domingo, 20 de fevereiro de 2011

Colcha de Retalhos LXX

Veto no Conselho de Segurança

A notícia sequer mereceu maior destaque na imprensa - pequena nota acerca do veto dos Estados Unidos a projeto de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O aludido projeto, apoiado pelo grupo árabe, pretendia condenar os assentamentos de colonos israelenses nos territórios da margem ocidental do rio Jordão, ocupados até hoje por Israel a despeito de outras resoluções do Conselho de Segurança.
O citado projeto de resolução foi aprovado por todos os demais catorze membros do Conselho, inclusive os quatro que dispõem igualmente de direito de veto (República Popular da China, Federação Russa, Reino Unido e França). A própria representante do Brasil, membro não-permanente do SC/UN, votou a favor.
Dada a discordância de Washington, o projeto junta-se a muitos outros, vetados pelos Estados Unidos como prejudiciais a Israel.
A resolução, se aprovada, nada de novo determinaria, como se já não existissem críticas formuladas por representantes dos Estados Unidos e de outros países. Com efeito, o projeto declarava “ilegais” os assentamentos, e buscava impedir a sua continuada proliferação nos territórios ocupados.
Acresce observar que este é o primeiro veto exercido por Washington durante a Administração Obama.
Na verdade, não inova este veto estadunidense à resolução que porventura condene Israel de alguma forma, e que se manifeste pelos direitos do Povo Palestino.
Esta é a regra não-escrita, que vem sendo cumprida com monótona regularidade desde que as relações entre Washington e Tel Aviv, teoricamente entre estado dominante e estado cliente, tomaram a direção assumida durante a Administração Nixon, com Henry Kissinger no Departamento de Estado.
Como mostra o livro de Patrick Tyler ‘A World of Trouble’[1] (um Mundo de Encrencas) a capacidade de os Estados Unidos influenciar o comportamento desse Estado, o que se verificava nas administrações de Truman e Eisenhower, diminuíu consideravelmente no governo de Nixon, por força sobretudo da atuação do Dr. Kissinger. A partir de então, com base nesse precedente e em fatores de política interna, cresceu a influência dos governos israelenses, contra a qual a vontade do Presidente americano em exercício deverá seguir uma linha de cautela, máxime se estiver no seu primeiro mandato.
O próprio Presidente Barack Obama mantém relação que não é fácil com o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu. Foi a duras penas que obteve uma suspensão temporária nas construções de assentamentos de colonos, suspensão esta cujo prazo de validade já venceu. Além disso, este primeiro veto de Obama no Conselho - que torna írrita resolução que, em essência, nada propunha que os Estados Unidos já não tivesse manifestado a sua prévia concordância,- representa uma lição prática do poder de Tel Aviv no que tange a medidas que possam representar um discreto apoio para a causa palestina.
Há um comentário árabe e palestino que pode ser aplicado também ao veto americano. Em breve, Washington se terá esquecido não só deste veto – que se insere em longa série de medidas destinadas a ‘proteger’ Israel – mas também de suas causas incidentais.
Como a Parte ofendida – e lesada – o Povo Palestino e a opinião pública árabe tenderá a recordar mais este tropeço na longa caminhada pela obtenção de uma paz digna e justa, em que seus direitos sejam assegurados.
Ao fulminar medidas moderadas, que apenas reiteram conceitos com os quais já expressara o seu ‘de acordo’, Obama tende a enfraquecer a própria capacidade americana de influir positivamente na solução do conflito. Agindo de tal forma, ele não só afasta as esperanças levantadas por seu discurso no Cairo, senão mostra uma vez mais que as respectivas intervenções favorecem objetivamente a uma das Partes em detrimento da outra.

A Revolução Democrática na Líbia


Dada a disposição da ditadura de Muammar al-Khadafi e a coragem de seus opositores, não se poderia excluir um banho de sangue na Líbia. Fartos do ambiente repressivo, em que pululam as orientações caprichosas e imprevisíveis do coronel, os seus jovens opositores não temem as ameaças de um regime que, sentindo o cheiro do perigo, não trepida em reagir com a violência e truculência que lhe são próprias.
Adotando abertamente o modelo ‘iraniano’, o líder da Jamairia recorre aos apagões na internet e nos meios de comunicação. O silêncio e a treva sempre favoreceram as tiranias.
Por isso, dos choques de Benghazi e Trípoli, nos chegam notícias sombrias de mortes que já se acercam das centenas.
Imêmores da colheita macabra dos massacres e trucidamentos, os esbirros do regime pensam defendê-lo metralhando manifestantes e opositores.
Como disse Lord Acton, na célebre frase, ‘o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe de forma absoluta.’
Ao deparar esses potentados árabes lutando pela sobrevivência, tangidos pelo vendaval das manifestações democráticas, a figura de Muammar al-Khadafi, e o seu envelhecimento no mando, é o retrato cruel de uma realidade opressiva.

( Fontes: O Globo e International Herald Tribune )

[1] Patrick Tyler, ‘A World of Trouble’, Farrar Straus, New York, 2009, 628 pp.

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