sábado, 24 de maio de 2014

CIDADE NUA VII

                       
                                         A   Dama do Elevador
 
                                                       
                                                     IV
 
 

                A euforia do primeiro instante logo se evaporou. Não devia dar muito peso à circunstância de que tivesse ficado com o bilhetinho. Afinal, sua audácia a teria surpreendido e talvez nem atinasse com o fato de não restituí-lo.

                Sendo o marido quem era, o impulso natural seria o de desvencilhar-se do papel.

                 De toda maneira, de nada servia ficar a desfolhar aquele bem-me-quer. A resposta, se acaso viesse, o surpreenderia sempre.

                 Pois estava convencido de que Yvone só se mexeria se quisesse entrar pra valer naquela dança arriscada.

 
                                                         V
 

                  No dia seguinte, ao regressar da repartição, deu com o Eurípides no saguão do prédio. Se bem que já tivessem topado várias vezes, nunca fizera qualquer aceno – sequer um meneio de cabeça – e Albano não tinha outra saída senão agir da mesma forma.

                  Desde os primeiros tempos, procurara mostrar um mínimo de civilidade com os todos os condôminos. Haveria sempre os mais arredios, mas com o seu jeitão simples vencera as resistências. Diga-se que não fazia grandes esforços, nem saía do que julgava  atitude sóbria, sem mesuras nem exageros. E, assim, ao cabo de um par de meses, a todos conhecia, ou pelo menos cumprimentava.

                A única exceção era o Eurípedes, que continuava a tratá-lo como se fosse um móvel. Ainda que Albano se esforçasse em ignorar a rudeza, o passar dos meses tendia a exacerbá-la, a ponto de que os circunstantes começassem a se perguntar que diabos havia entre os dois.

               Albano chegou a perguntar a si próprio se a atitude do marido teria algo a ver com as suas tentativas de aproximar-se de Yvone. Logo, no entanto, afastou a hipótese, porque lhe pareceu evidente que um tipo violento como aquele não ficaria, se soubesse de qualquer coisa, na surda mas inofensiva grosseria.

                                                           *

               “Será que dá pra gente conversar?”

               Albano não acreditou no que estava ouvindo. Fazia pelo menos duas semanas do lance no elevador, e até aquele instante no meio da tarde, ele não recebera qualquer ligação de Yvone.

               “Claro... Qual é a tua idéia?”

               “Amanhã, a minha aula vai terminar mais cedo... Assim, nós podemos nos encontrar num barzinho e bater um papo...”

                Embora estranhasse o tom da voz, que não diferia pela naturalidade de um convite para jovem amiga, ele preferiu não dar-se por achado.

               “E aonde será o nosso encontro?”

                Tinha uma vaga noção da localização da rua. Não possuía, contudo, a mais mínima idéia onde ficava o tal bar.

               Mas ela parecia do gênero prático, a que não faltam as sinalizações indispensáveis.

                Enquanto falava, Albano anotava o que podia. Não seria, porém, a dificuldade de orientar-se em bairro de que tinha  vago conhecimento que iria impedi-lo de vê-la.

              “Falta me dar a hora...”

              “Três e meia está bem para Você?”  

               Três e meia! Que horário é esse?, pensou ele. Como é que se arranjaria para marcar encontro no meio do expediente da tarde?...

               “Essa hora é meio complicada para mim... mas acho que posso dar um jeito...”   

              “Então, amanhã nos vemos!”, disse ela, como se não houvesse qualquer problema.

               E antes que ele pudesse aludir a possíveis dificuldades, Yvone encerrou a ligação, com um tchau!

                                                           *

               Preferiu deixar para o dia seguinte as gestões junto à chefia. Pretextaria urgência, para que lhe dessem a permissão. Pela hora e a distância do destino, tinha que pedir para sair mais cedo. E a coisa se enrolava porque não haveria condição de  retorno. Ainda bem que o expediente estava em dia. Mas lidava com burocratas, e não há nada que um chefe de seção mais aprecie que valorizar a própria autoridade.

                                                           *

               As mentiras como justificativa têm de ser simples e banais. 

                “Tenho de ir a um cartório para validar procuração.”

                “É aqui perto?”

                 “Não, é longe.”

                 “Longe, onde ?”   

                 “No Meier.”

                 Sabia que o Dr.Américo gostava de valorizar-se. Também sabia que tinha de conformar-se se não queria problemas no futuro.

                 “Está bem, Albano. Mas vê se não abusa.”

                 “Obrigado, Dr. Américo. Só pedi a licença, porque não havia outro jeito.”

                  Afastou-se com um sorriso. Por dentro, a raiva de ter de pedinchar para aquele careta.

                                                              
  

                                                           V I

 

                 No caminho, irritado com o encontro em hora de trabalho, e ainda por cima fora de mão, se sente confuso. Antes desejara muito a oportunidade de estar com Yvone. Ao enfrentar a má-vontade da chefia na repartição, além das incertezas da procura em bairro de que tem apenas vago conhecimento, Albano se pergunta se vale a pena tanto esforço.

                  Entrementes, perguntando aqui e ali, acaba dando com alguém que lhe passa a orientação correta. E quem o visse sentiria o andar mais seguro, com a certeza de que, por fim, está no rumo certo.                

                  Assim, quando deu afinal com o bar, se descobre mais sereno e seguro de si. Para sua surpresa, tanto as mesinhas na calçada, quanto na sala interna estão quase todas tomadas, e o vozerio de muitas conversas simultâneas lhe recorda a ambiência dos bares de Ipanema e Leblon. Muito povo deitando papo em hora de expediente...

                 Não desgosta, porém, do que vê, e talvez influenciado pelo espírito carioca, o olhar não se afoba na busca de Yvone.

                 Num canto e sozinha, lá está ela. Sentada em mesinha espremida pelas rodas à volta, ei-la que lhe manda um tímido aceno.

               Ao avançar no seu encontro, sente que tudo o mais virou cenário para ele. Esgueirando-se entre as mesas, o barulho das muitas vozes quase não o incomoda. Não há mais lugar para dúvidas e incertezas. Ao vê-la tão próxima, seus olhos queimam de alegria.

                Há muitas conversas à volta, mas para ele não passam de som de tarde carioca, espécie de música de fundo de uma estória de vida. Por isso, esquece a zoeira, a nuvem invisível de palavras, nomes e risadas. Com a força que lhe vem da graça de um sorriso, ainda meio sem-jeito, contorna as nesgas de espaço que teimam em separá-lo da jovem.

                Começa como cena lateral, desimportante para os demais. 

                Sem saber da razão, Yvone se põe de pé. Sem hesitar, Albano termina a caminhada com longo abraço. Enquanto a enlaça pela cintura, as meninas de seus olhos dançam a ciranda. Na pressa do amor, lábios se procuram e se dão. Na mútua entrega, os abafados murmúrios gritam para os demais. E o que pensam periférico, vira um caso à parte.

                 Ao redor, as vistas acesas os espiam divertidas. Seria como que no recinto tão  apertado que se derrama pela calçada, tanto amor fale mais alto que todas as conversas juntas. É grito diferente que não participa da zoada da tarde e dos papos jogados fora. O comportamento do casalzinho é a vinheta que enfeita, por momentos, a monotonia do quotidiano, mesmo nos encontros de bar. Assim, alguns gaiatos batem palmas, e outros dão vivas. Mas tudo numa boa, antes que a dupla vá inserir o próprio nicho de felicidade na rotina da tarde.

               Como estão noutra, os dois se deixam resvalar para espaços que estão muito além. De que, não sabem. Só que é mundo inacessível ao comum dos mortais.   Cercados pelo bulício, deixam que o chamego venha junto. Depois diriam que tudo acontecera depressa demais. Mas a dizer verdade, nada acontecera. Fulminados pelo amor, jogaram fora a tarde.

                Ou será que não?

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