quinta-feira, 29 de maio de 2014

É só da Ucrânia o sangue derramado ?

                       

       O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, costuma inculpar os ucranianos, como se mal agissem ao defenderem sua terra. Tampouco aprova combaterem as ações dos ditos ‘separatistas’, que, por artes misteriosas, aparecem armados de mísseis do tipo Stinger (portáteis e terra-ar).

       Na verdade, unidades formadas por agentes ‘com negros uniformes descaracterizados’, se ‘apareceram’ na operação que levou à anexação da Crimeia, surgem agora nas regiões do Leste ucraniano.

       Depois de assinar o último acordo de Genebra – que não foi respeitado pelo Kremlin sequer por um dia -, Lavrov ora recomenda moderação à Ucrânia, suspeita de empenhar-se na defesa de sua terra.

       O falso enigma do apoio do Leste ucraniano à Rússia, em realidade é conto encomendado pelo governo de gospodin Vladimir Putin. Há uma minoria de ex-combatentes  e da classe operária, que deseja a união com Moscou, por ser saudosista da antiga URSS. A maioria da população, no entanto, deseja permanecer na Ucrânia, se possível com mais direitos federais. Conforme já foi aqui referido, essa fratura no leste ficou bem clara na última eleição. Se a tendência à reunião com a mãe-russa fosse realmente majoritária, ela prescindiria da intimidação. Para evitar que a participação na recente eleição presidencial desmentisse a patranha de que o Leste aspira ser anexado por Moscou, não careceria de impedir o pleito pelo fechamento das seções eleitorais. Assim procedendo, por temerem os resultados das urnas, os separatistas mostraram a própria fraqueza.

        O candidato-eleito Petro Poroshenko pode esperar tudo do Kremlin, menos boa fé. Assim como Herr Hitler não se negava a reunir-se com os presidentes dos países que pretendia anexar em seguida, tampouco Vladimir Putin e seu eficiente Ministro Lavrov deixarão de mostrar-se corteses e dispostos a conversar.

        Moscou procura mostrar assim bom-comportamento, para evitar ulteriores sanções do Ocidente.  O temor de Putin, nesse sentido, terá mais presente o Congresso americano, eis que bem conhece quanta água para o seu moinho pode trazer-lhe a moderação de Barack Obama.

        Em área oriental, as forças separatistas controlam o aeroporto de Slaviansk, que se situa entre Kharkov, ao norte, e Donetsk que está no sul próximo do mar de Azov. Tentativa do exército ucraniano de retomá-lo foi rechaçada, pela derrubada de helicóptero através de míssil tipo Stinger (terra-ar e portátil), com a perda de catorze militares, inclusive do general  Serhiy Kulchytskiy.

        Os rebeldes também voltaram a sequestrar quatro monitores da  Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), de nacionalidade turca, suíça, dinamarquesa e estoniana.  Pelo visto, os observadores da OSCE (de que a Rússia é membro) incomodam as forças ditas pro-Rússia.

        Aliás, a batalha pela posse do aeroporto de Donetsk (vencida pelo exército da Ucrânia) contribuíu para levantar um pouco mais o véu sobre a real composição das forças rebeldes. Nas cerca de 50 baixas sofridas pelos ‘separatistas’ havia 33 cadáveres de russos que serão repatriados.  

         Se os óbitos de cidadãos russos aumentarem, a sua volta ao solo russo, além de desvendar a lenda do levante espontâneo e autóctone  na Ucrânia, pode arranhar a popularidade do presidente de todas as Rússias.  Se as aventuras além-fronteira acarretam a perda de muitos nacionais, aumentarão as perguntas dos compatriotas de Vladimir Putin acerca da serventia e eventuais más consequências das ilusões do imperialismo e do irredentismo, que não são tão anódinas e indolores quanto assegura a alegre cobertura da mídia moscovita...

 

(Fonte: The New York Times)    

       

 

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