quinta-feira, 10 de março de 2016

O Caminho de Lula

                             

       O Ministério Público de São Paulo denunciou à Justiça o ex-Presidente Lula. Ele é acusado de ocultação de patrimônio e de falsidade ideológica, no caso do apartamento tríplex, em Guarujá, no litoral paulista.

       Foram igualmente denunciados Marisa Letícia, a esposa do ex-Presidente, e o filho Fábio Luís, o Lulinha, sob acusação de lavagem de dinheiro.

       Em toda essa operação, há quinze acusados. Dentre eles, executivos e funcionários da OAS. Como se sabe, o imóvel em tela foi reformado pela empreiteira, que gastou cerca de R$ 1 milhão, em obras cujos beneficiários seriam o ex-Presidente Lula da Silva, e a respectiva família.

       Para os investigadores não há dúvidas de que ele é o verdadeiro proprietário do tríplex.

       Como se não bastasse, a Polícia Federal encontrou em depósito caixas de mudança do petista assinaladas com as palavras "praia" e "sítio".

       A passagem de Lula por Brasília se insere na exposição midiática do ex-presidente. Não é difícil supor que Lula preferiria que assim não fosse.                                                           
       Ao visitar entre outros em Brasília, o Presidente do Senado, Renan Calheiros, ao ver a foto do abraço de Renan em  um Lula que me parece um pouco à deriva, não pude deixar de pensar no cartunista Chico Caruso, e a sorte do ex-presidente em que ele esteja em gozo de férias... Imaginei, então, a charge que o desenhista faria, se não estivesse afastado por alguns dias. Lembrei-me também do temor que o ex-Presidente  Fernando Henrique dele sentia, a ponto de não fazer certas coisas para evitar a caricatura...

         Segundo consta, Lula terá recusado a oferta de Dilma Rousseff de posição ministerial. Se aceita apenas pelo embutido privilégio do foro, tal implicaria em confissão antecipada.

         Por outro lado, com Lula ministro de estado, no dizer de outro, Dilma passaria recibo da sua condição de rainha da Inglaterra...

         No Brasil, há demasiados privilégios. Alguns são levados ao extremo na sua aplicação. Por fim assistimos à queda de alguns, como o do privilégio da inocência até o passamento em julgado da sentença. Em boa hora, o Supremo pôs fim a tal insensatez, e o ex-Senador Luiz Estevão pôde afinal ser preso. O privilégio, se levado ao excesso, se nos afigura um acinte tanto à democracia, quanto ao bom senso. A OAB perdeu boa ocasião de ficar calada, ao mostrar a sua discordância com a nova jurisprudência no Supremo.

              Nas grandes democracias, como por exemplo nos Estados Unidos, um Senador ou um Deputado, se colhido em delito, será tratado da mesma forma como são tratados os cidadãos comuns que desrespeitam a lei. Um juiz singular para emitir ordem de prisão não carece de autorização alguma para fazê-lo. Os limites que observa serão os do bom senso, mas nenhum Senador ou Deputado está acima da lei nos Estados Unidos.

               No Brasil, muita vez, as autoridades se prevalecem da tardança no Supremo para continuar a valer-se da presunção de inocência. O Brasil crescerá como democracia quando não for mais a terra do 'sabe com quem está falando ?'. O único privilégio que se deve admitir é o do respeito à lei. Assim, a condição do eventual acusado jamais poderá ser utilizada para atravessar-se à ação de alguém que, em serviço, esteja apoiado na lei.

                A igualdade dos cidadãos, ela deve existir não só na Constituição, mas também na vida corrente.

                Por isso, creio que o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva bem agiu ao recusar a proteção extendida pela pupila, pelo que implicava em uma admissão de culpa.

                 Ao acompanhar os dissabores do ex-presidente, não posso deixar de não recordar-me o que pensava o meu bom e saudoso amigo, Pedro Neves da Rocha, um homem que dedicou a vida ao saber e aos livros, ainda que não descurasse de suas funções diplomáticas.

                 Quando em 2002, tanto eu quanto um outro amigo, o professor Rezende, lhe instamos a considerar votasse em Lula para Presidente, que naquela época fazia quase a unanimidade nacional. Pedro se deteve por um instante, como que para pensar, e depois disse:

                  "Para presidente, só voto em quem tem curso superior completo."

                   Na época, nós dois pensamos que fosse um capricho do Pedro.  Hoje vejo quanta razão tinha.

 

( Fontes:  O  Globo,  Folha de S. Paulo )

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