sexta-feira, 10 de junho de 2016

Lembranças de meu Tio Adolpho (X)

                            

       Peço perdão ao leitor por eventuais liberdades com o tempo. Adolpho nunca foi alguém que procurasse ater-se a parâmetros inflexíveis de conduta. É claro que em momentos importantes ele cuidava que uma determinada ordem fosse obedecida.
        Contudo, em geral, procurava ser natural, e nesse sentido tratava a todos com simplicidade. Mas se, por acaso, julgasse que lhe faltavam ao respeito, ou que estavam perdendo tempo com besteiras, Adolpho poderia atalhar a questão e cuidar de pôr as coisas em ordem.
         Evidenciava, também, uma pertinácia que me surpreendia. Não perdia tempo com tolices ou ninharias. Se porventura acreditasse que achar o endereço de alguém - fosse fonte jornalística, pessoa importante para dirimir certa questão, ou mesmo artesão conhecido - não era coisa de somenos importância, o tio não hesitava.
         Punha-se efetivamente em campo, como pude verificar numa manhã de Teresópolis, quando por acaso eu o acompanhava. Fiquei impressionado com a sua perseverança. Bateu em 'n' portas, em vários pontos de bairros daquela cidade, e não seriam negativas - não, fulano não mora aqui - que iriam desanimá-lo.
         Com paciência e jeito, Adolpho ia montando uma espécie de mapa falado do paradeiro daquela pessoa. Passamos nisso, uns bons quartos de hora, e o que me parecera, a princípio, como teimosia, se foi transformando  para mim em  obstinada, persistente constância em arrancar na medida do possível o paradeiro desse operário de quem o Tio julgava importante o parecer quanto à possibilidade de  determinado serviço.
          Ao acompanhá-lo, o adolescente não pôde reprimir um sentimento de admiração pela característica de não desistir diante de dezenas de negativas. Se ele desse importância à solução do problema  - mesmo que à primeira vista surgisse como cousa de pouca monta - iria ser difícil afastar Adolpho daquela tarefa determinada.
           Como todo self-made man[1], Adolpho, se julgasse que a busca valia a pena, ele não a terceirizaria, e enquanto a sua intuição lhe soprasse que devia continuar, o meu tio não hesitava.
           Quase escusado dizer que depois de bater em tantas portas, acabasse por encontrar a quem procurava.
               De tio Adolpho colhi, enquanto o acompanhei de perto, muitas lições de vida e comportamento. Sem que a princípio me desse conta, naquela manhã, ele, por intermédio de teimosia que, de início, se me afigurou fora de propósito, me transmitiu para a vida lição simples, mas de inegável utilidade prática: nada melhor para vencer em determinada tarefa do que não desistir diante dos primeiros obstáculos.



[1] homem que subiu na vida por seus próprios meios.

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