segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Correio da revolução ucraniana

                                   

        A grande concentração popular de domingo, na Praça da Independência, teve duas consequências dignas de nota. Por iniciativa do primeiro Presidente da Ucrânia, Leonid Kravchuk,  os três primeiros mandatários que antecederam o atual -  Kravchuk, Leonid Kuchma e Viktor A. Yushchenko concordaram quanto a proposta de mesa-redonda para discutir com o Presidente Viktor Yanukovych a situação surgida pela súbita rejeição do amplo e longamente negociado Acordo com a União Europeia, e a sua rápida substituição pela União Aduaneira, proposta pelo Kremlin, com a decepcionante imagem de mais do mesmo de um plano que recende ao passado, dentro do verticalismo de antanho da relação entre Moscou e Kiev.
       O fogaréu da revolução foi alimentado tanto pela maneira ultrajante (para a expectativa do povo ucraniano) da substituição do entendimento com o Ocidente democrático pela nova, mas velha proposição de laços mais estreitos a começar pelo comércio com a antiga metrópole, quanto pela brutal reação policial quando das primeiras manifestações. A repercussão foi tão ruim que a polícia de Yanukovych – defrontada com acusações precisas de injustificada violência – nos dias subsequentes às suas documentadas tropelias literalmente desapareceu do mapa.

       Yanukovych, de volta ao país, concordou com a idéia da mesa redonda. Enfatizou a necessidade de superar a crise.  Não é decerto por acaso que a proposição de Leonid Kravchuk adota a mesma linguagem utilizada para as negociações que conduziram a uma solução para a dita Revolução Laranja de 2004.

       Por outro lado, a população de Kiev – e as grandes levas vindas do interior – depois do sucesso da grande concentração de domingo na Praça da Independência, vê com certa desconfiança (de resto, plenamente compreensível, dados os antecedentes e a mendacidade do principal envolvido) o que vá ser acertado pela referida Mesa Redonda de Presidentes.

      Quanto a laços mais estreitos com Moscou, a derrubada e posterior destruição pela multidão de importante monumento a Lenin, em logradouro de Kiev, já fala com suficiente ênfase acerca de o que pensam os manifestantes sobre o estreitamento de relações com o Kremlin.

       Por outro lado, ao aceitar o ramo de oliveira que lhe foi estendido pelos três ex-presidentes, a concessão de Viktor Yanukovych, ainda descarnada, precisa de mais tempo para que possa ser vista com feições mais nítidas. A mesa redonda de hoje seguirá a trilha de 2004 e findará com acordo recheado de concessões substantivas de parte do atual presidente? Ou a lembrança da revolução laranja e da anulação da eleição fraudulenta de Yanukovych levará o presidente hoje no poder a tentar ganhar tempo, servindo-se para tanto do retorno da mão forte policial e da humana tendência de muitos movimentos de protesto (mas não todos) a perderem com o passar dos dias o viço e a força?

        As centenas de milhares de manifestantes na Praça Independência ficaram preocupadas com o fechamento, nesta segunda feira, de três grandes estações de metrô, duas das quais diretamente abaixo do sítio do comício.
         Por outro lado, os populares notaram movimentação de ônibus policiais, com novas posições no perímetro da Praça da Independência.  O redespertar das forças de segurança pode prenunciar a probabilidade de outro intento repressivo. Essa passagem da letargia anterior (grandes segmentos da cidade sem qualquer presença policial) para a volta dos antigos e violentos métodos de lidar com as manifestações induziram renovado ativismo nos líderes populares, com o reforço das barricadas, reposição de bancos de praça, de madeirame e de tudo o mais que possa estorvar a progressão das ditas forças da ordem.

 

 
(Fonte: The New York Times)    

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