DOS JORNAIS - XI
O GLOBO - 03.09.2008
FOLHA DE S. PAULO
Amplo noticiário sobre a ‘inauguração’ do pré-sal, pelo Presidente Lula, em plataforma a 112 km da costa, do primeiro poço, no campo de Jubarte. Nessa oportunidade, em meio ao júbilo pelo importante descoberta, e com as mãos ritualmente marcadas pelo petróleo, o Presidente declarou: “Eu tenho tanta sorte que acho que Deus passou por aqui e resolveu ficar. Porque a sorte aumenta a cada dia.”
Visão de um cidadão.Não há dúvida de que estamos diante da próxima aquisição pela Nação brasileira de enorme riqueza. As palavras do hino ressoam com ênfase presciente, ao afirmarem que o Brasil está deitado em berço esplêndido. O contentamento é válido e decerto merecido. Tais conquistas não ocorrem por acaso. Graças à tecnologia desenvolvida pela Petrobrás, criada, é bom lembrar, pelo Presidente Getúlio Vargas, se podem explorar os lençóis em águas profundas. Se a profundidade ora aumenta, e se as conseqüentes dificuldades da empresa estenderão os prazos em que essa considerável riqueza se achará realmente disponível, devemos aproveitar esse espaço de tempo para que aporte tão substancial possa ajudar-nos a realmente desenvolver o Brasil.
Precisamos, dessarte, evitar os erros do passado. Conforme nos ensina mestre Jaime Cortesão, o ouro de Minas Gerais, gasto com prodigalidade pelos soberanos portugueses, se escoou em boa parte, por força dos ruinosos termos de intercãmbio entre Portugal e a Inglaterra estabelecidos pelo tratado de Methuen, para os cofres da City e daí serviu para financiar a colonização da Nova Inglaterra ! Simplificando, Minas contribuíu com o seu ouro (e diamantes) para alavancar o desenvolvimento de o que seriam os Estados Unidos !
Há outros exemplos de riquezas desperdiçadas. Longa seria a enumeração de perdidas oportunidades na efetivação do potencial de nosso país. Se o Brasil já alcançou resultados significativos, ainda existem demasiadas lacunas em nosso projeto nacional. É hora, portanto, de ter presente o interesse da Nação e não ambições corporativas. Evitemos os gastos suntuários e a má utilização dos recursos futuros do pré-sal. Esses recursos pertencem à Nação. Não os pulverizemos em gastos clientelistas e em despesas improdutivas. Pensemos grande, nunca em proveitos sectários, corporativos e que tais. Não é para projetos demagógicos, para engordar a burocracia, e para aquinhoar feudos que se desenvolveu esta tecnologia para desenvolver tais recursos de nossa terra.
O projeto Brasil ainda enfrenta muitos pontos de estrangulamento. Com o fundo do pré-sal é mister priorizar a saúde, a sanidade pública, a educação em todos os níveis, a recuperação das rodovias e a construção de ferrovias, a criação de uma sociedade mais justa no campo e na cidade, o fortalecimento da segurança para a grande maioria da população honesta, e o combate aos feudos ou áreas em que o Estado está ausente. Não será através do assistencialismo que desenvolveremos o nosso país. O brasileiro não carece de caridade. Ele precisa, ao invés, viver em ambientes dignos, longe do desgoverno e da corrupção. Ele tem direito a educação, saúde e emprego. Se nos livrarmos da burocracia – essa herança da colônia – e se não encararmos os recursos do pré-sal como uma pródiga dádiva , poderemos ambicionar a que o Brasil deixe, por fim, de ser o eterno país do futuro.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Dos Jornais - X
OS JORNAIS - X
O GLOBO (2.09.08)
FOLHA DE S. PAULO
Eleições Americanas. Terminada a Convenção de Denver, o resultado das pesquisas varia entre um pequeno incremento do candidato democrata sobre o republicano (48% para Obama e 47% para McCain, segundo a CNN) ou uma vantagem maior, de 50% para Obama e 43% para McCain (conforme a Gallup). Assim, de um aumento pífio, no primeiro caso, se passaria a uma diferença substancial, no segundo. Findo o show democrata, a volatilidade do eleitorado estaria refletida na considerável discrepância entre pesquisas pós-Denver.
Já a Convenção de St. Paul, em Minnesota tem sido consideravelmente afetada pelo furacão Gustav. Os efeitos políticos desse fenômeno atmosférico têm sido favoráveis para o candidato John McCain, que tem procurado projetar-se como um líder de iniciativa, através de intensa pregação de solidariedade às vítimas atingidas pelo furacão. Outro efeito colateral, igualmente benéfico para McCain, foi o cancelamento das intervenções de Bush junior e de seu Vice Dick Cheney, anteriormente previstas para o primeiro dia da Convenção. Com isso, McCain fica livre do relativo constrangimento da presença de Bush e Cheney, cujos atuais índices de impopularidade são bastante altos. No entanto, não está ainda afastada a possibilidade de que Presidente e Vice-Presidente compareçam à Convencão (ou participem eletronicamente) no seu último dia, com o que McCain veria justamente a sua aclamação acompanhada pela presença desconfortável de Bush e Cheney.
Voltando ao campo democrata, existe um outro fator que pesa como uma incognita quanto ao desempenho de Obama nas eleições de novembro. A sua indicação pelo Partido Democrata como candidato à presidência é um dado histórico, porque por primeira vez um candidato negro concorre à Casa Branca por um dos dois grandes partidos estadunidenses. A par disso, Obama se assinala como um Senador politicamente liberal, o que na terra de Tio Sam significa ser de esquerda moderada, o que não é exatamente um trunfo junto ao conservador eleitorado americano.
A sua condição de afro-americano representa um componente importante e facilitou a vitória de Obama naqueles estados sulistas em que o contingente negro se afigura determinante. No entanto, o fator racial não aparece nas pesquisas, porque implicaria em reconhecimento de preconceito pela população branca. A pergunta que permanece no ar será até que ponto esse fator irá atuar no segredo das urnas.
Na história política americana, o Partido Democrata se assinalou igualmente pela indicação à presidência em 1928 do governador de New York, Al Smith – que era católico. A despeito do apoio que teve de correligionários importantes – como do próprio Franklin Delano Roosevelt – Al Smith foi fragorosamente derrotado por Herbert Hoover (que depois não conseguiria reeleger-se pela depressão econômica anunciada pela queda da Bolsa de Wall Street em 1929). Até a eleição do católico John F. Kennedy em 1960, todos os presidentes americanos continuaram a ser protestantes. O pleito de novembro determinará até que ponto existe um paralelo entre essas duas indicações presidenciais.
O GLOBO (2.09.08)
FOLHA DE S. PAULO
Eleições Americanas. Terminada a Convenção de Denver, o resultado das pesquisas varia entre um pequeno incremento do candidato democrata sobre o republicano (48% para Obama e 47% para McCain, segundo a CNN) ou uma vantagem maior, de 50% para Obama e 43% para McCain (conforme a Gallup). Assim, de um aumento pífio, no primeiro caso, se passaria a uma diferença substancial, no segundo. Findo o show democrata, a volatilidade do eleitorado estaria refletida na considerável discrepância entre pesquisas pós-Denver.
Já a Convenção de St. Paul, em Minnesota tem sido consideravelmente afetada pelo furacão Gustav. Os efeitos políticos desse fenômeno atmosférico têm sido favoráveis para o candidato John McCain, que tem procurado projetar-se como um líder de iniciativa, através de intensa pregação de solidariedade às vítimas atingidas pelo furacão. Outro efeito colateral, igualmente benéfico para McCain, foi o cancelamento das intervenções de Bush junior e de seu Vice Dick Cheney, anteriormente previstas para o primeiro dia da Convenção. Com isso, McCain fica livre do relativo constrangimento da presença de Bush e Cheney, cujos atuais índices de impopularidade são bastante altos. No entanto, não está ainda afastada a possibilidade de que Presidente e Vice-Presidente compareçam à Convencão (ou participem eletronicamente) no seu último dia, com o que McCain veria justamente a sua aclamação acompanhada pela presença desconfortável de Bush e Cheney.
Voltando ao campo democrata, existe um outro fator que pesa como uma incognita quanto ao desempenho de Obama nas eleições de novembro. A sua indicação pelo Partido Democrata como candidato à presidência é um dado histórico, porque por primeira vez um candidato negro concorre à Casa Branca por um dos dois grandes partidos estadunidenses. A par disso, Obama se assinala como um Senador politicamente liberal, o que na terra de Tio Sam significa ser de esquerda moderada, o que não é exatamente um trunfo junto ao conservador eleitorado americano.
A sua condição de afro-americano representa um componente importante e facilitou a vitória de Obama naqueles estados sulistas em que o contingente negro se afigura determinante. No entanto, o fator racial não aparece nas pesquisas, porque implicaria em reconhecimento de preconceito pela população branca. A pergunta que permanece no ar será até que ponto esse fator irá atuar no segredo das urnas.
Na história política americana, o Partido Democrata se assinalou igualmente pela indicação à presidência em 1928 do governador de New York, Al Smith – que era católico. A despeito do apoio que teve de correligionários importantes – como do próprio Franklin Delano Roosevelt – Al Smith foi fragorosamente derrotado por Herbert Hoover (que depois não conseguiria reeleger-se pela depressão econômica anunciada pela queda da Bolsa de Wall Street em 1929). Até a eleição do católico John F. Kennedy em 1960, todos os presidentes americanos continuaram a ser protestantes. O pleito de novembro determinará até que ponto existe um paralelo entre essas duas indicações presidenciais.
sábado, 30 de agosto de 2008
Dos Jornais - IX
FOLHA DE S. PAULO (30.VIII.08)
O GLOBO
Eleições Americanas. A escolha por parte de John McCain de Sarah Palin, republicana, governadora do Alaska, como sua companheira de chapa tem diversas facetas. Por um lado, representa hábil jogada política, que constrange Barack Obama em sua decisão de preterir Hillary Clinton, sua adversaria nas primárias, e sobretudo na negativa de compor-se com Hillary e formar o que os americanos chamam de ‘dream ticket’, isto é, a chapa partidária mais forte. Não há negar que John McCain, ao convocar a desconhecida Palin como candidata à Vice, contribui de forma determinante para que os dezoito milhões de eleitores da Senadora por New York não se esqueçam até novembro do tratamento não exatamente favorável que o Senador Obama optou por dispensar à sua rival nas primárias democratas. Ironicamente, o conservador (e havido como independente) John McCain toma posição supostamente mais aberta e progressista do que o seu contendor, indicando uma mulher como candidata a Vice-Presidente.
Não é pouca coisa decerto, eis que será a segunda mulher candidata a Vice (a primeira foi Geraldine Ferraro, vice de Walter Mondale, em 1984, em chapa derrotada por Ronald Reagan e George Bush senior). Obama julgou que Hillary não fazia por merecer tal designação. Com todos os discursos que procurem eludir (spin) este fato, será ele constante dessa eleição, que afetará de algum modo a muitos eleitores e sobretudo eleitoras de Hillary, não muito felizes com o tratamento que lhe foi reservado por Obama e a cúpula democrata.
Entretanto a questão não se limita a tal aspecto. Há igualmente na seleção conotações com implicações negativas. Sarah Palin de 44 anos é ainda mais conservadora do que McCain, sendo adepta do criacionismo (que nega a teoria da seleção natural de Darwin), da derrubada da decisão da Suprema Corte em Roe versus Wade (o que implica em ser contrária ao aborto), evangélica, favorável à exploração do petróleo no círculo ártico e à política econômica de Bush. Em algumas dessas questões, e notadamente na do aborto, Sarah Palin tem posições mais radicais do que McCain.
Para alguém que seria o sucessor direto de um septuagenário com problemas de saúde, o lado democrata aponta para a sua experiência nula em matéria de política externa, o que, salvo engano, não semelha um argumento muito forte se se perguntar qual é a experiência nesse campo do candidato democrata.
Finda a Convenção de Denver, a presteza tática de John McCain não ensejou a Obama sequer um fim de semana para descansar nos próprios louros. Agora, será aguardar a Convenção Republicana, a realizar-se na próxima semana. Uma vez concluída essa fase, se poderá verificar qual o candidato que se acha na dianteira, ao encetar-se o periodo decisivo da campanha. Nesse ensejo, será importante observar se a polêmica indicação por John McCain de uma mulher há de representar um fator relevante na determinação do resultado dessa eleição presidencial.
O GLOBO
Eleições Americanas. A escolha por parte de John McCain de Sarah Palin, republicana, governadora do Alaska, como sua companheira de chapa tem diversas facetas. Por um lado, representa hábil jogada política, que constrange Barack Obama em sua decisão de preterir Hillary Clinton, sua adversaria nas primárias, e sobretudo na negativa de compor-se com Hillary e formar o que os americanos chamam de ‘dream ticket’, isto é, a chapa partidária mais forte. Não há negar que John McCain, ao convocar a desconhecida Palin como candidata à Vice, contribui de forma determinante para que os dezoito milhões de eleitores da Senadora por New York não se esqueçam até novembro do tratamento não exatamente favorável que o Senador Obama optou por dispensar à sua rival nas primárias democratas. Ironicamente, o conservador (e havido como independente) John McCain toma posição supostamente mais aberta e progressista do que o seu contendor, indicando uma mulher como candidata a Vice-Presidente.
Não é pouca coisa decerto, eis que será a segunda mulher candidata a Vice (a primeira foi Geraldine Ferraro, vice de Walter Mondale, em 1984, em chapa derrotada por Ronald Reagan e George Bush senior). Obama julgou que Hillary não fazia por merecer tal designação. Com todos os discursos que procurem eludir (spin) este fato, será ele constante dessa eleição, que afetará de algum modo a muitos eleitores e sobretudo eleitoras de Hillary, não muito felizes com o tratamento que lhe foi reservado por Obama e a cúpula democrata.
Entretanto a questão não se limita a tal aspecto. Há igualmente na seleção conotações com implicações negativas. Sarah Palin de 44 anos é ainda mais conservadora do que McCain, sendo adepta do criacionismo (que nega a teoria da seleção natural de Darwin), da derrubada da decisão da Suprema Corte em Roe versus Wade (o que implica em ser contrária ao aborto), evangélica, favorável à exploração do petróleo no círculo ártico e à política econômica de Bush. Em algumas dessas questões, e notadamente na do aborto, Sarah Palin tem posições mais radicais do que McCain.
Para alguém que seria o sucessor direto de um septuagenário com problemas de saúde, o lado democrata aponta para a sua experiência nula em matéria de política externa, o que, salvo engano, não semelha um argumento muito forte se se perguntar qual é a experiência nesse campo do candidato democrata.
Finda a Convenção de Denver, a presteza tática de John McCain não ensejou a Obama sequer um fim de semana para descansar nos próprios louros. Agora, será aguardar a Convenção Republicana, a realizar-se na próxima semana. Uma vez concluída essa fase, se poderá verificar qual o candidato que se acha na dianteira, ao encetar-se o periodo decisivo da campanha. Nesse ensejo, será importante observar se a polêmica indicação por John McCain de uma mulher há de representar um fator relevante na determinação do resultado dessa eleição presidencial.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Dos Jornais - VIII (27.08.2008)
DOS JORNAIS (VIII) 27.08.2008
O GLOBO
FOLHA DE S. PAULO
Convenção Democrata de Denver. O discurso de Hillary Clinton na Convenção de Denver, ansiosamente esperado pelos partidários do candidato Barack Obama, assinalou-se pela grandeza – que a Senadora por New York já mostrara em sua alocução aos seus correligionários, quando suspendera a sua campanha, ao final das primárias (V. meu blog sobre o assunto).
Em suas palavras no segundo dia da Convenção, Hillary não foi apenas generosa com o seu ex-rival, que não a tratou com a deferência que não só ela fazia por merecer, senão o próprio partido, se realmente deseja vencer os republicanos de John McCain em novembro.
Hillary não deixou de sublinhar os grandes temas da sua campanha das primárias, e em especial a reforma da saúde, com a extensão da assistência médico-hospitalar a todos os americanos. Enfatizou a necessidade de os democratas recuperarem o governo, de modo a que os oito desastrosos anos de Bush não se prolonguem em mais quatro de McCain.
É decerto preocupante que o eleitor estadunidense, por força de uma série de circunstâncias, se esteja rapidamente esquecendo de o que é a Administração Bush (guerra no Iraque, crise econômica, perda de prestígio internacional, o crescente déficit público, o descalabro ocasionado pelo furacão Katrina, etc.), a ponto de reservar por ora o empate técnico ao candidato republicano (que no essencial não se dissocia das posturas da atual administração). É inquietante para os democratas essa involução e no entender desse colunista a solução do problema deve ser encontrada – se possível – no próprio campo do partido de John Kennedy, Lyndon Johnson e Bill Clinton.
Eleições Municipais – “Saúde: agora é guerra” (O Globo – pág. 03)
Em uma questão importante, como a do combate à dengue, os governos estadual de Sérgio Cabral e municipal de Cesar Maia não estão de acordo. Depois da grave epidemia de dengue desse último verão, em que a atuação da prefeitura, seja nas suas gritantes falhas no trabalho de prevenção à proliferação do mosquito Aedes Aegipti, seja nas estranhas declarações do senhor prefeito (que depois de negar a epidemia, suplicou ao mosquito que voasse para o mar), foi objeto de um tratamento bastante leniente pelos meios de comunicação, provoca espécie que volte a causar polêmica entre Estado e Município. Seria de esperar que o Senhor Maia, ao invés de atacar as Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) com insinuações e casuismos, reconhecesse a necessidade de combater o flagelo. Aparentemente, tal não é a posição do Prefeito e de sua candidata, quando a hora seria a de somar forças para que a desgraça não se repita no próximo verão. O governo estadual de Sérgio Cabral só incrementou a sua participação no combate à dengue diante da incompreensível apatia dos serviços da prefeitura em reconhecer a crise e em trabalhar para debelá-la. No passado o Governador Cabral mostrou empenho em enfrentar o desafio da dengue, cuja persistência é uma acusação perene quanto à inoperância dos serviços municipais competentes no Rio de Janeiro, aparentemente mais preocupados em aventar razões da dificuldade nesse combate do que em assumir a missão de lutar contra o mosquito. O eleitor não é tolo e saberá distinguir entre de um lado os que procuram debelar as causas da epidemia e reforçar o atendimento médico, e de outro, os fabricadores de factóides e de argumentos que intentam desviar a atenção do que realmente importa.
Guerra no Cáucaso ( Folha de São Paulo, pág. 01)
Assistimos a clara involução nas relações internacionais, com a retomada de parte da Rússia da vocação imperialista dos czares e dos comunistas. Sob o domínio do regime forte de Vladimir Putin - aliás a respeito dessa construção política prometo discorrer mais longamente no futuro - o Presidente Dmitri Medvedev ratificou a decisão da Duma (parlamento russo) que reconhecera a independência da Ossétia do Sul e da Abkazia. A par de ser manifesto desrespeito à soberania territorial da Geórgia, igualmente implica em um retrocesso diplomático, prenunciando possível deterioração das relações entre Estados Unidos e União Européia, de uma parte, e Rússia, de outra. A volta da guerra fria não mais é uma possibilidade acadêmica. Para que se tenha idéia do contra-senso da decisão do regime de Putin, cabe lembrar que o último episódio similar de invasão armada e constituição de ‘república’ à revelia do direito internacional público se verificou na década de setenta do século passado, com a expedição turca contra Chipre. Essa intervenção armada resultou na formação da República Turca de Chipre do Norte, que é um pária internacional (só é reconhecida internacionalmente por Âncara, que lá mantém quarenta mil soldados). Será o que deseja o Senhor Putin, ou quiçá a ‘independência’desses duas regiões da Geórgia representará apenas um passo para quem acalenta reincidir no secular vezo anexionista de Moscou, afinal incorporando Ossétia do Sul e Abkazia ao império russo ?
O GLOBO
FOLHA DE S. PAULO
Convenção Democrata de Denver. O discurso de Hillary Clinton na Convenção de Denver, ansiosamente esperado pelos partidários do candidato Barack Obama, assinalou-se pela grandeza – que a Senadora por New York já mostrara em sua alocução aos seus correligionários, quando suspendera a sua campanha, ao final das primárias (V. meu blog sobre o assunto).
Em suas palavras no segundo dia da Convenção, Hillary não foi apenas generosa com o seu ex-rival, que não a tratou com a deferência que não só ela fazia por merecer, senão o próprio partido, se realmente deseja vencer os republicanos de John McCain em novembro.
Hillary não deixou de sublinhar os grandes temas da sua campanha das primárias, e em especial a reforma da saúde, com a extensão da assistência médico-hospitalar a todos os americanos. Enfatizou a necessidade de os democratas recuperarem o governo, de modo a que os oito desastrosos anos de Bush não se prolonguem em mais quatro de McCain.
É decerto preocupante que o eleitor estadunidense, por força de uma série de circunstâncias, se esteja rapidamente esquecendo de o que é a Administração Bush (guerra no Iraque, crise econômica, perda de prestígio internacional, o crescente déficit público, o descalabro ocasionado pelo furacão Katrina, etc.), a ponto de reservar por ora o empate técnico ao candidato republicano (que no essencial não se dissocia das posturas da atual administração). É inquietante para os democratas essa involução e no entender desse colunista a solução do problema deve ser encontrada – se possível – no próprio campo do partido de John Kennedy, Lyndon Johnson e Bill Clinton.
Eleições Municipais – “Saúde: agora é guerra” (O Globo – pág. 03)
Em uma questão importante, como a do combate à dengue, os governos estadual de Sérgio Cabral e municipal de Cesar Maia não estão de acordo. Depois da grave epidemia de dengue desse último verão, em que a atuação da prefeitura, seja nas suas gritantes falhas no trabalho de prevenção à proliferação do mosquito Aedes Aegipti, seja nas estranhas declarações do senhor prefeito (que depois de negar a epidemia, suplicou ao mosquito que voasse para o mar), foi objeto de um tratamento bastante leniente pelos meios de comunicação, provoca espécie que volte a causar polêmica entre Estado e Município. Seria de esperar que o Senhor Maia, ao invés de atacar as Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) com insinuações e casuismos, reconhecesse a necessidade de combater o flagelo. Aparentemente, tal não é a posição do Prefeito e de sua candidata, quando a hora seria a de somar forças para que a desgraça não se repita no próximo verão. O governo estadual de Sérgio Cabral só incrementou a sua participação no combate à dengue diante da incompreensível apatia dos serviços da prefeitura em reconhecer a crise e em trabalhar para debelá-la. No passado o Governador Cabral mostrou empenho em enfrentar o desafio da dengue, cuja persistência é uma acusação perene quanto à inoperância dos serviços municipais competentes no Rio de Janeiro, aparentemente mais preocupados em aventar razões da dificuldade nesse combate do que em assumir a missão de lutar contra o mosquito. O eleitor não é tolo e saberá distinguir entre de um lado os que procuram debelar as causas da epidemia e reforçar o atendimento médico, e de outro, os fabricadores de factóides e de argumentos que intentam desviar a atenção do que realmente importa.
Guerra no Cáucaso ( Folha de São Paulo, pág. 01)
Assistimos a clara involução nas relações internacionais, com a retomada de parte da Rússia da vocação imperialista dos czares e dos comunistas. Sob o domínio do regime forte de Vladimir Putin - aliás a respeito dessa construção política prometo discorrer mais longamente no futuro - o Presidente Dmitri Medvedev ratificou a decisão da Duma (parlamento russo) que reconhecera a independência da Ossétia do Sul e da Abkazia. A par de ser manifesto desrespeito à soberania territorial da Geórgia, igualmente implica em um retrocesso diplomático, prenunciando possível deterioração das relações entre Estados Unidos e União Européia, de uma parte, e Rússia, de outra. A volta da guerra fria não mais é uma possibilidade acadêmica. Para que se tenha idéia do contra-senso da decisão do regime de Putin, cabe lembrar que o último episódio similar de invasão armada e constituição de ‘república’ à revelia do direito internacional público se verificou na década de setenta do século passado, com a expedição turca contra Chipre. Essa intervenção armada resultou na formação da República Turca de Chipre do Norte, que é um pária internacional (só é reconhecida internacionalmente por Âncara, que lá mantém quarenta mil soldados). Será o que deseja o Senhor Putin, ou quiçá a ‘independência’desses duas regiões da Geórgia representará apenas um passo para quem acalenta reincidir no secular vezo anexionista de Moscou, afinal incorporando Ossétia do Sul e Abkazia ao império russo ?
sábado, 23 de agosto de 2008
Eleições Americanas - Obama escolhe Joe Biden
Eleições Americanas – Escolha do Sen. Joe Biden como candidato a Vice de Obama
Barack Obama escolheu o Senador Joe Biden como seu companheiro de chapa. A motivação seria a de trazer alguém experiente em matéria de política externa, terreno em que Obama não tem grande familiaridade. Segundo tal raciocínio, Biden - Senador pelo pequeno estado de Delaware, e presidente da Comissão de Relações Exteriores na Câmara Alta – supriria esta lacuna. A propósito, cabe perguntar em que campo Obama se assinalaria pelo conhecimento. A par da oratória e do carisma, o senador por Illinois nunca demonstrou, em seus debates com Hillary Clinton, segurança também em matéria econômica, que constitui assunto de particular interesse para o povo americano, ora às voltas com grave recessão, de resto, um dos legados da Administração de Bush júnior. A despeito de instado a precisar suas propostas, Obama preferiu manter-se em generalidades – como o seu lema de “Mudança” (change) – esquivando-se de entrar em pormenores (que poderiam seja pôr a nu a pouca substância de suas idéias, seja, o que seria pior, alienar correntes de opinião). Com efeito, a habilidade política constitui um de seus principais trunfos,habilidade essa que já evidenciou ao concorrer sem adversários ao senado estadual do Illinois. Logrou a façanha ao valer-se de tecnicalidades pela comissão eleitoral do estado para impugnar as duas candidaturas rivais.
Mas voltemos ao presente. Segundo o grupo de Obama, o candidato democrata teria feito a escolha de Joe Biden para reforçar a sua chapa. Na verdade, quero crer que a real escolha ele a tinha feito anteriormente, ao preterir a candidata natural para vice. Parafraseando a célebre pergunta de Stalin, de quantos votos dispõe o candidato selecionado ? O aporte será negligenciável, mas não é isto o mais importante. Ao optar por ignorar aquela que traria considerável número de votantes (que não morrem de simpatias por ele), Barack Obama indica que pode ser hábil em jogadas menores, porém não em questões maiores. Faltou-lhe a serenidade necessária para transcender os pequenos rancores, e a grandeza indispensável para reforçar a própria candidatura, e transformá-la em uma de união do partido democrata.
Se o partido de Roosevelt, Truman e Bill Clinton não conseguir recuperar a Casa Branca em novembro próximo, talvez a causa determinante esteja no denegar a Hillary Clinton e a seus partidários uma composição honrosa e profícua para os interesses dos democratas. Como já foi dito, se os democratas, depois da desastrosa administração de Bush júnior, e dos descalabros da invasão do Iraque, do furacão Katrina, e da crise econômica, ainda assim conseguirem perder uma vez mais para os republicanos, eles se terão assinalado por colossal incompetência política.
O jogo político americano entra agora em sua fase decisiva. Por força da Convenção de Denver, os percentuais de Obama poderão registrar alguma recuperação. No entanto, com a sucessiva Convenção republicana, é de esperar-se a reação de John McCain.
Adentrando a reta final da campanha, quais são os trunfos dos candidatos? Obama, por óbvias razões, dispõe do eleitorado afro-americano, e também dos segmentos de eleitores jovens e de maior nível de instrução. McCain, dos estados sulistas, dos setores conservadores e evangélicos. E os correligionários de Hillary Clinton (latinos, mulheres, em especial as mais idosas, e o setor operário) que correspondeu na verdade à metade dos votos democratas ? O tratamento dispensado à sua candidata os levará acaso a vencer as próprias desconfianças quanto ao candidato Obama ? Resta saber se Barack Obama ainda reserva alguma surpresa para os partidários de Hillary. Será que com toda a sua ‘habilidade política’ alcançará reforçar as suas fileiras, malgrado esta decisão que pouco ou nada acrescenta para um resultado favorável em novembro? Só o futuro o dirá.
Barack Obama escolheu o Senador Joe Biden como seu companheiro de chapa. A motivação seria a de trazer alguém experiente em matéria de política externa, terreno em que Obama não tem grande familiaridade. Segundo tal raciocínio, Biden - Senador pelo pequeno estado de Delaware, e presidente da Comissão de Relações Exteriores na Câmara Alta – supriria esta lacuna. A propósito, cabe perguntar em que campo Obama se assinalaria pelo conhecimento. A par da oratória e do carisma, o senador por Illinois nunca demonstrou, em seus debates com Hillary Clinton, segurança também em matéria econômica, que constitui assunto de particular interesse para o povo americano, ora às voltas com grave recessão, de resto, um dos legados da Administração de Bush júnior. A despeito de instado a precisar suas propostas, Obama preferiu manter-se em generalidades – como o seu lema de “Mudança” (change) – esquivando-se de entrar em pormenores (que poderiam seja pôr a nu a pouca substância de suas idéias, seja, o que seria pior, alienar correntes de opinião). Com efeito, a habilidade política constitui um de seus principais trunfos,habilidade essa que já evidenciou ao concorrer sem adversários ao senado estadual do Illinois. Logrou a façanha ao valer-se de tecnicalidades pela comissão eleitoral do estado para impugnar as duas candidaturas rivais.
Mas voltemos ao presente. Segundo o grupo de Obama, o candidato democrata teria feito a escolha de Joe Biden para reforçar a sua chapa. Na verdade, quero crer que a real escolha ele a tinha feito anteriormente, ao preterir a candidata natural para vice. Parafraseando a célebre pergunta de Stalin, de quantos votos dispõe o candidato selecionado ? O aporte será negligenciável, mas não é isto o mais importante. Ao optar por ignorar aquela que traria considerável número de votantes (que não morrem de simpatias por ele), Barack Obama indica que pode ser hábil em jogadas menores, porém não em questões maiores. Faltou-lhe a serenidade necessária para transcender os pequenos rancores, e a grandeza indispensável para reforçar a própria candidatura, e transformá-la em uma de união do partido democrata.
Se o partido de Roosevelt, Truman e Bill Clinton não conseguir recuperar a Casa Branca em novembro próximo, talvez a causa determinante esteja no denegar a Hillary Clinton e a seus partidários uma composição honrosa e profícua para os interesses dos democratas. Como já foi dito, se os democratas, depois da desastrosa administração de Bush júnior, e dos descalabros da invasão do Iraque, do furacão Katrina, e da crise econômica, ainda assim conseguirem perder uma vez mais para os republicanos, eles se terão assinalado por colossal incompetência política.
O jogo político americano entra agora em sua fase decisiva. Por força da Convenção de Denver, os percentuais de Obama poderão registrar alguma recuperação. No entanto, com a sucessiva Convenção republicana, é de esperar-se a reação de John McCain.
Adentrando a reta final da campanha, quais são os trunfos dos candidatos? Obama, por óbvias razões, dispõe do eleitorado afro-americano, e também dos segmentos de eleitores jovens e de maior nível de instrução. McCain, dos estados sulistas, dos setores conservadores e evangélicos. E os correligionários de Hillary Clinton (latinos, mulheres, em especial as mais idosas, e o setor operário) que correspondeu na verdade à metade dos votos democratas ? O tratamento dispensado à sua candidata os levará acaso a vencer as próprias desconfianças quanto ao candidato Obama ? Resta saber se Barack Obama ainda reserva alguma surpresa para os partidários de Hillary. Será que com toda a sua ‘habilidade política’ alcançará reforçar as suas fileiras, malgrado esta decisão que pouco ou nada acrescenta para um resultado favorável em novembro? Só o futuro o dirá.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Dos Jornais (VII) 22.08.2008
DOS JORNAIS (VII)
O GLOBO - Derrota da seleção feminina do Brasil para os Estados Unidos (págs. 3 e
9 – caderno Esportes)
Comentário. Apesar da grande diferença técnica entre o plantel das seleções do Brasil e dos Estados Unidos, e a despeito do domínio territorial durante toda a partida, tais fatores não foram suficientes para assegurar a vitória brasileira. Com bom treinamento físico, a seleção americana não demonstrou o cansaço da brasileira, que levou inclusive à maior periculosidade dos ataques estadunidenses na prorrogação, quando Carli Lloyd marcou ainda no primeiro tempo da etapa suplementar. Outra consequência do negligente apoio prestado pela CBF foi a falta de um esquema de jogo. Concordo plenamente com as afirmações do colunista Fernando Calazans: “Para ganhar a medalha de ouro pela qual chorou a Marta, nossa seleção de tão boas jogadoras precisa de estrutura, de planejamento, de preparação, necessidades para as quais dona CBF não está nem aí. Nossa seleção precisa de um verdadeiro técnico que dê uma arrumação ao time, uma arrumação no jogo, uma estratégia – e não de um simpático torcedor à beira do campo, amigo das jogadoras”.
Não só no futebol feminino, mas em diversos outros ramos os nossos dedicados atletas não tiveram o desempenho esperado. Terá sido falta de apoio psicológico para suportar a pressão da mídia e dos habituais patriotas profissionais, que criam muita vez falsas expectativas quanto à probabilidade de conquista de medalhas? O lema do barão de Coubertin – o importante é competir e não ganhar – está há muito esquecido. De toda forma, se vexame existe – como foi proclamado na derrota sofrida perante a Argentina – é a circunstância de um país com a demografia e a extensão do Brasil ter presença ultra-medíocre na Olimpíada, rivalizando com Zimbabue, Uzbequistão e Azerbaijão em número de medalhas. Dentre a incrível pletora de ministros (quarenta, se não me engano) de que é composto o ministério do Presidente Lula, é o caso de perguntar o que faz o Ministério do Esporte com vistas a dar condições dignas para que os nossos atletas possam ter um desempenho de acordo com o seu potencial.
O GLOBO - Derrota da seleção feminina do Brasil para os Estados Unidos (págs. 3 e
9 – caderno Esportes)
Comentário. Apesar da grande diferença técnica entre o plantel das seleções do Brasil e dos Estados Unidos, e a despeito do domínio territorial durante toda a partida, tais fatores não foram suficientes para assegurar a vitória brasileira. Com bom treinamento físico, a seleção americana não demonstrou o cansaço da brasileira, que levou inclusive à maior periculosidade dos ataques estadunidenses na prorrogação, quando Carli Lloyd marcou ainda no primeiro tempo da etapa suplementar. Outra consequência do negligente apoio prestado pela CBF foi a falta de um esquema de jogo. Concordo plenamente com as afirmações do colunista Fernando Calazans: “Para ganhar a medalha de ouro pela qual chorou a Marta, nossa seleção de tão boas jogadoras precisa de estrutura, de planejamento, de preparação, necessidades para as quais dona CBF não está nem aí. Nossa seleção precisa de um verdadeiro técnico que dê uma arrumação ao time, uma arrumação no jogo, uma estratégia – e não de um simpático torcedor à beira do campo, amigo das jogadoras”.
Não só no futebol feminino, mas em diversos outros ramos os nossos dedicados atletas não tiveram o desempenho esperado. Terá sido falta de apoio psicológico para suportar a pressão da mídia e dos habituais patriotas profissionais, que criam muita vez falsas expectativas quanto à probabilidade de conquista de medalhas? O lema do barão de Coubertin – o importante é competir e não ganhar – está há muito esquecido. De toda forma, se vexame existe – como foi proclamado na derrota sofrida perante a Argentina – é a circunstância de um país com a demografia e a extensão do Brasil ter presença ultra-medíocre na Olimpíada, rivalizando com Zimbabue, Uzbequistão e Azerbaijão em número de medalhas. Dentre a incrível pletora de ministros (quarenta, se não me engano) de que é composto o ministério do Presidente Lula, é o caso de perguntar o que faz o Ministério do Esporte com vistas a dar condições dignas para que os nossos atletas possam ter um desempenho de acordo com o seu potencial.
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