sábado, 23 de setembro de 2017

O que fazer do Rio ?

                             

        Há seriedade no governo do Rio de Janeiro? A população tem acaso confiança na administração estadual de Pezão para enfrentar a criminalidade? Que credibilidade pode ter a Polícia Militar do Rio de Janeiro, depois das clamorosas falhas no programa Favela-Bairro e na desmoralização da P.M., após o grande logro do suposto retorno do Alemão à normalidade cidadã, comemorado até em novela da Rede Globo, e escarnecido pelo fracasso da Polícia Militar na repressão ao crime organizado nas favelas, a começar pela de Santa Marta, que seria o farol da recuperação do morro do crime organizado? E o que dizer na queda da moral, marcada com a partida do Secretário Beltrame da chefia da P.M. no Rio de Janeiro, diante do fracasso de tudo o que fora prometido à população naquele domingo supostamente glorioso em que Governo do Estado, então presidido pelo hoje presidiário e ex-Governador Sérgio Cabral, e por representações de porte das FF.AA., para marcar o que seria a recuperação do Alemão para a normalidade cidadã?
         Muitos ainda não esqueceram a confiança que foi injetada na população pelas áureas - e infelizmente falsas - promessas de normalização da favela como um lugar sob o signo do morro de Santa Marta - que espalharam pelo Rio de Janeiro a falsa esperança da absorção das favelas pelo programa favela-bairro, doravante transformado em farol de um mundo melhor, em que as favelas (ou comunidades) poderiam conviver com o asfalto, na medida em que estariam livres do tráfico e das condições precárias que sempre nortearam a vida dessas comunidades forçadas pela vida e a falta de recursos a vegetar no desconforto do morro, e com a nociva presença da criminalidade.
         No cemitério das falsas realizações e da capacidade da população de querer acreditar que uma vida normal é possível até mesmo no morro, o dito programa favela-bairro, protagonizado pela Administração Sérgio Cabral seria mais uma estação nesse longo itinerário da população carente carioca de querer acreditar que "desta vez tudo será diferente" e que se poderá embarcar em mais essa proposta de mundos-e-fundos que uma honesta fachada - o secretário Beltrame - agitava para a comunidade carioca que, malgrado o longo itinerário de logros sem fim queria acreditar que uma vida melhor, mais humana e mais civilizada era possível, mesmo no Rio de Janeiro, com a política da Alerj e os planos do então governador Sérgio Cabral.
         Não é lícito debochar da população por desejar acreditar em que uma existência melhor, mais humana e civilizada, seja possível, a despeito das tretas, engodos e planos passados, todos eles ricos, milionários mesmo, na oferta de maravilhas, e no desenho de um mundo melhor, mais humano e mais honesto, seja possível, malgrado tantos tropeços e contos do vigário seja o passado, não rico mas na verdade milionário. Oferecer maravilhas para alguém que a vida fez sedento de esperança pela simples circunstância de que é preferível o acreditar  que o desacreditar, o que será sempre a receita falsamente milagreira desses planos saídos do nada e que para o nada voltarão, depois de colherem a maldita roça de decepções e a respectiva quota de raivas contra os fémentidos da política.
         Toda a fábula terá necessariamente vida curta, pois a esperança - embora logre crescer por toda a parte -  costuma secar brevemente a quota de ilusões e o seu largo cenário de mentirinha para trazer de volta os desgraçados da vida que são duplamente condenados pelo "crime" de acreditarem na vida melhor - e eu não limito, nem ouso fazer pouco, dessa capacidade do ser humano de que, malgrado e apesar de tudo, é possível que a existência de cada comunidade e de cada indivíduo continue a fazer fé na possibilidade de existência mais humana e menos cruel de a que lhes é reservada pelo dia-a-dia.
          O ser humano, pobre ou remediado - os ricos aqui não entram! -tem uma única fraqueza. Ele acredita em que, malgrado tudo conspire à sua volta pela permanência da mentira e da desonestidade, ele, que não tem sombra de opção, quer porque quer acreditar em que desta vez eles estejam a dizer verdade, e que o plano apresentado com fanfarras à população, vá funcionar. É o velho ritornello que o bondoso velhinho faz girar, enquanto por trás do sorriso em que se deseja crer, a população, seja ela pobre ou remediada, jovem ou velha, quer porque quer acreditar. Pois quem vive no inferno quem não há de desejar, ambicionar, chulear mesmo, pela eventual surpresa de mundo mais vivível, mais suportável, menos cruel e cruento, como aparenta ser? Por isso, os sonhos começam com a Santa Marta, uma favela menor e mais regrada, e, portanto, suscetível de ser a porta-estandarte desse desfile para os miseráveis.  Porque, gente do século XXI, não pense que agregar números confere esperança maior. 
        Como todo o candidato a viciado, ele precisa acreditar que, desta vez, tudo será diferente! 
         Na verdade, o mal continua a esperá-lo, só que atrás da esquina. Ele tem de caminhar por um tanto na bela calçada dos belos votos e dos melhores propósitos. Dona Esperança aí está, para dar-lhe as boas vindas...
          Mas o efeito deste abraço será curto, como são aqueles projetos envoltos em sonho, produzidos ou não. Porque a fórmula desses vigaristas e de suas estórias, de esperanças carregadas, apenas repete o velho truque, marcado sempre pela crueldade da vida hodierna, dura e madrasta! Não há melhor reclame do que esse, minha gente sofrida! Como imaginar algo pior de o que a existência presente, que se debate entre os Scylas e os Caribdes da mitologia, com a maldade do presente, e a louca, desvairada vontade de que tudo será diferente doravante!


( Fontes:  O Globo, Rede Globo )

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Trump x Kim Jong-un ?

                              

        As primeiras tentativas do Secretário da Defesa, James Mattis, e alguns outros militares americanos de alta hierarquia, de tentar controlar o Presidente Donald Trump quanto à confrontação com o déspota norte-coreano, obviamente não estão funcionando.
         Cresce - e de forma desproporcional - a ameaça para a Humanidade de um hiperdesastre termonuclear. E não vai por acaso o grifo ao termo, dada a recente resposta do ditador Kim Jong-un, com explosão de mini-bomba de hidrogênio no subsolo da península coreana.
         Dadas as características da personalidade e da psicologia do atual Presidente americano, tudo o que ora está acontecendo - e não carece dispor-se de diploma de psicólogo (para ficarmos apenas no lado light da questão subjetiva) ao  observar e analisar o comportamento dos dois chefes de estado para que cresça a inquietação de quem tente  prever as perspectivas dessa grave e estranha crise.
          Há vários elementos nesta crise político-militar do século XXI que gritam quanto à disfuncionalidade de seus respectivos protagonistas.
           O primitivismo não é só apanágio de Kim Jong-un, mas também do próprio presidente Trump. Ao invés de valer-se da considerável experiência de suas lideranças, tanto políticas quanto militares, em lidarem com esse tipo de desafio, Trump resolveu ignorar ou, na melhor das hipóteses, dar aos expertos na matéria um distante assento longe dele próprio, que, por limitações pessoais, seja psíquicas, seja psicológicas, não acha oportuno valer-se da considerável experiência que a liderança civil americana tem na matéria, através das décadas de lidar com o desafio nuclear, assim como tampouco daqueles agentes do Estado de que uma das principais razões da respectiva atividade estar em tratar com o jogo das ameaças, assim como da melhor maneira de controlá-las e/ou neutralizá-las.
           Tudo leva a crer que, por um conjunto de vaidade e de limitações psicológicas, ele parece acreditar que deva tratar o desafio (no sentido toynbeeano) de Kim Jong-un como se fosse um confronto normal entre chefes de governo. Talvez o seu maior erro na matéria seja ignorar (ou na prática dispensar) o aporte que os altos funcionários do Estado, incluindo especialistas na matéria quanto ao uso da arma nuclear, poderiam  trazer-lhe para que o próprio entendimento desse desafio cresça na medida em que ele Presidente pareça afastar-se da questão, quando na verdade ao cortar o presente imediatismo - e aí está uma vantagem enorme que ele Trump, sem dar-se conta, concedeu ao adversário, na medida em que o trata  em condições de igualdade, quando dispunha de todas as vantagens para ter mais perspectiva na matéria. Se dela ganhasse um certo afastamento - a presença como autoridade tutelar, que não teme valer-se de subordinados, de forma que, de uma distância hierárquica, e portanto reverencial, tenderia a  infundir maior respeito ao adversário, e disporia do benefício suplementar de ganhar algum afastamento da matéria, benefício esse de que seu adversário não poderá jamais valer-se.
                 Outro erro concomitante e garrafal de Trump está em descer na prática à arena e, dessarte, igualar-se a seu contendor. Na verdade, ao agir como fez no discurso na Assembléia Geral das Nações Unidas,  Trump tornou a própria posição ainda mais fraca, ao colocar-se não só no mesmo nível, mas, na verdade, em unilateralmente baixar o próprio nível, tanto no aspecto simbólico, quanto em dispensar opinião e parecer de os que construíram a própria trajetória nas forças armadas americanas com a base mais sofisticada que se possa atingir, seja através do poderio em si, seja pela teoria dos jogos, com o estudo em grau de sofisticação e apuro técnico que é o oposto do comportamento de Donald J. Trump. Tudo isso, por nescidade e a decorrente vanglória, o atual presidente achou oportuno jogar literalmente pela janela. Dado o próprio caráter, Trump põe em risco a própria Humanidade pelo modo irresponsável não só com que trata a Kim Jong-un, mas também pelo lamentável exercício de despreparo para levar nos ombros cargo de tal importância.
                Sem sequer medir as consequências, ele se pôs - sem dar-se conta é lógico - no mesmo plano de seu suposto contendor.  É difícil, quase impossível, mensurar a magnitude do erro, não só diplomático, mas também político, além de cognitivo - i.e., dispor de tal arsenal de experiência, conhecimento e técnica, e não utilizá-lo! 
                    Nem os Estados Unidos, nem o Ocidente, nem o mundo civilizado ou não, merecem ficar entregues a personalidade que manifestamente não está à altura do cargo que o colégio eleitoral americano lhe outorgou na última eleição.           


( Fontes:  The New York Times; A Study of History, de Arnold Toynbee )

Colcha de Retalhos E 36

                              

Maia acusa governo


        Nas movimentações de bancadas - que muita vez pouco têm a ver com a realidade política - o Presidente da Câmara acusa PMDB e Governo de uma "facada nas costas" do DEM,forçando o presidente Temer a assumir as gestões para apaziguar a base.
        As declarações de Rodrigo Maia  foram feitas no momento mais delicado para Temer, em que o Presidente carece de todo o apoio para barrar a segunda denúncia de Rodrigo Janot contra ele.
        Embora sobrevoe a cena algum artificialismo, Temer precisa de apoio para barrar esta segunda denúncia.
        Nesse artificialismo que comanda as migrações políticas, o PMDB tem assediado parlamentares do PSB que negociavam transferência para o DEM.
        

A Segunda Denúncia e o muro das Lamentações

    
        A nova Denúncia de Janot, consoante Vera Magalhães,  terá na Câmara terreno fértil para chantagens, recados e barganhas. Mas a articulista não prevê dificuldades maiores para lograr o arquivamento de o que Temer teve pela primeira vez.
           De qualquer forma, segundo a velha raposa Magalhães Pinto, previsão em votações será sempre arriscada.
           Talvez muitos contem com o cansaço da repetição das acusações, sem que a situação haja realmente mudado.


Inflação abaixo da meta            


            Ora, vejam só. No país da inflação endêmica e da perpétua correção monetária, o Banco Central  considera que a inflação esteja tão baixa que será necessário adotar-se política de juros estimulativos, ou seja, trazer a inflação de volta.
              Será que não é possível viver sem inflação? Será que é indispensável a todo fim de ano, mandar uma circular para os clientes repetindo o suposto aumento do custo de vida, que apesar de inexistente, estaria aí para bancar a velha justificativa do aumento das despesas e - isso em geral é omitido nas comunicações de rotina - que torna indispensável sapecar mais um incremento nas cobranças? Será que os cobradores da vez não se dão conta de que falta chão de verdade para justificar-lhes a ritual ganância, que anos e anos, ou de inflação, ou não, sempre estarão ali para que se relance a velha cobiça que encara mudança de ano, como o "novo" e sovado pretexto de ganhar mais do consumidor, seja ele quem for e não importa que motivo ?



( Fontes: O Estado de S. Paulo,  O Globo )

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Golpe Militar ?

                                    

       O assunto parece fora do tempo. Afinal, o regime militar - que teve o mesmo tempo aproximado do fascismo de Mussolini na Itália - de meados da década de vinte até a derrocada final em 1944 - perdurou de 1º de abril de 1964 até o fim do governo Figueiredo.
       O Brasil de hoje terá geração que viveu nesse período sombrio, de cor cinzenta, e de falta de liberdade. A famosa revolução me apanhou em Paris, onde estava lotado como Secretário de Embaixada. Já me referi a vários episódios ligados à chamada 'Gloriosa', inclusive,mais tarde, a estada de JK em Paris, quando tive a honra de voltar a vê-lo e até de ciceroneá-lo pelo Bois de Boulogne e o Jardin de l'Acclimatation.
        Mas são apenas reflexos de uma época sobre o cinzento, com as cassações, as perseguições y otras cositas más que fazem parte de um longo vintênio com muita ordem unida, repressão, tortura e morte.
        Como assinala o Estadão, a Comissão de Direitos Humanos do Senado convocou, por iniciativa do Senador Randolfe Rodrigues (Rede - AP) o ministro da Defesa, Raul Jungmann, para prestar esclarecimentos sobre as declarações do secretário de Economia e Finanças do Exército, general Antonio Hamilton Mourão, sobre uma suposta intervenção militar no País.
         Posteriormente, a convocação foi transformada em convite, por sugestão do senador Sergio Petecão (PSD-AC. "Conheço Jungmann já há muito tempo e tenho certeza que ele virá", disse o Senador Paulo Paim (PT-RS), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos.
          Em entrevista ao jornalista Pedro Bial, da TV Globo, o comandante do Exército brasileiro, General Eduardo Villas-Bôas, minimizou as declarações de Mourão e disse que ele não será punido, sob o argumento de que é necessário contextualizar a fala dele, que se deu em ambiente fechado, após ter sido provocado (sic).  "Ele (Mourão) não fala pelo alto-comando,quem fala pelo alto-comando e pelo Exército sou eu", afirmou Villas Bôas. (...) Na entrevista a Bial, Villas Bôas disse que "ditadura nunca é melhor" e que é preciso entender que o regime militar (1964-1985) ocorreu em um momento com a Guerra Fria e polarização ideológica.  Hoje, segundo ele, o País tem instituições amadurecidas e um sistema de peso e contrapeso que dispensa a sociedade de ser tutelada.
         Ainda sobre Mourão, Villas Bôas disse que ele é "um grande soldado, uma figura fantástica, um gauchão."


( Fonte:  O Estado de S. Paulo )

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ordem pública e confronto de bandidos

                        
        Já me havia surpreendido a postura apática do porta-voz da Polícia Militar (PM) na Rocinha. O surrealismo esteve muito presente nessa entrevista do major Ivan Blaz.  Questionado acerca da inação da PM - mesmo dispondo de informações dando conta da iminência da invasão da Rocinha por um grupo de traficantes  - o dito Major da PM declarou que a polícia não agiu com mais força (para acabar com o confronto) porque uma intervenção "poderia expor a população a risco ainda maior".
         De o que se tratou e que a PM ignorou foi a invasão na Rocinha de um bando de cerca 50 traficantes ligados a Antônio Francisco Bonfim Lopes, o "Nem", ex-chefe do tráfico de drogas na Rocinha, preso hoje na Penitenciária  Federal de Porto Velho. Esse bando - que seguira em direção à maior favela do país para retomar-lhe o controle da venda de drogas no local - que hoje está em mãos de  Rogério 157 (Rogério Avelino da Silva), que é o antigo lugar-tenente de Nem.
         A batalha a céu aberto - que deixou um morto e três feridos- causou pânico geral em moradores, pedestres e motoristas, que circulavam pela Gávea, e por São Conrado, bairros divididos pela Rocinha, durante mais de seis horas! Ruas e túneis foram fechados.
         A PM se omitiu completamente de seus deveres elementares. Para frisar a extensão da crise de autoridade no Rio de Janeiro, há uma anti-efeméride a assinalar esse "evento".  Diante de um poder que se omite, não surpreende que os bandidos tenham ignorado solenemente tanto a UPP, quanto a circunstância de que ela completava naquela data cinco anos de implantação (20 de setembro de 2012). Isso diz muito da completa desmoralização das UPPs como instrumentos de controle nas favelas. A ideia do ex-governador Sérgio Cabral, hoje trancafiado na cadeia, está morta, e tal não pode ser melhor símbolo do sistema inaugurado pelo Secretário Beltrame que já partiu faz muito, na mais clara admissão do fracasso do controle da bandidagem no Rio, iniciado com as fanfarras do morro do Alemão, mas pontuado de forma premonitória com o bando de cerca de trezentos meliantes que naquele dia de hasteamento de bandeira e de festejos mil  saiu do morro e fugiu pela estrada de terra rumo à cidade baixa, sem que lhe fosse oposta a menor ação seja de repressão, contenção ou detenção. Para bom entendedor aquela debandada geral do crime - em carros puxados a cavalos ou burros, e todo o tipo de movente que imaginar-se possa escrevia já u'a mensagem que a mor parte dos assistentes da liberação do Alemão não entendeu - já pressagiava o que viria a ocorrer, seja a reviravolta em favor do statu quo, vale dizer do crime, organizado ou não.
               Agora o Rio, sem verbas e o que é pior, com a sua principal corporação de combate ao crime acuada e desmoralizada - há uma obnóxia campanha dos criminosos para a eliminação física dos PMs, e o número de PMs mortos impressiona deveras. Estamos diante de macabra campanha física de eliminação dos PMs, e apesar de tudo, o número continua a crescer.  Com a partida de Beltrame, um honesto homem em uma administração em que paira ainda a sombra do mega-corrupto, já condenado pela Lava-Jato  a dezenas e dezenas de anos de prisão, que é o ex-governador Sérgio Cabral, e sob a insegura liderança do vice-governador Pezão,  a situação do Rio de Janeiro é precária em muitos campos, a ponto do roubo generalizado de cargas de caminhão, conivência de parte do comércio com esse novo "fornecedor", e as crescentes dúvidas e reticências da alternativa da presença militar.
                O Rio, a Cidade-Maravilhosa do passado, virou um enorme campo em que a carantonha do crime se mostra sanhuda e provocante, já que as UPPs que seriam os comandos avançados da lei nas favelas, se transformaram na prática como se fossem esqueletos de uma presença antes temida e organizadora do Estado, hoje sem verba para nada. A PM está retratada nas explicações dadas por seu porta-voz, na tentativa de explicar a vergonhosa omissão na defesa do cidadão e da gente do bem, forçada a refugiar-se como ratos sob a invasão da bandidagem, que age de acordo com a realidade do governo Pezão. Inação do Estado, abandono do cidadão, domínio do crime.
                   Trazer as gloriosas forças armadas para cá, segundo a bula do Ministro da Defesa, mas onde está o comando da autoridade civil ? Para resgatar uma pistola roubada, mega-operação é montada. Mas para impedir que dois bandos de traficantes, que não somam cem pessoas, nem PM, nem Exército estão disponíveis! Quantas milhares de pessoas eles ameaçaram com o seu tiroteio?  Que brutal desrespeito pelos direitos do cidadão, que obedece as leis e que ganha o sustento com o suor de seu rosto, e não com a venda de entorpecentes ?
               Será que ordem pública merece menos atenção que a posse de uma simples pistola?


( Fontes: O Estado de S. Paulo; Rede Globo )

Colcha de Retalhos E 35

                   
Cai o Distritão

       Depois de uma primeira recepção favorável,  o 'Distritão' não foi aprovado pela Câmara, ontem, 19  de setembro, à noite. Foram 238 votos contra e 205 a favor, em uma disputa renhida. Houve, com o passar das ses- sões, uma leitura mais negativa do Distritão,  que favorecia aos deputados mais conhecidos.


Lula é réu pela 7ª vez


        O juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal, aceitou denúncia do  Ministério Público Federal contra o ex-presidente Lula da Silva. O petista é acusado de corrupção passiva na 'venda' da MP 471, de 2009, que prorrogou incentivos fiscais para montadoras. Supostamente, Lula terá participado da ¨venda¨ da medida provisória 471,  que prorrogou os aludidos incentivos fiscais  para montadoras instaladas  nas regiões  Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
             O caso foi revelado pelo Estado em 2015 e investigado na Operação Zelotes.
         Assinale-se que Lula é réu também em outros cinco processos, sendo três na Lava-Jato, um na Zelotes e o outro decorrente da Operação Janus.
         A lista de processos não para aí. Em um sétimo processo, no caso do tríplex do Guarujá,  o ex-presidente Lula foi condenado a nove anos e seis meses de prisão pelo juiz Sérgio Moro.

  
Terremoto no México


         Mais um terremoto ocorre no México - que, aliás, é um país muito marcado por  tremores sísmicos. Desta feita, o abalo foi de 7,1 graus na escala Richter.  O sismo de ontem, que aconteceu por volta do meio-dia, matou cerca de 134 pessoas, sendo 54 delas no estado de Morelos. Por sua vez, em Puebla - cidade próxima da capital - 26 pessoas morreram.
            Já na capital, Ciudad de México, 30 pessoas faleceram. A hora do sismo - cerca de meio-dia - contribui para aumentar o número de mortos em casas e edifícios. Dada a violência desse terremoto cerca de cinquenta prédios ruíram.
            Por sinistra coincidência, o abalo ocorreu  em dia no qual a capital fazia exercício antissísmico, num conjunto de ações feitas para lembrar o mega-terremoto que vitimou cerca de dez mil pessoas em 1985.
            O tremor sismico, e os abalos decorrentes, são fenômenos muito comuns no México, como o autor dessas linhas pode testemunhar.  Nos anos setenta, quando eu e minha família estávamos lotados na capital, os chamados sismos menores eram fenômenos comuns, e por isso não despertavam grande atenção ou maior cuidado.

            Havia então a impressão - de que a população mexicana soía testemunhar - de que os ditos choques podiam ser supostamente minimizados pela circunstância de que o solo de Ciudad de México dispunha de uma espécie de colchão que serviria para alegadamente amortecer os abalos: a capital fora construída em cima do antigo grande lago que ainda reponta em certas áreas metropolitanas. Esse lago, consoante se dizia, "amorteceria" os abalos sísmicos menores. Era essa cantiga que nos ajudava a dormir com a tranquilidade que o dia-a-dia trabalha para reforçar...

               De toda maneira, o meu núcleo familiar, composto de dois adultos e duas crianças, afrontou tais vicissitudes e chegou indene à data de nossa partida para outras paragens.                

                De certo modo, tivemos muita sorte. Na década seguinte, em 1985, cerca de dez mil pessoas morreram por causa de um terremoto na capital da República mexicana.



( Fontes:  O Estado de S. Paulo, O Globo )

Trump na ONU

                              
      O discurso do presidente Trump nas Nações Unidas se caracteriza por dois tipos de reação: os que preveem o que será dito, e tomam a iniciativa de ausentar-se do auditório - como se deu com as missões da Coréia do Norte e do Irã; e os que preferem receber-lhe as polêmicas posições como incitamentos ao diálogo, como o presidente Macron, da França, no que tange ao acordo de Paris sobre o clima. Atitude similar foi tomada pelo secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres. Terá,  outrossim, contribuído para a contida reação do líder Xi Jinping,  da RPC, um telefonema de Trump para o presidente chinês na véspera, como observa o New York Times.
       Como seria de esperar-se - dadas as suas ligações com o Presidente Vladimir Putin - que  Donald Trump tornaria quase um espectro em termos de discrição a sua menção a intervenção da Federação Russa na Ucrânia e, especialmente, a anexação da Criméia,  que foi inclusive objeto de Recomendação da Assembléia Geral das Nações Unidas, eis que estava fora dos limites levar a questão ao Conselho de Segurança, onde a Rússia, com o poder de veto, inviabilizaria qualquer avanço na matéria. É uma pecha para o Itamaraty de Dilma Rousseff, que, por ordem da petista - seja por ideologia, ou ignorância - mandou instruir a delegação do Brasil a apelar para a abstenção nesse grave desrespeito para tratar daquela  brutal intervenção no que tange a um país soberano, membro das Nações Unidas.
          Dentre a quebrada cristaleria internacional pelo Presidente Trump, assinale-se a sua postura positiva no que tange à tentativa de isolamento do Qatar, que está sendo investido por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita e outros países não-exatamente democráticos. Fazendo meia-volta volver em radicais acusações anteriores, Trump e o seu ramo de oliveira para o Emir do Qatar, o xeque Tamim bin Hamad al-Thani, foi por este último muito bem recebido: "temos um problema com nossos vizinhos, e a sua intervenção ajudará bastante, e estou certo que encontraremos uma solução para esse problema."

          Por fim, o discurso do Brasil foi pronunciado pelo presidente Michel Temer. A diplomacia do Itamaraty se tem agarrado com pluri-decenal coerência à circunstância de uma praxe que data dos tempos da ântiga ONU, sediada em Lake Success, antes que fosse elevada a atual sede das Nações Unidas, de que participou o gênio de Oscar Niemeyer e o pincel de Portinari.  O mundo então lá representado era muito menor - consequência, entre outras, da permanência do colonialismo - e o Brasil, naquela época pré-fundação das Nações Unidas foi considerado favorito para um lugar no Conselho de Segurança, como membro permanente. A morte de F.D. Roosevelt foi o golpe inesperado, que nos alijou da disputa.
         O ponto que creio oportuno salientar é que semelha altamente discutível que o Brasil se apegue a ocas tradições - como a de abrir o debate  na AGNU de maneira formal, e sem maior repercussão na imprensa internacional. Se quisermos influenciar o debate internacional, não basta, a meu juízo, valermo-nos dessa primazia protocolar. Para que os discursos sejam ouvidos, é preciso que levantem questões que justifiquem tal atenção. Como não podemos concorrer - pelo menos por ora - com a Superpotência, não seria derrotismo se nos conscientizássemos que há duas opções se desejamos aferrar-nos a tal privilégio protocolar: ou levantamos questões que realmente mereçam a atenção desse simpósio mundial, ou aceitemos a realidade post-discurso: a total falta de referência pela mídia. Se sentíamos no     passado desconforto diante de visões provincianas ou distorcidas da realidade mundial, não creio que  a saída esteja em apegar-nos a privilégio que é rotineiramente esvaziado a cada edição da solenidade.



(Fontes: The New York Times, Emb. Miguel Álvaro Ozório de Almeida)