sábado, 23 de maio de 2015

Exigências fortes para Governo Fraco


                                 
          A fraqueza da Segunda Presidência de Dilma Rousseff não é segredo para ninguém. O fato de haver trazido para o governo o competente Joaquim Levy é apenas um caminho para alcançar-se uma solução para a ruinosa situação criada pelo Dilma I.

          Se a empresa terá êxito depende de série de fatores,  muitos deles verdadeiras incógnitas.

          Flanqueia o Ministro Levy Nelson Barbosa, que assumiu o Planejamento. Até o presente,  seu papel tem sido positivo – levou até bronca da Presidenta por proposta de cálculo relativa ao novo valor do salário mínimo – e há por vezes dúvidas quanto a determinadas posições, eis que ele é um quadro do PT. Sem embargo, não será decerto por aí que dificuldades surgirão para o Ajuste Fiscal.

          O busílis da questão está na desconstrução da Presidência  Dilma. Depois de reeleita em segundo turno – talvez a sua principal vitória eleitoral haja sido no primeiro turno, quando a propaganda – que Marina não tinha condições políticas de contestar – do ‘mago’ João Santana logrou desestruturar-lhe a candidatura, a rebaixando para o terceiro posto. Aí o principal temor do Partido dos Trabalhadores e de seu chefe Lula da Silva pôde ser tirado do visor. Só mesmo a velhinha de Taubaté para acreditar em que as ações contra a candidata do PSB – no país das 32 legendas a Rede Sustentabilidade teve denegada pelo TSE a licença para virar partido legalmente reconhecido – nada têm a ver com o fóbico temor do PT que enfrentar Marina em luta singular no segundo turno seria derrota certa.

          Mas voltemos à vaca fria. Dilma, por não ter opção, está dando força para o seu novo Ministro da Fazenda. No entanto, as pessoas só podem dar aquilo de  que dispõem.

          Na sexta-feira, não duvido que Dilma esteja dando todo o possível apoio para as medidas tendentes a tirar o Brasil do buraco em que se meteu. A imprensa – a quem cabe escarafunchar e desvelar os antagonismos – realçou demais a ausência de Levy do anúncio do corte. O Ministro, no entanto, terá conseguido grande parte de o que pretendia, e o corte anunciado de R$ 69,9 bilhões nas despesas de custeio e investimento. Assinalou-se, a propósito, que essa redução é a maior desde que a Lei da Responsabilidade Fiscal entrou em vigor (2000).

           O “Pátria Educadora”, anunciado pelo dílmico lema como prioridade do Segundo Mandato, teve corte de R$ 9,4 bilhões nas despesas. Juntas as pastas da Saúde e Educação tiveram um corte de  R$ 21,19 bilhões..

           O Ministério das Cidades foi o mais atingido pelos cortes, com redução de R$ 17,23 bilhões nas despesas, 54,2% dos gastos de custeio e investimento previstos pelo Orçamento aprovado pelo Congresso. O carro-chefe da pasta é o programa Minha Casa-Minha Vida, que é um dos favoritos da Presidenta.

             O Ministério dos Transportes, responsável por grande parte das obras do PAC, como as rodovias, teve corte R$ 5,73 bilhões no seu orçamento.

             O Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que anunciou o contingenciamento, observou que foi o maior corte realizado no Brasil nos últimos anos, e o defendeu como o primeiro passo para a recuperação do crescimento do país de forma sustentável.

             Em avaliação bimestral, ontem divulgada, o Governo Dilma II projeta queda de 1,2 percentual no Produto Interno Bruto ( a estimativa anterior era de queda de 0,9% do PIB).

             É importante ter presente que o Governo Dilma II, em seu Ajuste Fiscal, foi forçado a fazer boa parte desses cortes pela demagogia do Congresso, reinstituindo parte do chamado Fator Previdenciário (em que a postura do PSDB, indo contra  esse fator que fora aprovado pelo governo FHC é indefensável, por demagógica e mesmo cínica).

            Nesse contexto, se fez advertência de que novas ‘bondades’ no ajuste fiscal a ter completada a votação pelo Congresso resultarão em ulteriores medidas de arrocho fiscal, eis que continuando na sua farra de benesses o Congresso não dá ao Executivo outra saída.

            Tendo sido o Governo Dilma II consideravelmente enfraquecido pelo despencar de sua líder máxima por força da queda na aprovação (na prática, virando reprovação, como evidenciam  Datafolha e Ibope), e como se tal não bastasse, as manifestações pro-impeachment e os repetidos panelaços, tornou-se tarefa hercúlea para o novo líder da negociação política o Vice-Presidente Michel Temer (PMDB). Este quadro muito negativo com a debilidade do governo contribui para dificultar ainda mais o labor do Ministro da Fazenda e o do Ministro do Planejamento  no duplo intento de limpar a área das loucuras fiscais do Dilma I e dar condições de recuperação à economia brasileira.

             A demagogia e a inexperiência de Dilma Rousseff custaram caro ao Brasil, como se está verificando à saciedade.  A ira do eleitorado ao saber que tinha sido ilaqueado ainda contribui para, paradoxalmente, estorvar ulteriormente eventuais possibilidades de recuperação, por dificultar a aprovação do Ajuste Fiscal na receita do Ministro Joaquim Levy.

            Ao ver todas essas verbas votadas à recuperação das Cidades, à Saúde e à Educação – sempre atendida a premissa que elas iriam destinar-se a objetivos idôneos e necessários à Nação brasileira – cortadas na prática, penso que será menos de saneamento básico para as cidades (falta de esgotos, entre outras), menos Saúde, os hospitais públicos com pacientes e doentes deitados nos corredores, menos Educação, com salários inadequados para professores e um vastíssimo etcétera...

             Será que tais lacunas reais foram compensadas por desonerações fiscais que privilegiaram o transporte privado ao invés do público, por subsídios à compra de eletrodomésticos, e não por último, o grande Ministério da Bolsa Família, e a sua crescente legião de assistidos (como ainda agora se confirma, com o aumento de sua dotação, que está na contramão da política de mais recursos para  o trabalhador, eis que flui para  multidão de virtuais pensionistas em idade ativa, que é da essência do programa assistencialista Bolsa Família) ?

 

( Fonte:  O  Globo ).

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