domingo, 19 de outubro de 2014

Trincheiras da Liberdade B 9

                      

Feitos e dissabores de gospodin Putin



        Muito se tem falado da postura machista de Vladimir V. Putin e de seu vezo de aparecer a cavalo, com o torso descoberto, ou de prestar-se a desforços atléticos (que podem, por vezes, levá-lo ao hospital).

         Já foi referido neste blog que se discerne nesse comportamento imitação do ditador fascista italiano, Benito Mussolini, que apreciava ser filmado, v.g. em um campo de trigo, colhendo as espigas de torso nu. Também não era avesso a cavalgar um cavalo branco, com o mesmo tórax à mostra.

         Por sua vez, o Primeiro Ministro australiano, Tim Abott, que será o anfitrião na próxima reunião do grupo dos 20, prometeu confrontar o presidente russo nessa oportunidade, a respeito do desastre com a aeronave da Malaysian Airlines, causado por mísseis russos operados por rebeldes na Ucrânia oriental.

          Conforme assinala a CNN, Putin tem diminuído as suas idas ao exterior depois da anexação da Crimeia. Esse ato imperialista criou-lhe atmosfera internacional desfavorável, trazendo de volta ecos e lembranças de antigas agressões, como aquelas que antecederam a segunda guerra mundial.

           Por isso Putin tem espaçado as suas viagens. Sabe que pode ter pela frente gente que lhe cobre satisfações do que está fazendo contra a Ucrânia. A visão negativa que projeta pode ser igualmente colhida no comentário da pré-candidata presidencial Hillary Clinton: “vejo um frio calculador e antigo agente da KGB, que está disposto a enriquecer a si próprio e a seus cupinchas”.

 

Os  Protestos de Hong Kong

 

            Conforme se tem noticiado, o movimento de protesto em Hong Kong é um reflexo da origem dessa região administrativa chinesa. Dentro das contradições da História, de um antigo ato de nu imperialismo – a época em que as potências ocidentais na prática se partilharam as zonas de influência no Império chinês – se passa agora a uma singular transformação.

             Quando o Reino Unido firmou o documento em que o velho enclave de Hong Kong voltava ao domínio chinês (1997),  uma das condições estabelecidas era o respeito por Beijing das peculiaridades do território, e notadamente de sua liberdade, que tanto incomoda ao regime do burocratismo autoritário, que sucedeu a Deng Xiaoping.

              Como se sabe, Deng preferiu a versão conservadora de Li Peng, ao invés da abertura democrática de Zhao Ziyang (que morreu em prisão domiciliar). Sob a mancha do massacre de 4 de junho de 1989, na praça de Tiananmen, o ancião Deng estendeu a ditadura do Partido Comunista, em regime de capitalismo de estado. A corrupção é a única liberdade que se permitem os gerarcas partidários, e não há nada mais definidor de sua pobreza ideológica que a circunstância de ser o único regime na Terra que mantém em masmorra o  Prêmio Nobel Liu Xiaobo.

               Com toda a fraqueza do regime ditatorial, Beijing não poderá concordar com eleição por sufrágio universal em 2017 do líder da região administrativa de Hong Kong. Tal pleito só é aceitável para o poder federal, se lhe for possível esvaziar a eleição, impondo a lista de candidatos.

               Daí a luta que se assiste em Hong Kong. Se as multidões iniciais não mais se vêem,  o confronto continua com algumas centenas ou mesmo um milhar de manifestantes.

                Contra os vários instrumentos da repressão – bastões, gás de pimenta, e congêneres – as forças da dita ordem procuram ‘limpar’ praças e logradouros da antiga colônia para o agrado do Líder C.Y. Leung. Como Hong Kong funciona como uma espécie de janela democrática para o Império do Meio, podemos ver, por especial cortesia do celular e do jornalismo ocidental, que as trincheiras da liberdade têm sobre a força nua dos brucutus da polícia do território a vantagem da inteligência e de sua irmã, a inventiva. Não é que esses ridículos guarda-chuvas, tantas vezes inúteis nos vendavais e nas tempestades, podem ser adversários temíveis para a tecnologia macia da repressão?

                    É sem dúvida visão equalizadora a sua súbita abertura, tapando as vistas dos policiais que pensam avançar, enquanto estorvam e atrapalham as formações da repressão. É uma luta renhida, essa das chamadas forças da ordem contra os magotes libertários. Aquelas, bem comandadas, armadas e nutridas. Estas magras, irrequietas e imprevisíveis, são guerreiras da liberdade.

                    Contra elas a batalha será sempre desigual. Mas, cuidado, eis que na disparidade está também a sua força.

                     E por isso enquanto o mundo for mundo, o Palácio as temerá sempre.        

    

(Fonte:  CNN)

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