O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita à Venezuela, ladeado pelo Presidente Hugo Chávez, declarou-se em favor da tese da reeleição indefinida. Não vê nada demais que seja novamente proposta ao eleitorado venezuelano – a primeira vez, em 2007, a proposição fora rechaçada – a possibilidade de o primeiro mandatário pleitear quantas reeleições desejar.
O primeiro erro cometido pelo Presidente Lula consiste em opinar – com a agravante de fazê-lo no território do país visitado - sobre um tópico de política interna desse país. Nessa questão se interlaçam as normas da não-intervenção e de seu corolário, que é o respeito pelo direito soberano do povo de decidir sobre o respectivo destino.
Com as suas considerações sobre as diversas culturas de cada país, em um agrado a seu anfitrião, ele se pronuncia candidamente sobre o direito do Presidente Chávez postular a sua reeleição indefinida, através da emenda constitucional que reapresenta à consideração do eleitorado. E em defesa desse suposto direito, trocando alhos por bugalhos, justifica tal pretensão à luz da possibilidade de primeiros ministros europeus ficarem muitos anos no poder. Abstraindo as características democráticas desses regimes – que não são apenas fachadas referendárias - é constrangedora essa confusão conceitual, que equipara regimes parlamentares - em que a permanência no poder do Primeiro Ministro depende de maiorias no Parlamento – com regimes presidenciais, em que o mandato do Presidente é determinado diretamente pelo povo, em eleições periódicas.
Na sua defesa da pretensão do caudilho Chávez de atropelar o eleitorado, arrancando a reeleição indefinida, antes que a crise internacional cerceie ainda mais a munificência demagógica do Presidente venezuelano, o Presidente Lula houve por bem considerar igualmente admissível a reeleição indefinida no Brasil. A Constituição brasileira não é uma lei ordinária, suscetível de ser mudada sempre que isso for da conveniência do grupo no poder ( não é por acaso que a reeleição foi combatida por Lula e o PT quando estavam fora do poder). Agora, se utiliza a perigosa linguagem do possibilismo, como se tudo fosse admissível. Não se tentou há pouco tempo em Brasília lançar uma ‘reforma política’ em que todos os mandatos teriam a mesma duração (cinco anos), misturando no mesmo saco presidentes, deputados e senadores?
Mas deixemos de lado mais esta digressão do Presidente Lula. Pela democracia na Venezuela, e não por seu arremedo chavista, esperemos que o caudilho seja mais uma vez derrotado na sua ambição de perpetuar-se no poder.
sábado, 17 de janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
A Ofensiva de Israel contra a Faixa de Gaza
No seu décimo-oitavo dia, a ofensiva do exército e da aviação israelense contra Gaza ainda não alcançou o objetivo que se prefixara ao iniciar as operações de guerra: a destruição da capacidade do Hamas de lançar foguetes ‘artesanais’ contra cidades e povoações israelenses a cerca de 30-40 km da fronteira.
Somente o desespero pode explicar este recurso do Hamas em alvejar o poderoso vizinho com seus foguetes de curto raio da ação. O Hamas governa em Gaza, após conseguir afastar o Al-Fatah. Movimento integrista, com vínculos assistencialistas muito estreitos com a população local, o Hamas é radical, adota táticas éticamente contestáveis (a exemplo do Hezbollah do Líbano) com a sua instrumentalização da população civil. Apesar de extremista, o Hamas não é insano. O seu recurso à guerrilha dos foguetes só é explicável porque a atual liderança israelense, após a derrocada dos Acordos de Oslo, adota uma estratégia de sufocar a população palestina, através do incessante aumento da colonização nos territórios da Cisjordânia, da construção do muro de contenção (que invade ilegalmente os territórios palestinos) e de uma rede viária que privilegia os núcleos de neo-colonização.
A despeito das declarações em contrário, a partir do fracasso do plano Clinton, em que Arafat terá perdido oportunidade histórica, ao recusar a proposta de paz (por não incluir o direito de retorno dos refugiados de 1948), a causa da paz na Palestina foi a principal vítima com a ascensão de Sharon – visita provocatória à mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, que desencadeou a segunda Intifada – e a assunção do governo de Bush-Cheney (que acentuou o desequilíbrio no Oriente Próximo, com seu apoio aos governos direitistas israelenses, em detrimento de Arafat, virtual prisioneiro em Ramallah).
A situação no Oriente Próximo agravou-se nos últimos anos em que a política dos dirigentes israelenses se orientou para a ‘bantustanização’ dos territórios palestinos e da sua conseqüente inviabilização como Estado independente. Se alguém se propusesse criar um sistema que impossibilitasse a convivência pacífica entre dois povos, não poderia colimar nada mais apropriado do que a série de medidas implantadas (núcleos de colonização israelense, rede viária de sustentação, cerca de concreto, barreiras de circulação, etc.) para tornar realidade esta anti-política.
Daí o desespero do Hamas e da população de Gaza, cercada esta por uma série de embargos punitivos, devidos à circunstância de ter preferido o movimento integrista ao invés do moderado Fatah, de Abbas.
A história das relações entre Israel de um lado, e o movimento palestino de outro, mostra – como assinala Robert Fisk – que o recurso à guerra e sobretudo às invasões do Líbano (e agora de Gaza e da Cisjordânia) não proporciona os resultados perseguidos por Israel. Não obstante o seu poderio desproporcional com respeito aos palestinos, a dinâmica demográfica e as limitações a que mesmo Tel Aviv tem de sujeitar-se demonstra de forma consistente o truismo de que, entre as serventias do fuzil, não está a de oferecer assento a quem o utiliza.
Dessa maneira, a atual campanha militar – alavancada pelas próximas eleições israelenses, pela ambição dos herdeiros de Sharon de vencer nas urnas a ultradireita de Netaniahu e possibilitada pelo apoio dos Estados Unidos, nos estertores da Administração de Bush júnior – se já se aproxima das suas mil baixas na população de Gaza, ainda não logrou extinguir o lançamento dos ditos foguetes artesanais contra o território israelense. Mesmo admitido que logre interromper essa resposta da guerrilha palestina contra Israel, se não houver uma solução política séria para a questão palestina – assegurado o respeito às fronteiras através de observadores imparciais – pode-se prognosticar, sem medo de erro, que o atual cenário naquela zona conflagrada continuará a prevalecer. De um lado intolerância e desrespeito aos direitos básicos das populações civis; de outro, crescimento de movimentos do estampo de Hezbollah e Hamas, i.e., do integrismo fundamentalista e radical.
Entretanto, nunca é tarde demais, para que a paz prevaleça. Para isso, é indispensável a vontade política. O calendário oferece para tanto uma grande oportunidade.
Com a palavra o futuro Presidente Barack Obama.
Somente o desespero pode explicar este recurso do Hamas em alvejar o poderoso vizinho com seus foguetes de curto raio da ação. O Hamas governa em Gaza, após conseguir afastar o Al-Fatah. Movimento integrista, com vínculos assistencialistas muito estreitos com a população local, o Hamas é radical, adota táticas éticamente contestáveis (a exemplo do Hezbollah do Líbano) com a sua instrumentalização da população civil. Apesar de extremista, o Hamas não é insano. O seu recurso à guerrilha dos foguetes só é explicável porque a atual liderança israelense, após a derrocada dos Acordos de Oslo, adota uma estratégia de sufocar a população palestina, através do incessante aumento da colonização nos territórios da Cisjordânia, da construção do muro de contenção (que invade ilegalmente os territórios palestinos) e de uma rede viária que privilegia os núcleos de neo-colonização.
A despeito das declarações em contrário, a partir do fracasso do plano Clinton, em que Arafat terá perdido oportunidade histórica, ao recusar a proposta de paz (por não incluir o direito de retorno dos refugiados de 1948), a causa da paz na Palestina foi a principal vítima com a ascensão de Sharon – visita provocatória à mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, que desencadeou a segunda Intifada – e a assunção do governo de Bush-Cheney (que acentuou o desequilíbrio no Oriente Próximo, com seu apoio aos governos direitistas israelenses, em detrimento de Arafat, virtual prisioneiro em Ramallah).
A situação no Oriente Próximo agravou-se nos últimos anos em que a política dos dirigentes israelenses se orientou para a ‘bantustanização’ dos territórios palestinos e da sua conseqüente inviabilização como Estado independente. Se alguém se propusesse criar um sistema que impossibilitasse a convivência pacífica entre dois povos, não poderia colimar nada mais apropriado do que a série de medidas implantadas (núcleos de colonização israelense, rede viária de sustentação, cerca de concreto, barreiras de circulação, etc.) para tornar realidade esta anti-política.
Daí o desespero do Hamas e da população de Gaza, cercada esta por uma série de embargos punitivos, devidos à circunstância de ter preferido o movimento integrista ao invés do moderado Fatah, de Abbas.
A história das relações entre Israel de um lado, e o movimento palestino de outro, mostra – como assinala Robert Fisk – que o recurso à guerra e sobretudo às invasões do Líbano (e agora de Gaza e da Cisjordânia) não proporciona os resultados perseguidos por Israel. Não obstante o seu poderio desproporcional com respeito aos palestinos, a dinâmica demográfica e as limitações a que mesmo Tel Aviv tem de sujeitar-se demonstra de forma consistente o truismo de que, entre as serventias do fuzil, não está a de oferecer assento a quem o utiliza.
Dessa maneira, a atual campanha militar – alavancada pelas próximas eleições israelenses, pela ambição dos herdeiros de Sharon de vencer nas urnas a ultradireita de Netaniahu e possibilitada pelo apoio dos Estados Unidos, nos estertores da Administração de Bush júnior – se já se aproxima das suas mil baixas na população de Gaza, ainda não logrou extinguir o lançamento dos ditos foguetes artesanais contra o território israelense. Mesmo admitido que logre interromper essa resposta da guerrilha palestina contra Israel, se não houver uma solução política séria para a questão palestina – assegurado o respeito às fronteiras através de observadores imparciais – pode-se prognosticar, sem medo de erro, que o atual cenário naquela zona conflagrada continuará a prevalecer. De um lado intolerância e desrespeito aos direitos básicos das populações civis; de outro, crescimento de movimentos do estampo de Hezbollah e Hamas, i.e., do integrismo fundamentalista e radical.
Entretanto, nunca é tarde demais, para que a paz prevaleça. Para isso, é indispensável a vontade política. O calendário oferece para tanto uma grande oportunidade.
Com a palavra o futuro Presidente Barack Obama.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Da Reforma Ortográfica.Considerações sobre a custosa inutilidade.
Ao ver o desalento do professor Pasquale Cipro Neto, mostrando toda uma prateleira de livros tornados obsoletos pela enésima reforma ortográfica – que entrará em pleno vigor em 2012, mas já está sendo aplicada - , ao concordar integralmente com a opinião deste estudioso (e de muitos outros) acerca da inutilidade desta reforma, parece-me forçoso acrescentar mais algumas considerações.
A reforma não é apenas inútil, mas também perniciosa – como deixou implícito Cipro Neto – ao forçar a obsolescência de todos os livros publicados no Brasil – de referência, literários e técnicos – como se a indústria editorial nacional carecesse do artificialismo sistêmico das mudanças anuais da indústria automobilística ou as sazonais da moda.
Em um país de muitas editoras e poucos leitores, uma pessoa de bom senso há de perguntar-se do porquê desses esforços reiterados que no espaço de uma geração são ritualmente impingidos como necessidades inadiáveis aos alfabetizados brasileiros. Procederão as justificativas de ampliar o mercado editorial com a padronização do idioma não só no Brasil e em Portugal, senão nos demais países de língua portuguesa (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, Timor Leste, etc.) ? Decerto as dúvidas expressas são fundadas, mas não creio que se deva tentar entender tal proliferação reformista a partir da análise das argumentações das partes diretamente interessadas nesse processo.
Das Causas. Quando o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto ratificando o acordo promovido pelas Academias, pensei na frase do estadista francês Georges Clemenceau de que “a guerra é demasiado importante para deixá-la por conta dos generais”. Não, caro leitor, não estou confundindo conflito armado com imposição de reforma ortográfica. O meu raciocínio é de ordem epistêmica e pode igualmente inspirar-se no dito latino “quis custodiet ipsos custodes?” (quem vigiará os vigias ?). Em outras palavras, a reforma ortográfica é demasiado importante para que a deixemos ao arbítrio dos gramáticos e das academias.
Com efeito, o parecer dos ditos especialistas terá seu peso, mas ele deve estar submetido às instâncias do Estado, que julgarão da conveniência ou não da implementação das opiniões setoriais. Deparamos aqui, no entanto,a uma inversão do processo. Como Foucault nos ensina, o poder se manifesta em muitas formas. No caso presente, prepondera a visão técnico-burocrática das academias, erigidas na prática como autoridade máxima, eis que as negociações – e as reformas – por elas encaminhadas são chanceladas pelo poder estatal como se fossem irrecusáveis e inquestionáveis. Depois das negociações entre as academias, e estranhas concessões (como a duvidosa fundamentação para que ideia no Brasil fique sem acento – irrisório agrado ao uso não-acentuado em Portugal), a aprovação pelos poderes do Estado é uma simples formalidade, como se verifica pelos termos com que o Presidente Lula ratificou o acordo. E é bom que se frise, esta atitude de aprovação automática, sem questionamento, caracteriza no particular tanto o atual, quanto o seu imediato antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
Infelizmente, a busca da causa não pode deter-se na desenvoltura das academias e na chancela pelo poder estatal. Está aí a herança da colonização, com suas ordenações, sua índole normativa, burocrática e cartorial, a criar uma teia infernal para as atividades tantos comerciais, quanto culturais. O formalismo, as instâncias burocráticas, a pulverização do poder representada por um sem-número de régulos, todos nominalmente prostrados diante da figura distante e quase inatingível de el-Rei será um quadro que terá desaparecido com a Independência ?
Ou será que tais práticas persistem sob outras formas ? Não nos esqueçamos que em tempos da ditadura houve um ministério que se ocupou precipuamente em simplificar as normas burocráticas no Brasil. Terá tido sucesso ? Basta visitar um simples cartório para que vejamos quem vence por ora essa inglória batalha.
Comparações desconfortáveis. Quem foi caracterizado como a autoridade máxima para determinar do acerto ou não de normas derivadas do presente acordo ortográfico, justificou-lhe a assinatura pela circunstância, a seu ver única no mundo, da existência de duas ortografias oficiais do português – a brasileira e a portuguesa. Tive dificuldade em acreditar no que estava ouvindo. Duas ortografias do português únicas no mundo ? E o que dizer das variantes do inglês nos Estados Unidos e na Inglaterra ? Será que a língua inglesa encontra-se em desvantagem nesses dois países, por não estar submetida a nenhuma instância burocrática ? Acresce notar que seja nos Estados Unidos, seja no Reino Unido não houve qualquer reforma no espaço de tempo em que o português – esta última flor do Lácio - pode orgulhar-se de pelo menos três !
Se acrescentarmos o francês – a despeito de lá existir a Académie Française, de onde Machado de Assis copiou a nossa – tampouco há a registrar reformas ortográficas recentes.
Sem as contínuas mudanças a que se submeteu o português, em que estado se acha o inglês (nas suas expressões inglesa e americana) e o francês ? Seriam, porventura, a reificação do atraso ou vão bem, obrigado ? Fico a indagar-me porque ainda não aplicaram o modelo luso-brasileiro, que obriga gerações a reinventar a roda, enquanto os editores tupiniquins permanecem felizes com suas edições de três mil exemplares...
A reforma não é apenas inútil, mas também perniciosa – como deixou implícito Cipro Neto – ao forçar a obsolescência de todos os livros publicados no Brasil – de referência, literários e técnicos – como se a indústria editorial nacional carecesse do artificialismo sistêmico das mudanças anuais da indústria automobilística ou as sazonais da moda.
Em um país de muitas editoras e poucos leitores, uma pessoa de bom senso há de perguntar-se do porquê desses esforços reiterados que no espaço de uma geração são ritualmente impingidos como necessidades inadiáveis aos alfabetizados brasileiros. Procederão as justificativas de ampliar o mercado editorial com a padronização do idioma não só no Brasil e em Portugal, senão nos demais países de língua portuguesa (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, Timor Leste, etc.) ? Decerto as dúvidas expressas são fundadas, mas não creio que se deva tentar entender tal proliferação reformista a partir da análise das argumentações das partes diretamente interessadas nesse processo.
Das Causas. Quando o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto ratificando o acordo promovido pelas Academias, pensei na frase do estadista francês Georges Clemenceau de que “a guerra é demasiado importante para deixá-la por conta dos generais”. Não, caro leitor, não estou confundindo conflito armado com imposição de reforma ortográfica. O meu raciocínio é de ordem epistêmica e pode igualmente inspirar-se no dito latino “quis custodiet ipsos custodes?” (quem vigiará os vigias ?). Em outras palavras, a reforma ortográfica é demasiado importante para que a deixemos ao arbítrio dos gramáticos e das academias.
Com efeito, o parecer dos ditos especialistas terá seu peso, mas ele deve estar submetido às instâncias do Estado, que julgarão da conveniência ou não da implementação das opiniões setoriais. Deparamos aqui, no entanto,a uma inversão do processo. Como Foucault nos ensina, o poder se manifesta em muitas formas. No caso presente, prepondera a visão técnico-burocrática das academias, erigidas na prática como autoridade máxima, eis que as negociações – e as reformas – por elas encaminhadas são chanceladas pelo poder estatal como se fossem irrecusáveis e inquestionáveis. Depois das negociações entre as academias, e estranhas concessões (como a duvidosa fundamentação para que ideia no Brasil fique sem acento – irrisório agrado ao uso não-acentuado em Portugal), a aprovação pelos poderes do Estado é uma simples formalidade, como se verifica pelos termos com que o Presidente Lula ratificou o acordo. E é bom que se frise, esta atitude de aprovação automática, sem questionamento, caracteriza no particular tanto o atual, quanto o seu imediato antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
Infelizmente, a busca da causa não pode deter-se na desenvoltura das academias e na chancela pelo poder estatal. Está aí a herança da colonização, com suas ordenações, sua índole normativa, burocrática e cartorial, a criar uma teia infernal para as atividades tantos comerciais, quanto culturais. O formalismo, as instâncias burocráticas, a pulverização do poder representada por um sem-número de régulos, todos nominalmente prostrados diante da figura distante e quase inatingível de el-Rei será um quadro que terá desaparecido com a Independência ?
Ou será que tais práticas persistem sob outras formas ? Não nos esqueçamos que em tempos da ditadura houve um ministério que se ocupou precipuamente em simplificar as normas burocráticas no Brasil. Terá tido sucesso ? Basta visitar um simples cartório para que vejamos quem vence por ora essa inglória batalha.
Comparações desconfortáveis. Quem foi caracterizado como a autoridade máxima para determinar do acerto ou não de normas derivadas do presente acordo ortográfico, justificou-lhe a assinatura pela circunstância, a seu ver única no mundo, da existência de duas ortografias oficiais do português – a brasileira e a portuguesa. Tive dificuldade em acreditar no que estava ouvindo. Duas ortografias do português únicas no mundo ? E o que dizer das variantes do inglês nos Estados Unidos e na Inglaterra ? Será que a língua inglesa encontra-se em desvantagem nesses dois países, por não estar submetida a nenhuma instância burocrática ? Acresce notar que seja nos Estados Unidos, seja no Reino Unido não houve qualquer reforma no espaço de tempo em que o português – esta última flor do Lácio - pode orgulhar-se de pelo menos três !
Se acrescentarmos o francês – a despeito de lá existir a Académie Française, de onde Machado de Assis copiou a nossa – tampouco há a registrar reformas ortográficas recentes.
Sem as contínuas mudanças a que se submeteu o português, em que estado se acha o inglês (nas suas expressões inglesa e americana) e o francês ? Seriam, porventura, a reificação do atraso ou vão bem, obrigado ? Fico a indagar-me porque ainda não aplicaram o modelo luso-brasileiro, que obriga gerações a reinventar a roda, enquanto os editores tupiniquins permanecem felizes com suas edições de três mil exemplares...
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Dos Jornais XXVII
O GLOBO 28 e 29.XII.2008
Bolsa no Brasil perde US$ 835 bilhões em 2008.
Com o agravamento da turbulência financeira, o valor das ações das empresas negociadas na Bovespa despencou de US$ 1,399 trilhão, em 2007, para US$ 563,696 bilhões. O recuo chega a 59,70%, o segundo pior entre as nove principais bolsas do mundo. No topo deste ranking ao revés está a Rússia, com perda de 73%. Segundo economistas, o mercado acionário no Brasil foi afetado pela acentuada alta do dólar em relação ao real (33%). Pesou ainda a queda dos preços das matérias-primas, que atingiu a Petrobrás e Vale. A previsão para 2009 é que a Bovespa vai continuar instável, devido à incerteza sobre a duração da recessão nos EUA, Europa e Japão.
Comentário. A recente crise mundial – que supostamente não afetaria ao Brasil, nas previsões temerárias do Presidente Lula - veio em primeiro lugar mostrar a fragilidade do real em relação ao dólar estadunidense. Por um longo período, as autoridades financeiras brasileiras se congratularam com a suposta solidez do real. Com efeito, durante largo período o real não só se apreciou em relação ao dólar, mas foi a segunda moeda nesta apreciação (inferior apenas ao euro). Assinale-se que o câmbio passou de R$ 1,777, em fins de 2007, para R$ 2,370 na sexta-feira, 26 de dezembro de 2008 (alta de 33,37%). As reservas em divisas, se foram suficientes para livrar a economia brasileira de recorrer in extremis ao FMI e congêneres – como acontecera em crises mundiais anteriores - , não foram bastantes para manter o equilíbrio na relação de troca com o dólar.
Em segundo lugar, o fato de a Bolsa brasileira ter o segundo pior desempenho não é só um reflexo da gravidade da crise mundial (a princípio tolamente denegada, em termos de Brasil). É relevante sublinhar nesse contexto que US$30,271 trilhões ‘desapareceriam’ dos mercados de ação no correr do ano, o que representou um encolhimento de 50% do valor do mercado (de US$ 60,851 trilhões em 2007. Entretanto, é importante ter presente igualmente as debilidades da economia e da legislação brasileiras. Não foi por acaso que a Bovespa só foi superada em performance negativa pela bolsa russa, de um país com um PNB menor do que o nosso.
Dentre as fraquezas da bolsa e, por conseguinte, da economia brasileira, estão o percentual de sua desnacionalização (todas as montadoras de veículos auto-motores são estrangeiras, existem grandes bancos estrangeiros, etc.). Há por um lado grandes facilidades para a entrada e a saída de capitais estrangeiros, que não têm limitações de prazo (como em outros países), e que tampouco pagam impostos. Sendo um país emergente, e dos mais líquidos (com ações mais fáceis de comprar e de vender), em momentos de nervosismo dos inversores, tenderá a sofrer mais, penalizado pelas próprias facilidades concedidas ao mercado. Acresce a isto, por outro lado, a pressão sazonal de montadoras, bancos, etc. em sua transferência de divisas para as matrizes (em especial, se tais matrizes – como as montadoras americanas - estiverem em crise) o que acentua a tendência deficitária do nosso balanço de transações correntes.
Outra debilidade é que existe na Bovespa uma presença muito forte de commodities (matérias-primas como petróleo, minério de ferro, etc.). Além da bolha do valor de mercado do barril de petróleo (que inchou a importância relativa, v.g., do caudilho Hugo Chávez), existia acentuada valorização nas cotações de várias outras commodities. Ao sobrevir a crise, os produtos primários (com menos mão de obra agregada) são também os primeiros a sofrerem as conseqüências. Essa fragilidade tende a atingir menos os produtos com maior input tecnológico e de mão de obra.
Em função do fenômeno da globalização do capitalismo, a bolsa brasileira depende a fortiori do comportamento das bolsas da superpotência ( Wall Street e Nasdaq) e, secundariamente, das bolsas européias e japonesa. Nesse quadro, os fatores objetivos estão em segundo plano para os subjetivos, em que basta apenas a efetivação da queda nas cotações das bolsas americanas para ocasionar o despencar nos índices da Bovespa (efeito de manada).
Como se verifica acima, depois do Plano Real e da inserção da economia brasileira no mercado mundial sob parâmetros neoliberais, buscou-se – sobretudo no governo de Fernando Henrique Cardoso – criar facilidades para o investimento estrangeiro, facilidades essas que ensejaram a entrada no mercado financeiro de bancos importantes estrangeiros (além do Citibank, desde muito presente, vieram o Santander, o Amro Bank), o total domínio das montadoras de veículos por multinacionais estrangeiras. Se foi contra-arrestada a tentativa de vender a Petrobrás (recordam-se da estranha manobra de mudar-lhe o nome para Petrobrax ?), somente com o Governo Lula foi possível evitar o ulterior enfraquecimento do Estado – em uma linha que seria reminiscente do desastroso menenismo -, sem prejuízo da luta bem-sucedida em favor da estabilização monetária e do reforço da economia nacional.
Como permanecem, no entanto, essas grandes linhas neoliberais em nossa economia, as fraquezas acima citadas, se não forem corrigidas, continuarão a produzir efeitos.
Bolsa no Brasil perde US$ 835 bilhões em 2008.
Com o agravamento da turbulência financeira, o valor das ações das empresas negociadas na Bovespa despencou de US$ 1,399 trilhão, em 2007, para US$ 563,696 bilhões. O recuo chega a 59,70%, o segundo pior entre as nove principais bolsas do mundo. No topo deste ranking ao revés está a Rússia, com perda de 73%. Segundo economistas, o mercado acionário no Brasil foi afetado pela acentuada alta do dólar em relação ao real (33%). Pesou ainda a queda dos preços das matérias-primas, que atingiu a Petrobrás e Vale. A previsão para 2009 é que a Bovespa vai continuar instável, devido à incerteza sobre a duração da recessão nos EUA, Europa e Japão.
Comentário. A recente crise mundial – que supostamente não afetaria ao Brasil, nas previsões temerárias do Presidente Lula - veio em primeiro lugar mostrar a fragilidade do real em relação ao dólar estadunidense. Por um longo período, as autoridades financeiras brasileiras se congratularam com a suposta solidez do real. Com efeito, durante largo período o real não só se apreciou em relação ao dólar, mas foi a segunda moeda nesta apreciação (inferior apenas ao euro). Assinale-se que o câmbio passou de R$ 1,777, em fins de 2007, para R$ 2,370 na sexta-feira, 26 de dezembro de 2008 (alta de 33,37%). As reservas em divisas, se foram suficientes para livrar a economia brasileira de recorrer in extremis ao FMI e congêneres – como acontecera em crises mundiais anteriores - , não foram bastantes para manter o equilíbrio na relação de troca com o dólar.
Em segundo lugar, o fato de a Bolsa brasileira ter o segundo pior desempenho não é só um reflexo da gravidade da crise mundial (a princípio tolamente denegada, em termos de Brasil). É relevante sublinhar nesse contexto que US$30,271 trilhões ‘desapareceriam’ dos mercados de ação no correr do ano, o que representou um encolhimento de 50% do valor do mercado (de US$ 60,851 trilhões em 2007. Entretanto, é importante ter presente igualmente as debilidades da economia e da legislação brasileiras. Não foi por acaso que a Bovespa só foi superada em performance negativa pela bolsa russa, de um país com um PNB menor do que o nosso.
Dentre as fraquezas da bolsa e, por conseguinte, da economia brasileira, estão o percentual de sua desnacionalização (todas as montadoras de veículos auto-motores são estrangeiras, existem grandes bancos estrangeiros, etc.). Há por um lado grandes facilidades para a entrada e a saída de capitais estrangeiros, que não têm limitações de prazo (como em outros países), e que tampouco pagam impostos. Sendo um país emergente, e dos mais líquidos (com ações mais fáceis de comprar e de vender), em momentos de nervosismo dos inversores, tenderá a sofrer mais, penalizado pelas próprias facilidades concedidas ao mercado. Acresce a isto, por outro lado, a pressão sazonal de montadoras, bancos, etc. em sua transferência de divisas para as matrizes (em especial, se tais matrizes – como as montadoras americanas - estiverem em crise) o que acentua a tendência deficitária do nosso balanço de transações correntes.
Outra debilidade é que existe na Bovespa uma presença muito forte de commodities (matérias-primas como petróleo, minério de ferro, etc.). Além da bolha do valor de mercado do barril de petróleo (que inchou a importância relativa, v.g., do caudilho Hugo Chávez), existia acentuada valorização nas cotações de várias outras commodities. Ao sobrevir a crise, os produtos primários (com menos mão de obra agregada) são também os primeiros a sofrerem as conseqüências. Essa fragilidade tende a atingir menos os produtos com maior input tecnológico e de mão de obra.
Em função do fenômeno da globalização do capitalismo, a bolsa brasileira depende a fortiori do comportamento das bolsas da superpotência ( Wall Street e Nasdaq) e, secundariamente, das bolsas européias e japonesa. Nesse quadro, os fatores objetivos estão em segundo plano para os subjetivos, em que basta apenas a efetivação da queda nas cotações das bolsas americanas para ocasionar o despencar nos índices da Bovespa (efeito de manada).
Como se verifica acima, depois do Plano Real e da inserção da economia brasileira no mercado mundial sob parâmetros neoliberais, buscou-se – sobretudo no governo de Fernando Henrique Cardoso – criar facilidades para o investimento estrangeiro, facilidades essas que ensejaram a entrada no mercado financeiro de bancos importantes estrangeiros (além do Citibank, desde muito presente, vieram o Santander, o Amro Bank), o total domínio das montadoras de veículos por multinacionais estrangeiras. Se foi contra-arrestada a tentativa de vender a Petrobrás (recordam-se da estranha manobra de mudar-lhe o nome para Petrobrax ?), somente com o Governo Lula foi possível evitar o ulterior enfraquecimento do Estado – em uma linha que seria reminiscente do desastroso menenismo -, sem prejuízo da luta bem-sucedida em favor da estabilização monetária e do reforço da economia nacional.
Como permanecem, no entanto, essas grandes linhas neoliberais em nossa economia, as fraquezas acima citadas, se não forem corrigidas, continuarão a produzir efeitos.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Dos Jornais XXVI
DOS JORNAIS - XXVI
O GLOBO - 21.12.2008
Santos Dumont ou Galeão ?
Em entrevista ao jornal carioca, Solange Paiva Vieira, presidente da Agência Nacional da Aviação Civil (ANAC) não concorda com as restrições impostas ao Santos Dumont em termos de tráfego aéreo interno. No seu entender ‘toda restrição só prejudica o consumidor’.
Comentário. O Santos Dumont era aeroporto de grande movimento até que foi fechado para reforma considerada inadiável. Por sua vez, o governo do estado sempre se empenhou pela suposta revalorização do Galeão. Ao contrário, no entanto, do que apregoam as autoridades estaduais, com o governador Sérgio Cabral à frente, a maior utilização do Galeão para vôos internos não redundou em avanços de suas pretensões de transformar-se em um hub em termos internacionais. Nas palavras de Solange Vieira, o movimento internacional do Galeão (l,1 milhão) é irrisório em comparação com Guarulhos (4 milhões).
Se o usuário tivesse vez, o renovado Santos Dumont receberia não apenas a ponte aérea Rio-São Paulo, mas também vôos para Brasília, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba e, talvez, Porto Alegre. Pela sua situação topográfica, representa maior conforto e segurança para o passageiro. Congratulo-me, pois, com os propósitos de Solange Vieira, sintonizados com o interesse da sociedade, e não com a política do Estado do Rio de Janeiro que persistindo no favorecimento do Galão está ao arrepio deste mesmo interesse.
O GLOBO – 22.12.2008
Chavez anuncia desapropriação de shopping.
Pergunto-me por quanto tempo ainda haverá investimento estrangeiro na economia venezuelana. Por compreensíveis razões, qualquer inversor carece de um mínimo de previsibilidade e de estabilidade normativa no país em que se propõe empregar as próprias divisas. Ora, como um governante do estampo de Hugo Chávez, em que se mistura poder quase-ditatorial e tendência bastante marcada para temperamento errático, pode ser visto por empresas internacionais e investidores estrangeiros senão como um espantalho na prática a qualquer interesse em investir na Venezuela ?
Essa ‘politica’ de Chávez, anunciada em programas televisivos, pode beirar o ridículo, como o seu anúncio de que “ irá desapropriar um shopping em final de construção, no centro de Caracas, porque o lugar não combina com os ideais socialistas”. A comicidade, no entanto, diminui se tivermos presente o que acarreta em termos de atraso, de restrição ao emprego, e ao empobrecimento em geral da economia venezuelana. Com o petróleo na casa dos quarenta dólares e não nos três dígitos de antes, o voluntarismo de Chávez só contribui para encolher ainda mais a riqueza na sua república bolivariana.
O GLOBO - 21.12.2008
Santos Dumont ou Galeão ?
Em entrevista ao jornal carioca, Solange Paiva Vieira, presidente da Agência Nacional da Aviação Civil (ANAC) não concorda com as restrições impostas ao Santos Dumont em termos de tráfego aéreo interno. No seu entender ‘toda restrição só prejudica o consumidor’.
Comentário. O Santos Dumont era aeroporto de grande movimento até que foi fechado para reforma considerada inadiável. Por sua vez, o governo do estado sempre se empenhou pela suposta revalorização do Galeão. Ao contrário, no entanto, do que apregoam as autoridades estaduais, com o governador Sérgio Cabral à frente, a maior utilização do Galeão para vôos internos não redundou em avanços de suas pretensões de transformar-se em um hub em termos internacionais. Nas palavras de Solange Vieira, o movimento internacional do Galeão (l,1 milhão) é irrisório em comparação com Guarulhos (4 milhões).
Se o usuário tivesse vez, o renovado Santos Dumont receberia não apenas a ponte aérea Rio-São Paulo, mas também vôos para Brasília, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba e, talvez, Porto Alegre. Pela sua situação topográfica, representa maior conforto e segurança para o passageiro. Congratulo-me, pois, com os propósitos de Solange Vieira, sintonizados com o interesse da sociedade, e não com a política do Estado do Rio de Janeiro que persistindo no favorecimento do Galão está ao arrepio deste mesmo interesse.
O GLOBO – 22.12.2008
Chavez anuncia desapropriação de shopping.
Pergunto-me por quanto tempo ainda haverá investimento estrangeiro na economia venezuelana. Por compreensíveis razões, qualquer inversor carece de um mínimo de previsibilidade e de estabilidade normativa no país em que se propõe empregar as próprias divisas. Ora, como um governante do estampo de Hugo Chávez, em que se mistura poder quase-ditatorial e tendência bastante marcada para temperamento errático, pode ser visto por empresas internacionais e investidores estrangeiros senão como um espantalho na prática a qualquer interesse em investir na Venezuela ?
Essa ‘politica’ de Chávez, anunciada em programas televisivos, pode beirar o ridículo, como o seu anúncio de que “ irá desapropriar um shopping em final de construção, no centro de Caracas, porque o lugar não combina com os ideais socialistas”. A comicidade, no entanto, diminui se tivermos presente o que acarreta em termos de atraso, de restrição ao emprego, e ao empobrecimento em geral da economia venezuelana. Com o petróleo na casa dos quarenta dólares e não nos três dígitos de antes, o voluntarismo de Chávez só contribui para encolher ainda mais a riqueza na sua república bolivariana.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Do Novo Ano e da Esperança
Manda a tradição que no limiar do Ano Novo as pessoas troquem votos de saúde e prosperidade. A propósito, recordo-me dos brilhantes pacotes que colocávamos debaixo da árvore, e que se destinavam a nossos filhos. Como vivia por dever de ofício longe do Brasil todos esses presentes de Papai Noel eram escolhidos e comprados por nós, eis que a distância impedia os demais parentes de participarem nas lembranças às crianças.
Tinha prazer em assistir à alegria deles, freneticamente abrindo, na verdade rasgando, os invólucros das caixas. Para eles, no meu entender, metade da satisfação estaria em desvendar o mistério que se encerrava em cada pacote, todos eles prometendo brinquedos e brincadeiras novas e diversas. E o nosso comum esforço, em terra estrangeira, de proporcionar aos filhotes a visão e o gozo de uma árvore cercada de pacotes de boas surpresas, tinha o objetivo principal de não negar às crianças a oportunidade de um Natal com o esperado número de presentes. Naquele jogo de fazer de conta, Papai Noel tinha trabalho redobrado – todos aqueles embrulhos reluzentes eram carinhosas mensagens não só nossas, mas de toda a família, de que o afastamento continental inviabilizara a presença.
Compreende-se, assim, a ansiedade com que as crianças íam para cama dormir, assim como o oculto despertador que os faria, de manhãzinha, vir até a árvore enganalada, para afinal descobrirem o que trouxera o bom velhinho.
Manda igualmente a tradição que em Natal e Ano Novo o otimismo seja de regra. Mesmo que da boca para fora, ninguém ousa desrespeitar esta regra não-escrita. Por isso, os fogos de artifício a saudarem as boas entradas, que se repetem, pelos caprichos do cronômetro, da baía de Sidney até Times Square. Em uma cidade conflagrada como o Rio de Janeiro, a noite de trinta e um de dezembro, com suas multidões em Copacabana, é espetáculo a repetir-se pelos anos afora. E é bem que, a exemplo das tréguas da Antigüidade e do medieval asilo sagrado nos templos, o bom povo carioca tenha mais do que quinze minutos de paz e gáudio, nas homenagens a Iemanjá, nas areias macias da praia, no passeio atopetado da avenida Atlântica, nas janelas curiosas dos edifícios circundantes, e, como nos velhos tempos, em retorno tranqüilo na alta madrugada aos respectivos domicílios.
E é bom que assim seja. É preciso acreditar em que as coisas possam um dia mudar para melhor. E por que não a partir deste dia, na confraternização em meio ao espoucar da champanha e de todas as demais bebidas a que os festejantes têm direito ?
Tinha prazer em assistir à alegria deles, freneticamente abrindo, na verdade rasgando, os invólucros das caixas. Para eles, no meu entender, metade da satisfação estaria em desvendar o mistério que se encerrava em cada pacote, todos eles prometendo brinquedos e brincadeiras novas e diversas. E o nosso comum esforço, em terra estrangeira, de proporcionar aos filhotes a visão e o gozo de uma árvore cercada de pacotes de boas surpresas, tinha o objetivo principal de não negar às crianças a oportunidade de um Natal com o esperado número de presentes. Naquele jogo de fazer de conta, Papai Noel tinha trabalho redobrado – todos aqueles embrulhos reluzentes eram carinhosas mensagens não só nossas, mas de toda a família, de que o afastamento continental inviabilizara a presença.
Compreende-se, assim, a ansiedade com que as crianças íam para cama dormir, assim como o oculto despertador que os faria, de manhãzinha, vir até a árvore enganalada, para afinal descobrirem o que trouxera o bom velhinho.
Manda igualmente a tradição que em Natal e Ano Novo o otimismo seja de regra. Mesmo que da boca para fora, ninguém ousa desrespeitar esta regra não-escrita. Por isso, os fogos de artifício a saudarem as boas entradas, que se repetem, pelos caprichos do cronômetro, da baía de Sidney até Times Square. Em uma cidade conflagrada como o Rio de Janeiro, a noite de trinta e um de dezembro, com suas multidões em Copacabana, é espetáculo a repetir-se pelos anos afora. E é bem que, a exemplo das tréguas da Antigüidade e do medieval asilo sagrado nos templos, o bom povo carioca tenha mais do que quinze minutos de paz e gáudio, nas homenagens a Iemanjá, nas areias macias da praia, no passeio atopetado da avenida Atlântica, nas janelas curiosas dos edifícios circundantes, e, como nos velhos tempos, em retorno tranqüilo na alta madrugada aos respectivos domicílios.
E é bom que assim seja. É preciso acreditar em que as coisas possam um dia mudar para melhor. E por que não a partir deste dia, na confraternização em meio ao espoucar da champanha e de todas as demais bebidas a que os festejantes têm direito ?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Reflexão sobre os Tempos
Marco Túlio Cícero, na sua primeira oração perante o Senado de Roma contra Lúcio Sergio Catilina, insere a famosa frase ‘O tempora, O mores’ (oh tempos, oh costumes). O cônsul Cícero precisou de mais três discursos para obter do Senado a autorização para combater e debelar a conspiração de Catilina. Esta célebre queixa sobre o estado dos costumes na república romana data de 63 a.C. Os malogrados planos de Catilina estão há muito esquecidos, as deploradas condições dos costumes romanos tinham longo caminho de descida pela frente, e – excluído o vocábulo catilinária - talvez o único que reste na memória ativa seja a exclamação acima. Tornou-se verdadeiro lugar-comum, presença quase obrigatória em incontáveis petições e sentenças, em que o autor (advogado ou magistrado) apela para suas fumaças de latinismo, com vistas a acoimar a reprovável situação dos tempos presentes.
Esta insatisfação com a atualidade aparece igualmente em filme de René Clair. Há um personagem, representado por Michel Simon, que, vestido com roupas antiquadas, surge a intervalos regulares na película (que é uma corrida ao revés através do tempo) a entoar loas sobre os bons velhos tempos. Na veia crítica do cineasta francês, Michel Simon personifica o saudosista, que será a outra face da medalha de quem critica as deploráveis condições da época em que vive.
Como se vê, desde a Antigüidade Clássica, nos tempos havidos posteriormente como áureos da civilização greco-romana, havia gente – e do porte de Cícero ! – que não estava satisfeita com o seu mundo. Daí se poderia passar para outra observação – igualmente estigmatizada de lugar-comum – tão cara aos franceses, que afirma, com a grandiloqüência gaulesa, que ‘não há nada de novo debaixo do sol’. Esta relativização histórica da originalidade motivou o queixume do romântico (e obscuro) poeta Rollo, que no século XIX se lamuriava com o fato de haver chegado demasiado tarde (trop tard) em um mundo já muito velho (trop vieux).
No entanto, defronte do triste espetáculo que a atualidade brasileira nos proporciona, cabe um momento de dúvida e de hesitação. Deveríamos continuar a nos aferrar ao paradigma de que os fenômenos humanos não mudam na sua essência, que o saudosismo é apenas a manifestação recorrente da insatisfação passadista, do gênero do poema de François Villon (1431-1489), que pergunta nostálgico “aonde estão as neves de antanho”? Convenhamos que a manutenção deste apego doutrinal se torna extremamente difícil se o confrontarmos com a realidade de nossa Terra de Santa Cruz.
Impressiona a criatividade brasileira voltada para o ganho ilícito. Não há limites para esta prática, que prolifera nas mais diversas atividades (apropriação indébita e adulteração de combustíveis; indústria de liminares, que não se restringe a áreas geográficas, como os jornais e a tevê o demonstram; neologismos que procuram atender à inventiva dos criminosos de colarinho branco: v.g., laranjas; uso indevido e recalcitrante em atividades médicas (cirúrgia plástica; lipoaspiração); a indústria dos recursos, que tende a tornar a figura jurídica da coisa passada em julgado (e da condenação definitiva) como uma improvável ficção (sob a condição, é lógico de dispor de bons advogados). Consoante a dadivosa Carta de 1988 – que nunca se liberou de sua condição genética de filha de Frankestein -, para as cortes pode-se dizer que a presunção de inocência persiste, não obstante sucessivas condenações, diante da quase inatingível condenação definitiva (mesmo para réus confessos) – atendida sempre a regra sine qua non de ter a tiracolo um bom advogado. Senão, comine-se todo o rigor da lei, como sofreram o homem que arrancou uma casca de árvore e a mulher que pichou a última Bienal.
Este desprezo do ético, do honesto, do morigerado, da obediência à lei, grassa por toda parte. Assistimos a fenômenos antes impensáveis como o da greve dos juízes, o da falsificação dos medicamentos, o furto de flagelados (Vide Santa Catarina, com a agravante de que as subtrações não se circunscrevem às classes de renda mais baixa). A expressão : “ilegal e daí ?” reflete a desordem urbana que caracteriza a moribunda administração César Maia. O Legislativo, com a sua dissonância perante a realidade nacional (em tempos de crise, a farra que incha as câmaras de vereadores, os contínuos aumentos de remuneração (em triste descompasso com o mísero salário dos professores,etc.etc.). Os exemplos de anomia se multiplicam e são revoltantes (para aqueles que preservam a capacidade de enojar-se com a-ético, o abuso de autoridade, o desonesto,etc.).
Tudo isso, dirão alguns, terá sido prenunciado pela notória lei de Gerson.
Será mesmo ? Depois do instituto da reeleição no governo anterior, na ainda sub-judice questão do mensalão, na proposta de abolição do Senado (V. escândalo de Renan Calheiros) o Povo (em nome de quem todo poder emana) precisará de muitos Diógenes com as respectivas lanternas para encontrar algum varão republicano que governe não só com a caneta mas também com a palavra e o exemplo.
Sem dúvida, o Brasil não está fora do mundo. Vivemos oito anos (ou quase) em que a tortura voltou a ser um instrumento da justiça. Graças a Bush, Cheney et al. a sociedade do século XXI tornou às masmorras e calabouços do século XVIII, de que a pena de Beccaria anunciara a superação. Aguardemos com esperança o que nos reserva Barack Obama. Por quanto tempo, a interrogação incrementada (nas palavras da direita raivosa) de Guantánamo e Abu Ghraib prevalecerá ? E o retorno ao velho patrimonialismo, com o leilão de indicações para cargos públicos, vamos limitá-lo apenas à velha Chicago ?
São tempos escuros (tempi bui), em que os meliantes tomam ares de gente proba, a despeito de escarnecerem dos honestos, que desejam transformar em motivo de risota.
Diante do sinistro cortejo a que somos forçados a assistir, seria o caso de pedir tempo, antes de emitir opinião acerca de nossa verdadeira situação?
Em termos de corrupção e da arrogância dos patifes, o atual desconforto seria apenas falta de um sentido de perspectiva histórica? Significaria tão só a velha frase de Marx? Ou será mais uma nova contribuição do Brasil ao mundo ?
Esta insatisfação com a atualidade aparece igualmente em filme de René Clair. Há um personagem, representado por Michel Simon, que, vestido com roupas antiquadas, surge a intervalos regulares na película (que é uma corrida ao revés através do tempo) a entoar loas sobre os bons velhos tempos. Na veia crítica do cineasta francês, Michel Simon personifica o saudosista, que será a outra face da medalha de quem critica as deploráveis condições da época em que vive.
Como se vê, desde a Antigüidade Clássica, nos tempos havidos posteriormente como áureos da civilização greco-romana, havia gente – e do porte de Cícero ! – que não estava satisfeita com o seu mundo. Daí se poderia passar para outra observação – igualmente estigmatizada de lugar-comum – tão cara aos franceses, que afirma, com a grandiloqüência gaulesa, que ‘não há nada de novo debaixo do sol’. Esta relativização histórica da originalidade motivou o queixume do romântico (e obscuro) poeta Rollo, que no século XIX se lamuriava com o fato de haver chegado demasiado tarde (trop tard) em um mundo já muito velho (trop vieux).
No entanto, defronte do triste espetáculo que a atualidade brasileira nos proporciona, cabe um momento de dúvida e de hesitação. Deveríamos continuar a nos aferrar ao paradigma de que os fenômenos humanos não mudam na sua essência, que o saudosismo é apenas a manifestação recorrente da insatisfação passadista, do gênero do poema de François Villon (1431-1489), que pergunta nostálgico “aonde estão as neves de antanho”? Convenhamos que a manutenção deste apego doutrinal se torna extremamente difícil se o confrontarmos com a realidade de nossa Terra de Santa Cruz.
Impressiona a criatividade brasileira voltada para o ganho ilícito. Não há limites para esta prática, que prolifera nas mais diversas atividades (apropriação indébita e adulteração de combustíveis; indústria de liminares, que não se restringe a áreas geográficas, como os jornais e a tevê o demonstram; neologismos que procuram atender à inventiva dos criminosos de colarinho branco: v.g., laranjas; uso indevido e recalcitrante em atividades médicas (cirúrgia plástica; lipoaspiração); a indústria dos recursos, que tende a tornar a figura jurídica da coisa passada em julgado (e da condenação definitiva) como uma improvável ficção (sob a condição, é lógico de dispor de bons advogados). Consoante a dadivosa Carta de 1988 – que nunca se liberou de sua condição genética de filha de Frankestein -, para as cortes pode-se dizer que a presunção de inocência persiste, não obstante sucessivas condenações, diante da quase inatingível condenação definitiva (mesmo para réus confessos) – atendida sempre a regra sine qua non de ter a tiracolo um bom advogado. Senão, comine-se todo o rigor da lei, como sofreram o homem que arrancou uma casca de árvore e a mulher que pichou a última Bienal.
Este desprezo do ético, do honesto, do morigerado, da obediência à lei, grassa por toda parte. Assistimos a fenômenos antes impensáveis como o da greve dos juízes, o da falsificação dos medicamentos, o furto de flagelados (Vide Santa Catarina, com a agravante de que as subtrações não se circunscrevem às classes de renda mais baixa). A expressão : “ilegal e daí ?” reflete a desordem urbana que caracteriza a moribunda administração César Maia. O Legislativo, com a sua dissonância perante a realidade nacional (em tempos de crise, a farra que incha as câmaras de vereadores, os contínuos aumentos de remuneração (em triste descompasso com o mísero salário dos professores,etc.etc.). Os exemplos de anomia se multiplicam e são revoltantes (para aqueles que preservam a capacidade de enojar-se com a-ético, o abuso de autoridade, o desonesto,etc.).
Tudo isso, dirão alguns, terá sido prenunciado pela notória lei de Gerson.
Será mesmo ? Depois do instituto da reeleição no governo anterior, na ainda sub-judice questão do mensalão, na proposta de abolição do Senado (V. escândalo de Renan Calheiros) o Povo (em nome de quem todo poder emana) precisará de muitos Diógenes com as respectivas lanternas para encontrar algum varão republicano que governe não só com a caneta mas também com a palavra e o exemplo.
Sem dúvida, o Brasil não está fora do mundo. Vivemos oito anos (ou quase) em que a tortura voltou a ser um instrumento da justiça. Graças a Bush, Cheney et al. a sociedade do século XXI tornou às masmorras e calabouços do século XVIII, de que a pena de Beccaria anunciara a superação. Aguardemos com esperança o que nos reserva Barack Obama. Por quanto tempo, a interrogação incrementada (nas palavras da direita raivosa) de Guantánamo e Abu Ghraib prevalecerá ? E o retorno ao velho patrimonialismo, com o leilão de indicações para cargos públicos, vamos limitá-lo apenas à velha Chicago ?
São tempos escuros (tempi bui), em que os meliantes tomam ares de gente proba, a despeito de escarnecerem dos honestos, que desejam transformar em motivo de risota.
Diante do sinistro cortejo a que somos forçados a assistir, seria o caso de pedir tempo, antes de emitir opinião acerca de nossa verdadeira situação?
Em termos de corrupção e da arrogância dos patifes, o atual desconforto seria apenas falta de um sentido de perspectiva histórica? Significaria tão só a velha frase de Marx? Ou será mais uma nova contribuição do Brasil ao mundo ?
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