quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Notícias do Front (XIV)

                    

Os restos da Jamairia

       Nas três cidades  remanescentes da antiga Líbia de Muammar Kaddafi – semelha difícil designá-las de resistência legalista, dado o caráter gangsterista que caracteriza as hostes do coronel – a força principal, mais bem equipada, inclusive com artilharia pesada, se acha em Bani Walid, a sudoeste de Trípoli.
      Segundo se supõe, aí está entrincheirado o núcleo duro dos partidários do antigo líder. Dois filhos de Kaddafi – Saif al-Islam e Mutassim – estariam entre eles.
     A imprensa tem repetido os comunicados do comando rebelde, suspendendo por motivos humanitários o anunciado ataque final a Bani Walid. O Conselho Nacional da Transição (NTC) visaria com isso evitar massacres e maior derramento de sangue na população.
     Tantos adiamentos por essa nobre motivação refletem, na verdade, uma  realidade militar que as disparatadas forças rebeldes não tem conseguido subjugar.
    No sábado, dez de setembro, investida rebelde para adentrar a cidade foi rechaçada, após alcançar os seus arrabaldes.  Tal se deveria a dois fatores precípuos: os grupamentos leais a Kaddafi estão mais bem equipados e treinados, além de serem mais numerosos  que seus atacantes.  A fortiori, muitos dos comandantes rebeldes, vendo próxima a vitória, relutam em correr riscos que julgam desnecessários.
     Como em toda a campanha, os destacamentos rebeldes não se assinalam pelo profissionalismo. No cerco a Bani Walid, predominam antigos residentes naquela cidade, que desejam levar avante a investida final, e emular, desse modo, os sucessos anteriores nas tomadas de Benghazi e Trípoli. Por sua vez, os comandantes, haja vista a disposição inimiga, a qualidade das armas com que se  defrontam, preferem esperar. Julgam ter o tempo a seu favor.
     Completam o quadro da batalha de Bani Walid,  a natureza intempestiva, voluntarista e indisciplinada de suas ações, associadas ao armamento típico empregado - caminhonetes equipadas com armamento anti-aéreo – que é a marca registrada do levante líbico, conjugando determinação e  escassez de recursos.
     Acresce notar que o número dos sitiantes é inferior ao dos sitiados. Diante da aparente falta de perspectivas do núcleo duro resistente e o caráter finito de seus mantimentos e reservas de água, espera-se que as tribus ligadas com o regime de Kaddafi se resignem a confiar no apelo à conciliação do líder de fato do governo líbico de transição, Mustafa Abdul Jalil.
     Completam a trindade de cidades ainda não dominadas  Sabha e, por fim,  Sirte, a cidade natal de Kaddafi, de que a antiguidade é respeitável  ( Heródoto a menciona em sua História).

    
 Erdogan e a Palestina

       Marcando o isolamento de Israel e a sua ascensão como líder no Oriente Médio, o Primeiro Ministro Recep Tayyip Erdogan, em visita ao Cairo, discursou perante a Liga Árabe, preconizando o voto dos países membros pelo reconhecimento da soberania da Palestina, que será debatido e sufragado na próxima Assembleia Geral das Nações Unidas.
      Erdogan, fundado na sua indiscutível afirmação interna, vê crescer a própria influência no mundo árabe. Reativa, de certa forma, a presença política otomana, que, com a derrota na Primeira Guerra Mundial e a dissolução do império, deixara de ser um fator computável no século XX.
      A sua corrente viagem a três países do norte africano – Egito, Líbia e Tunísia – sublinha  comprometimento com a democracia, dentro do viés islâmico que tem caracterizado o seu governo. Nesse sentido, a sua visita aos três países nos quais a revolução árabe democrática representa inegável sucesso, se bem que muito ainda reste a determinar quanto a amplitude das modificações libertárias desencadeadas pelo sacríficio do verdureiro Mohamed Bouazizi.
      Quanto à causa palestina, disse Erdogan: “O reconhecimento do Estado Palestino é a única maneira correta (de proceder no caso). Não é uma escolha, mas sim uma obrigação.” E prosseguiu: “Levantemos a bandeira palestina e que este pavilhão seja o da paz e da justiça no Oriente Médio. Contribuamos para o estabelecimento da paz e da estabilidade que o Oriente Médio faz por merecer.”
      O Primeiro Ministro turco reiterou a acusação de que Israel é o agressor no conflito israelo-palestino, e que as relações entre a Turquia e Israel não serão normalizadas antes do pedido de desculpas pelo governo israelense, e o pagamento de compensação financeira aos parentes das vítimas mortas em maio de 2010 pelo raid israelita contra o Mavi Marmara.
      Se os Estados Unidos continuarem a apoiar incondicionalmente Israel nessa questão, a ser tratada pela vindoura Assembleia Geral, com vistas à proclamação da soberania palestina nos territórios ocupados por Israel, o isolamento diplomático do State Department e de Tel - Aviv se afigura bastante provável.


(Fontes: CNN, International Herald Tribune)

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