouras, crescem na consciência que a conjura dos adversários anima, enquanto ele,  o chefe de vaporosos cabelos,  vê com raiva  irromperem os rancorosos de plantão, ora robustos e rugentes todos, rindo-se às bandeiras despregadas, como se por ruir já estivesse o magnífico edifício.  
                A horda pode até vencer , mas não convencerá jamais. Engambelada com mentiras, festejada pelos cortesãos, a sua caminhada estará eivada de surpresas ruins, todas elas fecundadas por tolas ambições, sob o aplauso da patuléia interesseira. Mas como o ir e vir das vagas, o poder e suas ilusões escorrerão pelas próprias ávidas, mas pequenas mãos, tão diminutas quanto as mentes que lhe giram em torno, até que soe a hora da verdade, e ele se descubra escorraçado por criaturas que, ou conhecia demasiado, ou jamais nelas pousara a pesada mão nos passados dias de fausto e da consequente vã, vingativa retribuição.



( Fonte: Camões, Washington Post,  The New York Times )

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