terça-feira, 12 de novembro de 2013

Meio Ambiente: inação como regra ?

                           

        O furacão Sandy – cuja inaudita violência deixou marcas profundas na costa dos estados de New Jersey e New York – chegado pouco antes das eleições gerais, terá sido  mais um desses parênteses (como a onda de tornados no Meio-Oeste americano) a provocarem  manifestações de políticos em que apenas se lamenta o desastre natural, sem adotar nenhuma outra providência prática ?
       Agora é a vez do tufão Haiyan.  A violência dos elementos continua a crescer, as doações internacionais se empilham nos armazéns, e, coincidência inaudita, o devastador fenômeno irrompe de forma coincidente com a conferência das Nações Unidas sobre o Clima em Varsóvia. Delegados caem em pranto, discursos emocionados são proferidos, e Naderev Saño, Chefe da Delegação Filipina, afirma que, em solidariedade às vítimas da tempestade, ele não se alimentará até que solução significativa esteja em vista.

      As Conferências das Nações Unidas para enfrentar o desafio climático não têm correspondido às expectativas desde a de Copenhague, em que Obama compareceu, a par do Segundo da China. Tais palavrosos encontros têm refletido, não digo o cinismo internacional, mas pelo menos uma atitude de calculada indiferença coletiva em termos de ações práticas.
       Parece que o mundo se faz de desentendido do descalabro climático. Na antiguidade clássica, as tempestades e as devastações decorrentes eram atribuídas às divindades olímpicas, que careciam de ser propiciadas (por centenas de bois, ovelhas e muitas fogueiras). Os povos de então, atemorizados pela ira celeste, tomavam as providências que lhes cabiam como infelizes mortais.

        Hoje, os deuses – tanto os celestes, quantos os ctônicos – foram apeados desse pedestal. Sem embargo, se prolonga artificialmente a querela entre a responsabilidade humana ou não para o inferno climático. Com exceção dos que não querem, por motivos pouco confessáveis, curvar-se diante da óbvia cumplicidade no desastre ambiental do bicho-homem e são marcada minoria, posto que vociferante. Por sua vez,  a Humanidade peca por criminosa inação nas providências ineludíveis para tentar reduzir tanto o número, quanto a força da fúria dos elementos.
        Para o povo infeliz das Filipinas, o tufão Yolanda (heterônimo de Haiyan) veio agravar a pobreza e a miséria, além de dizimar um número ainda imprecisado de vítimas. Pelo reduzido aporte que trouxe para a calamidade padecida pelo vizinho país, a República Popular da China sublinhou não só  atitude tacanha, mas também indicou de modo marginal e indireto o quão pouco tem feito para combater o desafio climático.

       Não sei o que fará da infausta coincidência a Conferência de Varsóvia. Além de palavras, o que produzirá diante da brutal entrada em cena em reuniões que, em outras latitudes, se têm assinalado por serem palavrosas, concorridas e, em fim de contas, ineficazes ?
       Pensando bem, a reação política em face da ameaça climática se, em determinados países se mostra bem-intencionada, o agregado geral ainda é demasiado deficiente. A par de esforços isolados, que conjunção de ações efetivas e abrangentes são discerníveis nos Estados Unidos, na China, na Federação Russa e até mesmo no Brasil?

       Aqui, o Governo Dilma assistiu impotente à aprovação de um Código Florestal que não honra o nome.  Na atualidade, se repete a patacoada da Amazônia. Dá~se às madeireiras todo o tempo do mundo para derribarem aquelas partes da Floresta que mais lhe aprouverem, para depois, muito depois que a festa acabou, virem os ambientalistas aos jornais para anunciar que o desmatamento está em alta, com uma devastação, acreditem!, de até 20%.
       Como se vê, também no Brasil, nada mudou, em termos de tempo. No passado, porque o progresso não chegara, essas destruições maciças só poderiam ser realizadas pelos deuses olímpicos que, felizmente, sempre se abstiveram dessa inútil exteriorização de bárbara violência.  Hoje, o progresso está entre nós, e com ele a tecnologia criadora de savanas e desertos.  

       O que me pergunto é por que os instrumentos da modernidade – e os satélites estão aí, à disposição _- devam ser sempre restringidos a funções cartoriais, e não a uma ação preventiva ?
       Qual o proveito de ficar de braços cruzados e nada fazer, para depois chorar lágrimas teatrais não sobre o leite derramado, mas sobre a floresta invadida, esquadrinhada, e metodicamente decepada e extirpada?  Será apenas para coordenar-se com a untuosa inação dos órgãos da diplomacia internacional ?

 

(Fontes:  O Globo,  New York Times)   

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