segunda-feira, 11 de maio de 2009

Dos Jornais - As eleições legislativas na Argentina

Folha de São Paulo 11.05.2009
O GLOBO


Conforme as previsões, Nestor Kirchner se apresentou como cabeça da lista da ‘Frente Justicialista para a Vitória’, em que o segundo é Daniel Scioli, ex-Vice Presidente de Kirchner. Também de acordo com o esperado, a oposição para a eleição na Provincia de Buenos Aires vai tentar questionar na Justiça a chapa do peronismo situacionista, pelas supostas irregularidades das chamadas ‘candidaturas testemunhais’ (integrantes do Poder Executivo que se licenciam de suas funções para apresentar-se como candidatos, sem a intenção de assumir as cadeiras) e do domicílio eleitoral de Nestor Kirchner (para se candidatar pela Província de Buenos Aires, ele usa o domicílio da Residência oficial de Olivos, o que tampouco seria legal).
O principal opositor do ex-Presidente é o deputado federal Francisco de Narváez, que encabeça a lista da Unión Pro, de centro-direita, congregando peronistas dissidentes e o PRO, sigla do prefeito de Buenos Aires e provável candidato à Presidência em 2011, Maurício Macri. O segundo dessa lista é o ex-aliado dos Kirchner, o ex-governador da província Felipe Solá (rompeu com o casal presidencial durante o conflito com o campo em 2008).
A terceira lista na disputa é a do Acordo Cívico e Social, que reúne sob Margarita Stolbizer (ex-deputada federal) e Ricardo Alfonsin (ex-deputado e filho do presidente Raul Alfonsin). Reúne a União Cívica Radical, a Coalizão Cívica e o grupo do atual vice-presidente da República.
A votação nestas eleições legislativas renova metade da Câmara dos Deputados (127 de 257 vagas), e um terço do Senado (24 de 72). A Província de Buenos Aires é a mais importante do colégio eleitoral, com 37,1% do eleitorado e 35 deputados a serem eleitos.
Narváez, que tem um patrimônio estimado em duzentos milhões de dólares, vem investindo de forma maciça na sua campanha. El Colorado, como é chamado por seus partidários, já se transformou na principal ameaça para os Kirchner. Ao forçar a entrada do governador Scioli e dos prefeitos (que tentaram esquivar-se do constrangimento até o último instante) na lista por ele encimada, Nestor Kirchner eleva sensivelmente a própria aposta. Dentro de sua pregação de que estaria em jogo o seu projeto de país ‘ou o caos’, ele lhe empresta um inequívoco viés referendário.
Ao maximizar a importância do evento – a opção seria eles ou a queda em uma crise semelhante a de 2001, da renúncia do presidente Fernando De La Rua – o casal Kirchner deseja arrastar os eleitores a uma escolha do medo, como se os dois representassem a segurança contra a imprevisibilidade de uma crise nacional.
Como inexistem nas normas constitucionais, medidas que evitem o abuso do poder – como se configura na presente situação, em que Nestor Kirchner, além de ser o cônjuge da atual Primeira Mandatária, é o líder autêntico da frente governamental – a oposição terá de enfrentar batalha desigual, diante da diferença de meios legais e pára-legais à disposição do cabeça da lista do oficialismo.
Embora haja muito caminho pela frente – os comícios estão marcados para 28 de junho -, as pesquisas eleitorais – nem sempre confiáveis naquele país – apresentam desde já gritantes discrepâncias. Dessarte, o Instituto Management & Fit aponta a vantagem para Narváez/ Solá com 26,8% das intenções de votos (contra 21,5% para Kirchner/Scioli), enquanto o Ibarómetro dá 40% para Kirchner e 28,8 % para Narváez. A única concordância desses dois institutos está em colocar a lista radical em terceiro lugar (oscilando entre 19.5 % e 16,9 %).
No que concerne a eventual participação pessoal do coronel Hugo Chávez nesta refrega em que os seus aliados Kirchner enfrentam o seu maior desafio, ainda é cedo para prognósticos . A crise financeira internacional – e a queda brutal nas cotações do barril de petróleo – cerceou bastante as disponibilidades de numerário do caudilho venezuelano para distribuição a seus aliados sul-americanos. Não se afigura, portanto, muito provável que se repita o episódio das malas. Quanto à manifestação física de tal apoio, tudo dependerá da anuência – e das eventuais conveniências políticas – do atribulado casal presidencial.

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