sexta-feira, 23 de maio de 2014

CIDADE NUA VII


                        
    A Dama do Elevador

 
 
        Ao ouvir Albano falar, alguém poderia até imaginar que estivesse contente com a vida que levava. Ainda não entrara nos trinta, e quem o conhecesse mal, pensaria  que tudo andasse bem com ele.

         Depois de dança de empregos, acabara conseguindo trabalho que por ser em órgão público lhe dava segurança, mas muito pouco prometia em termos de melhoras radicais na existência.

         Via o chefe da repartição e se perguntava se acabaria daquele modo. Não era perspectiva das mais alentadoras, mas sendo comodista, procurava não ruminar demasiado no assunto. Embora não se esforçasse, pensava com os seus botões que de algum modo encontraria saída para uma vida melhor, e decerto em ambiente não tão medíocre.

         A única vantagem estaria nas poucas exigências da colocação. Contavam-se nos dedos os dias com maior acúmulo de expediente. Se a modorra prevalecia, e bastante espaçados os picos de atividade, por que se queixar? Havia trabalhos piores...

         Por isso, passava boa parte da jornada no celular, combinando programas para a noite. Assim procedia, para evitar o disse-me-disse das vizinhas de mesa – sobretudo uma baranga cuja especialidade parecia ser intrometer-se na vida alheia, de preferência sentimental. Como ela fosse mal-intencionada e boa de ouvido, ainda por cima, Albano se servia do SMS na armação de seus esquemas.

         Dessa maneira, não dava pasto para fofocas, se bem que camuflasse as suas tentativas igualmente com o objetivo de ocultar a pobreza dos contatos em matéria feminina. Como todo baixote, nas saídas espigava-se o mais que podia, além de empostar a voz e aparentar jeitão de quem se julga em condições de levar a melhor em tudo.

         Não gostou nada quando uma conhecida – com quem tentara ficar – não só o rejeitara, mas se atrevera a zombar dele, a ponto de chamá-lo de projeto de lei de gerson. Convenhamos, nosso herói, a despeito da pretensão, não fazia exatamente o tipo de galã, mesmo no subúrbio.

         Trocando em miúdos, Albano não se sentia como alguém realizado, e muito menos na esfera sentimental. Vindo do Nordeste, não tinha família no Rio, excetuada  prima com quem, por ser casada e bem mais velha, só se comunicava em datas formais.

         Como não era dado à leitura, a sua existência não lhe trazia muitos prazeres e satisfações, por não ter turma com que pudesse preencher o seu tempo livre. Se não lhe faltassem conhecidos, na verdade só tinha um amigo mais íntimo.

           Essa relação surgira mais por iniciativa de João do que dele próprio. Desconfiado por natureza, não se abria e nem costumava tratar de assuntos pessoais. Dada a atmosfera de solidão que o cercava, com pequenos gestos e atenções fazia por manter o conhecimento. Por vezes até sentia vontade de cultivá-lo mais, embora o natural arredio não tardasse em prevalecer.

         Malgrado não tivesse pendores intelectuais, por vezes o vazio em que vivia – longe do clã nordestino cujo valor passara a prezar, e com o disparatado grupo com que se relacionara, mais cupinchas e colegas do que amigos – sentia pesar mais forte, a ponto de meter-se em sala de cinema de bairro, querendo manter à distância, inda que por um punhado de horas a funda solidão que não o largava. E se os personagens não costumam sair da tela, como na Rosa Púrpura de Woody Allen,[1] ao voltar à rua redescobriria a solitude, de que imaginara desvencilhar-se no escurinho da fábrica de sonhos.

           *            *

          Nos fins de semana, que aprendera na monotonia do tempo em abominar, as caminhadas lhe podiam pesar além da conta. Em geral, se fazia ao largo do bairro em que vivia, pela ambiência suburbana das calçadas malconservadas.

          Fora com quase entusiasmo que tomara o metrô para a Zona Sul, de que ouvia maravilhas. Estranhou, no entanto, o desconforto que encontrou nas vetustas composições. Lembrou-se de viagem que fizera ao Rio ainda como turista, e a favorável impressão dos vagões novos e bem-cuidados. O tempo ali passara depressa, e a descuidada conservação casava bem com a superlotação e a má-educação, que sequer respeitava os assentos marcados para idosos.

           Não havia passado tantos anos assim, para que o serviço antes  decantado, a ponto de motivar inaugurações presidenciais, hoje tivesse decaído tanto. Dentro da deterioração geral e o desconforto do transporte, lhe era difícil acreditar em tão rápida decadência. O que admirara nas primeiras estações de mármore branco, hoje mal se distinguia nas paredes dilapidadas e encardidas, e, em especial, nas velhas composições em que se refletia a incúria e o abandono do poder público.

           Albano entendeu a revolta que lançara em São Paulo e por esses brasis as passeatas de protesto.  Vindo do Nordeste, não lhe era difícil sentir a diferença entre o poder e os privilégios dos ricos, e os espaços da caatinga e do semiárido, aonde não chegam os açudes. Sem embargo, no incômodo que sentia, via com pesar o retorno dos vagões de terceiro-mundo como se o decantado metrô de primeiro mundo, de que enchiam a boca os políticos corruptos, houvesse saído de cena quase como miragem cinematográfica, tão depressa descambara para a sujeira, o desmazelo e o fundo menosprezo pelo usuário.   

                                               *            *

            Ao cruzar o saguão do prédio em que arranjara apartamento de quarto e sala, cujo aluguel pudesse pagar com o ordenado, ele vinha cansado da longa jornada. Como sombra se deslocara por Copacabana, Ipanema e Leblon, apanhando o ônibus circular.

           Viu as diferenças na sorte entre os bairros famosos. Copacabana perdera muito da antiga graça da Princesinha do Mar. Nas calçadas da avenida que se estendia em paralela da Atlântica, indo do Leme ao Posto Seis, caminhava gente em geral mal  vestida, que pouco tinha a ver com as descrições trazidas pelos parentes visitantes para o menino nordestino.   

             Tampouco o comércio - que é um espelho do público nos passeios à sua volta – nada tinha a ver com a passada elegância. Farmácias, bancos, lojas de comércio popular se integravam nas novas condições sociais.

            Ipanema lhe pareceu um bairro em transformação. Copacabana avança até a praça general Osório e quiçá um pouco além, com as suas farmácias, lojinhas e bancos, muitos bancos! Mais além, as longas quadras podem guardar um tanto do antigo comércio, mas lá entreviu tendência para a geral queda de nível, sempre guiado pela inefável trinca de banco, farmácia e loja de artigos populares.

            Por último, o Leblon, em que viu muitos tapumes temporários, e um resquício dos ares de bairro, posto que, como as bestas do apocalipse, aí estão as forças do progresso na sua tristonha marcha.

            Assim, ao acercar-se da porta do elevador no modesto edifício da Zona Norte, Albano chegara carregado das difusas lembranças da longa trajetória, e não atentou para a moça à sua frente, que acompanhava pelo modernoso quadro a vinda do ascensor.

                                                 *           *

             Quando a cabine chegou, fazia sempre barulho como se nele houvesse alguma coisa desregulada.         

             Foi a hora em que sacudiu a própria distração e lembrado da lição materna, deu à moça precedência na entrada.

            Após hesitar por um instante, ela, passando à frente, disse:

            “Obrigada.”

            Mais tarde, ele se descobriria a ruminar sobre a cena. Achou engraçado que desencavasse aquelas fugidias impressões, mas algo lhe tocou no entrecruzar de olhares. Se bem parecesse um pouquinho arregalado, nela havia toque de melancolia, que, de forma um tanto sorrateira, iria enternecê-lo.

           Será casada, terá filhos? Ficou de apurar, porque, no seu caso, a curiosidade não era retórica.

                                                 *            *

           Por ser seu conterrâneo, o porteiro era um quase amigo. Vários macetes úteis, ele já lhe tinha passado. Aproveitaria, assim, hora em que estivesse sozinho, para obter a ficha.

          Mal indagara, José Antônio o fitou inquisitivo.

          “Fica ao largo, porque ela é casada.”

          E como o outro respondesse com olhar entre divertido e maroto, o porteiro acrescentou:

          “O marido é invocado e ciumento.”

          “Ela dá razão pra isso ?”

          “Que eu saiba, não.”

          “E por acaso o casal tem filhos?”

          “Não.”

          “E qual o nome dela?”

          “Epa!, Albano... veja lá...”

          “Não sou louco, Zé... Podia me dizer como se chama?”

          “O nome é Yvone.”

 *            *

           Nos dias seguintes, o ingresso nada lhe rendia. Embora não quisesse levantar lebre, estava quase a perguntar ao porteiro por mais detalhes, quando a porta se abre e Yvone entra na cabine.

          “Bom dia.”

           Os seus olhos a procuram, e ela não os abaixa, a despeito da intensidade com que ele a encara.

          “Bom dia...”

          Albano arrisca um passo na sua direção, e ela parece abrir-se para o seu olhar, nele mergulhando fundo, no limite do abandono.

          No enleio do momento, tem a impressão de que o tempo é seu cúmplice. Mas a ilusão dura pouco.

          De repente, o elevador para. Entra uma senhora levando criança pela mão.

          Tangidos pela presença estranha, a tórrida troca de olhares se desfaz. A má-sorte, que não tem contas a pagar, põe o incoato sentimento, a forte, nascente empatia para o quarto de despejo das ocasiões perdidas.

          Chegados ao térreo, Yvone, é a própria sisudez. E, com passo ligeiro, se afasta.

                                                            *              

           Mais do que o interesse, notou a disponibilidade da moça. Para quem está habituado a ver os seus compridos olhares deslizarem como tênues sombras nas pupilas de tantas mulheres, que os deixavam escorrer pelo semblante vazio da indiferença, tomou a reação de Yvone como se fosse  porta entreaberta de incondicional rendição.

           Queria controlar-se, mas o que fazer com aquele rosto a pairar diante dele? E como não reagir diante do desejo insatisfeito que sentira ferver dentro dela? Para alguém mais timorato daria medo tanta sede de querer reprimido que nela sentia morar. Pois intuía consumir-se nas ansiosas, arregaladas vistas a brasa do desejo mal satisfeito. No letargo do desamor, imaginou, ele prometia no gesto e na presença o que o companheiro há muito lhe negava, pelo caráter empedernido da sensibilidade.  No calor da pronta reação, chega a conceber que ali ardesse a chama de mulher reprimida. 

           Não se esquecera do aviso do porteiro. Mas o que sentia só lhe aumenta o desejo de abraçar a moça. Que se danasse o outro. Sabe dos riscos, mas o acalenta meio doido nas circunstâncias. Pois não é que nele ferve a ânsia de tê-la nos braços, e envolvê-la no ardor do fortuito e proibido?

          Tinha presente que não podia fiar-se em encontros aleatórios no elevador, demasiado breves e sujeitos às indefectíveis interrupções. Precisava dar jeito naquilo, e não via outra saída que colher mais informações do conterrâneo Zé Antonio.

 

                                                        I I

 

           “Ocê não tá entendendo a minha situação aqui.”

            Albano nunca vira Zé Antonio tão arreliado. A testa vincada, a expressão dura não escondia a raiva.

            “Sou o porteiro do prédio e preciso do emprego. O cara é proprietário. Ele não é inquilino feito você!”

            O outro sorriu amarelo.

            “Quem ouvir, pode até pensar que eu esteja pedindo a chave do apê, para os meus encontros... O que eu gostaria de ter de você, não é nada de material, não. Quero, ô cara, que você me dê a ficha dos horários do casal. Estas informações são obviamente para meu governo exclusivo. É só pra eu me orientar, ter  noção do tempo que eu disponho. É só isso ! Não tô pedindo combinação de cofre, chave de apartamento, ou coisa que o valha... Respondendo às minhas perguntas, que risco você corre?  Nenhum! E nem vou comentar com quem quer que seja, que tou sabendo isto ou aquilo...”

           Aos poucos, com fala mansa, ele foi acalmando o patrício.

           Mas não seria daquela vez que o porteiro desembucharia algo.  Sentiu, no entanto, que estaria prestes a desdramatizar a coisa. Pelo menos, já não parecia tão nervoso.

           Zé Antonio, no entanto, dissimulava. Mais matutava e mais se convencia de que aquilo só podia dar em droga. E não precisaria muito para que ele, se o caso fosse descoberto, passasse por alcoviteiro.  Além de ser conhecido o fato de serem conterrâneos, Albano o tratava de modo amistoso, quase íntimo, o que não escaparia àquela gente fofoqueira.

           Por outro lado, o porteiro não dissera tudo a respeito de Eurípedes para Albano. Invocado e ciumento dizia pouco de o que lhe chegara aos ouvidos. Truculento, os seus maus bofes podiam ir muito além da contida violência doméstica. Ouvira até dizer que uma vez fora parar na delegacia, não sabia bem se por causa da lei Maria da Penha ou briga de vizinhos.  De todo modo, era coisa de antes. Salvo uma que outra altercação de que tivesse sabido pela boca de morador do andar de cima, José Antonio só lia na postura crispada de Yvone quando junto do marido indícios de um vago temor, que lhe dava a impressão de tolher a natureza em geral efusiva e mesmo descontraída.

           O porteiro hesitava. Irritava-lhe a insistência de Albano. Batia sempre na mesma tecla: a ficha dos horários de ambos. Tinha o seu, de funcionário público, e queria saber se teria uma janela para encontrá-la. Além disso, não podia dispensar das horas de saída e entrada do marido.

           “Ô Zé, abre o jogo! Qualquer um pode saber dos compromissos do casal...”

            José Antonio estava bem-humorado naquele dia. Por isso, o refrão do outro não o aborreceu como antes. Depois, pensou, que problema haveria em dizer algo que muita gente já sabia?

           “Eurípides sai de casa de manhã bem cedo, mais ou menos em torno das sete, e só volta à noitinha, quase às oito. Quando chega, aliás, vareia um pouco, pois depende do trânsito...”

           “E ela?”

           “O seu esquema é bem mais complicado. Não tem horário fixo como o marido. Quando sai de manhã é naquela hora em que você topou com ela no elevador. Já de tarde, acho que tem compromisso umas três vezes por semana. Lá pelas seis está de volta.”

            Na sua escrivaninha da repartição, Albano se pilhou a conjuminar esquema que lhe possibilitasse estar disponível num fim de tarde. Para não perder a oportunidade daria jeito de largar o expediente um pouquinho mais cedo. Inventaria para tanto a desculpa do médico.

                                                     

                                                        I I I   

           

              Quando chegou no saguão, já a encontrou esperando o elevador. Por um instante, duvidou da sorte. No entanto, estavam mesmo sozinhos.

               Enquanto chuleava pela sua pronta chegada ao térreo, postou-se ao lado de Yvone, que permaneceu imóvel.

               Entrementes, os andares escorriam devagar pelo mostrador.

               Albano até pensou em dizer-lhe qualquer coisa, mas afinal preferiu esperar pela entrada na cabine.

               A sua ansiedade, além de dar-lhe a impressão de que tudo se arrastava, ainda o fazia temer pela chegada de algum importuno, que lhe roubasse a privacidade da sonhada travessia a sós.    

              Ao cabo de o que lhe pareceu uma enormidade, o elevador parou. Apressou-se, então, em abrir-lhe a porta.

             “Obrigada”, disse ela.

             “Qual é o andar da senhorita?”, perguntou solícito.

              Até aquele momento ela mantinha a vista baixa.

              “Senhora”, corrigiu, com meio-sorriso. “Décimo, por favor.”

              “Veja só, somos quase vizinhos. Moro no décimo-primeiro.”

               Ele a cerca de atenções, enquanto lhe procura com insistência o olhar. Ao contrário da vez anterior, ela se esquiva.

              Albano já desespera, quando, não se sabe se por acaso ou de propósito, Yvone deixa cair no chão um dos pacotinhos que trazia.

               Com  rápido reflexo, ei-lo com a mão espalmada a entregar-lhe o embrulho.

               Se os dedos de leve se tocam, o que mais agrada Albano é o reencontro de seus olhares. No fundo mergulho em que se lança, sente aceno de cumplicidade.

               Mas a meia parada do elevador prenuncia a chegada ao andar.

               Nesse momento, num meio-preparado repente, coloca na palma de sua mão papelzinho com o número de seu celular.

               Com o rosto crispado, ela volta a encará-lo.

               “Isso não tá certo.”

               Confuso, balbucia resposta algo inaudível, enquanto Yvone se afasta.

               Desanimado, está por lamentar a reviravolta, quando se dá conta de um detalhe. Ela levara consigo o torpedo.



[1] Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (1985)

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