Chamou a atenção mundial nesta quarta-feira o anúncio da empresa Google de que interrompera a sua cooperação com a censura da internet pela China, e que está considerando encerrar a operação naquele país.
A surpreendente decisão do Google não provocaria, no entanto, na República Popular da China uma repercussão similar. Tal não ocorreu decerto por acaso. Os atuais governantes da China são herdeiros da escolha feita em 1989 por Deng Xiaoping que, envolvido pela facção do Primeiro Ministro Li Peng, optou contra os manifestantes da Praça da Paz Celestial pela saída autoritária, ao invés do caminho do diálogo, proposto pelo então Secretário-Geral do Partido Comunista Zhao Ziyang.
O massacre de Tiananmen cobraria um altíssimo preço dos dirigentes chineses, pela via burocrático-autoritária e repressiva, que tornaria a evolução da RPC eivada do grave desequilíbrio, em que às liberdades econômicas não corresponderia abertura no campo das liberdades políticas.
A opção democrática de Zhao Ziyang foi mantida em prisão domiciliar. Com efeito, o popular líder seria colocado pela cúpula partidária no limbo de sua residência particular, de que muito poucas vezes se pôde afastar. E diz bastante do temor dos sucessores de Li Peng com a corajosa decisão de Zhao de não recitar a mea culpa, a tal ponto que sua morte em janeiro de 2005 foi tratada como segredo de estado, para evitar manifestações similares àquelas votadas no passamento de Hu Yaobang, o antecessor liberal de Zhao na chefia do Partido, e que fora defenestrado por ordem de Deng. [1]
Atraído pelo mercado chinês, Google concordou inicialmente em colaborar com a censura chinesa na internet. Diante da postura repressiva da hierarquia do PCC – e de sofisticados ataques cibernéticos de que se suspeita a origem chinesa contra os sistemas de computador da Google e em particular às contas de advogados chineses de direitos humanos - a direção do Google adotou o recuo tático com respeito a Beijing, a quem fez a advertência da ruptura se a situação perdurar nas presentes condições.
A respeito das estranhas incursões cibernéticas que o Google atribui às autoridades chinesas, a Secretaria de Estado Hillary Clinton expressou séria preocupação (‘concern’) com a infiltração no sistema da grande empresa estadunidense, acrescentando que se espera do governo chinês uma explicação.
Dessarte, a notícia da atitude tomada pelo Google logo desapareceria dos portais da internet chinesa. Além de sumir dos cabeçalhos, tampouco se fez referência aos pontos levantados pela empresa americana de ‘liberdade de palavra’ (free speach) e vigilância (surveillance).
A reação dos internautas na China, posto que obstaculizada pela censura oficial, se expressou sobretudo em mensagens e comentários no Twitter, que é somente acessível àqueles que conseguem eludir a chamada Grande muralha de fogo (Great firewall).
Explicando a posição da firma, o vice-presidente para o desenvolvimento corporativo e o principal funcionário jurídico (chief legal officer), David C. Drummond asseverou: “Decidimos que não queremos mais continuar a censurar os resultados de google.cn, e dessa forma nas próximas semanas estaremos discutindo com o governo chinês a base consoante a qual podemos operar dentro da lei, se tal é possível, um instrumento de busca não-filtrada”.
Atualmente, se um usuário na China faz pedido que inclua palavras como ‘massacre na praça Tiananmen’ ou ‘Dalai Lama’, a resposta é um espaço em branco.
A saída do Google do mercado chinês se confirmada equivaleria a uma repreensão da RPC por uma das maiores e mais admiradas empresas tecnológicas. No mercado de busca chinês, a participação do Google é menor do que a tida em outras partes. Em média, apenas recebe um pedido de busca contra três destinados aos concorrentes chineses.
Agora, o Google emprega em seus escritórios na RPC setecentas pessoas, dos quais muitos altamente bem-pagos engenheiros em soft-ware. De sua presença naquele mercado aufere rendimento anual de cerca de trezentos milhões de dólares.
Na avaliação de analistas, dadas as potencialidades do mercado chinês – hoje existem trezentos milhões de usuários da internet na China - a sua retirada poderia reduzir de forma significativa a capacidade de crescimento do Google a longo prazo.
De qualquer maneira, é ainda cedo para prever como terminará esta questão. Google tem o apoio da Secretária de Estado Clinton, e talvez a própria iniciativa tenha a ver com o esforço promovido pelo Departamento de Estado de promover a liberdade na internet através do mundo.
O próprio Presidente Barack Obama, em sua recente visita à China, só pode discursar para estudantes universitários pré-selecionados pelo governo, e a sua transmissão televisiva teve âmbito geográfico reduzido.
Apesar dos diversos percalços sofridos no relacionamento, Obama não alterou por ora o seu modus faciendi, em que costuma privilegiar o entendimento com os gerarcas chineses.
Quanto ao Google, através desta pausa no relacionamento, dependerá das conversas com os setores competentes a indicação de como terminará o assunto. Se as instâncias governamentais não se assinalam pela flexibilidade, o peso do Google não é negligenciável e não esqueçamos que os chineses, qualquer que seja a ideologia, sempre foram bons negociantes.
( Fonte: International Herald Tribune )
[1] O pesar pela morte de Hu Yaobang, identificado pelos estudantes como empenhado na abertura democrática, originou em abril de 1989 o movimento de protesto, que seria posteriormente sufocado pelo massacre de Tiananmen, em quatro de junho.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O Canal do Jardim de Alah
Em tempos idos, era um prazer a vista do canal que é a ligação da Lagoa Rodrigo de Freitas com o mar. Na verdade, seria o que resta da antiga abertura dessa lagoa com as águas do Atlântico. Sendo Ipanema a maior restinga e o Leblon a menor, o espaço com que a lagoa interior se comunicava com o oceano em nada se parecia com o presente canal.
Não obstante, por força decerto da movimentação dos bancos de areia, nem sempre a oxigenação e a intercomunicação das águas se fazia de forma satisfatória. Será assim talvez pelo capricho das correntes – ou a falta temporária delas - que o nosso bairro ganhou o nome de Ipanema, o que, segundo li em algum livro, quer dizer águas ruins em tupi-guarani.
Ora, se antes havia um largo canal entre a lagoa e o mar, a visão atual desse risco d’água, modesto sucessor de uma passada natural grandeza, não se afigura decerto das mais entusiasmantes.
Vê-lo hoje não nos faz confiar nas promessas do atual Prefeito, em cuja apertada eleição muito contribuíu o apoio recebido do Governador Sérgio Cabral. Pois o canal do Jardim de Alah, transformado na gestão do Prefeito Cesar Maia em virtual espelho d’água estagnada, assim permanecia, porque a indispensável dragagem se perdia em um infindável jogo de empurra entre município e estado.
Não se rasgava a volúvel e arenosa barreira à respiração da lagoa, pelas obscuras razões da insondável burocracia. Afora a Cidade da Música, este segundo mandato de Maia se consumiu em um estranho dolce far niente, como o carioca pôde observar em inúmeros setores que seriam da competência da prefeitura.
Eduardo Paes prometeu ao Rio de Janeiro que se empenharia em sacudir a nossa cidade, de modo que o seu habitante sentisse a benéfica presença da autoridade.
O juízo acerca do ativismo de Paes, ao completar-se o primeiro ano de sua administração, apresenta um quadro de visões contrastantes, embora seja ainda cedo para que o polegar do povo se manifeste de modo inequívoco.
De qualquer modo, a visão do canal do Jardim de Alah não ajuda por enquanto ao Prefeito. O canal morre engasgado nas areias das praias de Ipanema e Leblon. Na altura do calçadão, onde há uma comporta enferrujada, as águas antes trazidas pelo mar estão separadas por barreiras de ferro de um lençol estagnado de águas pútridas e malcheirosas, que são um quase pântano a separar o mar oceano da lagoa de novo prisioneira da indiferença das autoridades.
Pois de que serve a dita recuperação de suas águas pela CEDAE e o empresário Eike Batista se a sua porta para o Atlântico está outra vez cerrada, como nos tempos de Cesar Maia ? Será que a dragagem das areias precisa ser sempre ausente e a visão de um canal do jardim de Alah de águas límpidas e piscosas deva ser cousa do passado, como se, no capítulo, a tecnologia de nossos avós fosse superior à do senhor Eduardo Paes ?
Não obstante, por força decerto da movimentação dos bancos de areia, nem sempre a oxigenação e a intercomunicação das águas se fazia de forma satisfatória. Será assim talvez pelo capricho das correntes – ou a falta temporária delas - que o nosso bairro ganhou o nome de Ipanema, o que, segundo li em algum livro, quer dizer águas ruins em tupi-guarani.
Ora, se antes havia um largo canal entre a lagoa e o mar, a visão atual desse risco d’água, modesto sucessor de uma passada natural grandeza, não se afigura decerto das mais entusiasmantes.
Vê-lo hoje não nos faz confiar nas promessas do atual Prefeito, em cuja apertada eleição muito contribuíu o apoio recebido do Governador Sérgio Cabral. Pois o canal do Jardim de Alah, transformado na gestão do Prefeito Cesar Maia em virtual espelho d’água estagnada, assim permanecia, porque a indispensável dragagem se perdia em um infindável jogo de empurra entre município e estado.
Não se rasgava a volúvel e arenosa barreira à respiração da lagoa, pelas obscuras razões da insondável burocracia. Afora a Cidade da Música, este segundo mandato de Maia se consumiu em um estranho dolce far niente, como o carioca pôde observar em inúmeros setores que seriam da competência da prefeitura.
Eduardo Paes prometeu ao Rio de Janeiro que se empenharia em sacudir a nossa cidade, de modo que o seu habitante sentisse a benéfica presença da autoridade.
O juízo acerca do ativismo de Paes, ao completar-se o primeiro ano de sua administração, apresenta um quadro de visões contrastantes, embora seja ainda cedo para que o polegar do povo se manifeste de modo inequívoco.
De qualquer modo, a visão do canal do Jardim de Alah não ajuda por enquanto ao Prefeito. O canal morre engasgado nas areias das praias de Ipanema e Leblon. Na altura do calçadão, onde há uma comporta enferrujada, as águas antes trazidas pelo mar estão separadas por barreiras de ferro de um lençol estagnado de águas pútridas e malcheirosas, que são um quase pântano a separar o mar oceano da lagoa de novo prisioneira da indiferença das autoridades.
Pois de que serve a dita recuperação de suas águas pela CEDAE e o empresário Eike Batista se a sua porta para o Atlântico está outra vez cerrada, como nos tempos de Cesar Maia ? Será que a dragagem das areias precisa ser sempre ausente e a visão de um canal do jardim de Alah de águas límpidas e piscosas deva ser cousa do passado, como se, no capítulo, a tecnologia de nossos avós fosse superior à do senhor Eduardo Paes ?
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
O Jogo dos Muitos Erros (II)
Começa a se desfazer o decreto, lançado com grande alarde em fins de dezembro, que estabelece o Programa Nacional dos Direitos Humanos.
O decreto, alcunhado por Jânio de Freitas, de ‘tresloucado’, em se chocando com realidades que parece não ter levado na devida conta, torna-se ora objeto do mau humor presidencial.
Dentre as modificações a serem introduzidas no decreto, está a frase que justifica a criação de Comissão Nacional da Verdade para investigar atos cometidos durante a ditadura militar. Na versão original se diz que comissão vai apurar violações de direitos humanos “praticadas no contexto da repressão política”. Na nova versão, a fim de contentar o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os Comandantes militares, entraria a expressão “praticadas no contexto de conflitos políticos”.
É um recuo e tanto. A Comissão da Verdade investigará não só militares, mas também militantes da esquerda armada durante a ditadura. Em outras palavras, torturadores e torturados são colocados no mesmo nível.
A respeito, o Presidente Lula adiantou a auxiliares, na primeira reunião de coordenação política de 2010, que pretende conversar com o Secretário Paulo Vannuchi (Secretaria de Direitos Humanos) e o Ministro Jobim. O Presidente tenciona a propósito ‘uma solução negociada, sem traumas’. Como os dois já manifestaram a intenção de se exonerarem, caso as suas respectivas redações não sejam respeitadas, não se afigura fácil encontrar versão que atenda a ambas partes. O mais provável é o que vem sendo anunciado como a preferência de Lula, que atende aos reclamos dos chefes das três forças, com o pleno apoio do Ministro da Defesa.
Como referi no blog anterior, o dito Programa Nacional de Direitos Humanos se ressente de muitas falhas, tanto de forma, quanto de conteúdo. Não é uma questão de somenos importância a criação de Comissão de Verdade e Justiça, depois podada para apenas Comissão de Verdade, com o eventual intuito de punir os torturadores (cujos crimes não estariam cobertos pela lei de anistia). Se o governo tenciona enfrentar tal questão – o que só parece um magno problema no Brasil, se o cotejarmos com o tratamento do assunto por inúmeros outros países, com a Argentina à frente – é difícil entender porque logo se apreste a mudar de posição, diante das primeiras resistências na área castrense.
Por outro lado, a amplitude legal da anistia deverá ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal, em ação de iniciativa da OAB. Como a palavra da Corte Suprema será presumivelmente a final, ao determinar se os torturadores estão ou não cobertos pela lei de anistia, cabe a pergunta se não teria sido mais apropriado aguardar tal pronunciamento.
As modificações ao decreto não param por aí. No entanto, dentre os pontos polêmicos, a atitude do Presidente Lula pode sinalizar o efetivo comprometimento do governo e o que seria suscetível de negociação ou não.
Assim, Lula atenderá a manifestações da Igreja, e determinou mudanças no que se reporta à descriminalização do aborto.
No que concerne à reforma agrária, censura e retirada de símbolos religiosos, o governo não semelha demonstrar a mesma flexibilidade. Lula está aborrecido com as observações do Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, menos pela substância, do que pelo fato de tê-las feito em público e de não diferirem das críticas da Senadora do DEM, Kátia Abreu. A posição do Ministro Guilherme Cassel – favorável à mediação antes da reintegração de posse – continua a ser a do governo.
Tampouco se evidencia vontade de transigir no que tange à criação “de critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação” seja em favor dos direitos humanos, seja os que cometam “violações”. O caráter dirigista e controlador da proposta, com claro ranço de inconstitucionalidade, enquanto favorece instâncias e mecanismos de controle da informação, se insere na linha de propostas anteriores apresentadas pelo P.T., e já afastadas pela reação da sociedade civil.
Tal proposição, sem embargo, é subsídio interessante para evidenciar a simpatia do petismo por medidas de controle da informação. Tal é corroborado pela sua falta de apoio quer a medidas pró-ativas para fortalecer a proibição constitucional contra a censura, quer no combate aos seus avatares, inclusive a chamada censura judicial, que é talvez a forma mais preocupante de tendência autoritária e inconstitucional.
O decreto, alcunhado por Jânio de Freitas, de ‘tresloucado’, em se chocando com realidades que parece não ter levado na devida conta, torna-se ora objeto do mau humor presidencial.
Dentre as modificações a serem introduzidas no decreto, está a frase que justifica a criação de Comissão Nacional da Verdade para investigar atos cometidos durante a ditadura militar. Na versão original se diz que comissão vai apurar violações de direitos humanos “praticadas no contexto da repressão política”. Na nova versão, a fim de contentar o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os Comandantes militares, entraria a expressão “praticadas no contexto de conflitos políticos”.
É um recuo e tanto. A Comissão da Verdade investigará não só militares, mas também militantes da esquerda armada durante a ditadura. Em outras palavras, torturadores e torturados são colocados no mesmo nível.
A respeito, o Presidente Lula adiantou a auxiliares, na primeira reunião de coordenação política de 2010, que pretende conversar com o Secretário Paulo Vannuchi (Secretaria de Direitos Humanos) e o Ministro Jobim. O Presidente tenciona a propósito ‘uma solução negociada, sem traumas’. Como os dois já manifestaram a intenção de se exonerarem, caso as suas respectivas redações não sejam respeitadas, não se afigura fácil encontrar versão que atenda a ambas partes. O mais provável é o que vem sendo anunciado como a preferência de Lula, que atende aos reclamos dos chefes das três forças, com o pleno apoio do Ministro da Defesa.
Como referi no blog anterior, o dito Programa Nacional de Direitos Humanos se ressente de muitas falhas, tanto de forma, quanto de conteúdo. Não é uma questão de somenos importância a criação de Comissão de Verdade e Justiça, depois podada para apenas Comissão de Verdade, com o eventual intuito de punir os torturadores (cujos crimes não estariam cobertos pela lei de anistia). Se o governo tenciona enfrentar tal questão – o que só parece um magno problema no Brasil, se o cotejarmos com o tratamento do assunto por inúmeros outros países, com a Argentina à frente – é difícil entender porque logo se apreste a mudar de posição, diante das primeiras resistências na área castrense.
Por outro lado, a amplitude legal da anistia deverá ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal, em ação de iniciativa da OAB. Como a palavra da Corte Suprema será presumivelmente a final, ao determinar se os torturadores estão ou não cobertos pela lei de anistia, cabe a pergunta se não teria sido mais apropriado aguardar tal pronunciamento.
As modificações ao decreto não param por aí. No entanto, dentre os pontos polêmicos, a atitude do Presidente Lula pode sinalizar o efetivo comprometimento do governo e o que seria suscetível de negociação ou não.
Assim, Lula atenderá a manifestações da Igreja, e determinou mudanças no que se reporta à descriminalização do aborto.
No que concerne à reforma agrária, censura e retirada de símbolos religiosos, o governo não semelha demonstrar a mesma flexibilidade. Lula está aborrecido com as observações do Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, menos pela substância, do que pelo fato de tê-las feito em público e de não diferirem das críticas da Senadora do DEM, Kátia Abreu. A posição do Ministro Guilherme Cassel – favorável à mediação antes da reintegração de posse – continua a ser a do governo.
Tampouco se evidencia vontade de transigir no que tange à criação “de critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação” seja em favor dos direitos humanos, seja os que cometam “violações”. O caráter dirigista e controlador da proposta, com claro ranço de inconstitucionalidade, enquanto favorece instâncias e mecanismos de controle da informação, se insere na linha de propostas anteriores apresentadas pelo P.T., e já afastadas pela reação da sociedade civil.
Tal proposição, sem embargo, é subsídio interessante para evidenciar a simpatia do petismo por medidas de controle da informação. Tal é corroborado pela sua falta de apoio quer a medidas pró-ativas para fortalecer a proibição constitucional contra a censura, quer no combate aos seus avatares, inclusive a chamada censura judicial, que é talvez a forma mais preocupante de tendência autoritária e inconstitucional.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
O Limite
Não ajudará decerto a que o Brasil se livre tão cedo da pecha de ser o país da impunidade. Sequer me reporto aos escândalos do Senado e à anunciada queda de seu Presidente, José Sarney; à farra das passagens e outras tantas na Câmara de Deputados; e à circunstância, para muitos constrangedora, que ninguém haja sido punido de coisa alguma.
Como reclamar, portanto, da revista estrangeira que nos definiu como país de muitas leis que não são aplicadas ?
Há de suspeitar-se que me refira ao escândalo do mensalão de Brasília. Ricardo Noblat, em sua coluna semanal de O Globo, assinala, en passant, o quanto o estamento de Brasília é parceiro do atual chefe da prática, o governador José Roberto Arruda, a ponto de envolver até os jornais lá publicados.
Nesse vergonhoso episódio, já se assistiu a muitos absurdos como a carga da polícia montada contra os estudantes que protestavam contra o governador-chefe do mensalão. Parecia imagem de pesadelo, em que os maus se servem do poder estatal para perseguir os defensores da justiça.
No entanto, não erra o colunista quando indica que mais um limite está por ser ultrapassado. O licenciado presidente da Assembleia distrital de Brasília, Leonardo Prudente – o que escondeu o dinheiro da propina nas meias – se apresta a reassumir o cargo e a presidir ao processo de impeachment do Governador.
Também por Noblat se sabe que dos 24 deputados distritais, somente um ou dois deles “deixaram de ser aquinhoados com o mensalão do DEM e outros favores patrocinados pelo governo”. Compreende-se, nesse contexto, a linguagem empregada agora por Arruda que já perdoou todos aqueles que o agrediram.
Dada a crescente probabilidade de que, em tais circunstâncias, Arruda logre cumprir seu mandato até o fim (i.e., até 31 de dezembro p.f.), e a mais do que razoável suspeição de que a Câmara Distrital nada faça, somente a Justiça poderá intervir, se acatar o pedido do Ministério Público de realizar a prisão preventiva do Governador.
No Planalto, dada a poluição geral, se espera que haja alguém com autoridade para possibilitar esta medida. Como explica Noblat, solto e no exercício do cargo, o governador prejudica as investigações e a produção de provas contra ele mesmo.
Se a pantomima, no entanto, for mantida, mais um limite de desmoralização e de consequente apologia do crime terá sido superado. Pensam acaso tais senhores que essa cornucópia não tem fim ?
Como reclamar, portanto, da revista estrangeira que nos definiu como país de muitas leis que não são aplicadas ?
Há de suspeitar-se que me refira ao escândalo do mensalão de Brasília. Ricardo Noblat, em sua coluna semanal de O Globo, assinala, en passant, o quanto o estamento de Brasília é parceiro do atual chefe da prática, o governador José Roberto Arruda, a ponto de envolver até os jornais lá publicados.
Nesse vergonhoso episódio, já se assistiu a muitos absurdos como a carga da polícia montada contra os estudantes que protestavam contra o governador-chefe do mensalão. Parecia imagem de pesadelo, em que os maus se servem do poder estatal para perseguir os defensores da justiça.
No entanto, não erra o colunista quando indica que mais um limite está por ser ultrapassado. O licenciado presidente da Assembleia distrital de Brasília, Leonardo Prudente – o que escondeu o dinheiro da propina nas meias – se apresta a reassumir o cargo e a presidir ao processo de impeachment do Governador.
Também por Noblat se sabe que dos 24 deputados distritais, somente um ou dois deles “deixaram de ser aquinhoados com o mensalão do DEM e outros favores patrocinados pelo governo”. Compreende-se, nesse contexto, a linguagem empregada agora por Arruda que já perdoou todos aqueles que o agrediram.
Dada a crescente probabilidade de que, em tais circunstâncias, Arruda logre cumprir seu mandato até o fim (i.e., até 31 de dezembro p.f.), e a mais do que razoável suspeição de que a Câmara Distrital nada faça, somente a Justiça poderá intervir, se acatar o pedido do Ministério Público de realizar a prisão preventiva do Governador.
No Planalto, dada a poluição geral, se espera que haja alguém com autoridade para possibilitar esta medida. Como explica Noblat, solto e no exercício do cargo, o governador prejudica as investigações e a produção de provas contra ele mesmo.
Se a pantomima, no entanto, for mantida, mais um limite de desmoralização e de consequente apologia do crime terá sido superado. Pensam acaso tais senhores que essa cornucópia não tem fim ?
domingo, 10 de janeiro de 2010
Colcha de Retalhos XXXIII
Minissérie Dalva e Herivelto
Fazendo jus à classificação de minissérie, Dalva e Herivelto limitou-se a apenas cinco episódios, transmitidos durante a passada semana – de quatro a oito de janeiro - pela Rede Globo.
Dirigida com maestria por Denis Carvalho, ela proporciona uma volta aos anos do rádio, do Cassino da Urca e dos auditórios, com especial relevo para o da Rádio Nacional. Entre os trinta e os quarenta reinaria aquele mundo dos fã-clubes, dos auditórios e dos programas de rádio, que não tardaria a desaparecer com a chegada da televisão.
A qualidade artística, e em particular o desempenho da dupla principal, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, foi de nível excepcional. Pelas características dos diversos segmentos da história a personagem com maior realce coube a Adriana Esteves, que teve atuação primorosa, e por isso recebeu largos elogíos da crítica.
Causa estranhável assombro, no entanto, que no panegírico dedicado a Adriana e à minissérie não se haja julgado oportuno fazer nenhum elogio a Fábio Assunção.
Surpreende deveras que tal artista, que recentemente atravessou momento existencial difícil, e ora voltou a desempenhar, com o profissionalismo de sempre, o papel do compositor e cantor Herivelto, não tenha recebido sequer menção do seu trabalho.
Se alguém precisa de estímulo e reconhecimento da própria atuação, sobretudo após desincumbir-se de forma mais do que elogiável, é ele Fábio Assunção, que mais do que correspondeu ao apoio e à confiança que na oportunidade lhe prestou a atriz Adriana Esteves.
Dessarte, afigura-se importante que se frise o quão Fábio Assunção contribuíu para o êxito da programação. Dada a centralidade da relação do casal, o seu grande e tempestuoso amor, o equilíbrio da minissérie estaria quebrado se um dos personagens principais não correspondesse às exigências do papel. Não foi o que ocorreu. Ambos, Dalva e Herivelto recompareceram, agora na telinha, a dar realidade e credibilidade ao romance que viveram em outros tempos.
Nossos cumprimentos a Fábio e a Adriana por terem tornado essa recriação possível e nos feito vivenciar momentos memoráveis.
A Bolha Chinesa ?
James S. Chanos é um abastado investidor em hedge funds, que fez a própria fortuna através da previsão do colapso da Enron e de outras companhias cujas estórias ele soube desconstruir, e assim separar o mito da realidade.
Agora, segundo se noticia, ele se apresta a desmitificar o embuste do maior conglomerado que tenha defrontado, vale dizer China e Cia.
Na contracorrente dos financistas – que apostam na capacidade da R.P.C. de tirar da recessão a economia global – Chanos adverte que a China é uma economia hiper-estimulada que se encaminha para um crash, ao invés da progressão sustentada que a maioria dos economistas prognostica.
No seu entender, o crescente setor imobiliário, impulsionado por avalanche de capital especulativo, lhe apresenta um quadro de mil vezes Dubai. Chanos suspeita inclusive que Beijing esteja manipulando as estatísticas, falsificando, entre outras coisas, as incríveis taxas de crescimento de 8% (no presente cenário de lenta saída da crise financeira mundial).
A seu ver, consoante declarou em recente aparição na CNBC, “a melhor identificação para as bolhas está no excesso de crédito e não nos excessos de valorização. E não existe excesso de crédito maior do que o da China.”
Com todo o seu histórico de antevisão de quedas no ramo das empresas - anteviu o desmanche de Tyco International, e mais recentemente de firmas de construção civil e de alguns dos maiores bancos mundiais - , os seus críticos apontam para o seu elementar conhecimento da economia chinesa.
As pessoas a ele mais próximas reconhecem que Chanos começou a estudar seriamente a economia chinesa somente a partir do verão boreal passado. Apesar das contestações havidas de parte de especialistas, ele persevera na sua visão pessimista. Em entrevista, advertiu que “os chineses correm o risco de produzir enormes quantidades de bens e produtos que eles não terão condição de vender”.
Em função de um grande programa de estímulo à economia, e financiamento bancário recorde, bilhões de dólares foram investidos na economia, contribuindo para reaquecer o crescimento. Contudo, muitos analistas veem com preocupação que boa parte desse dinheiro junto com enormes fluxos de capital especulativo estrangeiro se haja dirigido para os mercados acionários e imobiliários.
Outro problema financeiro da China diz respeito à sub-apreciação de sua moeda em relação ao dólar estadunidense. Até o momento a RPC se tem valido da fixação artificial de uma cotação que não reflete a realidade do mercado para aumentar a sua capacidade competitiva, através de um barateamento dos preços das respectivas mercadorias.
Por quanto tempo as autoridades financeiras chinesas lograrão manter essa vantajosa ficção constitui um jogo complicado. O excesso de crédito tem aquecido a economia, apontando para um viés inflacionário. Por isso, o Banco Central chinês aumentou, inda que minimamente a taxa de juros, no que foi interpretado como início de estratégia de aperto na economia monetária, com vistas a combater eventual surto inflacionário.
Nesse sentido, o Banco Central tem seguido a chamada política de esterilização monetária. Vendendo as suas divisas para bancos – que pagam em renminbi – e, em seguida, retirando a moeda chinesa de circulação, é de manter a inflação sob controle, e o renminbi fraco, com que igualmente assegura a competitividade das exportações chinesas.
( Fontes: O Globo e International Herald Tribune )
Fazendo jus à classificação de minissérie, Dalva e Herivelto limitou-se a apenas cinco episódios, transmitidos durante a passada semana – de quatro a oito de janeiro - pela Rede Globo.
Dirigida com maestria por Denis Carvalho, ela proporciona uma volta aos anos do rádio, do Cassino da Urca e dos auditórios, com especial relevo para o da Rádio Nacional. Entre os trinta e os quarenta reinaria aquele mundo dos fã-clubes, dos auditórios e dos programas de rádio, que não tardaria a desaparecer com a chegada da televisão.
A qualidade artística, e em particular o desempenho da dupla principal, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, foi de nível excepcional. Pelas características dos diversos segmentos da história a personagem com maior realce coube a Adriana Esteves, que teve atuação primorosa, e por isso recebeu largos elogíos da crítica.
Causa estranhável assombro, no entanto, que no panegírico dedicado a Adriana e à minissérie não se haja julgado oportuno fazer nenhum elogio a Fábio Assunção.
Surpreende deveras que tal artista, que recentemente atravessou momento existencial difícil, e ora voltou a desempenhar, com o profissionalismo de sempre, o papel do compositor e cantor Herivelto, não tenha recebido sequer menção do seu trabalho.
Se alguém precisa de estímulo e reconhecimento da própria atuação, sobretudo após desincumbir-se de forma mais do que elogiável, é ele Fábio Assunção, que mais do que correspondeu ao apoio e à confiança que na oportunidade lhe prestou a atriz Adriana Esteves.
Dessarte, afigura-se importante que se frise o quão Fábio Assunção contribuíu para o êxito da programação. Dada a centralidade da relação do casal, o seu grande e tempestuoso amor, o equilíbrio da minissérie estaria quebrado se um dos personagens principais não correspondesse às exigências do papel. Não foi o que ocorreu. Ambos, Dalva e Herivelto recompareceram, agora na telinha, a dar realidade e credibilidade ao romance que viveram em outros tempos.
Nossos cumprimentos a Fábio e a Adriana por terem tornado essa recriação possível e nos feito vivenciar momentos memoráveis.
A Bolha Chinesa ?
James S. Chanos é um abastado investidor em hedge funds, que fez a própria fortuna através da previsão do colapso da Enron e de outras companhias cujas estórias ele soube desconstruir, e assim separar o mito da realidade.
Agora, segundo se noticia, ele se apresta a desmitificar o embuste do maior conglomerado que tenha defrontado, vale dizer China e Cia.
Na contracorrente dos financistas – que apostam na capacidade da R.P.C. de tirar da recessão a economia global – Chanos adverte que a China é uma economia hiper-estimulada que se encaminha para um crash, ao invés da progressão sustentada que a maioria dos economistas prognostica.
No seu entender, o crescente setor imobiliário, impulsionado por avalanche de capital especulativo, lhe apresenta um quadro de mil vezes Dubai. Chanos suspeita inclusive que Beijing esteja manipulando as estatísticas, falsificando, entre outras coisas, as incríveis taxas de crescimento de 8% (no presente cenário de lenta saída da crise financeira mundial).
A seu ver, consoante declarou em recente aparição na CNBC, “a melhor identificação para as bolhas está no excesso de crédito e não nos excessos de valorização. E não existe excesso de crédito maior do que o da China.”
Com todo o seu histórico de antevisão de quedas no ramo das empresas - anteviu o desmanche de Tyco International, e mais recentemente de firmas de construção civil e de alguns dos maiores bancos mundiais - , os seus críticos apontam para o seu elementar conhecimento da economia chinesa.
As pessoas a ele mais próximas reconhecem que Chanos começou a estudar seriamente a economia chinesa somente a partir do verão boreal passado. Apesar das contestações havidas de parte de especialistas, ele persevera na sua visão pessimista. Em entrevista, advertiu que “os chineses correm o risco de produzir enormes quantidades de bens e produtos que eles não terão condição de vender”.
Em função de um grande programa de estímulo à economia, e financiamento bancário recorde, bilhões de dólares foram investidos na economia, contribuindo para reaquecer o crescimento. Contudo, muitos analistas veem com preocupação que boa parte desse dinheiro junto com enormes fluxos de capital especulativo estrangeiro se haja dirigido para os mercados acionários e imobiliários.
Outro problema financeiro da China diz respeito à sub-apreciação de sua moeda em relação ao dólar estadunidense. Até o momento a RPC se tem valido da fixação artificial de uma cotação que não reflete a realidade do mercado para aumentar a sua capacidade competitiva, através de um barateamento dos preços das respectivas mercadorias.
Por quanto tempo as autoridades financeiras chinesas lograrão manter essa vantajosa ficção constitui um jogo complicado. O excesso de crédito tem aquecido a economia, apontando para um viés inflacionário. Por isso, o Banco Central chinês aumentou, inda que minimamente a taxa de juros, no que foi interpretado como início de estratégia de aperto na economia monetária, com vistas a combater eventual surto inflacionário.
Nesse sentido, o Banco Central tem seguido a chamada política de esterilização monetária. Vendendo as suas divisas para bancos – que pagam em renminbi – e, em seguida, retirando a moeda chinesa de circulação, é de manter a inflação sob controle, e o renminbi fraco, com que igualmente assegura a competitividade das exportações chinesas.
( Fontes: O Globo e International Herald Tribune )
sábado, 9 de janeiro de 2010
O Jogo dos Muitos Erros
O chamado Programa Nacional de Direitos Humanos, criado em decreto assinado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fins de dezembro, elenca considerável rol de iniciativas governamentais, a serem incluídas em pelo menos 27 novas leis.
Pode-se, de início, questionar a seriedade do proposição, dada a estranha coincidência de que se anuncie, no limiar do último ano de mandato do Presidente Lula, um tão vasto e disparatado arco de projetos arrumados sob o diáfano, e por vezes esgarçado manto dos direitos humanos.
Como há, no dito Programa, inúmeros erros, seja de conteúdo, seja de oportunidade, cabe de início a pergunta do porquê inseri-lo sob a suposta coordenação da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, da Presidência da República, dirigida pelo Secretário Paulo Vannucchi. Depois de longo período de semiobscuridade na administração Lula, tanto em hierarquia, quanto em substância, esta súbita metamorfose da Secretaria que a transforma em carro-chefe, virtual porta-voz governamental do futuro, recende a propaganda eleitoreira.
O primeiro erro do Decreto em apreço se refere à aplicação generalizada da designação de ‘direito humano’. O liberalismo no emprego do conceito é tal que se chega a colocar sob o asa do decreto o que diz respeito à negação do direito humano.
Com efeito, só pode interpretar-se a uma visão orwelliana dos direitos humanos a ‘criação de um ranking de veículos de comunicação que cometem violações aos direitos humanos’. Esse monitoramento dos meios de comunicação cheira à reimplantação pela porta de serviço da velha censura.
Por outro lado, no país dos tributos, é pelo menos questionável que se insira no programa dos direitos humanos a taxação das grandes fortunas. Dentro da brutal carga tributária imposta ao contribuinte pelos sucessivos governos, beira o cinismo confundir tributação com defesa de direitos humanos.
Ainda no que concerne aos tópicos selecionados para serem objeto de legislação específica, a leitura dos respectivos propósitos suscita a impressão de que se tem a ver não com um programa sério, mas com multifariedade de desígnios que mais caberiam em plataforma política de candidatura presidencial. Neste caso, a única explicação plausível de depararmos esse descosido arrazoado de promoção de direitos humanos com as vestes oficiais do decreto seria a de que pensam assim aumentar-lhe o choque midiático.
Além disso, o decreto trata ou antes distribui regras para todos os lados, como impedir a ostentação de símbolos religiosos, mudar regras de cumprimento de mandados de reintegração de posse em invasões agrárias, fiscalizar projetos implementados pelas empresas transnacionais, estimular candidaturas e votos de mulheres em todos os níveis, etc. etc.
Dentre os mais polêmicos, acham-se o estimulo a debate nacional e no Judiciário sobre revisão da Lei de Anistia, e a introdução de nova sistemática em casos de invasão de propriedades agrárias, com a determinação de que a audiência judiciária seja precedida por um encontro entre as partes (o proprietário das terras e os invasores) com o escopo de mediação.
Quanto a uma revisão da lei de anistia, e a instituição de comissão de verdade sobre as violações dos direitos humanos durante a ditadura militar, a ideia é positiva. Devemos varrer toda e qualquer suspeita de continuada tutela militar sobre governo e sociedade. Qualquer tutela, mesmo sob forma residual, é inadmissível em sociedade democrática.
Os políticos brasileiros se devem inspirar na vizinha Argentina, com vistas à supressão da anacrônica justiça castrense em nossa terra. Por outro lado, a exemplo de tantos outros países, não se deve ter medo da verdade na pesquisa dos fatos relativos àquele período sombrio de nossa história.
No entanto, em atacando tantas questões diversas ao mesmo tempo, o governo passa a impressão de que promove um autêntico vale-tudo, em que não deseja chegar ao cerne do problema. Nesse approach, se confunde exposição com solução.
Qualquer manual de estratégia desaconselha que uma força determinada seja pulverizada em investir muitos objetivos ao mesmo tempo. Adotar tal princípio, na sua ação, é condenar-se de antemão ao malogro. Poderá provocar muito rebuliço e gritaria, mas nada conseguirá em termos objetivos. A par de divulgação de plataforma em que os anseios reprimidos do esquerdismo petista recebe plena e geral exposição.
O que pode ser o verdadeiro intuito do presente Programa Nacional de Direitos Humanos.
Pode-se, de início, questionar a seriedade do proposição, dada a estranha coincidência de que se anuncie, no limiar do último ano de mandato do Presidente Lula, um tão vasto e disparatado arco de projetos arrumados sob o diáfano, e por vezes esgarçado manto dos direitos humanos.
Como há, no dito Programa, inúmeros erros, seja de conteúdo, seja de oportunidade, cabe de início a pergunta do porquê inseri-lo sob a suposta coordenação da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, da Presidência da República, dirigida pelo Secretário Paulo Vannucchi. Depois de longo período de semiobscuridade na administração Lula, tanto em hierarquia, quanto em substância, esta súbita metamorfose da Secretaria que a transforma em carro-chefe, virtual porta-voz governamental do futuro, recende a propaganda eleitoreira.
O primeiro erro do Decreto em apreço se refere à aplicação generalizada da designação de ‘direito humano’. O liberalismo no emprego do conceito é tal que se chega a colocar sob o asa do decreto o que diz respeito à negação do direito humano.
Com efeito, só pode interpretar-se a uma visão orwelliana dos direitos humanos a ‘criação de um ranking de veículos de comunicação que cometem violações aos direitos humanos’. Esse monitoramento dos meios de comunicação cheira à reimplantação pela porta de serviço da velha censura.
Por outro lado, no país dos tributos, é pelo menos questionável que se insira no programa dos direitos humanos a taxação das grandes fortunas. Dentro da brutal carga tributária imposta ao contribuinte pelos sucessivos governos, beira o cinismo confundir tributação com defesa de direitos humanos.
Ainda no que concerne aos tópicos selecionados para serem objeto de legislação específica, a leitura dos respectivos propósitos suscita a impressão de que se tem a ver não com um programa sério, mas com multifariedade de desígnios que mais caberiam em plataforma política de candidatura presidencial. Neste caso, a única explicação plausível de depararmos esse descosido arrazoado de promoção de direitos humanos com as vestes oficiais do decreto seria a de que pensam assim aumentar-lhe o choque midiático.
Além disso, o decreto trata ou antes distribui regras para todos os lados, como impedir a ostentação de símbolos religiosos, mudar regras de cumprimento de mandados de reintegração de posse em invasões agrárias, fiscalizar projetos implementados pelas empresas transnacionais, estimular candidaturas e votos de mulheres em todos os níveis, etc. etc.
Dentre os mais polêmicos, acham-se o estimulo a debate nacional e no Judiciário sobre revisão da Lei de Anistia, e a introdução de nova sistemática em casos de invasão de propriedades agrárias, com a determinação de que a audiência judiciária seja precedida por um encontro entre as partes (o proprietário das terras e os invasores) com o escopo de mediação.
Quanto a uma revisão da lei de anistia, e a instituição de comissão de verdade sobre as violações dos direitos humanos durante a ditadura militar, a ideia é positiva. Devemos varrer toda e qualquer suspeita de continuada tutela militar sobre governo e sociedade. Qualquer tutela, mesmo sob forma residual, é inadmissível em sociedade democrática.
Os políticos brasileiros se devem inspirar na vizinha Argentina, com vistas à supressão da anacrônica justiça castrense em nossa terra. Por outro lado, a exemplo de tantos outros países, não se deve ter medo da verdade na pesquisa dos fatos relativos àquele período sombrio de nossa história.
No entanto, em atacando tantas questões diversas ao mesmo tempo, o governo passa a impressão de que promove um autêntico vale-tudo, em que não deseja chegar ao cerne do problema. Nesse approach, se confunde exposição com solução.
Qualquer manual de estratégia desaconselha que uma força determinada seja pulverizada em investir muitos objetivos ao mesmo tempo. Adotar tal princípio, na sua ação, é condenar-se de antemão ao malogro. Poderá provocar muito rebuliço e gritaria, mas nada conseguirá em termos objetivos. A par de divulgação de plataforma em que os anseios reprimidos do esquerdismo petista recebe plena e geral exposição.
O que pode ser o verdadeiro intuito do presente Programa Nacional de Direitos Humanos.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Na Argentina dos Kirchner
Nada é garantido no subdesenvolvimento.
(de pensador anônimo)
Desde algum tempo se assiste à disputa entre a Presidente Cristina Kirchner e o Presidente do Banco Central da República Argentina (BCRA) Martín Redrado. Dada a orientação política de Nestor e Cristina Kirchner surpreende que tenha levado tanto tempo para explodir um conflito entre o que se crê todo-poderoso Executivo argentino e o autônomo Banco Central, hoje decerto um resquício dos Anos Menem na Casa Rosada, na sua filosofia do Estado minimalista e privatizante dos tempos do Consenso de Washington.
Na cartilha do neoliberalismo, a autonomia do Banco Central constitui um preceito fundamental. Diz da sabedoria política do novel Presidente Luiz Inácio Lula da Silva que tenha aceito não em tese, mas na prática, a aplicação dessa autonomia ao Banco Central brasileiro, ao convidar para o cargo Henrique Meirelles. Aqui, a vontade política de respeitar o princípio valeu mais do que a sua transformação em lei.
Assim, a determinação de manter o princípio, ainda que sem a formal chancela legal, pode servir a seus fins com maior credibilidade do que a imposição da autonomia. Ao invés, na Argentina essa suposta garantia de autonomia financeira à autoridade monetária, mesmo se gravada na pedra da lei, se contraporá fatalmente ao voluntarismo populista que é da essência dessa mistura de sindicalismo e de autoritarismo, que está na raiz do movimento peronista.
Como um canhão solto em convés de nau em mar agitado, a lógica da selva de Cristina Kirchner, ao destituir o Presidente do BCRA, com o risível argumento do alegado descumprimento ‘de seus deveres como funcionário público’ pode, apesar de manifestamente ilegal, quebrar a confiança do investidor que o presidente Martin Redrado desejava preservar. Ao negar-se a autorizar o desvio de US$ 6,6 bilhões das reservas argentinas em divisas de US$ 47 bilhões, Martin Redrado obedece às disposições do estatuto. Como é público e notório, o BCRA é autônomo, e seu regulamento interno dispõe que o respectivo presidente deve ser designado e destituído pelo Parlamento.
Ora, o Congresso argentino se acha em recesso. Tudo dependerá – neste choque entre o arbítrio e o exercício de atribuições legais – se haverá vontade política para uma convocação extraordinária do poder legislativo.
Como o mandato do presidente do BCRA se estende até setembro vindouro, não se exclui que Redrado peça à Justiça a anulação do decreto de Cristina Kirchner que determina o afastamento do Presidente.
Correspondendo a uma tendência ínsita em todos os vice, Miguel Angel Pesce, atual vice-presidente do BCRA aceitou o encargo. Cria-se, dessarte, uma conveniente dualidade à testa do Banco Central argentino. A consequente confusão institucional - que só aproveita à Casa Rosada – manieta a autoridade legalmente estabelecida e leva a questão ao arbítrio, seja da Justiça, seja do Congresso. Com as tardanças e imprevisibilidades próprias de tais instituições, já se tem pelo menos criada a atmosfera de incerteza e veleitarismo que é marca registrada desse avatar não-cameroniano do neopopulismo, que é o peronismo.
(de pensador anônimo)
Desde algum tempo se assiste à disputa entre a Presidente Cristina Kirchner e o Presidente do Banco Central da República Argentina (BCRA) Martín Redrado. Dada a orientação política de Nestor e Cristina Kirchner surpreende que tenha levado tanto tempo para explodir um conflito entre o que se crê todo-poderoso Executivo argentino e o autônomo Banco Central, hoje decerto um resquício dos Anos Menem na Casa Rosada, na sua filosofia do Estado minimalista e privatizante dos tempos do Consenso de Washington.
Na cartilha do neoliberalismo, a autonomia do Banco Central constitui um preceito fundamental. Diz da sabedoria política do novel Presidente Luiz Inácio Lula da Silva que tenha aceito não em tese, mas na prática, a aplicação dessa autonomia ao Banco Central brasileiro, ao convidar para o cargo Henrique Meirelles. Aqui, a vontade política de respeitar o princípio valeu mais do que a sua transformação em lei.
Assim, a determinação de manter o princípio, ainda que sem a formal chancela legal, pode servir a seus fins com maior credibilidade do que a imposição da autonomia. Ao invés, na Argentina essa suposta garantia de autonomia financeira à autoridade monetária, mesmo se gravada na pedra da lei, se contraporá fatalmente ao voluntarismo populista que é da essência dessa mistura de sindicalismo e de autoritarismo, que está na raiz do movimento peronista.
Como um canhão solto em convés de nau em mar agitado, a lógica da selva de Cristina Kirchner, ao destituir o Presidente do BCRA, com o risível argumento do alegado descumprimento ‘de seus deveres como funcionário público’ pode, apesar de manifestamente ilegal, quebrar a confiança do investidor que o presidente Martin Redrado desejava preservar. Ao negar-se a autorizar o desvio de US$ 6,6 bilhões das reservas argentinas em divisas de US$ 47 bilhões, Martin Redrado obedece às disposições do estatuto. Como é público e notório, o BCRA é autônomo, e seu regulamento interno dispõe que o respectivo presidente deve ser designado e destituído pelo Parlamento.
Ora, o Congresso argentino se acha em recesso. Tudo dependerá – neste choque entre o arbítrio e o exercício de atribuições legais – se haverá vontade política para uma convocação extraordinária do poder legislativo.
Como o mandato do presidente do BCRA se estende até setembro vindouro, não se exclui que Redrado peça à Justiça a anulação do decreto de Cristina Kirchner que determina o afastamento do Presidente.
Correspondendo a uma tendência ínsita em todos os vice, Miguel Angel Pesce, atual vice-presidente do BCRA aceitou o encargo. Cria-se, dessarte, uma conveniente dualidade à testa do Banco Central argentino. A consequente confusão institucional - que só aproveita à Casa Rosada – manieta a autoridade legalmente estabelecida e leva a questão ao arbítrio, seja da Justiça, seja do Congresso. Com as tardanças e imprevisibilidades próprias de tais instituições, já se tem pelo menos criada a atmosfera de incerteza e veleitarismo que é marca registrada desse avatar não-cameroniano do neopopulismo, que é o peronismo.
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