segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Erdogan: ameaça à democracia ?


                                 
        As eleições de junho na Turquia não tinham sido conclusivas. Havia a esperança de que os partidos principais - o CHP (partido republicano do povo) e o AKP (partido de justiça e desenvolvimento) - constituíssem gabinete de coalizão.

       Verificada a impossibilidade de acordo, o AKP, cujo chefe é o Presidente Recep Tayyip Erdogan, e o CHP, civil-conservador,  e explorando o temor da sociedade turca com a ressurgência do clima dos anos noventa, com gabinetes sem força,  o Primeiro Ministro Ahmet Davutoglu convocou novas eleições em um prazo breve.

       Para infelicidade da democracia turca, e valendo-se da situação de insegurança, além de criar ambiente de confrontação política (para o AKP, os opositores ou são terroristas ou são traidores) tanto o Presidente Erdogan, quanto o seu Primeiro Ministro Ahmet Davutoglu lograram vitória esmagadora, com 49,3% dos sufrágios, e uma pétrea maioria de 316 parlamentares.

        A sua estratégia poderá ter resultados nefastos para a democracia turca, se o Presidente Erdogan partir para a confrontação e  persistir no semear o histerismo e a intolerância.

         Dentro desse ambiente, o Partido Democrático do Povo (HDP), dominado pelos curdos, logrou superar a barreira legal dos 10% para manter-se no Parlamento, mas baixou dos 13% que obtivera em junho último.  Dada a confrontação com o AKP, é de augurar-se que sejam respeitados os direitos civis e políticos da minoria curda.

         Já o CHP, o principal partido da oposição, civil e laica, tampouco logrou o seu escopo de voltar ao poder.

         Pela violência dos confrontos e a divisão na prática do país em dois, com uma metade pró-Erdogan e o partido  AKP, de tendência islâmica,  contra o CHP, da oposição laica, é difícil ser otimista quanto às possibilidades democráticas do partido ora dominante na Turquia.

         Já no período anterior a junho - e que determinara as eleições inconclusivas de meio de ano - Erdogan endurecera no respectivo autoritarismo, na tendência a cercear a liberdade de pensamento, criando clima deletério de confrontação.

         Teria o interesse de criar um regime não-parlamentarista, mas presidencialista, o que, dadas as suas inclinações autoritárias, poderia ter consequências bastante negativas para a frágil democracia turca.

         Dado o clima instaurado, pouco ou em nada conducente ao diálogo, a orientação de Recep Erdogan deverá ser acompanhada de muito perto, pois teme-se que vá descambar para tendência ainda mais confrontatória com a juventude e os curdos (a aviação militar turca tem bombardeou recentemente núcleos curdos nas vizinhanças da Turquia).

 

( Fonte:  The New York Times )  

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