domingo, 17 de julho de 2011

O Partido Republicano Enlouqueceu ?

           A última coluna de Paul Krugman não mais tem dúvida sobre a atitude do GOP. Como não considerar demente um partido que não só faz chantagem com a obrigação legal de o Congresso aprovar o aumento do teto da dívida pública, mas também encara sem pestanejar a possibilidade de que tal venha realmente a ocorrer, com todas as consequências previstas pelos economistas não só sobre a economia dos Estados Unidos, senão acerca do surgimento de uma crise mundial.
           Na verdade, a situação nas bancadas republicanas na Câmara de Representantes (onde tem a maioria), e no Senado (onde é minoria), à medida que a data fatal se aproxima, não se afigura tão coesa quanto muitos desejariam acreditar.
           Os mais antigos, a exemplo dos líderes respectivos – John A. Boehner, o Speaker, e Mitch McConnell, o líder da minoria no Senado – vêem com preocupação a intransigência das bases e sobretudo da ala extremista do Tea Party.
           McConnell recorda-se do que aconteceu em 1995, quando Newt Gingrich tentou uma jogada semelhante contra o Presidente Bill Clinton. A opinião pública americana castigou os republicanos pelo seu doutrinarismo, que aparentavam não se inquietar com os efeitos desastrosos de sua rigidez política. Mitch McConnell também não é favorável ao aumento dos impostos, e não se opõe a uma emenda constitucional que estabeleça a obrigatoriedade de um orçamento equilibrado, em que receitas e despesas sejam equiparadas.
           No entanto, assim como o Speaker John Boehner, por ter um pouco mais de experiência que os exaltados partidários do movimento Tea Party, além de outros membros do GOP que dizem professar a mesma fé em não aumentar tributos, McConnell não levaria tais princípios a extremos, ainda que em princípio não discorde deles.
           Na verdade, os veteranos temem que o partido venha a sofrer a mesma sorte que lhe coube, quando tentou chantagear Bill Clinton e os democratas, valendo-se do prazo para a elevação do teto da dívida pública de então. O democrata de Arkansas, a despeito do promotor especial Ken Starr, logrou reeleger-se, batendo a Bob Dole com facilidade.
           O povo americano soube, no cipoal da política, distinguir entre quem tinha mais seriedade, e não lançaria a economia americana nos baixios de uma gestão irresponsável, em que a sociedade ficaria refém das temerárias manobras dos partidários de Newt Gingrich.
           Com toda a austeridade financeira professada pelos republicanos, foram os democratas que no segundo mandato de Bill Clinton terminariam o exercício, em que o orçamento produziu saldo positivo. Eleito – segundo muitos pela Suprema Corte, em discutível sentença – George W. Bush, malgrado ser presidente minoritário (a eleição americana é decidida por colégio eleitoral. No cômputo do voto popular, perdeu por cerca de quinhentos mil votos para Albert Gore Jr.), não trepidou em jogar os EUA em dois conflitos. Com as consideráveis despesas acarretadas, lá se foi o superavit orçamentário de Clinton, sucedendo-se pesados déficits, agravados ulteriormente pelas generosas exceções tributárias abertas para os mais ricos contribuintes.
          Barack H.Obama tem procurado aparecer não como o chefe dos democratas, e sim erigir-se enquanto presidente, cobrando sacrifícios de ambas as partes, tanto de seu partido quanto dos republicanos.
          Se restrições podem ser feitas a tal postura, na medida em que os eventuais sacrifícios se referem às classes menos aquinhoadas, de que o Partido Democrata costuma ser o defensor, e não aos chamados gatos gordos (fat cats), de quem o GOP é o tradicional paladino, Obama terá alguma razão em assumir uma postura presidencial, voltada para o bem da Nação e não condicionada pelas supostas mesquinharias de política interna.
         Quiçá a consciência dos efeitos deletérios de posições principistas e alienadas dos interesses do povo americano – como é a atitude da maioria republicana que faz pouco do calote na dívida e de suas consequências tanto nacionais, quanto mundiais – somada à seriedade evidenciada pelo Presidente Obama, que não trepidaria em cortar aqui e ali algum privilégio apanágio de seu partido, serão os fatores determinantes das apreensões de Mitch McConnell e de outros mais, apreensões estas que nada têm de doutrinárias, eis que se alimentam igualmente da pragmática do conhecimento.
         Barack Obama vem realizando na Casa Branca reuniões quase diárias com as lideranças dos dois partidos. Tampouco tem escatimado esforços em acorrer a uma série de entrevistas coletivas para os correspondentes acreditados junto à presidência. Tem apresentados os seus argumentos com a fluência, abertura e coerência que lhe conferem os conhecidos dotes na arte do discurso.
        Essa habilidade não há de obscurecer-lhe a vontade de chegar a um acordo com os republicanos, em benefício do interesse nacional. Boehner recuou da proposta presidencial de quatro trilhões de dólares, que não fosse apenas um entendimento ad hoc, mas que atendesse aos interesses da comunidade em geral, com cortes de privilégios que não se cingiriam à cantilena republicana que só quer ouvir falar de concessões dos democratas, e nada de mais impostos (neste cesto está a preservação dos cortes de Bush Jr. para os mais ricos).
        O problema da liderança republicana – reporto-me a Mitch McConnell e John McCain, no Senado, e a John Boehner, na Casa de Representantes – é que, malgrado terem mais juízo, semelham não possuir os votos necessários para produzir proposta legislativa que viabilize o entendimento nessas linhas não ditadas pelo sectarismo da ala extremista do Tea Party.
       Nesse contexto, é simbólica a posição do líder da maioria na Câmara (i.e., o segundo da bancada, depois do Speaker) Eric Cantor. Não hesita em debater com o Presidente, ao defender as posições duras, caras à maioria da bancada republicana – que acredita estar atendendo ao ‘mandato’ da última eleição intermediária de 2010 – e contrárias pela sua rigidez à perspectiva de uma negociação política. Embora o que ocorra no salão presidencial da Casa Branca seja protegido pelo sigilo, consoante a imprensa o líder Eric Cantor costuma gabar-se de suas intervenções contra Obama, na linha da bancada.
       Com o passar dos dias, cresce a preocupação entre os credores dos Estados Unidos, i.e., os detentores das obrigações do Tesouro Americano, que até o presente configuravam o dito risco zero. A China, como o maior credor (títulos no valor de um trilhão e cento e cinquenta e três bilhões de dólares) já manifestou o seu interesse em que o problema seja satisfatoriamente resolvido. Compreende-se a sua posição, alicerçada ainda mais pela parcela da riqueza nacional que estaria, senão ameaçada, pelo menos atingida pela falta de bom senso de representantes políticos americanos.
       Vale dizer, aliás, que o Brasil também está nessa companhia, eis que, de trás da RPC, do Japão e do Reino Unido, surge, para surpresa de muitos, o Brasil, com uma parcela de duzentos e sete bilhões de dólares.
       No atual momento, a medida que o prazo fatal de dois de agosto se aproxima, e se a proposta de Mitch McConnell – que delegaria ao Presidente elevar o limite da dívida até depois das eleições de 2012, sem aprovação prévia de grandes cortes nas despesas orçamentárias – não for ratificada pelo Congresso – o que semelha ser o mais provável -, uma das soluções aventadas seria a tentativa do Presidente obter da Corte Suprema, que, com base na 14ª Emenda à Constituição americana, o calote da dívida pública seja considerado inconstitucional.
      Essa alternativa de obter pela justiça o que o Congresso não estaria em condições de dar não tem recebido muita atenção na imprensa americana.Tal se deve a muitas razões, entre as quais que seria empresa arriscada, de resultado incerto, dado o caráter conservador (i.e., próximo das posições republicanas) da atual maioria na Corte Suprema. Por outro lado, embora o recurso à Corte implicasse em fiar-se numa caixa de surpresas, ele não pode ser ignorado, em situação próxima do desespero.
      Não obstante, o próprio líder da maioria no Senado, o democrata Harry Reid, veio a público para aconselhar o presidente a não valer-se da 14ª Emenda para resolver a questão da dívida.
      Pelo que se verifica, a despeito dos esforços de Obama, dos democratas e de suas contrapartes republicanas não cegadas por uma postura maniqueísta, a ansiada solução – vista a partir do presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke, e de todos que tenham um mínimo de sanidade – ainda não se configura no horizonte.
      A esperança – que sói ser a última a abandonar todos os conciliábulos, inclusive os políticos – ainda está presente, a animar quem queira promover um acordo e não o diktat dos animosos integrantes do Tea Party e das bancadas do GOP, a seu reboque.


(Fontes: International Herald Tribune e Folha de S. Paulo)

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