segunda-feira, 13 de abril de 2015

De novo, Hillary

                                                 

        Mesmo sem concorrer diretamente à presidência, Hillary Clinton foi a principal adversária de Barack Obama para a nomination à Casa Branca em 2008. Estava escrito, no entanto, que a favorita inicial ao posto cederia, em adiantado caminho, a vez ao Senador por Illinois. Obama, depois da performance deplorável de George Bush júnior, surgia como o candidato da vez. Senador júnior ainda, se dissociara da guerra de Bush e dos neoconservadores, enquanto Hillary a ela de inicio se ligara. Por essa vacilação, sem o saber, ela perderia de todo a vez na luta pela nomination, a que, ao cabo, teve a clarividência política de reconhecer, posto que seu esposo, o ex-Presidente Bill Clinton, haja relutado em admitir a força preponderante do adversário fato político.

      Como assinala o New York Times, Hillary já dispõe de dois títulos: foi a única primeira-dama a eleger-se para o Senado, e agora a postular a honra de tornar-se a primeira presidente dos Estados Unidos, indicada por um grande partido.

      As pesquisas lhe dão considerável vantagem inicial,  embora tal situação não é de molde a dar-lhe tranquilidade. Como o caminho é longo até a Convenção do Partido Democrata, que decidirá sobre a designação, e a eleição presidencial de novembro de 2016, seria rematada e impensável loucura que ela adotasse uma postura passiva, como se a indicação já estivesse garantida.

      No presente campo democrata, apenas o Vice-presidente Joe Biden é reconhecido como adversário, embora a sua posição nas pesquisas  seja bem inferior à sua. Como um simpático político veterano, famoso pelas gafes – que chega a transformar em trunfos – Biden não deve ser descartado a priori,  conquanto a impressão inicial prevalente  não seja de atribuir-lhe a possibilidade de transformar-se em adversário a ser realmente levado em conta.

     No entanto, como a campanha se inicia a dezenove meses dos comícios de novembro, todos os prognósticos carecem de levar em conta o fator imprevisível de um espaço tão longo e, por conseguinte, deveras suscetível de provocar situações novas, como que salteadores a esperarem em tocaia na longa via a melhor ocasião de tentar o próprio bote.

     Não obstante as considerações acima, por ora  forçoso será atribuir a Hillary Clinton a condição de favorita nessa impiedosa maratona, em que deverá contar com a respectiva habilidade e experiência para arrostar as diversas armadilhas (algumas delas hoje imprevisíveis), que intentarão a princípio debilitar a campeã (como nas touradas, é a sina dos picadores dessangrar o touro).

    Hillary é renomada pela sua resistência, como na massacrante disputa pela nomination de 2008 através de inúmeras eleições primárias. Começando então favorita, foi surpreendida pelo triunfo do adversário Barack Obama, cuja campanha se preparara mais para o caucus de Iowa – que costuma ser a preliminar da corrida para a designação pela convenção partidária.

     Tais imprevistos não estão programados para ocorrerem na interminável campanha de 2015/2016. No entanto, se existe algo de especialmente cruel na política é a extensão da campanha e o inescrutável número de eventuais tropeços e de situações artificialmente criadas com o escopo de desestabilizar-lhe o projeto de candidatura.

        Somente alguém com a personalidade e a férrea determinação de Hillary terá a força e a capacidade necessárias para afrontar e confrontar tais desafios. Paradoxalmente, será a grande popularidade da candidata, arrimada na sua já longa folha de serviços (oficialmente, senadora por mais de um termo pelo estado de New York, e quatro anos como Secretária de Estado do Presidente Obama) que alimentará os eventuais projetos de contestá-la e  debilitá-la, buscando reduzir a substancial diferença que a separa nas pesquisas de outros pretendentes como o atual Vice, Joe Biden e a senadora democrata por Massachusetts, Elizabeth Warren.

         Os Clinton – tanto o marido Bill, quanto a própria Hillary – não costumam ter vida fácil com a imprensa. Se o marido, como elder President (ex-presidente, e de dois mandatos) já pode pretender tratamento porventura mais afável, Hillary tende a receber as atenções de muitos comentaristas, com juízos muita vez acerbos e severos. Tem-se a impressão em certos artigos de que o jornalista, em um campo plural de adversários potenciais, tende a colocar-lhe a vara do salto para a presidência em altura muito superior àquela destinada a seus potenciais concorrentes...

         Decerto, semelha difícil determinar de onde vem tanta rebuscada antipatia contra essa corajosa mulher. Como a sua trajetória é longa, e os intentos de atravessar-lhe o caminho começaram com Whitewater, em que se procurou envolver o casal Clinton. Nesse sentido, as investidas do Promotor especial, o incansável Ken Starr, não foram das menores, embora não tenham tido afinal êxito. A grande imprensa americana empenhou-se nesse gênero de jornalismo que é popular nos Estados Unidos, estando presente tanto em Whitewater, quanto no caso dos e-mails particulares de Hillary no seu período de Secretária de Estado (a que ela preferia ao invés dos oficiais, o que pode parecer natural e mais flexível para muitos, mas não para eventuais aristarcos[1] à cata de motivos de crítica).

           Por fim, à sua volta, mas no círculo do Grand Old Party, já repontam inúmeros candidatos nanicos, que não desejariam outra coisa senão que Hillary se incomodasse com suas mesquinharias. Restritos a insignificância de solitários dígitos, como cãezinhos raivosos, é melhor deixa-los ganir, na sua vã esperança de chamá-la para o seu acanhado campinho...

 

( Fontes subsidiárias: The New York Times, O Globo, O Estado de S. Paulo )  



[1] Aristarchus, de Samothrace (c.216-144 a.c.) Crítico severo da escola de Byzantium em Alexandria.

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