sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tragédia ou Farsa ?

                                        

          Como diria o velho Aporelli, havia mais coisas no ar do que os aviões de carreira. Por isso, a impressão que sobrepairava, da expectativa de o que não foi. A opinião pública esperava, mas não ousava confiar no que traria a sentença do Tribunal Superior Eleitoral.
         Com o contraponto da validação de dois partidos sem voto – o Solidariedade, de Paulinho da Força e o PROS, de um ignoto ex-vereador de Goiás – chegara a hora de decidir sobre o destino de um terceiro partido – a Rede de Sustentabilidade, de Marina Silva.
         Enquanto os dois outros se somaram ao estapafúrdio número de trinta partidos, compondo trinta e dois (o Brasil, sem a cláusula de barreira, denegada pelo Supremo em assomo de proteção ideológica que descambou para o ridículo), singrando em mar de almirante, colhendo mesuras dos ministros e demais votantes, o quadro só estaria completo com o julgamento (e põe julgamento nisso!) do terceiro candidato a partido. A Rede diferia da dupla, não só porque tinha um projeto com votos, mas por estar associado aos ventos novos da política, ventos esses trazidos pelo movimento do passe livre.  Solidariedade e Pros são formações que se inserem na velha política desta nova república, com as suas legendas de aluguel.
         A seriedade com que o procurador Eugênio Aragão – no rito da pré-denegação – já evidenciara, não teve reflexos no que concerne ao Solidariedade, pelos apoiamentos trazidos por um morto, além dos nove servidores do Senado, recolhidos em listas de assinatura, malgrado não tenham assinado o requerimento pró-partido do Deputado Paulinho da Força (SP).
         Para sua honra, o Ministro Gilmar Mendes não permitiu a unanimidade de sete contra a Rede. Logo tocou nota dissonante, quebrando a monótona repetição do formalismo negativista. No seu entender, não se tratava de aceitar o registro de um partido que não apresentou o número de assinaturas exigidas pela lei, mas de reconhecimento do abuso cometido contra a Rede.
         E alçando o tom, acentuou: “Espero que nunca mais tenhamos uma sessão como esta, que a reforma política supere esse modelo. Sessão em que a Justiça Eleitoral, tão moderna, tenha que passar pelo constrangimento de mostrar a ineficiência de seus cartórios”.
         Por último, votou a Presidente do TSE. A sorte já estava lançada, e o que se anunciara, confirmado. O seu voto, que pretendeu ser sobretudo uma contestação ao Ministro Gilmar Mendes, me surpreendeu, tendo presentes outras intervenções da Ministra Carmen Lúcia: “Estamos aqui aplicando a lei de ofício e com obrigação, se não é preciso revogar a lei. Legalidade não é argumento. Legalidade é dever, ministro Gilmar Mendes. Se o pedido fosse aceito, aí sim seria casuísmo. Também espero, ministro Gilmar, que haja reforma política e que nós não precisemos disso, que a biometria possa suprir. Voto lamentando, gostaria muito que este partido pudesse receber (o registro) por deferimento. Mas não houve a apresentação de um requisito.”
          O dia três de outubro, jornada tão importante por assinalar o início da Revolução de 1930, feita para alcançar a validade e a confiabilidade do sufrágio – tão conspurcadas pela República Velha, dos votos a bico de pena -  não é mais feriado nessa república, embora continue a ser homenageada por servir de data para os grandes pleitos eleitorais.
            No dia de ontem, semelha difícil entrever uma homenagem ao voto, porque se recusara o veículo para a candidatura de alguém que se apresenta nas prévias como a antagonista de o que aí está. Marina é a esperança de uma nova Política, esperança esta que nos foi trazida por movimento cuja autenticidade até o presente ninguém ousou contestar.
             Por isso, enquanto se recusa o registro à Rede, por alegadamente carecer dos necessários apoiamentos, o seu nome estranhamente avulta nas listas das pesquisas, sendo a única a vedar à atual ocupante do Palácio do Planalto a eleição em primeiro turno.
             Alguma coisa anda errado nesse quadro. Como de cara limpa há gente que afirme que o resultado de ontem, se Marina optar por recusar as inúmeras ofertas de legenda que lhe ora são feitas, seria do agrado do Palácio do Planalto, peço vênia para modestamente discordar.
             Se esta porta fechada à Rede é do agrado da Presidenta, parece-me que ainda é tempo de uma eleição para valer, e não para constar. Uma que leve ao segundo turno, na ordem determinada pelo Povo soberano, a primeira com o apoio de Lula da Silva, e a segunda, levantando a bandeira da reforma autêntica, aquela desejada pelas passeatas de junho.

 

(Fonte: O  Globo)

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