domingo, 14 de dezembro de 2014

Colcha de Retalhos B 46

                             

O GOP aprendeu a lição?

 
          Se Nancy Pelosi, a líder da minoria na Câmara de Representantes tenta derrubar um acordo entre Barack Obama e John Boehner, o Speaker dessa mesma Câmara, algo está muito errado. 

          Na verdade, o último fechamento do governo, pela irresponsabilidade do Tea Party, cobrou caro do Partido Republicano em termos de popularidade, e é por isso que Boehner e Obama estão no mesmo barco.

          Por sua vez, se a Câmara Baixa está pronta a costurar um entendimento que ponha um termo temporário à política de condicionar o funcionamento do Estado e a manutenção de seus compromissos financeiros, além de não querer prejudicar os seus candidatos à sucessão do 44º presidente, sempre pensam cobrar um preço suplementar.

         Desta feita, o GOP encaixou um rider (vale dizer, uma cláusula oportunista) no projeto legislativo, em que faz uma mesura a Wall Street, de que os republicanos são fiéis aliados. E por isso lá vai um artigo que diminui poderes da reforma do mercado acionário, que os democratas lograram quando tinham as maiorias das duas Casas (a partir da próxima legislatura, estarão em minoria tanto na Câmara, quanto no Senado).

          É interessante que a tentativa de manter intata a lei Dodd – Frank,  que regula o mercado acionário,  foi empreendida por duas mulheres, na Câmara, Nancy Pelosi, e no Senado, Elizabeth Warren, ambas democratas. O bom combate não teve êxito, embora se deva compreender que a lei, resultado da Grande Recessão. não deveria pagar o pato do oportunismo republicano em manobrar o teto fiscal para ganhos políticos. Esses agrados a Wall Street podem custar caro no futuro à economia, como foi a derrogação da lei Glass-Steagall, dos albores do governo de Franklin Delano Roosevelt, e que proibia bancos de depósito funcionarem também como bancos de investimento. Derrogada de forma irresponsável na Administração Clinton (a instâncias de Larry Summers e outros), a falta dessa lei seria instrumental para a farra especulativa dos CDOs e outros papéis que criariam a insolvência a atingir ao Lehman Brothers, o primeiro dominó a cair no que seria a Grande Recessão.

 

Sétimo

 
        Outro filme argentino, este com Ricardo Darín no papel principal e sob a competente direção de Patxi Amezcua. A superior interpretação do veterano ator R. Darín decerto não surpreende.             

        Impressiona a qualidade da recente cinematografia portenha. Este policial mantém o suspense quase do começo ao fim, assim como o ritmo empregado que se insere na tradição da filmografia policial americana. Este, inclusive, tem traços de filme noir. Outra coisa que o espectador não deixará de observar será o ótimo nível da película argentina, que tem qualidade similar a filmes estadunidenses.
       Nesse contexto, outro obra de grande qualidade – e de que me penitencio não havê-la já referido - são os Relatos Selvagens, dirigido por Damián Szifron (co-produção argentino-espanhola). São seis episódios, em que, por vezes transpira a influência de Pedro Almodobar. O humor negro está presente e a violência nunca é gratuita, e pode revestir uma visão dantesca e sardônica de certas opções comportamentais em longas e pouco transitadas rodovias perdidas em cafundós de província. Em elogio ao conjunto,  não é fácil escolher o melhor episódio. Para mim, seria o do casamento, que tem uma visão peculiar das possibilidades cênicas e comportamentais desse entranhado costume da civilização judaico-ocidental. Mas os demais na sua exposição de costumes, hipocrisias e possíveis retornos a práticas antissociais trazem um certo substrato da visão por vezes corrosiva do cineasta espanhol. Não é filme para senhoras que se persignem amiúde, nem para exibir em auditórios infanto-juvenis (se porventura ainda existam).

 

Crise Israelo-Palestina

         
        A morte do ministro palestino Ziad Abu Ein, golpeado, nesta quarta-feira,  por um soldado israelense, com a coronha do fuzil, pode ser considerada como emblemática do atual estado nas relações entre os dois países. Sob o gabinete  Netanyahu não há decerto esperanças de progresso nessas relações, eis que os ‘contatos’ entre palestinos e israelenses dizem mais respeito à luta daqueles para tentar conter as repetidas invasões e ocupações de seu território pelas autoridades de Tel-Aviv, e pelos inefáveis colonos cuja implantação é assegurada pelo Tsahal,  o poderoso exército judaico.

        Surpreende mesmo que a postura de Benjamin Netanyahu não haja provocado reações mais violentas do povo palestino, Como há inúmeros episódios da parcialidade da justiça israelense, em que o ganho de causa é geralmente dado ao colono judeu, ainda que invasor ilegal de terra palestina, não surpreende que essa postura racista de Israel – a par da antidiplomacia de ‘Bibi’ Netanyahu – se reflita na transformação desse país em verdadeiro pária internacional. 

        Por pesada ironia do destino, o povo judeu – que tanta simpatia colhera pela odienta perseguição sofrida do nazismo hitlerista – hoje tem as suas missões diplomáticas, por causa do tratamento injusto e opressivo dispensado ao povo palestino, transformadas em verdadeiros bunkers.  Tampouco surpreende, por isso, que a chancelaria em Atenas haja sido alvo de tiros, provocados decerto pelo “ataque cardíaco” (segundo o diagnóstico de médico israelense) do Ministro palestino, que foi derrubado pela inaudita violência soldado israelense de ocupação.

 

O GOP aprendeu a lição? (2)

 
      O pacote aprovado pela Câmara de Representantes – a que me reporto acima -  não incluíu,  por reiterada oposição republicana, assim como omissão da Administração Obama, a inclusão, mais do que devida (foi aprovada em 2010 pelos países membros) de reforma de cotas e de governança  do Fundo Monetário Internacional.

      O Partido Republicano, por força de postura reacionária, se recusa em contemplar a já votada e sacramentada reforma do FMI, com a dita mudança nas cotas e na governança do Fundo. Tal reforma corresponde a alterações necessárias nesse organismo, por força da evolução mundial, que já não é exatamente aquela do acordo de Bretton Woods, em que a predominância dos Estados Unidos era esmagadora nas finanças mundiais.

      Não será por negar realidades que o GOP manterá intata a ordem de Bretton Woods. Mais cedo ou mais tarde, os americanos terão de conformar-se com a nova situação, em que emergentes como China e Brasil terão mais voz e voto no FMI.

      Terá necessariamente de haver um reajuste na administração do Fundo, que corresponda à presente situação da economia mundial, A própria francesa Christine Lagarde, atual diretora-gerente do FMI, o que reflete a ordem antiga – onde europeus e americanos têm papel e voz que mais corresponde à situação do longínquo imediato pós-guerra, do que ao estado de coisas atual – criticou as concessões do Presidente americano aos republicanos na Câmara, eis que era mais do que esperada a inclusão  no Orçamento da União a proposta de reforma de cotas e governança do organismo.

      Para ter aprovado o orçamento e vencer a chantagem do Tea Party e de parte dos republicanos, Obama – na sua conhecida fraqueza – cedeu em disposições importantes, como no citado (e deplorável) enfraquecimento da lei Dodd-Frank sobre Wall Street, assim como ao permitir cláusula que abre o caminho para grandes doações de agentes econômicos a campanhas políticas. Obama não mais concorre a  nada, mas os democratas não veem com prazer que se abra as mais cancelas para as doações das grandes empresas, que, em geral, se destinam aos representantes no Congresso do nosso conhecido Grand Old Party.

 

 
( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo, New York Times )  

Nenhum comentário: