sábado, 17 de novembro de 2012

Angela Merkel, Chanceler da Europa

                      
            A palavra Chanceler tem em alemão uma carga de autoridade que vai muito além da palavra utilizada no Brasil para designar o ministro do exterior.
            Em república parlamentarista, onde o presidente é eleito pelo Bundestag (assembleia federal), e tem o nominal poder dos antigos presidentes na França (na terceira e quarta repúblicas), com um posto cerimonial – e que ainda persiste na Itália -, intui-se a influência dominante de quem exerça o cargo de Kanzler.
            Na monarquia e na república, avulta a figura do Kanzler.  No império, se o seu exemplo está em Otto von Bismarck – que conduziu a unificação germânica e se a sua permanência dependia da vontade do soberano (como o despreparado Guilherme II o faria, iniciando o seu malfadado reinado) – nos seus 28 anos de exercício ninguém duvidaria da autoridade do Junker da pequena nobreza prussiana -, na Alemanha Ocidental o octogenário Konrad Adenauer construiria com o general Charles de Gaulle as bases da Comunidade Europeia.
            Helmut Kohl, o também cristão-democrata, realizaria a reunificação alemã. Com a resistência inicial de François Mitterrand, presidente da França, e de Margaret Thatcher, Primeira-Ministro do Reino Unido, Kohl teve a habilidade e a firmeza na condução do processo, que a queda do muro de Berlim em 1989 prenunciara.           
            Sua emblemática sucessora, seria a alemã do Leste Angela Merkel. Crescida na antiga DDR (república democrática alemã), com formação científica e sem envolvimento com o estamento comunista, Kohl veria nela alguém com personalidade para continuar o governo da aliança CDU/CSU, em que o norte protestante e o sul católico constituíam o modelo contraposto à SPD (partido socialista), na qual avultara a carismática presença de Willy Brandt, com a Ostpolitik (abertura para o Leste), nos anos setenta.
           A Chanceler Merkel sucedeu a Kohl em 2002 e tem pela frente no próximo ano uma difícil eleição, com vistas à sua permanência à frente do governo alemão, atualmente em aliança com a F.D.P. (partido liberal alemão).
           Dada a sua maior importância econômica, e tendo as finanças em melhor estado comparativo do que as da França, o segundo país em relevância na União Europeia, Angela Merkel tem sido uma líder tanto no contexto da autoridade de Bruxelas, quanto na do respectivo país.
          A sua filosofia político-econômica tem favorecido a chamada austeridade. Durante a presidência na França de Nicolas Sarkozy (2007-2012), soube formar uma diarquia na liderança europeia, simbolizada por uma concordância com o antigo presidente francês.
         Em quinze de maio último, com a posse  do socialista François Hollande, o relacionamento franco-alemão, após um período de ajustes, restabeleceria o antigo diretório europeu, posto que com um viés não tão rígido, dadas as prioridades do novo governo francês para o emprego e o crescimento da economia.   
         A tese da austeridade, cara ao povo alemão e a sua Chanceler, tem sido motivo de muita oposição. Como se verificou no apoio coordenado às greves gerais na Espanha e em Portugal, prestado por movimentos de protesto sindical na Europa – realizado na Grécia, Itália, França e Bélgica – existe grande sensibilidade social à situação atravessada por inúmeros países. Já me ocupei da situação limite com que se defronta a República Helênica. Nesse contexto, a rigidez e a severidade da medicina preconizada pelo FMI e os principais credores, tem sido contestada pelos partidários da alternativa keynesiana.
         Se é indispensável a mescla do bom senso na medicação das diversas economias em crise, não se deve esquecer dois parâmetros básicos na política de recuperação dos países mais atingidos: se o endividamento é decorrência da irresponsabilidade dos diversos governos envolvidos (e a Grécia é disso exemplo não único, dada a postura dos governos da direita e do Pasok), tampouco se deve eximir de culpa as respectivas sociedades civis que pactuaram com a dívida e as exigências sindicais absurdas.
         Nesse aspecto, os padrões espanhóis em termos de salários refletem a demagogia dos partidos no poder e a cupidez sindical, com os resultados hoje expostos, em que sofre toda a coletividade pela incompetência de dirigentes e as exigências estapafúrdias de muitas corporações.
         Será em tal contexto que deve ser vista a reação de outros países que palmilharam caminho oposto, como a Alemanha, a Finlândia e a Polônia. Não se deve, contudo, considerar todo um país como de indolentes – tal seria a imagem feita pelo eleitor alemão do cidadão grego -, eis que muitas das camadas atingidas na Hellas estão sendo transformadas em bodes expiatórios da irresponsabilidade dos governos nacionais, e da displicente fiscalização das instâncias de Bruxelas.
        A volta da recessão para a União Europeia – recessão esta que pode igualmente atingir a Alemanha no próximo ano – tende a sublinhar que a falta de equilíbrio nos tratamentos para a superação da crise precisa ser evitada.
         A Chanceler Angela Merkel tem tido um papel protagônico no contexto da crise econômica europeia. Essa atuação lhe incumbe em parte pela importância preponderante da Alemanha, mas também será devida à sua personalidade e esforço aplicado.
         Consciente de sua responsabilidade e demonstrando inclusive coragem, Merkel visitou Atenas e Lisboa. Assumindo encargos que outros evitariam tem procurado cuidar de questões com uma preocupação europeia.  Nesse sentido, se insere a sua recente ida a Londres, onde buscou convencer o Primeiro Ministro David Cameron de que afastar-se do Continente é uma postura de que poderá lamentar-se no futuro. Com todas as idiossincrasia insulares da Grã-Bretanha, os laços com a terra firme europeia não podem ser desconhecidos, como antecessores seus (v.g., Edward Heath e Tony Blair) se terão dado conta.
         No seu empenho propedêutico a Kanzler Merkel visitou agora um velho parceiro do concerto europeu, o Presidente da Federação Russa. Máxime neste início de novo mandato presidencial de Vladimir Putin, não é decerto tarefa fácil a defesa dos direitos humanos.
         Putin tentou rebater as observações da Chanceler alemã, recorrendo a argumentos de uma forma exageradamente livre, sem muita precisão circunstancial. Assim, em referência à condenação das moças da fuzarca (Pussy Riot), Putin reportou-se a um suposto enforcamento em efígie de um judeu, como mensagem para que os judeus abandonassem Moscou : ‘ Não podemos estar com V. em apoio à gente que tem posições anti-semitas’.
        Se essas atitudes – próprias de Putin – não tiram a Merkel do sério, muito se deve à importância do intercâmbio entre os dois países. Que a Chanceler tenha de alguma forma transmitido a palavra  da necessidade do respeito aos direitos humanos – conforme a vontade da opinião pública em seu país – desvela marcada característica da chefe do governo de Berlin, que não refuga em transmitir tais recados a ouvidos que nem sempre os recebem de bom grado.   
        Talvez seja em função de atitude protestante que Angela Merkel assuma essas delicadas missões. De qualquer forma, decorrem de uma posição de realce no concerto europeu, posição esta que poderá desagradar a eventuais interlocutores, mas a qual não será no momento oportuno contraditar, pois apenas reflete inegável circunstância factual.

 

( Fonte: International Herald Tribune )

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