sexta-feira, 18 de abril de 2014

Atoleiro na Ucrânia ?

                                      
         Em Genebra, cidade em que se firmam muitos acordos, dos quais vários não são implementados, o Secretário de Estado John Kerry (EUA), o Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov (Federação Russa),  o ministro, interino, das Relaçõs Exteriores da Ucrânia, Andrii  Deshchytsia, e Catherine Ashton, pela União Europeia assinaram entendimento que recomenda aos ativistas pró-Rússia devolverem os edifícios governamentais  ucranianos de que se apossaram nos últimos dias.

       O documento, a que deram seu aval Estados Unidos e Federação Russa, se determina a devolução de prédios públicos ucranianos às autoridades de Kiev, também se assinala por gritantes omissões. Nenhuma referência é feita à anexação ilegal da Crimeia, nem se faz menção à necessidade de a Rússia retirar os quarenta mil militares concentrados nas fronteiras da Ucrânia. Outro marcante silêncio do papel foi a falta de qualquer referência a eventuais conversações entre Moscou e Kiev.

       Nesse sentido, nos seus comentários acerca do acordo, o Presidente Barack Obama tratou de dar parecer reservado, em que é bastante cético quanto aos efeitos do entendimento. Dessarte,  se houver outras transgressões, estão sendo preparadas listas de pessoas ligadas com o Kremlin, assim como de setores determinados, que seriam objeto de novas sanções tópicas pelos Estados Unidos. A sua abrangência, no entanto, está condicionada pela dependência da Europa da energia (gás) provinda da Rússia. Tal contingente moderação europeia não é dos menores entraves a imposição de  sanções porventura mais pesadas.

     Na sua populista sessão de respostas a perguntas de cidadãos russos, Vladimir V. Putin não deixou de exprimir posturas que destoam do viés pacífico de mais este acordo de Genebra. Assim, voltou a referir reivindicações russas sobre o território leste da Ucrânia, assim como ao alegado direito de mandar tropas. No que pareceu montagem, foi transmitida questão televisada do espião Edward Snowden sobre espionagem, ao que gospodin Putin respondeu que a Rússia não tinha condições tecnológicas de emular a atuação dos órgãos de segurança americanos.

    Os ‘voluntários’ pró-Russia não se manifestaram concordes com a disposição do acordo genebrino de que devam ceder os edifícios governamentais de que ultimamente se apossaram em Donetsk e outras cidades do leste ucraniano.

     Sem embargo, por primeira vez, na cidade de Mariupol as forças pró-Rússia experimentaram revés inequívoco. Com o exército de Kiev, e a participação de manifestantes da praça Maidan,  três ativistas filo-russos foram mortos, 13 feridos e 63 capturados na sua malograda tentativa de apossar-se de prédio da administração central.

    A dicotomia na atitude russa, – ‘compreensiva’ vindo do Ministro Sergei Lavrov, posto que nunca omita a necessidade de a Ucrânia ‘federalizar’ o seu território, dando mais autonomia para as regiões do Leste (os objetivos desagregadores vêm envolvidos em sedas diplomáticas, mas não deixam de valer pelo que efetivamente são) – e agressiva-imperialista de parte do conquistador Vladimir V. Putin, com as reivindicações de territórios na Ucrânia (um distinto eco das exigências de Benito Mussolini quanto às províncias irredentas – na França e na então Iugoslávia).  No mesmo diapasão, também o cabo austríaco Adolf Hitler não se negou a assinar papéis como o da crise dos Sudetos (que despedaçaria a então Tchecoslováquia) para depois acintosamente ignorá-los.

     Por outro lado, o belicismo de Putin tem afetado às nervosas finanças russas, que não possuem a solidez dos propósitos do ex-agente da KGB. A sofreguidão no que tange à península da Crimeia, com os dispêndios embutidos pela anexação acarretarão para as finanças da ‘potência regional’ do principado de Moscou vultosos encargos em termos de adequação dos pagamentos aos habitantes da Crimeia, com vistas a dar-lhes igualdade de tratamento previdenciário (entre outros) aqueles devidos à população russa.

    Portanto, o crescimento do império não sairá de graça para Putin. Depois de cessados os últimos aplausos e o suposto júbilo ao cabo do  referendo manipulado (e considerado por muitos ilegal, a começar pela sua redação capciosa) ver-se-á que a conta será salgada. Estima-se que a Crimeia venha a precisar de investimentos de 3 a 5 bilhões de dólares por ano para obter benefícios sociais, compensar déficit orçamentário (nos últimos anos, a península recebera do governo de Kiev regularmente mais de o que contribuíra, para cobrir benefícios sociais, déficit orçamentário e despesas com infraestrutura). Tudo isso sem contar a eventual construção da grande ponte no Estreito de Kerch ligando a Crimeia à Rússia metropolitana.

     Como se vê, o imperialismo é de início saudado com flores pela população metropolitana. Mais tarde, passadas as transitórias ovações e o júbilo patriótico, com os consequentes altos índices de aprovação, é que os espinhos se farão sentir de forma permanente.

 

(Fontes: The New York Times, Folha de S. Paulo, Suplemento Rússia da Folha)

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