quarta-feira, 9 de março de 2016

Lula Ministro ?


                                        

        As funções de Ministro de Estado estão reguladas pela Constituição da República de 5 de outubro de 1988, pelos artigos 87 e 88.

        Quando a Constituição que o seu Presidente chamou de Cidadã, Ulysses Guimarães tinha presente  o seu caráter liberal para a época.

         No entanto, desde que foi assinada pelos Constituintes - e o PT aprontou a usual jogada para a arquibancada, recusando-se a assiná-la[1] - em alguns aspectos, quando a relemos hoje, ela poderá parecer datada. Os constituintes em geral se debruçam sobre o documento e nele tratam de questões que muita vez deveriam ser deixadas para a legislação ordinária.

         Dessarte, por ser às vezes demasiado pormenorizada, a Lei Magna pode correr o risco de defasar-se. São raras as Constituições que atravessam os séculos, como por exemplo a americana.

         Nesse sentido também o processo brasileiro se parece por demais com o das legislações ordinárias. As emendas constitucionais (hoje, as chamadas PECs) barateiam e até ameaçam o desígnio da Lei básica. Veja-se o processo de fazer uma emenda à Constituição na Terra de Tio Sam. E através da dificuldade do procedimento se presta dupla homenagem à Carta Magna. Como coisa séria que são, tais emendas não se decidem de afogadilho. Veja-se o número das emendas introduzidas à Constituição de 1789,  e nos envergonharemos da excessiva rapidez das modificações à nossa Lei Magna.

          Está aí uma das causas da instabilidade institucional em Pindorama. E nessa república, em que o Congresso trabalha a pleno vapor por dois dias, já temos um sintoma preocupante de negligência constitucional.

          Em termos de preservação do texto da Constituição - que entre nós é modificada de forma demasiado fácil, beirando o leviano - outros países mostram maior atenção. Não é que a Grécia, a mãe da democracia, estipula que as emendas constitucionais só podem ser aprovadas, se referendadas pela legislatura seguinte àquela que a propôs? Não só não se barateia a emenda constitucional como aqui, mas também se predispõe um tempo de reflexão maior, para prevenir os erros da pressa e do oportunismo.

           Mas ao falar de temas constitucionais, s.m.j., se me afigura um erro grosseiro querer fazer Lula Ministro de Estado. O escopo aparente, sobre o qual não fazem segredo, é o de dar um gabinete ao ex-presidente não com o intúito de confiar-lhe algum setor importante das questões da República. O objetivo é bem menor: pretende-se dar-lhe um salvo-conduto para que ele tenha foro especial, o que trocando em miúdos vale por blindá-lo contra o Juiz Sérgio Moro.

           No Brasil, há demasiadas coisas de mentirinha. Desmoralizou-se a vida política com o barateamento advindo da multiplicidade dos partidos. Por uma modesta cláusula de exigência para os partidos políticos, o Supremo adotou - que me desculpem os senhores Ministros - uma abertura sem limites para a formação de partidos. Restringi-la seria golpe contra a democracia. Peço vênia para discordar. Ameaça à democracia e a diversidade de posição política, está na atual jurisprudência que gerou mais de quarenta partidos no Brasil. Baixar a tal ponto a exigência para a formação de partidos políticos levou à multiplicação das legendas, que servem apenas para tomar tempo do teleespectador nos programas políticos, sem qualquer respeito às ideologias. Ao esquecer a regra aristotélica do meio não mais se corre o risco de ser ridículo, pois o sistema brasileiro já o é.

             Tudo tem limite na existência dos homens. Ignorar o bom senso é cair nesse anti-sistema, em que muitos aproveitadores brincam de candidato a presidente, a cada quadriênio. Nem na mítica terra da Cuccagna[2] há quarenta ideologias.

              Por outro lado, que não se esqueça o mundo político que o melhor salvo-conduto - utilizável tanto pelo cidadão comum quanto o homem político - é o respeito às leis.

              Na única democracia que tivemos - que foi a coroada de Pedro II - a honradez do velho soberano não foi bastante para que uma conspirata militar não fosse urdida, acabando com a única república na América Latina.

               Acho que é mais do que tempo de acabar com o jeitinho em nossa terra.



[1] Depois, valendo-se do bom-mocismo brasileiro, ao ver que a dita jogada não surtira qualquer efeito, não se fez de rogado e tratou de arranjar que a turma petista constasse do documento como se houvesse assinado a seu devido tempo.
[2] País fabuloso, no qual reina todo tipo de delícia (definição do dicionário Zingarelli)

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