sábado, 7 de abril de 2012

É a economia, estúpido !

        Este foi o mantra do candidato Bill Clinton, na sua vitoriosa campanha em 1992 que faria do republicano George Bush sênior presidente de um só mandato. Os Estados Unidos viviam então uma recessão, em situação menos grave do que a atual, mas o slogan do democrata enfatizava a principal arma de que dispunha na sua campanha eleitoral. 
       As recessões trabalham em geral contra o presidente em função, eis que a opinião pública tende a responsabilizá-lo pelo estado da economia. A crise financeira internacional, com os seus escândalos das hipotecas subprime e da especulação desenfreada dos CDOs[1],  é um produto do desenfreado laissez-faire do presidente da Federal Reserve Bank, Alan Greenspan e da administração Bush júnior. Desse modo, já no quarto ano do seu mandato, Barack Obama é havido como co-responsável pela grande Recessão, e deverá pagar a conta junto ao eleitorado, caso este julgue que a sua gestão não lidou com o problema de forma satisfatória.
     Por mais que a inépcia de George W. Bush e o brutal déficit do Tesouro – efeito do irresponsável corte nos tributos para os mais ricos e da guerra do Iraque -  tenham provocado a crise, no entender do eleitor Obama já está no seu quarto ano de governo, e é, por isso, considerado o responsável pelo estado da economia. Esta responsabilidade dos presidentes em exercício é uma regra inflexível, cuja única exceção (F.D.R.) na verdade a confirma[2].
     Tem sido lenta e pouco dinâmica a recuperação da economia estadunidense. Pela deficiência de orientação mais pró-ativa no primeiro biênio, com indecisões na política de estímulo e de criação de emprego, Obama sofreu o shellacking (tunda) da eleição intermediária de 2010, com a desastrosa perda da maioria na Câmara de Representantes. Em consequência, o 44º  Presidente ficou refém do índice de desemprego. De uma redução, sustentada e relevante, do desemprego, com o correspondente incremento do número de vagas preenchidas, pendem os pratos da balança nos comícios de seis de novembro p.f.
      A taxa de recuperação da economia, se continua positiva, mostrou decréscimo em março. Foram criadas 120 mil vagas no mês passado, o que indica inflexão preocupante na curva dos empregos, eis que corresponde a cerca de metade do total de fevereiro. Por outro lado, é a primeira vez, desde novembro último, em que tal número fica abaixo de duzentos mil.
      Para que se entenda a implicação de tais estatísticas, basta assinalar que o Presidente Obama tentou relativizá-las, e o provável candidato republicano, Mitt Romney, classificou os índices como “fracos e muito preocupantes”.
      A fraqueza da economia, traduzida pela magreza da recuperação, seria o efeito da cautela dos empregadores, diante de fatores como o impacto do aumento nos preços da gasolina e a incerteza acerca da assistência sanitária e os custos das pensões.
     Nesse contexto, a administração Obama, culpada pelo GOP pelos males acima referidos, não tem controle sobre a evolução dos preços do combustível nas bombas, e muito menos sobre o que vá ocorrer com a reforma da saúde.
     Em tal aspecto, ela está nas mãos de uma Suprema Corte, cujo viés conservador ameaça,  no caso em tela, com a emasculação da magna reforma introduzida pela Lei da Assistência Sanitária Custeável (Affordable Healthcare Act). As audiências de perguntas dos juízes mostraram que há sinistra probabilidade de que, por um escopo politiqueiro, se malbarate ou mesmo se anule (segundo propõe o juiz Antonin Scallia) essa conquista relevante, perseguida por presidentes americanos desde o republicano Theodore Roosevelt, na primeira década do século XX. Se o Supremo resolver inviabilizar a reforma sanitária, estará vestindo a camisa republicana da direita evangélica e do Tea Party, em detrimento do povo americano e dos milhões que ficarão a descoberto em termos de plano de saúde. Não é por acaso que a assistência sanitária nos Estados Unidos é a mais cara no planeta.
        Na indústria, o melhor desempenho está no setor manufatureiro, com a abertura de trinta e sete mil vagas em março. Por sua vez, o comércio varejista registrou queda de  34 mil empregos, resultado do avanço do comércio eletrônico.
       O presente cenário repete o molde prevalente nos últimos dois anos, com a  aparente retomada do crescimento dos empregos no inverno boreal, com o consequente (e decepcionante)  recuo na primavera. Posto que seja ainda prematuro afirmar a repetição do fenômeno, semelha haver a tendência dos empresários de buscar aumentar a produção com menor interveniência do fator trabalho.
       O nível do desemprego – que se baseia em pesquisa separada de núcleos familiares (households) e não dos patrões  - baixou para 8,2 % de 8,3%, o que reflete a circunstância de um menor número que busca emprego. O eventual aumento desse índice teria devastadoras consequências para Obama. Se tal índice continuar a baixar, malgrado a tênue incidência nos números totais, esse desenvolvimento será decerto favorável para a reeleição de Obama. Se acaso aumentar, a situação do democrata piora, e as perspectivas ensombrecem.
       Tampouco Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve Bank, semelha intento em transmitir visão otimista da economia. Em discurso no mês passado ele observou que ‘os (mais recentes) melhores números de emprego parecem estarem um tanto fora de sincronia com o andamento geral da expansão econômica’. As cautelosas assertivas do presidente do Fed devem ser lidas no contexto da sombria situação do desemprego na Zona do Euro da União Européia, com o alto nível de desemprego  de 10,8 %  em fevereiro.   
        A deusa Fortuna, que até o momento tem sido generosoa com o presidente Barack H. Obama, nos induz a julgar como demasiado cedo e mesmo imprudente arriscar qualquer prognóstico para a eleição de novembro. Muitas águas ainda hão de passar pelos moinhos, algumas turvas, outras menos, para que se antecipe o provável resultado. No conjunto, há uma inquietante parcela de fatores que dão a impressão de estarem na sua maioria fora do controle do atual Presidente dos Estados Unidos da América.



( Fontes: International Herald Tribune, Folha de S. Paulo )



[1] Obrigações colaterizadas da dívida (collaterized debt obligations), que arruinaram o Banco Lehman Brothers e atingiriam muitas outras instituições, não fossem as custosas intervenções do Tesouro americano.
[2] Franklin Delano Roosevelt ganhou a primeira reeleição de modo avassalador. Ainda em plena depressão, a sua atuação foi tão excepcional, que o eleitor americano o reconfirmou por primeira vez com esmagadora vantagem sobre o contendor  republicano  Alf Landon.

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