quinta-feira, 25 de junho de 2015

Supremo mantém Lei da Reforma da Saúde


                           
           O que fora apresentado como temível contestação ao ACA,  a mais importante legislação  aprovada pelo governo do Presidente Barack Obama, foi rejeitada nesta quinta-feira, 25 de junho,  uma vez mais pela Suprema Corte americana.

           Para surpresa de muitos, a Lei da Reforma custeável da Saúde (Affordable Care Act) resistiu, com sucesso, e mais uma vez,  a ações desta feita originárias do estado da Virgínia.  O ataque era particularmente insidioso, pois se dirigia a um aspecto do ACA, que, na hipótese de que a Corte anuísse aos argumentos da parte contestadora, ficaria inoperante. Com efeito, atualmente são minoria na União Americana os Estados que dispõem de câmaras estaduais as quais permitam a sua utilização por usuários interessados em valer-se da assistência sanitária.

           Os autores da ação contestaram a capacidade da União – como vem procedendo através do IRS, Serviço da Renda Interna – de reconhecer como válidos esses subsídios tanto para as câmaras estaduais, quanto para aquelas que atualmente são geridas pela União Federal. Ao declarar como inválidas essas câmaras que se servem da assistência da União, os querelantes tentavam aplicar um golpe quase mortal ao ACA, eis que praticamente em dois terços dos Estados Unidos ele não poderia ser utilizado.  

           Como se vê,  a Lei da Reforma da Saúde custeável tem resistido, e com sucesso, a intentos de seus adversários de, ou contestá-la in totum, como no primeiro embate, ou de, na prática, aleijá-la como instrumento eficaz e abrangente, como foi o insidioso escopo dessa nova demanda, que pela sua aparente lógica causara inquietação entre os defensores do ACA, e bem diversa expectativa entre os seus adversários, que a designam, com mal-disfarçado menosprezo, de Obamacare.

          O New York Times na sua avaliação deste seu segundo bem-sucedido encontro com o Supremo assinala que, ao invés de o que caracterizara a  primeira prova, em que a sentença da Corte se apresentara com fraturas e restrições, tendo sido prolatada de certa forma com alguma má-vontade (grudging), tal não se repetiu na sua segunda prova,  agora endossada por seis juízes contra três conservadores (Antonin Scalia, Clarence Thomas e Samuel Alito Jr.).  A presente maioria, contou com o Chief Justice (presidente da Corte), John G. Roberts Jr., além de Anthony  Kennedy – que costuma ser  o fiel da balança, e mais os quatro juízes liberais.

           Roberts Jr declarou, em nome da maioria, que  “o Congresso votou pela Lei da Reforma Custeável para melhorar os mercados do seguro de saúde, e não para destruí-los”. 

           Por sua vez, o juiz Antonin Scalia anunciou o seu dissenso da própria cátedra, o que sói ser interpretado como sinal de forte desacordo.  O seu voto contrário estava marcado com notas de incredulidade e sarcasmo, que provocaram joviais murmúrios na Corte, enquanto Scalia descrevia os ‘saltos mortais de interpretação’ que, no seu entender, a maioria realizou  para alcançar a própria decisão.

           Os advogados do Governo disseram que o exame da Lei demonstra que o Congresso não poderia pretender limitar os subsídios.  A frase em questão – que não despertara maior atenção por muito tempo depois da aprovação da Lei foi uma peculiar maneira de encorajar os Estados a estabelecerem câmaras. Uma vitória legal para a parte acusatória afetaria mais de seis milhões de pessoas e criaria grande confusão nos mercados de seguro.

          Já na penúltima instância, na Corte de Apelações do quarto circuito,  o veredito fora contrário aos querelantes.  O Juiz Roger L.Gregory, escrevendo para a junta de três magistrados, disse que a frase contestada era “ambígua e sujeita a múltiplas interpretações.” Nesse contexto, a interpretação dada pelo I.R.S.  (Serviço da Renda Interna) merecia ser confirmada.

 

 

( Fonte:  The New York Times )

Trincheiras da Liberdade 17

                                        

         Excluída a cobertura pela mídia das negociações nucleares entre o Ocidente e o presidente iraniano Hassan Rouhani e seu Ministro do Exterior Mohammad Javad Zarif, a ditadura dos ayatollahs não sói aparecer no noticiário. 

         Ter-se-ía a impressão de que tudo vai bem na ditadura clerical, trazida pelo Ayatollah Khomeini, em fevereiro de 1979, após a renúncia e fuga do Xá Reza Pahlevi, em fins de janeiro do mesmo ano.

          Recordam-se da chamada revolução verde, quando a notória reeleição fraudulenta em 2009 de Mahmoud Ahmadinejad provocou essa reação popular, cujos principais líderes – Mir Hussein Mussavi e o clérigo Mahdi Karroubi - até hoje estão em prisão domiciliar?

          A revolta espontânea do povo de Teerã teve inclusive musa, a jovem Neda Agha-Soltani, que foi assassinada por certeira bala, provavelmente deflagrada por algum basij[1] do alto de um prédio, no crepúsculo do dia 22 de junho. O sacrifício da jovem foi captado por celular e transmitido pelas parabólicas na informal rede da liberdade.

           A revolução que livrará o povo do Irã da ditadura clerical ainda não espoucou, mas a despeito de todo o arrocho e paranóico cerceamento da liberdade, está escrito em páginas ainda ilegíveis que os dias deste cruel regime estão contados.

           Entrementes, cabe mencionar o que está ocorrendo com a atriz Leila Hatami. Adentrava, pelo seu tapete vermelho,  a sala do festival de Cannes – famosa por seu papel em A Separação – quando, ao cruzar por Gilles Jacob, seu presidente, ao estender-lhe a mão, este preferiu distingui-la e a beijou no rosto.

           No incrível e mesquinho mundo instituído pelo regime clerical e seus diligentes capangas, a confusão começou por aí. O correspondente em Teerã do Washington Post,  Jason Rezaian reportou a dita ‘celeuma’, eis que o ósculo foi considerado afronta ao Islam, havendo um grupo de estudantes declarado que a atriz deveria ser açoitada em público.

           Rezaian, americano nascido na Califórnia, comunicou inclusive que Hatami havia pedido desculpas em declaração pública em que ela lamentava ‘atingir os sentimentos de algumas pessoas’. Acrescentou que não desejara ser beijada por Jacob, e que tinha simplesmente esquecido “a regra”.

          Oito semanas depois do seu despacho, Rezaian continua preso, e ainda por cima no famigerado cárcere  Evin (notório pelas torturas e execuções). Até a esposa de Jason, Yeganeh Salehi, cidadã iraniana, e reporter de jornal de Abu Dhabi, foi presa, para ser liberada sob fiança mais tarde. Rezaian aí permanece há dez meses, boa parte dos quais na solitária. Somente sua mãe, Mary Rezaian, pôde visitá-lo por duas (breves) vezes.

           O juízo de Rezaian ocorreu em junho. Foi acusado de espionagem, colaboração com governos hostis (sic), e ‘propaganda contra o ‘establishment’. O advogado que  se encarregou da causa não foi escolhido pelo réu, e os trabalhos do julgamento não são abertos ao público.  A acusação pode determinar sentença de 20 anos de cárcere, sendo o juiz responsável – Abolghassem Salavati – conhecido por condenar dissidentes à morte, e por presidir a julgamento omnibus em que ativistas e jornalistas foram obrigados a dar confissões televisadas.

                 No caso de Rezaian, depois de interrogatório  sob portas cerradas, Salavati suspendeu o juízo, sem qualquer definição de prazo de retomada. Em comentário a esse simulacro de justiça, o diretor-executivo do Washington Post, Martin Baron, declarou: “Não há justiça neste sistema, e não obstante está na balança o destino de pessoa boa e honesta.”

                  O próprio Washington Post requerera visto para que um de seus diretores assistisse ao juízo de Rezaian, mas as autoridades sequer responderam.  A mulher dele continua no Irã e pode ir a julgamento em breve. Como o público não foi admitido ao juízo de Jason, a esposa esperou por horas a fio na entrada do Tribunal. Mas os discretos iranianos providenciaram que o ingresso de Rezaian fosse por porta de fundos...

                   É até mesmo muito provável que ele sequer saiba que a sua mulher lá estava para vê-lo.

 

 

( Fonte: The New Yorker, 8 de Junho de 2015 ) 



[1] Os basiji são milícia violenta e detestada pela gente iraniana.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Tanques americanos no Leste Europeu


                                                                                                             

                                              Com a Rússia nas mãos de agente do
                                              KGB, a história se posiciona para
                                              repetir-se. Sofi Oksanen,escritora
                                              finlandesa.

 

               A pequena Estônia, ao norte do Mar Báltico, se independizou da Rússia, quando do desaparecimento em 1992 da União Soviética. Como as demais repúblicas bálticas  (junto com Letônia e Lituânia), a Estônia perdera a sua independência em consequência do Tratado de não-agressão entre a Alemanha nazista e a URSS.

               Como se sabe, as nações bálticas tinham ganho a sua independência com o Tratado de Versailles, em 1919. Seria, no entanto, efêmera conquista, que a IIª Guerra Mundial anularia. De início, com o Tratado Molotov-Ribbentrop, que na foto famosa deixara exultante o Camarada Joseph Stalin, a área foi partilhada por Moscou e Berlin.

               Na Estônia, a princípio sob o poder de Moscou, com a guerra Alemanha –URSS, toda essa região cairia nas mãos de Adolf Hitler. Já na fase final desse conflito, a Estônia, como as demais repúblicas bálticas, voltaria ao mando do Exército Vermelho.

               Não deve espantar que esses amos – tanto o III Reich de Adolf Hitler, quanto o império soviético – tenham tratado com brutalidade os povos que por infortúnio geográfico eram seus vizinhos.

                Daí o trauma dos povos que vivem à sombra do Kremlin, sobretudo aqueles menores, em que há longo histórico de dominação russa. Não seria diferente, portanto, no caso da Estônia.

                E por isso a escritora finlandesa – outro país objeto de agressões russas, e que pela sua capacidade pôde manter a própria independência, posto que sob a ominosa sombra da chamada finlandização, i.e. a sua composição com Moscou – se tem dedicado, como se refere no cabeçalho,a criar narrativas inspiradas na difícil existência dos povos dessas repúblicas bálticas. E a Estônia, de novo ameaçada, é um dos cenários a que dá maior atenção.

                 Não foi sem razão que o Presidente Barack Obama considerara um atraso na história européia tanto a invasão da Ucrânia, quanto a anexação da Crimeia. Esse brutal retrocesso custou caro a gospodin Vladimir V. Putin. Defenestrado do G-8    - Obama ía visitá-lo em Moscou – o ex-chefe do FSB (o novo nome do sinistro KGB), depois do bem sucedido golpe do good cop – bad cop, com o mandato de 4 anos de Dmitri Medvedev em que Putin, como Primeiro Ministro, manteve um perfil baixo, ele semelha ter regressado com excessivo otimismo.

                 Assim, a sua ação contra a Ucrânia – causada pela deposição do ‘amigo’ Viktor Yanukovich – com a anexação da península da Crimeia provocou reação – decerto previsível dada a enormidade do crime – mas que, na  verdade o surpreenderia, pela  dosada virulência em que o Ocidente – e notadamente os Estados Unidos – puniria com sanções dolorosas porque certeiras a economia russa, que já atravessava crise devida à queda nas cotações do barril de petróleo, que é o seu principal fundamento financeiro.

                    A professora Karen Dawisha, professora de Ciência Política, especialista em Rússia, na Universidade de Oxford, Ohio, nos brindou com o livro ‘A Cleptocracia de Putin’, que mostra a progressão desse agente da atual FSB, passando por Dresden, na então DDR (República Democrática Alemã) para começar em São Peterburgo o seu aprendizado no racket da prefeitura, sob o Prefeito Anatoliy Sobchak.

                     Terá sido um erro de avaliação de Vladimir Putin, no que tange aos eventos desencadeados na Ucrânia, fundado na sua experiência contra as pequenas repúblicas da Georgia e da Moldova, quando as coisas lhe saíram bem? É difícil, por conseguinte, determinar se a agressão contra a Ucrânia que, apesar dos precedentes contra a Geórgia e a Moldova, teria consequências muito diversas para a Rússia, do que as suas ações no tempo de George W. Bush.

                     Como a jogada de passar o governo – mas não o poder – para o leal amigo Medvedev fora um êxito, pode-se alvitrar que, com o sangue frio dos homens fortes, terá julgado que as consequências seriam administráveis...

                     De qualquer forma, Putin tem idéias muito elásticas  sobre o ‘estrangeiro próximo’, esse conceito que já explica, em boa parte, a desenvoltura do Kremlin no que tange aos pouco afortunados países que vivem nas cercanias da esfera do Império Russo.

                     É difícil determinar se o endurecimento da OTAN, em que se reforça a sua presença bélica com pesados tanques modernos, condicionará  atitude mais aberta ao diálogo de parte de Moscou.

                    Segundo o anúncio do novel Secretário da Defesa, Ash Carter,  Washington determinou o posicionamento de 250 tanques, peças de artilharia e outros equipamentos militares na região leste européia. Essa iniciativa decorre do envolvimento da Federação Russa na conflagração a leste da Ucrânia.

                     O  Secretário da Defesa confirmou que tanto a Estônia, Lituânia e Letônia, quanto Bulgária, Romênia e Polônia concordaram em receber esse equipamento bélico pesado. Acrescentou Carter que parte do material será instalado igualmente na Alemanha, o que tende a indicar mudança de postura da Chanceler Angela Merkel.

                     Por ora, não há indicações quanto a possíveis mudanças na eventual assistência de parte do Ocidente a Kiev. De qualquer forma, essa alteração no pro-ativismo da OTAN, com a mobilização de material pesado em países em torno da Ucrânia deve dar uma outra idéia quanto à postura da OTAN, se a tentativa de fragmentação da região leste da República Ucraniana de parte dos ‘rebeldes pró-Rússia’ receber um novo impulso. Para tanto, se segue de perto a situação do segundo Cessar- Fogo de Minsk.

 

( Fontes: The New York Review of Books, Folha de S.Paulo, A Cleptocracia de Putin, por Karen Dawisha ).

O Outro reinterpreta Lula


                                        

         Como seria de esperar, a tentativa de Lula de reinserir-se no debate, como se ainda pudesse controlá-lo, provocou em comentaristas da mídia interpretações as mais díspares na aparência, embora na essência não estejam tão longe assim.

         A avaliação mais crítica  de Lula está em Elio Gaspari.  O torneiro mecânico que virou dirigente político não estaria falando sério.  Se acha que o defeito pode ser do governo e não ‘nosso’, acreditará acaso que alguém seja capaz de separar um do outro? Depois, mais uma, ainda mais difícil de engolir: ‘acho que o PT perdeu um pouco de sua utopia’. Casos como o do assassinato de Celso Daniel, o Mensalão, e as petroroubalheiras dificultariam a percepção de que o PT tenha perdido só “um pouco de sua utopia”.

         Para Gaspari, o segundo motivo pelo qual Lula pode estar perdendo o seu tempo foi exposto no último congresso do PT em Salvador, quando o nome do tesoureiro João Vaccari Neto recebeu uma ovação no plenário.  Pelo visto, a gente nova que um dia foi para o PT hoje grita nas ruas para que ele se vá.

         Talvez seja enfeitar demais a banca de Lula comparar-lhe a esperta guinada política com o lance de Mikhail Gorbachev, quando pensou salvar o reumático sistema soviético. Havia alguma grandeza nos princípios da perestroika (reestruturação) e glasnost (transparência), que a renegação tardia da responsabilidade não tem.

         Tampouco vejo muita parecença com a Revolução Cultural de Mao Zedong. O líder chinês, que uma vez tomado nunca apeou do poder, e usava e reusava da capacidade de engodar os camaradas a fazerem críticas, como nas Cem Flores, em que ceifou os críticos que acreditaram na sua palavra, e na chamada Revolução Cultural, quando apelou para a ala dos jovens para varrer a suposta oposição dentro do PC, depois do malogro de uma de suas campanhas.

          Lula tem cândidos temores. Segundo Gaspari, a guinada e o rejuvenescimento petista são utopias que Lula vende mas não compra. 

          Será, no entanto, que a demofobia dos adversários continuará a explicar as incríveis reviravoltas, como no caso do Mensalão em que o então presidente, choroso, pediu desculpas à Nação, e D. Marisa mandou tirar passaporte com a cidadania italiana?

          Ou devemos imputar à incompetência e falta de grandeza dos seus contendores?

          Hoje, o passado parece repetir-se.  O governo de D. Dilma, de repente, desapareceu. As mentiras da campanha, a fraqueza do esquema de apoio varreram tanto a remanescente confiança que dera para reelegê-la, quanto a mirífica base de apoio, que o bicho comeu. O Joaquim Levy é uma andorinha que pensa poder trazer o verão. Jovem, competente, a sua vitória seria o anti-Dilma, mas até com isso ela já se conformou.      

          Enquanto  nas laterais, Lula da Silva reclama de não mais ter foro privilegiado, e se pergunta das intenções do juiz Sergio Moro. Estará acaso pensando, como refere Zuenir Ventura, na ameaça do pai de Marcelo Odebrecht, o criador da maior construtora da América Latina, Emílio Odebrecht: “se o filho fosse para a cadeia, seriam necessárias outras três acomodações: 'Uma para mim, outra para o Lula e outra ainda para a Dilma.’

            A perspectiva de prisão tira o sono dos poderosos.  Como sublinha o imortal Zuenir, “isso é uma novidade num país em que, como se dizia, tal só acontecia com preto, pobre e prostituta.”

 

 

( Fonte:  O Globo )

terça-feira, 23 de junho de 2015

Desconstruindo Lula ?

                                          

          Luiz Inácio Lula da Silva está passando por um momento difícil, tanto político, quanto pessoal. Nesse sentido, dá a muitos a impressão de estar lidando de maneira aberta diante dos múltiplos problemas que, pelo visto, teria a intenção de estar compartilhando com a opinião pública.

          E, no entanto, não se deve esquecer – o que amiúde ocorre – que o Presidente Lula é um dos políticos mais ladinos da safra que continua em atividade, e para muitos,  no que tange aos malabarismos da política, seria o melhor de todos.

           Vamos por partes. Quanto ao PT, lamenta que não aja como dantes, i.e., o partido aguerrido, que defendia com vigor os próprios ideais. Àquele PT de oposição, firme e resoluto nos seus propósitos e sobretudo quanto aos ideais que defendia, contrapõe o Partido dos Trabalhadores no cimo do poder. Agora, para ele, o PT está velho. E esta senectude é manifesta, porque o partido, ao contrário dos ideais de antigamente, tem o respectivo  projeto  paralisado pela burocracia.

            E a explicação dessa mudança é fácil. Hoje o PT só pensa em empregos e cargos, e não é mais aquele partido vigoroso e jacobino de seus tempos de oposição.

            Completando esta imagem negativa do PT hodierno, Lula afirma que o partido hoje está abaixo do volume morto. Essa imagem, vinda da crise hídrica, manifestada sobretudo em São Paulo, é empregada de forma enfática a ponto de colocar o  Partido dos Trabalhadores debaixo de seus dois líderes principais, Lula e Dilma, que, pelo menos, estariam no volume morto e não abaixo dele, como o partido (e suas correntes).

             Aí, e já no paroxismo da ênfase,  Lula da Silva toma cuidado de distanciar-se um pouco da atual mediocridade do partido. Essa distância lhe pode ser útil, dentro de uma dialética por vir, em que o fundador e líder se empenhe em dar novas determinações aos correligionários, para que eventualmente o PT o acompanhe na sua caminhada. Quanto à Dilma, apesar de criticá-la, não quer decerto alijá-la, porque tal não serviria aos desígnios dele próprio e partidários.

              Belo quadro, não lhes parece?  No entanto, desde os primeiros dias de seu governo, nos idos de 2003, Lula cuidou sobretudo de aumentar os cargos e os empregos para os militantes petistas. Para tanto – no que demonstrou grande afã – não hesitou em derrogar determinação do antecessor FHC quanto à formação universitária dos ocupantes dos diversos DAS da república. Surpreendeu desde logo a avalanche de petistas  que nomeou para os diversos cargos burocráticos e de direção na estrutura administrativa do Estado.  Desde os inícios, causou não pequena preocupação a ênfase do governo de Lula da Silva em aparelhar o Estado com militantes saídos dos fornos incessantes do Partido dos Trabalhadores.  Nesse contexto, logo chamaria a atenção o montante em que Lula e os gerarcas do PT se mostraram dispostos em inchar os gastos correntes do Estado. Nesse sentido, e mesmo contra a corrente da pós-modernidade, o PT jamais hesitou em elevar esses gastos correntes a altos percentuais, mesmo diante das reservas e das advertências de que ao aumentar demasiado a máquina burocrática estatal, estaria criando verdadeiro monstro, eis que esses gastos correntes não são flexíveis, mas ao invés contribuem para a rigidez da máquina burocrática estatal.

                Por isso, talvez porque muito se passou, e o grande líder esqueceu-se de tais pormenores, parece hoje um tanto contraditório que se censure os militantes por só desejarem aquilo, vale dizer emprego e colocação,  quando tampouco o grande líder assim pensava desde o início, com a sua ênfase no EMPREGO.

                Igualmente na área do emprego não se deve esquecer que, partindo do disfuncional FOME ZERO, o PT evoluíu para criar, dentro do assistencialismo, o BOLSA FAMILIA, hoje um grande sucesso, embora os seus percentuais, como 91% no Maranhão levantem a lebre de que tal esquema assistencialista semelha congelar-se num caráter permanente, com o contentamento dos extratos mais pobres do Nordeste em ter o Bolsa Família não como estágio de progressão pessoal e familiar, mas um pouso assistencialista, em que as pessoas e as famílias não semelham tão interessadas em progredir e assumir empregos reais e produtivos, mas levar  precária vidinha, nos limites da caridade pública.

                 Por outro lado, há mais uma variação de Lula, o que se sente ameaçado não politicamente, mas penalmente. Há pouquíssimos dias, ele chegou mesmo a dizer que era o próximo objetivo do Juiz Sérgio Moro.

                 Com a sua relação tão chegada às empreiteiras e notadamente com a Norberto Odebrecht, a reação diante das prisões dos presidentes desta última, e da Andrade Gutierrez dá a impressão de certo nervosismo, sobretudo pelas ilações pessoais quanto à Lava-Jato, agora na sua fase Erga Omnes.  Talvez esse latim terá assustado ainda mais o grande líder.

                 Será difícil determinar porque Lula da Silva se sente hoje cada vez mais ameaçado?

                  O grande segredo não sói permanecer como tal por um período lato de tempo. O passar dos dias e dos meses têm função tão deletéria, quanto familiarizante.  O que antes só se expressava, nas colunas da imprensa dos principais correspondentes, por baixo de densa rede, quase impenetrável, de tímidas e discretas alusões, o Tempo, com o seu vezo simplificador e quase cínico, vem dando sujeito e complementos de circunstância às orações, a ponto de que a leitura dos eventuais responsáveis comece a ser  quase banalizada.

                  Nesse contexto, fala-se de grandes planos de Lula da Silva, na sua recriação do PT, e na sua candidatura em 2018.

                   A política e os seus escribas muita vez se emaranham nas próprias projeções. Porque, como já dizia Armando Falcão, que era a voz da Ditadura, o futuro a Deus pertence.  Todos sabemos que Dilma Rousseff não mais o tem, devendo recolher-se em 2019 – se não houver acidentes de percurso – ao remanso dos assuntos particulares.

                   Já quanto a Lula...   

 

( Fontes: O Globo, site de O Globo )

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Cumplicidade do Governo Dilma

                                   

         Há vários erros no que tange à Missão Aécio Neves e dos demais senadores que  o acompanharam.

          De início, o erro mestre de que todos os demais, direta ou indiretamente, decorrem: a visita dos Senadores não foi clandestina, ou tomada à revelia do Governo Maduro. Ela foi oficial, como o demonstra haver sido transportada por aeronave da Força Aérea Brasileira.

          Ao contrário do prometido, não houve nenhuma proteção ao veículo que conduzia a comitiva. Os policiais da Guarda Nacional nada fizeram para evitar a agressão ao veículo (balançaram o ônibus, não dispersaram o grupo de ‘manifestantes’ enviado pelo governo Maduro para atacar a comitiva em lugar estratégico de passagem).

          Tanto o Vice-Presidente quanto o Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, e o próprio PT, da presidente Dilma Rousseff, criticaram a visita. Houve disparidade no tratamento. Ao invés do absoluto desrespeito supra-referido, quando das visitas  dos ex-presidentes Jorge Quiroga (Bolívia), Andrés Pastrana (Colômbia) e Felipe González (Espanha) eles tiveram garantidas segurança, carros à disposição e policiais fortemente armados. Desta feita, nem o governo nem a Embaixada garantiram essa segurança. E acrescentou Lilian Tintori, esposa de Leopoldo López: isso foi um rechaço à visita, um maltrato aos senadores e um desrespeito sério.

           E enfatizou Lilian Tintori:       “por causa de uma visita  a Leopoldo López, meu marido, fizeram com que toda a cidade ficasse paralisada, para que os senadores não vissem nossa realidade.Uma realidade que o mundo não conhece.”

         A ausência do Embaixador Ruy Pereira, que não acompanhou a missão, não ocorreu, portanto, por acaso. O Brasil não pode enviar uma missão oficial, do Senado Brasileiro, para visitar Leopoldo López – um político preso há mais de ano e em greve de fome – missão composta  por senadores, e o Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, dê ordens expressas ao Embaixador em Caracas que não acompanhe a missão. Tampouco foi designado qualquer funcionário diplomático para acompanhar a comitiva.

           Parece evidente que o Ministro das Relações Exteriores cumpria instruções da Presidente Dilma Rousseff, que fez com que autoridades estatais não tivessem qualquer proteção na sua missão oficial a Caracas.

           A atitude da Presidente Dilma Rousseff com relação ao Ministério das Relações Exteriores não tem paralelo com a dos presidentes que lhe precederam no cargo, até mesmo os generais-presidentes do tempo do governo militar. Os exemplos são tantos que peço vênia para não mencioná-los. Baste assinalar que ao contrário da norma constitucional, determinou que o Brasil se abstivesse quanto à anexação pela Rússia da Crimeia. O seu registro de falta de respeito com o direito internacional público e o direito diplomático tem agora nova página com os Senadores da República, abandonados até por seu representante.  

                  

( Fonte:  O  Globo )        

Brasil x Venezuela


                                         

           O impossível acontece.  Se não fosse a atitude de técnico de time pequeno de Dunga,  o Brasil teria ganho  a partida com mais tranquilidade. No segundo tempo, ganhando por dois a zero,  o técnico resolveu proteger mais o resultado.

            De forma incrível, na fase final, substituíu atacantes e colocou jogadores de defesa.  De repente, o Brasil tinha quatro zagueiros, dois laterais e dois volantes ! Sobravam dois atacantes e o goleiro...

            Em situação antes jamais vista, a seleção pentacampeã do mundo, recua diante da Venezuela, que obviamente jogo, faz um gol (em bola mal espalmada por Jefferson) e parte para o abafa.

            Se ele Dunga houvesse deixado o Brasil com a sua escalação habitual, dada a maneira com que os dois gols haviam sido obtidos, o mais provável é que o time aumentaria o placar em um jogo que se vinha controlando a contento.

            O hiper-defensivismo animou os venezuelanos, e os seus ataques se foram tornando sempre mais perigosos. Depois do primeiro gol, o sufoco começou e a Venezuela perdeu pelo menos uma  outra boa oportunidade.

            De nossa parte, passamos a nos defender como se fôssemos time pequeno.

            Por sorte, escapamos. Se o técnico Dunga continuar, no entanto, com essa falta de confiança na própria seleção, as coisas se podem complicar. Afinal se Dunga mantiver a insegurança quanto à equipe,  os jogadores tenderão a ficar mais... inseguros.

            Passarão a atuar como timinho, e se Dunga não se libertar desta síndrome de técnico híper-cauteloso, acabará tendo sobejas razões para ver a própria insegurança confirmada no campo.

 

( Fonte: Rede Globo )