quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cartas ao Amigo Ausente (XV)

     


                                                   X V

 
 

        Meu dileto Amigo Pedro,

 

        o mutismo a que me referia na última carta persiste. As aparências indicam, portanto, que as minhas intervenções não mais são necessárias. Se devemos saudar a normalidade, sempre resta o ambíguo sentimento, em que a satisfação do dever cumprido se mescla à sensação de indefinível vazio.

        Nesses três meses que estão por findar, me venho perguntando se a reparação desejada não mais se apresente nas vestes luzidias do galardão merecido. Do nada surgiram sombras, inda mais tenebrosas e horrendas do que as vagantes no Hades. Ao contrário das vistas por Ulisses, essas têm memória. A sua triste faina é incompreensível para os mortais, eis que, criaturas da injustiça, elas se propõem não só negar, mas, em escarnecendo, castigar o mérito com as armas cavilosas da prepotência. Enquanto cercado da geral indiferença, elas serão tua companhia de todas as horas. Às vezes refluem, noutras se entremostram, até de novo se adensarem, na dança cruel e volúvel, em que só a insana esperança, com a heróica e trêmula fímbria de luz, te faz prosseguir na caminhada. Será ôý÷ç[1] o verdadeiro nome da justiça ?

        Mas não te apoquentes por ora no intento de comigo partilhar o significado dessas linhas. Se a longa, iníqua, injuriosa noite acaso se desfizer, que fique o transe marcado nas crispadas palavras de solitário parágrafo.

       Tratemos, ao invés, de ensaiar mais alguns traços no esboço do personagem que encarnasses na tua existência terrena. Se já é difícil conviver com a ausência irremediável, tanto maior o será, se nos colhe no estrangeiro, em que não podemos recorer às muletas da remembrança. Refiro-me, por certo, aos lugares e espaços que cruzaste – como não hei de imaginar-te na sala maior da Leonardo da Vinci, ou junto ao do bar Capital, a remexer na moedeira, para pagar o cafezinho dos amigos ?

       Diplomata que foste, e no entanto, não gostavas de viajar. Assim, não te posso conceber na Acrópole, na distante Olímpia, ou, num turístico arroubo, na insular Santorini. Sem embargo, prezavas outro tipo de viagem, feita através das páginas dos livros, recriando paisagens, porém as mais das vezes silente auditor de doutas palavras, fixadas nas ordenadas letras das folhas dos volumes da tua biblioteca.

       Hoje, me animo a propor um périplo pela mente. Percorrendo tais esconsos domínios, a que ao outro só é dado apreender  através de incertos reflexos, pelo enganoso espelho das sensações refractadas, o juízo será sempre omisso, tentativo e indistinto.

        Não obstante, cotejando impressões dos primeiros tempos e dos últimos, me atrevo a dizer que, em termos de atitude e tolerância, ao contrário de muitos, melhoraste com o passar das décadas. Recordo-me da frase dita por volta dos anos sessenta, em que te referias a um rapaz teu vizinho, a quem havias censurado por cerrar as janelas do apartamento com pesadas cortinas de veludo. Entendias aquele desejo extremo de privacidade como reprovável e admitias, por conseguinte, o direito do olhar estranho a condicionar o comportamento de alguém, mesmo no recesso de sua morada.

       Pareceu-me preconceituosa a tua atitude, que mais semelhava ter a ver com a odienta curiosidade dos familiares da Inquisição. Ao deparar-te nessa rígida postura, resultava-me difícil aceitar que para ti representasse ameaça a íntima escolha de um pobre diabo, refugiado entre as próprias paredes. Mesmo naqueles anos plúmbeos em que a estreiteza mental de uns tantos intentava tanger a sociedade na marcha batida, sob as esquálidas luzes de suas poucas letras, para a existência vivida sob o bastão do medo, e as promessas de outra ordem unida, regida por tacanho, medíocre conformismo, como poderia supor que dos teus livros houvesses retirado lição tão pouco conforme à moderação do sábio e ao imanente respeito ao direito alheio de diferençar-se dos ditames do presídio ?

        Já nos anos noventa, relembro conversares sobre um cozinheiro que trabalhara na tua residência da Barão do Rio Branco. A despeito de te haver deixado o serviço, aduziste que sempre o procurava ajudar, por considerá-lo pessoa de boa índole. Mais além, se acrescentaste que ele era gay, terá sido em funçõ de que perceberas, enquanto falavas com o antigo empregado, avultarem sob a camisa os seios de silicone. Ao referir a descoberta, inda que a entonação não fosse a de uma simples constatação factual, tampouco o condenavas, com a acerba intransigência velho-testamenteira. Dei-me conta então que a chamada correção política, exprobada por muitos como a persona da hipocrisia, na verdade te influenciava o comportamento, nele mostrando a sua face tolerante e respeitosa da diversidade do outro.

        A tua preocupação social cresceria com o avançar do tempo. Ao invés de muitos, em que o enrijecer das artérias também se reflete no comportamento, se reforçariam as bases laicas e liberais da tua personalidade. Consoante o teu hèïò esse engajamento seria sempre individual. Se colimavas porventura expandir-lhe o efeito, jamais verbalizaste tal desígnio, como se preferisses deixar ao exemplo as eventuais consequências.

        Pertenceste àquela geração que julgou ter ‘perdida’a mocidade pela experiência do Estado Novo. Peculiar juventude essa, que admirava Gustavo Corção e os lenços brancos da U.D.N. Imperceptivelmente, boa parte dessa geração se viu empurrada para a direita, capitaneada a princípio pelo Brigadeiro Eduardo Gomes e, mais tarde, por Carlos Lacerda.

       Tenho presente artigo que escreveste em louvor de Corção. Se não me engano, publicado pela Revista Forense, nos foi mostrado com o disfarçado orgulho do pai de um único filho. O revisor, sobretudo nas páginas finais, decerto se ausentara, tal a pletora de erros tipográficos. Na oportunidade, formulei elogios de circunstância. Achei que exercício de franqueza seria gratuita crueldade, para quem lia a produção com os olhos do universitário. Hoje, entendo melhor porque não poderias repudiar, seja a criatura, seja o idolatrado pensador de uma época transata.

       Das ambiguidades, muitos dos partidários do encanecido tenente não lograram escapar. Não é hora, porém, de increpar-te erros, eis que te apuraste com os anos. A tua visão democrática, informada pelos princípios herdados do ideal republicano do século XIX, e os antagonismos ideológicos do período de entre-guerras, não poderia prescindir das premissas das elites, muita vez contrapostas, mas não necessariamente diversas. E se ata for requerida, estou pronto a reconhecer-te coerência, de cujos parâmetros se poderia divergir, mas não menoscabar, como se foram meras construções do passado.

       Não creio que discordarás se te situar no centro, em termos políticos, com um discreto viés de simpatia para determinados temas propugnados pela esquerda moderada, desde que certos requisitos de capacitação e colocação forem respeitados.

       A suposta superação da divisão doutrinal entre direita e esquerda é uma falácia a que recorrem amiúde os líderes de direita e centro-direita. Dentro do quadro dinâmico da política, tal contraposição – tipificada mas não criada pela assembleia na Revolução francesa – há de persistir. Contudo, no chamado arco constitucional, as posições ideológicas dos diferentes movimentos tendem a evoluir ou involuir, de acordo com as ideias-força de cada momento histórico. A crônica do partido radical na França é, a esse respeito, exemplo da mutabilidade política, sempre dentro desse quadro de fluxo e de condicionamento da associação  às contingências ditadas pela sociedade. Empurradas por exigências não atendidas e por contrastes não solucionados, as tendências liberais otocentistas e mesmo novecentistas caminham para a subordinação ou absorção pelas forças conservadoras da direita. Nessa curva, onde o vácuo inexiste, os espaços progressistas, nos diversos avatares do processo, serão ocupados por uma nova esquerda. Apenas leve adendo ao dito evangélico – dize-me com quem andas (e o que propões) e eu te direi quem és – me parece suficiente para expor e desnudar todos os aranzéis da denominada terceira via.

        Da tua vocação udenista, apenas dela me inteirei por assim dizer de segunda mão. Na época de nosso convívio em Quito, a U.D.N. já tinha sido engolida pela “revolução de 31 de março” – cuja falsidade começa pela data – e os seus principais líderes cooptados pela Arena. Ainda não falávamos muito de política, não fosse pela necessidade de tentear o terreno em momento propício à la chasse aux sorcières[2]. Dava-me conta, todavia, por frases e atitudes esparsas, de tua inclinação liberal moderada. Mais tarde, te encontraria lotado na D.S.I.[3] – que se ocupava da parte ostensiva da política de segurança nacional. Para mim, foi uma surpresa, cuja ocorrência prefiro atribuir às relações com o então chefe, o Ministro João Luiz Areias Neto. A presença na D.S.I. indicava, porém, um certo isolamento na Casa, que te levaria a trabalhar em lugares não condizentes com a tua capacidade e, quero crer, com o próprio enfoque político.

       Muitos anos depois, na década dos oitenta, o ambiente se desanuviara, e a conversa no bar Monteiro, poderia desembocar para questões políticas. Eras leitor do Globo e da Veja, e no domingo compravas a Folha de S.Paulo, por causa do suplemento Mais!.Nas discussões, te pilhava amiúde em posições que chamaria de liberais-conservadoras, em que estavam mui presentes as posturas da tua geração, inclusive nos pendores pró-americanos. Na verdade, como verificaria após a virada do milênio, vias com o ceticismo de longos anos de diplomacia de alinhamento automático quaisquer iniciativas que se propusessem contrariar a potência hegemônica. Assim, sacudias a cabeça, atavicamente incréu, diante das campanhas anti-Alca, que eu e o Rezende defendíamos com vigor. Não descreio do teu patriotismo, mas provinhas de um tempo em que a contestação às iniciativas de Washington seria impensável em determinados círculos.

        Tampouco entendias como o contemporâneo Rezende se abalançasse agora a aventuras contra força que, a teu juízo, esmagaria qualquer resistência. A todas as veleidades de independência olhavas com vistas cansadas e enfastiadas, de quem havia por desarrazoadas e quixotescas essas vãs empreitadas de arrostar o poderio estadunidense.

         Comigo parecias mais paciente, como se atribuísses à minha relativa juventude o motivo de tais despropósitos. Já do Rezende, professor universitário e simpatizante do denominado PT igrejeiro, aceitavas a custo as extravagâncias, que a teu ver, acredito, não condiziam com alguém da sua experiência.

        Na última eleição presidencial em que votaste – a de outubro de 2002 – a tua declarada hesitação quanto à eventual inclinação pela candidatura de Lula poderia talvez fazer pensar a um estranho ser prenúncio alvissareiro de sufrágio para o candidato do P.T.  Conhecendo-te bem, não colhi essa impressão. Pareceu-me, em verdade, que a tua suposta dúvida seria simples aceno em homenagem à manifesta maioria então existente em favor de Luiz Inácio Lula da Silva.

        Toda a tua a formação e, em especial, a exigência do nível universitário, tornava assaz improvável o voto para o ex-operário metalúrgico, que abandonara os bancos escolares após o quarto ano primário. Assim, no segundo turno, na hora da decisão, votarias em José Serra, o contendor que já entrava derrotado.

        E à medida que irrompiam os escândalos na presidência de Lula, cresceram em estridência as tuas críticas, que lançavas com mal disfarçado gosto contra o pobre Rezende. A mim, tomavas o meu silêncio como tácita aprovação das tuas verrinas. Embalado pelo que lias na revista Veja e nas páginas de O Globo, encantado pelo desconcerto do Rezende, e contando com o meu presumido silente apoio, davas rédea solta à veemência das invectivas contra o governante que fora eleito sem o teu voto, a ponto de levares um pouco além dos limites da conveniência o ardor tribunício.

        Então te ocorria o que sói acontecer aos pelotões de cavalaria que se adentram demasiado nas hostes inimigas. Esmorecido o ímpeto, as palavras perdiam a força, envoltas e quase abafadas pela persistência de um silêncio que do embaraço passara à mudez sisuda e contrafeita, reservada àqueles que se enlearam nos próprios excessos.

        Em geral, sugeria eu que mudássemos de assunto. A  álacre concordância de Rezende selava o destino do teu estouvamento. E se mal participavas da discussão do novo tema, seria menos por falto de energia do que por remoer as razões da inopinada peripécia.

        Se me permites, gostaria de levantar outro tópico, em que tenho batalhado para chegar a um juízo acerca da tua postura. Longe de mim submeter-te  a uma  espécie de sabatina ideológica. Hás de convir, no entanto, que é oportuno esclarecer alguns pontos, mormente aqueles que, à primeira vista, semelham contradizer personalidade voltada para o progresso da ciência e a um consequente maior compromisso com a expansão do saber humano.

        Por um lado, foste homem preocupado em aprofundar o conhecimento no que concerne à evolução da própria espécie. Nos teus últimos anos, serias leitor incansável de livros e publicações dedicados a tal estudo. Quantas vezes não te vi sobraçando volumes a respeito do tema ! E, não obstante, apenas uma nesga dessa ilustração a colocaste no papel, ao incluir a matéria em um dos excursos da tua obra sobre o ‘Animal Político’.

        Já transposto o milênio e, portanto, entrado na lenta descida para o Hades, voltarias a exercer aquele papel propedêutico que assinalara a fase quitenha. Às minhas instâncias, me recomendaste a aquisição pela Leonardo da Vinci de um livro que me daria visão geral em disciplina da qual eras um especialista. Terá sido a derradeira publicação que, informado por tua prévia experiência, me seria dada ocasião de acrescentar à minha biblioteca.

       Como se pode conciliar esse empenho diuturno, esse interesse na progressão do homem, em uma palavra, essa vocação para a ciência – que se refletia, de resto, na ðïëõìáèßá[4] das estantes do teu gabinete de estudo – como se pode conciliar tudo isso, repito, com a negação que diria quase raivosa do alcance da obra de Sigmund Freud, e de tudo aquilo que se reportasse à psicanálise ?

       Vamos por partes. Refutavas tanto Marx, quanto Freud. A tua oposição a essas duas personalidades tinha algo de visceral. Tenho a impressão de que, para ti, a recusa de um pressupunha igualmente a do outro, como se fossem farinha do mesmo saco. Francamente, não creio que hajas lido de forma sistemática a qualquer um dos dois pensadores. Talvez o teu trato dos escritos de Marx se tenha limitado a textos de opositores do marxismo, em que as teses do movimento fossem supostamente rebatidas e invalidadas. No que tange a Freud, tampouco acredito que a tua posição contrária haja demandado a leitura da Interpretação do Sonhos e de outras obras mestras do criador da psicanálise. Ao invés do cuidado que dispensavas ao exame, v.g., da Política de Aristóteles e a trabalhos filosóficos, os teus argumentos contra Freud me pareciam demasiado esquemáticos, partilhando das férreas, abrangentes e incisivas certezas com que em geral se vestem os preconceitos.

        Quando afloravam temas relativos ao doutor da Berggasse 19, a tua reação diferia radicalmente da postura costumeira, que prezava o argumento lógico. Se podias expor de modo acalorado, não enjeitavas o aporte da razão. Ora, diante de Freud reagias com os estrídulos, veementes clamores dos que se crêem ameaçados. Temeria acaso a rigidez da tua moral oitocentista os insidiosos desafios do divã ? Eis uma suspeita que sempre me acompanhou ao deparar as tuas desabridas objurgatórias contra a prática da psicanálise. Por vezes, desmerecias de alguém como T.R. (x) com um muxoxo de escárnio por referir o tratamento com a naturalidade devida. Podia-se jurar que nessas circunstâncias não julgavas necessário mais explicitar  a crítica, visto que supunhas pensarem do mesmo modo os demais à tua volta.

        Porque não te contraditei ? Não terá sido decerto por temor reverencial. Desde cedo, com o respeito que a amizade requer, defendi pontos de vista que sabia não compartilhares. Em outras oportunidades, como na censura a posições pequeno-burguesas, rocei os limites do tolerável. Calei-me, a despeito de não concordar com o ranço filisteu dos motejos lançados contra a psicanalistas e pacientes, por reputar ser demasiado tarde para convencer-te de quão equivocado estavas.

        Terás crescido em ambiente no qual a prática psicanalítica era associada ao desaire  antes incorrido por quem consultasse um alienista. As tuas inseguranças, preferiste confrontá-las com a carapaça de alegados preceitos morais, que te ajudariam a não questionar atitudes delas decorrentes. Dessarte, a tua hiperproteção de Therezinha, que justificacas à conta da surdez, foi sempre, e por largo consenso, interpretada como consequência do teu ciúme. Mesmo em Quito, farias questão de receber as poucas delegações que por lá passavam em restaurante de hotel. A voz corrente, que entre risotas se ouvia, não fazia segredo do real motivo do isolamento em que mantinhas a tua mulher. A esse respeito, e em face dos precedentes, constituíu objeto de espanto que o casal houvesse ido à nossa casa da Seis de Diciembre para conosco comemorar – en petit comité, é verdade – o Ano Novo de 1967.

        O apelo à rigidez no comportamento terá sido a maneira escolhida para lidar com essa óbvia insegurança. Tendo presentes a tua inteligência e a manifesta impropriedade da ‘solução’ encontrada, só posso atribuir à emoção a reação instintiva de tentar desacreditar o instrumento – no caso, a psicanálise – que te ajudaria a entender as verdadeiras razões de tua conduta. Configurada como ‘ameaça’, para melhor abafar as dúvidas cumpria rotular a prática com os traços preconceituosos do ‘feio’ e do ‘esquisito’. Por outro lado, a tua extrema reserva quanto à vida privada – de que a ocultação da data do teu aniversário ao amigo Rezende é exemplo – sempre me desencorajaria de levantar  questões conexas a esse campo.

       Internalizada a rejeição à psicanálise e ao seu criador, desenvolveste todo um conjunto de posturas em que essa contestação se estruturava e se expressava. Diante da  discussão entre ciência e arte, isso te bastava para descer inda mais na apreciação da essência e das características deste exercício terapêutico. Se depreciavas a prática, para ti a decorrência lógica seria igualmente desmerecer de quem a ela recorresse, e nesse sentido, a tua tua referência habitual seria a T.R.(x) sempre dentro de contexto de suposto desdouro.

       Ora, devo confessar-te que não raro ouvia constrangido a essas observações. Surpreendia-me que alguém da tua cultura pudesse verbalizar tais prejuízos, encontradiços em gente de baixa extração. Continha-me, por vezes a custo; e só me omitia pela certeza de que de nada adiantaria procurar mostrar-te o erro, por tão engessado o comportamento, e tão entranhada a convicção. Se me atrevesse a contradizer-te, a par do esforço inútil, apenas poderia aspirar à tua desconfiança.

        Se hoje me decido a mencionar o delicado tópico, assim procedo em função do que me propus já no primeiro parágrafo da primeira carta escrita não muito depois de que baixaras à sepultura. É de esperar-se que lá onde estiveres tenhas visão mais serena e, por conseguinte, mais destacada das contingências terrenas.

        Nessas páginas post mortem, o que foi um desejo de prolongar diálogo de amigos me terá conduzido a relembrar-te facetas de tua personalidade e conduta. Em obediência à injunção da veracidade, de traçar o quadro na sua inteireza, warts and all [5], se me afigurou necessário de ti apresentar um punhado de aspectos em que não luzes com o consueto brilho. A hagiografia nunca esteve entre os teus gêneros preferidos. E nada mais falso e sensaborão do que os retratos edulcorados pelos solícitos retoques de quem se empenha em deles retirar uma das características da condição humana.      

        Isto posto, é hora de trazer a lume outras vistas mais condizentes com o Pedro, de cuja prática e convívio tanto lamento a brusca interrupção.

       Durante a tua existência, malgrado o saber e a capacidade, que eu saiba só publicaste um artigo, a que já me referi. Sem embargo, não despejavas no próximo a eventual irritação em ver outros alcançarem nomeada a que poderias com justiça pretender. Assim, não só me incentivavas a publicar meus trabalhos, senão cuidavas de obtê-los, no caso de não me ser possível proporcionar-te uma cópia.

       Lembro-me do artigo em Vozes sobre a Revolução Guatemalteca, que lograste comprar em Petrópolis, e do meu estudo sobre a política externa dos Estados Unidos, de que leste com presteza as 180 páginas. Os teus comentários, cuja franqueza conhecia, os recebia com prazerosa expectativa. Não ignorava que apontarias as lacunas e os defeitos, e não te enredarias em elogios, se não os julgasses cabíveis. Tinha gosto em conversar contigo acerca de minhas produções, pois o bom leitor será sempre bem-vindo para quem se aventura a ter impressa a própria palavra. De nada serve a inane lisonja, que para mim está no mesmo plano do silêncio dos preguiçosos e indiferentes.Com todas as escusas para dissimular a falta de vontade na raiz do fato de não haver lido, tu, ao invés, te abalaste ao centro para desencavar a publicação que estampara o trabalho do amigo.

       Compreendi igualmente o destempero na tua reação diante da manifesta não-leitura  pelo velho companheiro dos bancos acadêmicos dos diversos fascículos que nos distribuías, na fase derradeira da elaboração do livro “Crítica do Animal Político – O significado de uma expressão sem sentido”. Concentraras na monografia muito mais do que te propuseras ao encetar-lhe a preparação. Mesmo sem entrar nos óbvios motivos que te induziam a assim proceder, desejavas recolher a opinião e os comentários dos teus poucos leitores iniciais, inda que não tivesses dúvida acerca da qualidade da obra. O escritor, por melhor que seja, jamais se sentirá realizado diante da calada passividade da gaveta. Daí, as sentidas censuras, que presenciei, a quem não encontrou tempo para perlustrar-lhe as páginas, como demonstrara, ao longo de tantos meses, a absoluta ausência de qualquer comentário ou observação crítica.

       Se te faço reparos, é importante não esquecer o quanto as nossas opiniões convergiam. Acerca das matérias as mais díspares, brotava a nossa concordância com a espontaneidade das águas em fontes de montanha. Dessa harmonia, que coloca em contexto adequado as esporádicas discrepâncias, darei exemplo no campo das apreciações subjetivas sobre personalidades de nossa faixa de conhecimento.

        Dessarte, se me afigura a calhar o que transcrevo a seguir. Bastava aparecer na imprensa mais uma contribuição de pessoa já mencionada nessas laudas, e não tardávamos em cruzar nossas apreciações.

        “ Leste ontem o artigo de ... ?”

        “ Li. O quê V. achou ?”

        “ Hmmm...”

        “ Eu também.”

        Em geral, Pedro me pedia que fosse mais específico. As reservas feitas tinham a ver com a double allegiance do autor, que gostava de parecer uma coisa, quando na verdade advogava uma outra. Como o conhecíamos bem, não era difícil desconstruir o seu arrazoado.

       “ Então não gostaste ?”

       “ É complicado... mas acredito que desta forma se pode resumir a minha impressão.”

       “ Algo lá não me cheira bem...”

       “ É, meu velho... Você aí disse tudo.”

       Pouco depois a chamada se concluía. Os diálogos, à primeira vista crípticos, na verdade eram a condensação de opiniões há muito discutidas e esclarecidas. Como as restrições fossem a condicionantes já sabidas, muita vez não se sentia a necessidade de explicitá-las.

      

       Meu amigo Pedro,  

     

         por primeira vez ao acercar-me do fecho da correspondência – e não posso servir-me das fórmulas clássicas  vale  ou  hññùóï [6], porque poderias atribuí-las a humor um tanto macabro – preocupa-me não o que vá dizer agora, mas o súbito vazio do que tenciono escrever na próxima carta. Se esse vazio difere daquele a que me reportei no primeiro parágrafo desta, pois abarca a uma área tão imprecisa, quanto extensa, de algum modo os dois se confundem e mutuamente se reforçam.

       Como para ti o tempo nada mais significa, quem sabe não hás de notar se o espaço a intermediá-las for maior.

      Com a funda estima de quem se empenha, apesar de tudo, em reviver o passado, nesta empresa sem esperança, que insanamente acredita não só em poder ouvir o pétreo silêncio, senão com ele dialogar,



[1]  A Deusa Fortuna
[2] à caça às bruxas
[3] Divisão de Segurança e Informação
[4] erudição, polimatia
[5] com verrugas e tudo
[6] saúde (fechos de carta em latim e grego clássico)   
(x) Iniciais pseudônimas.                                                                                                                                                                                                                            
                                                                                                                                             
 
                                    

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