segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Entrevista de Obama


                                  
         Nesta feita, o Presidente Barack Obama dá a impressão de alguém  que, de alguma maneira, não se resigna a ficar de lado. Terá dificuldade em sentir que o centro das atrações principie a transferir-se do salão presidencial da Casa Branca, o célebre Oval Office?

         É a impressão que se colhe de sua entrevista, hoje divulgada pelo New York Times.

          A sua assertiva de que a política nos Estados Unidos se tornou mais mesquinha, mais raivosa do que quando ele assumiu a presidência, é tão óbvia que quase dispensa maiores explicações.  

          Para ele, os pré-candidatos republicanos - e pensa notadamente em Donald Trump e o Senador Ted Cruz - oferecem aos eleitores expressão de frustração e raiva, de que os eleitores ao cabo de tudo irão afastar-se.

          Nesse sentido, a diferença entre o seu rival em 2008 - John McCain e os pré-candidatos do GOP em 2016 - é muito grande. "Se  McCain era um conservador, mas ele estava no centro da corrente principal tanto do Partido Republicano, quanto igualmente dentro do comum diálogo político".

          Agora, segundo frisou o Presidente Obama, os votantes terão de julgar "o grau em que se moveu a retórica e a visão republicana, não só na direção da direita, mas na verdade para lugar que é irreconhecível."

           Nesse contexto, Obama expressou a esperança que os votantes tanto em Iowa, quanto em disputas ulteriores "possam redirigir-se para o centro".

           O  Presidente também falou longamente sobre a disputa no Partido Democrata entre Hillary Clinton e o Senador Bernie Sanders. Seria, no entanto, preferível que como o Presidente que conseguiu ganhar a nomination após longa luta com leal adversária que, no final, contra o ponto de vista de seu marido e ex-Presidente Clinton, reconheceu a derrota (que se prefigurava, mas não era certa),  Obama não tivesse optado por fazer  descrição dos dois protagonistas no campo democrático, que qualquer observador  com módico entendimento, não poderá não aperceber-se de quem é o seu real favorito.

           Barack chega a comparar Sanders com ele próprio, e à medida que ele se embrenha em tal matagal, lhe fica mais difícil dissimular para onde pendem as próprias simpatias: "Bernie entrou com o luxo de ser um completo  'long shot' (tentativa arriscada em que há pequena possibilidade de êxito) e por isso pode dizer francamente o que pensa".  Como se tal não bastasse acrescentou que Mr Sanders "tem a virtude de dizer exatamente o que ele acredita, e grande autenticidade, grande paixão, e não tem medo."

               Não se pode afirmar que o elogio à Sra. Clinton deixe a desejar, embora na sua construção há algumas frestas em se possa discernir para onde pendem as simpatias presidenciais.

               Nas palavras de Obama a Sra. Clinton entrou na disputa de 2016 com o "privilégio e o fardo" de estar na dianteira. "A sua longa experiência no Governo, como senadora e Secretária de Estado, é ao mesmo tempo força e fraqueza."  Acrescentou que sendo 'maldosamente esperta' acerca da política "pode fazê-la mais cautelosa e a sua campanha mais prosa do que poesia."

                 Talvez consciente de que tenha carregado um tanto nas tintas mais sombrias, ele tratou de dizer que tais experiências significam "que ela pode governar e começar daqui (o salão presidencial) como o Dia Um, mais experimentada do que qualquer não-vice presidente tenha sido entre os aspirantes a este cargo."

                  Concluíu Obama com um hino de doces memórias de seu tempo em Iowa, a que chamou "o período político mais satisfatório" na sua carreira, especialmente por causa dos jovens ajudantes de campanha que tanto se esforçaram em prol de sua causa.

 

( Fonte:  The New York Times )

O Zica e as Olimpíadas


                                          

         O virus zika, que é transmitido por esse mega pequeno mosquito, o Aedes Aegypti, ressalta, na verdade, a sofisticação extrema do Aedes, pois não é  comum que um inseto seja assim tão polivalente quanto o Aedes.

          Isso lhe ressalta o âmbito de ataque - além da dengue, transmite igualmente o virus zika, febre amarela e chikungunya, o que lhe aumenta a respectiva periculosidade. Voa de dia, não faz barulho audível na hora da picada, e os ovos da fêmea, tem menos de um cm e é estriado de branco e preto. Os ovos são extremamente resistentes, durando por várias estações até encontrarem a situação propícia para desenvolver os mosquitos.

          A par disso, o Comitê Olímpico Britânico (lembrem-se que foi em Londres a última Olimpíada, em 2012) incluíu no treinamento de seus atletas orientações para evitar picadas de mosquito, além de disponibilizar  informações sobre a doença. O surto de zika, de resto, está sendo monitorado de perto pelos dirigentes britânicos.

           Sublinhando essa preocupação,  porta-voz do Comitê assinalou que o órgão está consultando regularmente a London School of Tropical Medicine.

           Disse outrossim o porta-voz que "o comitê vai monitorar a situação nos próximos meses". Manteremos contato tanto  com a Rio  2016, quanto com o Comitê Olímpico Internaciona (COI), o que já é normal numa competição desse porte.

           Recado para o Senhor Prefeito Eduardo Paes.

            Se o senhor tem juízo, deve afastar do visor qualquer idéia de lidar com esse grande problema (apesar de originário de um mosquitinho) na maneira habitual das autoridades, quando há ameaças sanitárias graves que possam virar o caldo dos festejos olímpicos.

            Ainda que não seja provável que venham atletas grávidas para disputar o magno certamen, penso que deveria ter muito presente de nunca recorrer ao tokenismo para demonstrar o forte interesse da autoridade que hospeda essa grande ocasião. Mesmo que não lhe conheçam a denominação, é isso em geral que as autoridades de Pindorama fazem por ocasião de um certame como a Olimpíada. Como nós nunca hospedamos essa enorme competição - que é de resto a maior de todas, dando ao país que a organize a oportunidade de assinalar-se no esporte internacional - não podemos ficar em demonstrações token (pequenas e localizadas) se pretendemos que não ocorra nenhum desastre na Olimpíada brasileira do Rio de Janeiro.

              Ora, o que tenho visto nos jornais são atividades muito diminutas - como a foto por exemplo de um agente que "atua contra foco de mosquito no Complexo do Alemão".

               A coisa tem que ser intensa e abrangente, e por isso não limitar-se a ataques pro-forma contra o mosquitinho, às vésperas do mega-certamen. Em outras palavras, tem de começar desde já, ser sério e abrangente (envolvendo inclusive a própria população das áreas próximas aos sítios da competição).

               Por fim, não é sensato - seja pelo surto do zika, seja por outras atitudes das autoridades, não mais cumprindo o que tinham prometido sobre a despoluição da baía de Guanabara e, ao que parece, até da Lagoa Rodrigo de Freitas - fazer cara de pau e ir em frente com ações para inglês ver que, na verdade, nada resolvem. O combate ao aedes aegypti não pode ser deixado para a última hora, o que seria, além de faltar com a palavra, dar prova de incompetência burra, porque não se resolve um problema desses no gogó.             

 

( Fonte:  O Globo )

domingo, 24 de janeiro de 2016

Colcha de Retalhos D 4


                             

Hillary e a imprensa
 

        Não sei se os comentaristas da imprensa americana se deleitam com eventuais dificuldades ou pontos negativos da pré-candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, o fato é que a ênfase da imprensa se apega aos possíveis negativos da campanha da ex-secretária de Estado.

        Depois da prá-lá de estranha discussão sobre a sua preferência, quando chefe do Departamento de Estado, na utilização de um servidor particular para os respectivos e-mails - o que lhe demandou enormidade de tempo só para tirar essa falsa questão do visor da campanha - vejo agora a campanha da ex-Senadora por New York infestada por duas questões: (a) ameaça colocada pelo Senador Bernie Sanders, do Vermont, que teria boa vantagem sobre ela nas primárias de New Hampshire; e (b) a atenção que dispensam os correspondentes ao seu vestuário. O próprio New York Times acaba de compilar um verdadeiro ensaio sobre o seu guarda-roupa. A conclusão quanto aos trajes é que desta feita, por escolher um tão comum, ela terá talvez conseguido calar a questão...

         Hillary tem desafios importantes pela frente e se há, pelo visto, muita gente torcendo contra, resta determinar qual será a idiosincrasia que a tem colocado em dificuldade...

         O seu maior adversário - o Senador Sanders - apareceu até há pouco, como uma surpresa, eis que tem pendores socialistas (o que não é exatamente um trunfo na terra de tio Sam), além de fruir da discutível vantagem do under-dog (o que, em tradução livre, seria o candidato inferiorizado, com menos chance de vencer). E não obstante, Sanders está cotado para vencer nas primárias de New Hampshire e, quem sabe, nos caucus de Iowa.

          A pobre Hillary, que saíu favorita,  se há de perguntar se existe alguma maldição nos EUA quanto à candidata-mulher.  Porque em 2008, era também favorecida e não é que nesses mesmos caucus de Iowa surge um quase desconhecido, um tal de Barack Obama, que lá inicia longa e exitosa caminhada pela nomination do Partido Democrata?

 
 A Carta dos Advogados         


         Tratei da questão no blog Delenda Moro?, sendo o manifesto assinado por 104 causídicos, e produzido pelo advogado de Marcelo Odebrecht, Nabor Bulhões. Este acusa a Lava-Jato de usar métodos piores que os da ditadura e compara a investigação à Inquisição.

          A estratégia para tentar abalar a Lava-Jato teve também a participação, segundo o furo da Folha de S. Paulo, de Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, de Mônica, mulher do executivo, e de advogados da empresa. A ideia de criticar os métodos da Lava-Jato foi acertada entre Nabor e Emílio em Salvador, onde o patriarca dos Odebrecht mora.

          A reunião em tela ocorreu logo depois Lewandowski negar pedido de liberdade para Marcelo durante plantão do Supremo, no dia oito de janeiro de 2016. O texto foi redigido no escritório de Bulhões em Brasília, e submetido à cúpula da Odebrecht para aprovação.

          Emílio Odebrecht, o pai do empresário, fez mais do que cobrar reação mais dura dos advogados.

          Nesse sentido, foi ele quem ligou para advogados que estavam relutantes em assinar o documento quando surgiu a versão de que o texto fora escrito por Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende políticos como o Senador Édison Lobão (PMDB-MA) na Lava-Jato.

          A relutância se devia ao fato de muitos advogados acharem que o documento era peça publicitária de Kakay.

           O supracitado advogado, Almeida Castro, confirmou que não foi ele que escreveu o manifesto, mas afirma que assinaria de novo mesmo sabendo que a Odebrecht estava por trás das críticas. Dentre as questões com que  não concorda, está em falar em ditadura, quando estamos num Estado democrático. Para ele, o essencial era levantar a discussão sobre "os limites da Justiça" e isso ocorreu. Não tenho a pretensão de mudar a opinião pública ou publicada. Mas até a Dilma se manifestou sobre a Lava-Jato após a carta."

 
A Hora da Verdade

 
               Na sua reportagem de capa, a VEJA desta semana, nº 4 de 27 de janeiro de 2016 - A Hora da Verdade - se ocupa da questão do Triplex de Lula no Guarujá, de que transcrevo : "VEJA teve acesso ao conjunto de documentos que embasam a denúncia a ser oferecida contra Lula pelo MP. Escondidas em meio a formalismos e tecnicalidades, emergem as provas daquilo que o Brasil inteiro já desconfiava:  Lula é o verdadeiro dono do triplex no Guarujá. As visitas do ex-presidente e da ex-primeira-dama ao imóvel estão registradas em depoimentos prestados por funcionários da OAS, moradores e funcionários do Edifício Solaris. A porteira Letícia Rodrigues disse ter visto  o ex-presidente e sua esposa no prédio e que a empreiteira providenciava 'arranjos florais' para receber os ilustres proprietários. (...) Avaliado em 2,5 milhões de reais, o imóvel tem três quartos, suite,cinco banheiros, dependência de empregada, sala de estar, sala de TV, varanda gourmet e área de festas com sauna e piscina na cobertura.  O triplex passou por uma ampla reforma, que custou cerca de 800000 reais e incluíu a troca de revestimentos, a modificação de paredes, a instalação de armários e até de um elevador privativo, que custou à OAS quase 70000 reais. A reforma completa, executada pela construtora Tallento, como revelou VEJA em outubro passado, foi paga pela OAS em três parcelas. Foram cerca de 14000 reais gastos só  na pintura das paredes, quase 9000 reais no encanamento da piscina e outros 30000 na instalação de uma nova  escada entre o 1° e 2° andares do triplex.  A equipe da reforma ainda renovou o deque de madeira na área da piscina, os acabamentos em gesso, os balcões de granito, colocou novo porcelanato  na sauna e instalou armários que custaram 132000 reais. Durante a reforma, coube a Marisa Letícia  acompanhar as modificações realizadas no imóvel e o cronograma de execução da obra.

       "O objetivo dos Lula da Silva era terminar as mudanças a tempo de passar o Natal de 2014 no imóvel. O plano só não foi adiante porque o jornal O Globo publicou trechos da investigação do Ministério Público sobre a Bancoop revelando a existência do triplex.

       "Marisa Letícia, esposa de Lula, chegou a frequentar o espaço comum do edifício, indagando sobre o salão de festas, piscina e áreas comuns", revelou o zelador do prédio, Afonso Pinheiro, ressaltando que também foi orientado pela OAS a manter tudo isso em segredo. Responsável pelos trabalhos, o promotor Cássio Conserino ouviu quase trinta testemunhas. A VEJA ele disse que a tentativa de ocultar a propriedade do apartamento terá consequências judiciais para o casal Lula da Silva. "As investigações estão avançadas e não há mais dúvida de que o único caminho é a denúncia", disse o promotor (...). Nas próximas semanas, Lula e Marisa, juntamente com o empreiteiro Léo Pinheiro, serão chamados a depor como investigados pelo Ministério Público." Note-se, outrossim, que "o promotor Cássio Conserino ouviu também depoimentos de testemunhas relacionadas a outra propriedade, um sítio em Atibaia, no interior de São Paulo, usado frequentemente pelos Lula da Silva e, a exemplo do tríplex  do Guarujá, reformado com dinheiro da OAS, sob a orientação direta do casal. O sítio está registrado no cartório de imóveis de Atibaia em nome de dois sócios de um dos filhos de Lula. Conserino suspeita fortemente que o sítio se encaixe nos mesmos capítulos que punem a ocultação de patrimônio. Quando deixou o governo, no fim de 2010, Lula divulgou que levaria parte da mudança presidencial para o "seu" sítio, um recanto de 150000 metros quadrados em Atibaia. Conforme VEJA revelou, o recanto presidencial passou por uma reforma completa paga pela OAS. A propriedade mudou de padrão. As antigas moradias foram modernizadas e ampliadas.No curso das investigações, o Ministério Público interrogou o arquiteto Igenes Irigaray, que comandou parte da reforma do sítio e já prestou serviços a José Carlos Bumlai, outro amigão de Lula preso na Lava-Jato." (...) Outro truque clássico de Lula é deixar os companheiros feridos no campo de batalha e seguir em frente como se não tivesse nada com a refrega. Na semana passada, curiosamente a mesma em que exaltou suas próprias virtudes de santo do pau oco, Lula defendeu a libertação imediata  de seu ex-braço direito, José Dirceu, e do tesoureiro Vaccari.  Ambos estão em prisão preventiva em Curitiba. Qual seria a razão para essa súbita demonstração de solidariedade por parte do ex-presidente?"

 

( Fontes: Folha de S. Paulo, O Globo, VEJA, The New York Times )

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Festa de Baltazar


                                        

         Rembrandt, o grande pintor holandês, nos deixou um quadro famoso, em que a sua arte descreve o momento em que o Rei da Babilônia, Belsazar, ou Baltazar, toma conhecimento por mensagem na parede do próprio palácio, do seu próximo fim.

         Este episódio na Babilônia, que julgavam impregnável, está na Bíblia e é um conto sobre o poder, a respectiva hubris, a subitaneidade e o aparente capricho da sorte, que desemboca na laceração da perda, a qual leva ao castigo, que é irremediável.

        A cercania do poder e dos fâmulos, cria atmosfera que é cúmplice da soberba. Tudo isso serve para realçar o golpe da revelação, que deixa o sujeito da ação divina (que no caso é um rei, mas que poderia ser rainha) sem palavras, fulminado pela intervenção do inesperado (no caso, a revelação divina).

         A MP da Leniência  

         O  Procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, integrante da Operação Lava-Jato, disse identificar "o dedo do governo" na proteção a corruptos.  Em entrevista, ele citou a edição da medida provisória que permite ao governo negociar acordos de leniência com empresas acusadas de corrupção e o projeto que autorizou a repatriação de recursos ilegais.  O procurador também contestou a crítica da presidente Dilma Rousseff de que há "pontos fora da curva" na Lava-Jato, como vazamentos seletivos e interrogatórios com base no "diz que me diz". "Há pontos fora da curva porque no Brasil não se pune", rebateu o procurador.

 

           Entrementes, a  Presidente...

 

             Dois dias depois de conversar com o vice (...) sobre convidar a oposição para dialogar, Dilma voltou a provocar os adversários e os chamou de "golpistas". Dilma esteve ontem na reunião da Executiva do PDT. (...) No discurso, citou o presidente Getúlio Vargas para afirmar que a tentativa de golpe (contra) ele foi um 'prenúncio' da situação atual do país, com o processo de impeachment da petista aberto na Câmara dos Deputados.

             (Por vezes se tem de concordar com observações de que a Presidenta fala a esmo, e faz conexões onde elas não existem.)

              Não faz nenhum sentido dizer: "O impeachment que tentaram impor ao Getúlio é um prenúncio do que acontece hoje no Brasil."

              Essa senhora exagera e muito ao comparar-se a Getúlio Vargas. O  "impeachment que tentaram impor ao Getulio" era um golpe militar, e foi por negar-se a tal exercício, que o Presidente Getúlio optou por suicidar-se.

              É aconselhável que essa senhora que ultimamente tem falado muito, procure informar-se melhor acerca da História do Brasil. Se lesse os três volumes de Lira Neto sobre "Getúlio", teria oportunidade de inteirar-se da existência de alguém que foi um de nossos maiores presidentes,  e que, entre outros aspectos, a todos impressionava pelo seu dom de falar ao povo, sem nunca confundir-se.

 

( Fontes:  O Globo, Getúlio, de Lira Neto, Cia. das Letras, 3 vols.)

O petróleo e a economia russa


                                 
       Seria previsível que o ambicioso Vladimir V. Putin, com planos para recuperar o antigo status da União Soviética - e não mais ouvir de líderes estrangeiros, como Barack H. Obama, que a Rússia é um poder regional - fosse topar com dificuldades, eis que os grandiosos projetos da Federação Russa estão indo bastante além dos meios disponíveis.

       Desde os tempos da União Soviética que o petróleo representa a mola mestra na sua economia. Quando o preço do ouro negro despencou nos anos oitenta do século passado, e permaneceu nesse patamar,  tal constituíu um dos principais fatores para a dissolução da URSS, que surpreendeu o mundo e se completou em 1° de janeiro de  1992.

       As virtuais monoculturas - países que se sustentam em grande parte por um só produto ou commodity - tendem a sofrer séria crise se desaba o valor de mercado da referida mercadoria.

       É o que está acontecendo com a Rússia. Tal se deve precipuamente à circunstância de que o orçamento federal do Kremlin é alimentado em 50% pela exportação de petróleo e gás.

       Depender de uma fonte externa em tal montante representa limitação enorme às possibilidades da respectiva economia. O preço do petróleo - que é a commodity que mais recursos movimenta na economia mundial - está submetido a verdadeira gangorra entre a planície das baixas cotações e as alturas estonteantes dos preços do barril na barra dos três dígitos.

         Agora deparamos uma guerra de preços em que a Arábia Saudita - a maior produtora mundial  - através da respectiva produção maciça almeja tirar do mercado - ou aparar-lhe as asas - concorrentes com produtos elaborados com sucedâneos do petróleo (xisto, v.g.)[1].  Sofrem, por conseguinte, países cuja produção é relevante para as respectivas economias, mas que não tem magnitude para influenciar o mercado, como acontece com a monarquia saudita. Este é problema típico das monoculturas - e nós podemos dizer algo a respeito, visto que, no passado, nossa economia dependeu deste tipo de regime econômico (pau-brasil, açúcar, ouro e café).

          Compreende-se, assim, os problemas de Nicolás Maduro, dado o sufocante predomínio do petróleo na economia venezuelana, os recursos decrescentes, a hiperinflação, y otras cositas más da incompetência dos regimes sindicalistas como o chavismo. Também a Rússia de hoje lembra a fábula da formiga - que poupava - e da cigarra - que cantava e gastava...

          A ambição de gospodin Vladimir Vladimirovich Putin - e a respectiva arrogância - parecia não ter limites. Além de desestabilizar a Ucrânia - com longa guerra de usura, através da coordenação de antigas veleidades secessionistas na parte oriental desse importante país (a que o Ocidente e a União Européia deveriam tratar com mais respeito, dado o seu significado estratégico), explosão essa que foi coordenada por Putin, logo após a derrubada do corrupto presidente filo-russo Viktor Yanukovich (2013-princípio 2014), pela sublevação da Praça Maidan, em Kiev.

           Depois de assenhorear-se da Criméia, em operação que seria elogiada pelo seu admirado modelo, o Duce Benito Mussolini, se vivo estivesse, Putin partiu para ulteriores desestabilizações. Além das sanções que lhe foram impostas pela ilegal anexação da península da Criméia, o Senhor do Kremlin seria indiretamente responsabilizado pela derrubada por míssil de fabricação russa de voo MH17 da Malaysian Airlines com 298 pessoas a bordo.

           Ultimamente, Putin interveio na interminável guerra civil na Síria. Essa presença se realiza sobretudo por ataques de caças russos contra os rebeldes que se defrontam com a ditadura de Bashar al-Assad, mas tem igualmente colaborado em incursões contra o Estado Islâmico, que se apoderou de terras da Síria. Além de bancar de certa forma o seu protegido Assad, Putin constrói outra base militar russa no litoral sírio do Mediterrâneo oriental, e nada disso (intervenção aérea, apoio a Bashar, construção de bases) é de graça.

           É de notar-se que tais cometimentos financeiros - na política de grandeza da potência russa - foram assumidos em dezembro de 2015, quando o barril de petróleo valia US$ 50.

           Em função do déficit orçamentário - afinal os recursos são finitos, mas os dispêndios pelo visto não o são. Compreende-se que, nesse quadro financeiro, a inflação ande pelos vinte por cento, ou talvez mais.

           Entende-se, igualmente, que as aventuras no estrangeiro - mesmo aquele ominosamente descrito pelo governo russo como o estrangeiro-próximo, custam preciosos rublos (ou até mesmo dólares!) - sangrem o Tesouro do ambicioso Vladimir Putin. E tampouco se podem ignorar as despesas de prestígio, como os cinquenta bilhões de dólares gastos para realizar as Olimpíadas de Inverno em 2014, em Sochi, além da construção de estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2018 (também a ser sediada na Rússia).   

             Seria, decerto, benesse para Kiev, capital da Ucrânia, e para seu atribulado presidente, Petro Poroshenko, que os azares da bolsa petrolífera determinassem - junto com as sanções que ainda perduram - relativa carência nos fundos do Tesouro do Kremlin. Cessariam ou diminuiriam de forma sensível os recursos à disposição de gospodin Putin, que se veria, dessarte, cerceado nas próprias fumaças de poder, com que até o presente não pouco tem atazanado alguns de seus infelizes vizinhos.

 

( Fontes: The New York Times, The New York Review, George Soros )



[1] e portanto com custos de produção necessariamente mais elevados.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Zika e outras más notícias

  

        Se o virus zika põe o Brasil no centro das preocupações mundiais, como de forma algo melodramática uma nota editorial de O Globo tenta enfatizar, infelizmente não faltam motivos para o sensacionalismo.  

        Nesse sentido, a Organização Mundial de Saúde já sinalizou que o país está diante do risco de iminente expansão da epidemia, tendo em vista a multiplicação acelerada de vítimas e devido a outros fatores que possam estimular a proliferação  do Aedes Aegypti além-fronteiras brasileiras. Tampouco está excluído que esse vírus da microcefalia tenha outros viveiros na América Latina.

        A dengue foi clinicamente extinta no Brasil do Presidente Juscelino Kubitschek (final dos anos cinquenta), mas ela não tardaria em retornar, o que terá acontecido pelo norte amazônico, através da Venezuela, já nos anos sessenta.

        Depois desse retorno, lenta, gradual mas seguramente a dengue se espalharia do Oiapoque ao Chuí, e por toda parte se encontram pessoas que já contraíram a dengue por mais de uma vez.

        Que o Aedes Aegypti possa servir de vetor agora também ao virus zika é um desenvolvimento nada alentador. Porque o zika é um vírus bastante mais insidioso do que o da dengue, que, ao parecer, não deixa sequelas permanentes.

        Já o do zika, cuja crueldade - sobretudo por inabilitar uma vida nascente, condenando-a a uma condição de dependência extrema - V. a propósito o blog "Treze Notícias do mundo cão", de 11 de janeiro corrente -, e colocando a mãe com um bebê, cujo cérebro só o habilita para a dependência extrema.

          Os brasileiros conhecem da qualidade do ministério de Dilma Rousseff. O médico Marcelo Castro, a respeito, disse uma coisa certa: "Só temos um caminho para evitarmos uma geração de sequelados: é não deixar o mosquito nascer." Castro, no entanto, cometeu uma gafe: sugeriu às mulheres contrair zika antes de ficarem grávidas, de modo a estarem imunes durante a gestação'.

           Não é a primeira e nem será a última rata a respeito de epidemias ligadas ao Aedes Aegypti. Houve prefeito no Rio de Janeiro que diante de uma das habituais epidemias de dengue que tem assolado a Cidade Maravilhosa, depois de nada fazer para conter o fenômeno, lembrou-se apenas de dizer na tevê que o carioca deveria rezar para que esses mosquitos voassem para o mar. Só assim o problema estaria resolvido. E posso garantir que não fazia piada macabra, porque, atônito, ouvi o que Sua Excelência dizia, contrito, ao microfone...

           Os jornais estampam acerca da atual evolução dos casos no Brasil, e não deixa de ser inquietante: 2.975 em 26 de dezembro, em 20 de janeiro de 2016 já passaram para 3.893 casos.

            Ao cabo da gestação, a mãe tem nos braços um recém-nascido que ela bem saberá condenado a  vida cerceada por um cérebro diminuído drasticamente pelo vírus.

             Atualmente, o vírus circula em 21 estados (acham-se livres, pelo menos por enquanto, Acre, Amapá, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina e Sergipe, que não estão na lista). Isso não quer dizer que nesses seis não haja incidência. Só que até agora não há sinalização de contágio.

             Não gostaria de terminar esse artigo, sem acrescentar o que segue. Na tevê há um filmete que procura transmitir ao tele-espectador que temos pela frente apenas um mosquito. Daí, a implicação de que seria tarefa fácil matar o mosquitinho.

              A infestação do zika começou em Pernambuco, se não me engano, e lá está o maior número de casos suspeitos (1306). O crescimento tem sido rápido em termos de propagação.

               O Aedes Aegypti carece de água limpa e parada para que a larva seja depositada e o mosquito nasça. Os criadouros dessa peste são a ignorância, o desleixo, a falta de higiene (poças d´agua, aguas paradas, pneus velhos, etc.). Não é só a pobreza e a miséria que o cultivam, mas digamos que ajudam bastante.

               Vejo no Brasil esse tipo de filmete (ou spot publicitário) que banha o tele-espectador com jorros de otimismo (é só um mosquitinho...). Nada poderia estar mais longe da verdade. Não é um só mosquito que se tem pela frente. É um esquema existencial.

                Se quisermos nos livrar desse traste, não será só através de  propaganda edulcorada, que dá ao público a idéia errada.

                 Sem falar em saneamento básico, que ficaria para uma segunda etapa, sugiro que se diga a verdade para o público ameaçado. Que tal fazer um mutirão para valer nas favelas - e não nas da Globo, com seus cenários de mentirinha - e atacar o tal mosquito acabando com as poças, a sujeira, os pneus, os depósitos de lixo improvisados, e por aí afora?  A lista pode ser longa, mas estou certo que as jovens mães e os pais agradeceriam.

 

( Fontes:  O Globo, Rede Globo )       

O problema é Dilma!


                                           

      Na coluna hodierna de Miriam Leitão, topa-se com observação do economista Márcio Garcia, que se me afigura difícil contraditar. E nisso está talvez a irritação que provoca.

      Com efeito, na citada coluna, o economista José Márcio Camargo, da PUC-Rio, havia dito em meados do ano passado que o crescimento só ocorreria em 2018. A esse respeito, Márcio Garcia concorda com a previsão, porque não acredita que o governo Dilma possa reverter o quadro.

      "Como ninguém sofre impeachment por patente incompetência, o meu cenário é que a presidente Dilma ficará até o fim do mandato. A política econômica será mais do mesmo. Vai oferecer crédito, mas não vai adiantar; vai tentar gastar mais, mas não terá como. Ninguém muda.[1] A presidente é a mesma e vai continuar fazendo aquilo no qual ela acredita", diz Márcio Garcia.

     Tomar as medidas certas não convence o governo Dilma. Sem qualquer entusiasmo, difundiu-se a impressão de que impeachment perdeu força, e tal notadamente pela intervenção do Supremo, abraçando o prisma oficialista do Ministro Luis Roberto Barroso, cujo voto invertera a tendência indicada pelo parecer do Ministro Edson Fachin. Como o STF foi além da própria competência - na opinião de juristas de nomeada, como o ex-presidente Carlos Velloso - pode sobrevir, por conseguinte, uma correção, por meio dos embargos de declaração.[2]

       Como disse muito apropriadamente o Ministro Velloso, os erros cometidos concernem ao voto secreto, eis que o Regimento da Câmara é expresso e o presidente da Câmara não tirou a regra da cabeça dele. Outro tópico questionável do voto de Barroso se reporta às candidaturas avulsas, questão interna corporis do Congresso.

       Foi dito oportunamente, que não é muito provável que os ditos embargos de declaração sejam acolhidos plenamente pelo Supremo. Mas tampouco se afirmou que não seja factível tal acolhida, notadamente pela circunstância de que a sentença anterior fora por um único voto de diferença. Não é impossível, portanto, que a opinião do plenário mude, atendidos dois fatos: os erros apontados por juristas de nomeada, e a circunstância de que bastaria a revisão de posição de parte de um ministro.

        Deve-se acrescentar mais duas considerações à anticlimática posição do Banco Central, e notadamente do Ministro Tombini.

        O presidente do Banco Central sinalizou um fato - a piora na situação externa - e tomou a decisão contrária, ao recusar elevar a taxa Selic. Como a única defesa contra a inflação está na taxa, mantê-la é deixar o caminho aberto para a progressão da carestia. E tal o resume a coluna de Miriam Leitão: "A situação que estava ruim, ficou ainda mais difícil com o vacilo do Banco Central, porque isso elevou o risco inflacionário."

        Já o Palácio do Planalto, através de interlocutor que preferiu o resguardo do anonimato, declarou: "são as viúvas desconsoladas do Levy que estão criticando. O governo entendeu que é uma reação exagerada."

        Essa observação, se é lamentável, faz parte da lógica do processo. Enquanto Dilma for presidente, será o poder, e terá  razão para o respectivo círculo. A opinião dos áulicos é necessariamente previsível, e, por conseguinte, bastante relativo o seu valor intrínseco.

       Nesse contexto, a imagem do transplante vem por força à mente. E, por isso, os seus resultados só tendem a ser a contento das partes se existe compatibilidade...

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )



[1] Meu o grifo.
[2] V. meu blog de 14 do corrente: Nesga de luz para o Impeachment ?