quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Revolução das Ruas

                                           
         A boa gente brasileira estava cansada da arrogância dos poderosos e da insolência dos corruptos. Se a empáfia é a quase perene túnica do mando, já o atrevimento dos que se apropriam da coisa pública é mais fenômeno de decadência ou de fases de transição, em que menosprezam a ética, como se os seus valores fossem coisa do passado.
         Quando um punhado de jovens se reuniu na Paulicéia e resolveu lançar as passeatas do passe livre, decerto não se dera conta de que há muito passara dos limites o cansaço e a insatisfação da sociedade civil, submetida à prepotência das autoridades eleitas e de seus esbirros, e a décadas de exposição de afrontosa desvergonha em Brasília e em outras aras do mando.
         Sem embargo, a insensibilidade das autoridades, acostumadas a prevalecer, dentro da atmosfera da inflação trazida por Dilma Rousseff, se acreditou inatacável e irreversível ao dispor, como se fora coisa de somenos, o aumento geral nas tarifas dos transportes.
        Dentro do espírito falou e está falado, os palácios de São Paulo e Rio de Janeiro determinaram o incremento nas passagens. Para quem não está habituado a tal tipo de condução, lhes pareceu fácil aceder às exigências das empresas do ramo. Alienados por natureza, desconheceram da indignação do público, não dando tento às reclamações tanto o letrado novel prefeito, quanto o experiente governador, chegando a sequer dignar-se receber representações dos usuários.
        A falta de sensibilidade das autoridades para os limites da paciência do Povo, com o passar do tempo e a ausência de reações mais entranhadas e abrangentes para a sucessão de abusos e escândalos, confunde a calmaria que precede à borrasca, como se estivessem a fruir de situação permanente, em que o desânimo e a descoordenação fossem condições perenes, e não enganosas pausas que, na verdade, não passam de vestíbulos de grandes tempestades.
         Com a explosão das ruas – a que a boçal e truculenta reação do braço armado da governança estadual julgara possível sufocar com a letal hipocrisia das balas de borracha e as pretensas armas de efeito moral, spray de pimenta, bombas lacrimogêneas etc. De repente, o Poder, que se julga eterno, mas é somente expressão da vontade do Povo Soberano, se viu diante da terrível ameaça da cólera popular. De súbito, este Poder que, pelo seu comportamento de escárnio, com profusão de escândalos no Executivo, Legislativo e Judiciário, dera indicações sobejas de reputar-se acima do Bem e sobretudo do Mal, viu surgir por todos esses Brasis, a começar por São Paulo e Rio de Janeiro, as expressões da indignação e da condenação ao comportamento da gente do Palácio.
        É quase ridículo que a suprema autoridade reclame da circunstância de não ter sido alertada pela polícia secreta – não é este o seu nome, mas, Excelências, chegamos aos tempos em que os eufemismos passam de moda – da insatisfação que grassava na planície ! O seu despreparo é consequência da atitude de quem a colocou no mando, pois Luiz Inácio Lula da Silva ao impingi-la à massa, pensou sobretudo no próprio interesse e num retorno futuro.
        Tampouco deve surpreender que a reação da Presidenta tenha beirado a inépcia. A sua proposta de Constituinte se esboroou no dia seguinte. A máxima autoridade deve ter respeito tanto ao Povo, quanto às suas propostas.  Não deve responder de afogadilho a grandes desafios. Ninguém pode valer-se de uma experiência que não tem, e muito menos em situações extremas, como a presente, que se configura como o maior repto à autoridade constituída.
        Saber valer-se – mas não aproveitar-se – de tais momentos – que costumam ser raros – será atributo dos verdadeiros líderes, aqueles que sabem unir ousadia e prudência, experiência e também argúcia.  Por decisão de outrem, estava disposto que no Planalto não se encontraria alguém em condições de responder ao desafio.
       Vamos continuar avançando, empurrados pelo Povo Soberano? Diante da indignação popular e da vontade das ruas, iniciativas afrontosas como a Pec-37 se desfizeram com a quase unanimidade que o medo impôs à Câmara de Deputados que anteriormente se diziam prestes a votar pela anulação de uma das principais conquistas da Constituição Cidadã.
      Igualmente, o voto encapuçado que tem protegido tantos corruptos e assemelhados semelha encaminhado para a lata de lixo da História. Agora, ao que tudo indica, os que atentarem contra o decoro serão julgados por juízes conhecidos, com as identidades bem à mostra.
      Por quanto tempo soprarão os ventos da Justiça? Por quanto tempo os corruptos se esconderão e temerão o castigo? Pelo atabalhoamento da resposta, salvo prova em contrário, corre-se o risco de que a procela não provoque mudanças permanentes, e que em breve tudo volte a ser como dantes no quartel de Abrantes.

 

( Fontes subsidiárias:  O Globo, Folha de S. Paulo )    

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