domingo, 21 de outubro de 2018

O Erro de Cameron (III)


                                    

        Que o leitor se acalme, que não pretendo repetir intróitos sobre a responsabilidade do ex-Primeiro Ministro David Cameron sobre o anunciado desastre do Bréxit...
        Nos seus ínvios caminhos, a responsabilidade já está delineada. Ela é toda, ou quase, da medíocre Primeiro Ministra Theresa May, que busca refugiar-se em novos erros, como se eles fossem proteção bastante para os anteriores.
        Que na sua cega tentativa de auto-preservação, não se confunda como solução crível o arremedo de aliança da sucessora de Cameron com os protestantes do Partido Unionista Democrático (DUP), que reúne protestantes da Irlanda do Norte, e  que é, por ora, a irônica atual base de apoio da Primeiro Ministro, após a sua malograda tentativa de alargar a respectiva sustentação no Parlamento.
       Atrelar-se a esse partidinho é a chamada anti-solução, pois torna dependente a metrópole de pequeno partido protestante, que pouco tem a ver com as perspectivas abertas pela questão da permanência ou não na União Europeia do Reino Unido.
       A cinco meses da prevista saída do Reino Unido da União Europeia, cerca de meio milhão de britânicos marcharam neste sábado em Londres para pedir  novo referendo sobre o Brexit. Refletindo um consenso geral na população, os manifestantes procedem de todos os cantos da Inglaterra, trazidos  por cerca de 150 ônibus. Vieram para marchar através do centro da capital até a sede do Parlamento.
        Por uma mistura de motivos, toda essa gente afronta um obstáculo, que tem a ver muito com a insegurança da Primeiro Ministra. A May, malgrado a esmagadora vontade popular, garante que não convocará  uma segunda consulta enquanto estiver no poder. A esse respeito, semelha preferir a negociação com representantes de Bruxelas de acordo sobre o 'divórcio'.
          Provoca decerto perplexidade no Povo inglês esta teimosa recusa de Mrs. May.  Segundo um professor de ciências políticas da Universidade de Coventry faz muito sentido a realização de uma nova votação, que faria sentido, talvez demasiado sentido para o ego da Primeiro Ministro, eis que se trata de consulta sobre as implicações práticas do Brexit,  que se achavam ausentes do referendo de 2016.  Essa nova votação faria todo sentido, eis que ela se baseia no acrescido conhecimento pela população dessas implicações práticas.
           Trata-se de uma separação efetiva, a qual fora decidida antes, sem qualquer conhecimento da realidade prática.  É isto que faz titubear a população, diante da sensivel perda  de condições práticas de vida, a serem perdidas pela ideia de ir em frente, com que a Primeira Ministra concorda, mas não grande parte da população, que já principia a antever o que lhe custará o tal Brexit.
                É o conhecimento da verdade que faz grande parte da população ora titubear.  Quais essas condições de separação, que essa conjunção de línguas (Britain exits) disfarçara até agora ? Entre 29 de março de 2019 e 31 de dezembro de 2020, o Reino Unido já não faria mais parte dos países membros da União Européia, não mais participará de cúpula, e tampouco terá direito a voto e a poder algum de eventual interferência nos assuntos internos do bloco.
                   A despeito das eventuais diferenças entre bréxit suave e bréxit duro, elas não disfarçam a verdade para uma povoação que através dos jornais e dos demais meios de comunicação tem acrescido o seu poder de conhecimento dos benefícios que está abandonando. Que se apode de duro ou suave o Bréxit, ele não deixará de representar um corte radical em determinadas vantagens materiais, antes asseguradas, e  que doravante estariam fora do alcance da população.
                     Será que o prestígio da Primeira Ministra é tão relevante que justificar possa tal perda irremediável de vantagens materiais que o velho Mercado Comum assegurara à Albion, fosse ela pérfida ou não?  É recentíssimo o temor de que tais vantagens desapareçam, e será tudo pela atitude da May, que não quer perder prestígio, e por isso  prefere arriscar dificuldades materiais - como a falta presumível de bens e artigos no próximo Natal, e nos vindouros - tudo isso dispensado por uma vazia questão de prestígio, motivada por condições particulares impostas pelo pequeno partido unio-nista, que é o fiel da balança do passado erro da May, que arriscara uma eleição para tentar afirmar-se, eleição essa que a deixou dependente de um partideco da Irlanda protestante?  Será justo para a população inglesa ver-se sacrificada na fogueira das vaidades de Theresa May, através das imposições particularistas do partidinho irlandês, imposições essas que não teriam interesse algum para um partido do tamanho do Conservador, não fosse pelo equívoco e a hubris da atual Primeiro Ministro.
                           Com o presumível sacrifício, o povo inglês marcha até Londres para mostrar aos representantes do Poder que outra, diversa solução para a imprudência da aposta antiga no Brexit ora se impõe, pois essa questão  não trata apenas de efeitos de prestígio pessoal, mas sim do projeto comum da Unidade europeia e das inúmeras vantagens que adviriam para a população inglesa de, não só valer-se, senão igualmente manter o que pode ensejar o livre acesso aos meios de produção do mercado europeu, que complementa naturalmente os meios produzidos pelo parque britânico.
                             Atualmente, norte e sul da Ilha britânica convivem em integração estreita - não obstante terem moedas diversas - e a questão pendente diz respeito ao retorno ou não de uma fronteira física, no caso do desligamento do Reino Unido sem acordo de livre-comércio com Bruxelas.
                              Essa condição radical é rejeitada de uma parte pela União Europeia,  pelos irlandeses e pelo governo britânico, mas não é descartada pelo dito Partido Unionista Democrático (DUP), que reúne os protestantes da Irlanda do Norte, que participam, graças ao erro de presunção da May, na sua base de apoio no Parlamento de Westminster. A pequena legenda dispõe de mecanismo que lhe assegura, por pequena e pouco significante que seja, a condição de derrubar a Primeiro Ministro.
                                Como toda questão mal-conduzida, e implementada para atender ao interesse pessoal e à vaidade da Primeiro Ministro, ela poderia, não obstante, por mofina que seja, derrubá-la,  por um capricho da direção daquele pequeno partido, que parece insignificante, mas que não o é, pela sua vantagem acidental de conceder  à May a ambicionada maioria para governar no Parlamento.
                                   A estulta vaidade da Primeira Ministro, que convocara eleições gerais pensando obter  uma "autorização" própria do Povo inglês, que a afirmasse no primeiro time dos chefes políticos ingleses, lhe saíu deveras mal, e a "solução" que encontrou para remendar o bloco majoritário tinha esse vício redibitório que veio a colher, mesmo contra a vontade.

                                     Como aponta Elvire Fabry, pesquisadora, o retorno da fronteira na Irlanda tornou-se  a questão-chave do "divórcio", inclusive com implicações sobre o Acordo de Paz da Sexta-feira Santa, de 1998, que pôs fim à guerra civil entre católicos e protestantes na  Ilha. "Hoje, o menor retorno de controle da fronteira seria uma ameaça" diz a especialista.    
                                       Há outra grande questão em aberto que  é se haverá prolongação do  período de transição. Negociação está em curso  - que se estenderia até 2021 - mas o seu resultado ainda é incerto. 
                                        Talvez incrementada pela fraqueza da atual liderança britânica - se acham ainda sobre a mesa e nos próprios logradouros da Ilha - 'soluções' por vezes antitéticas. É de notar-se que há da parte da população britânica uma disposição maior para uma verdadeira solução da questão - que implicaria, como semelha evidente, que se afaste toda a parafernália reducionista e de rejeição à integração, em que o Povo inglês, pelo acrescido conhecimento da matéria e de suas implicações (de que ao ver ele pagaria o preço) se bate por solução mais radical da questão, com o restabelecimento na prática do statu quo ante. 

                                           Não é questão despicienda acrescentar - se tal não ficou claro pelo arrazoado acima - que uma grande dificuldade para um genuíno acordo, que varra os empecilhos hoje na mesa das negociações - seria  ou o afastamento da atual Primeiro Ministra (que é a causa mor da existência da crise),  ou o surgimento de uma nova situação, em que os arroubos do Brexit sejam trazidos ao que realmente são - uma fabricação da quebra da unidade no Continente. 

                                           Dessarte,  pela pressão popular, a Primeiro Ministro Theresa May se renderia à evidência, e renunciaria ao próprio egoismo, convencendo-se, afinal, de que um bom acordo como o atual, será sempre preferível à incerteza decorrente da respectiva indecisão. Vencida a questão maior, tenderia a desaparecer a dificuldade colocada  pela DUP, o pequeno partido irlandês que tem logrado fazer  depender, com a ajuda da May, uma grande solução comunitária de questiúnculas locais. 

                                          Por outro lado,  o eventual apoio do Partido Trabalhista (cujo líder  tem sido ambíguo no que tange ao Brexit), viria pela ordem das coisas - quando aquelas maiores superam os óbices particulares e locais -  como decorrência natural,   convencido (ou acaso afastado) o seu líder Jeremy Corbin.

                                        Como no caso da May,  a idiossincrasia pessoal e as agendas particulares  se renderiam ao interesse nacional inglês,  no que tange ao Brexit. 
        
                                           Com efeito,  afastada a indecisão de Theresa May, não restaria outra opção a Corbin senão a de aderir ao  que é  o interesse geral do Povo Inglês, não mais refutando-se a tomar  a tomar uma posição clara e insofismável  na matéria.  Para tanto contribuiria a própria suma conveniência de não agir contra tal matéria, cuja postergação ou  extremada oposição  só tenderá a enfraquecê-los politicamente. 


( Fontes:  O Estado de S. Paulo, The Independent )   

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