quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Visita do Papa aos EUA (II)


                                

       No seu primeiro dia nos Estados Unidos, a mudança climática foi um dos tópicos principais do discurso de Papa Francisco no Jardim da Casa Branca. O Santo Padre citou inclusive Martin Luther King para pedir maior comprometimento do país e da sociedade em prol da preservação do meio ambiente.

       Nesse contexto, referiu-se às duas nações mais ‘sujas’ (a outra é obviamente a República Popular da China), e elogiou a posição do Presidente Obama como ‘encorajadora’, por aceitar metas de redução da poluição nos Estados Unidos.

       “As mudanças climáticas são um problema que não pode ser deixado para as futuras gerações. Quando falamos de cuidar de nossa casa comum, vemos que estamos em um momento crítico da História. Nós ainda temos tempo para fazer a mudança necessária para trazer um desenvolvimento sustentável e integral, porque sabemos que as coisas podem mudar”.

        Em seu segundo evento público em Washington, o Papa disse a duzentos bispos católicos americanos que os crimes de abuso sexual contra menores por parte do clero não devem se repetir jamais. A prédica, na Catedral de São Mateus, à tarde, não empregou os termos ‘abuso sexual’.  Contornou o tópico com a curial expressão ‘momentos difíceis’, e ressaltou  a importância de disponibilizar ajuda às vítimas.

       É de notar-se que Francisco vem prometendo erradicar “o flagelo” dos abusos sexuais na Igreja. Para tanto, criou no Vaticano tribunal para julgar integrantes da Sé pontifícia acusados de encobrir ou deixar de prevenir o abuso sexual de crianças.

      Diplomático, o Santo Padre não se reportou diretamente à sua participação na retomada das relações entre Cuba e Estados Unidos.  De forma alusiva, disse: ‘Os esforços feitos recentemente para emendar relacionamentos quebrados e abrir novas portas para a cooperação dentro de nossa família humana representam passos positivos no caminho da reconciliação, da justiça e da liberdade’.

      Após o evento na Casa Branca, Papa Francisco desfilou pelas principais artérias da capital no papamóvel. E nesse trajeto, uma menina de cinco anos logrou chegar até o Pontífice e entregar-lhe mensagem sobre imigração. Tal não foi feito sem dificuldade. Sem embargo, quando  a segurança tentara opor-se, Francisco sinalizou-lhe para que ela se aproximasse. O guarda-costas, então a ergueu, afim de que a menina recebesse a bênção do Santo Padre. Em seguida, ela lhe entregou a camiseta com mensagem sobre a situação dos pais imigrantes com crianças nascidas nos Estados Unidos.  

 

( Fonte:  O Globo )

Influência política de quem ?


                                   

       Na velha e provada hora de a onça beber água, a presidenta terá cedido a vez a quem tem experiência política. Além da alvitrada influência política referida nos blogs sobre o esvaziamento em curso da Lava Jato, que a votação de ontem do Supremo, desencadeada por inesperado despacho do Ministro Teori Zavascki, dá pesadas e ominosas indicações, é mister assinalar que há outras mudanças nos ventos da crise.

       Não foi decerto por feliz e inesperada convergência de interesses coincidentes que nos últimos dias o Governo Dilma II venceu na batalha dos vetos a projetos da pauta-bomba, como na ressurreição do fator previdenciário (com os renovados votos do PSDB, com apenas uma exceção!). 

       Essa guerra não está ainda terminada, eis que falta o veto a aumento desproporcional (à vista dos demais servidores públicos) concedido ao Poder Judiciário, a instâncias de seu atual presidente Ricardo Lewandowski. Nesse Congresso das quartas-feiras, as decisões, mesmo as mais importantes, carecem de ser escalonadas em mais de uma semana, eis que Suas Excelências, apesar da gorda remuneração, só prestam expediente integral no meio da semana.

      As coisas mudam no panorama ministerial.  De repente, o antes petrificado front mostra sinais de movimentação  e se sente não mais a inexperiente dílmica rigidez, sob a canhestra orientação de sua Casa Civil. Ao invés das antes lúgubres perspectivas, o governo vence na batalha dos vetos e, oh surpresa!, no fantasma da Lava-Jato, a que, em céu sereno, de repente ameaça a exitosa operação – que se aproximava de alvos intocáveis – com o seu anunciado possível fatiamento e o esvaziamento do juiz Sérgio Moro.

       A quem terá assustado a fala dos procuradores que insinuavam investida contra o intocável?

       Por outro lado, terá sido o espírito-santo que aclarou as idéias e a turrã teimosia da inexperta Soberana que crê tudo saber, mas em verdade mal domina o bê-a-bá da velha politicagem?  Pois em céu não tão sereno, a quem se deve a súbita generosidade das pastas da Saúde e da Infraestrutura? Todos sabemos o quanto é importante para o PMDB de Michel Temer avançar no seu programa com ministérios de gordas verbas para o bem do Povo brasileiro.   

       Mas quem, nesse claudicante governo de ideias, terá vindo com tais sugestões em tão boa (ou má) Hora?

      

( Fonte:  O  Globo )

Fico com o Sentir das Ruas

                                    

        Muitos esperaram com ansiedade a sentença do STF sobre o juízo de supostos pagamentos de propina pela Consist, de São Paulo, em inquérito que envolve a Senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

        Debalde o Ministério Público alertou para o perigo do enfraquecimento da Lava-Jato. A grande imprensa, sobretudo O Globo, sublinhou esse risco. Em vão.

        A questão se originara, como se sabe, de um imprevisto despacho do Ministro-relator da Lava-Jato, Teori Zavascki, que, no passado, por primeira vez no processo, concedera um habeas-corpus ao ex-diretor da Petrobrás, Renato Duque.  Posteriormente, o habeas-corpus seria derrogado.

        Como assinalei neste blog, o procurador do Ministério Público, Carlos Fernando dos Santos Lima, não deixou de enfaticamente alertar contra os riscos desse despacho de Zavascki, que quebrava a unidade de juízo da Lava-Jato. Acirrados, notadamente, pelas suspeitas de influência política, como sublinhadas pelo Ministério Público.

        Quando a questão foi a plenário, na prática já contava com três votos a favor: Teori Zavascki, que tomara a iniciativa de retirá-la da Lava-Jato; o Presidente Ricardo Lewandowski, que já despachara denegando que o caso permanecesse no âmbito da Lava-Jato; e Dias Toffoli, que invocou a tese do “encontro fortuito de provas” para decidir que as delações que levantaram suspeitas de pagamento de propina pela Consist nada têm a ver com a corrupção na Petrobrás.

       Também votaram a favor do fatiamento do inquérito e do esvaziamento do Juiz Sérgio Moro, os ministros Marco Aurélio Mello (‘a medida facilitará a vida de Sérgio Moro’), Carmen Lúcia (‘não há conexão entre supostas propinas da Consist e o esquema de corrupção da Petrobrás’), Rosa Weber (‘os contratos foram firmados em São Paulo e que a denúncia do Ministério Público Federal afirma que o crime ocorreu em São Paulo’), e o benjamin Edson Fachin (‘o fato de o indício ter surgido em delação premiada não significa que a apuração é a mesma. Por isso, o mais prudente é apartar as investigações da Lava-Jato).

        Por outro lado, o Ministro Luiz Fux não esteve presente ao juízo.

         É interessante assinalar a princípio que os advogados que atuam na Lava-Jato não deixaram de comemorar a respeito. Em tal sentido, o advogado Helton Pinto já se apressou em pedir ao juiz Moro para que decline da competência  (sobre o ex-presidente da Eletronuclear Othon Pinheiro) repassando-a para a Justiça Federal do Rio. No mesmo sentido, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro também vai pedir a redistribuição eletrônica de um dos inquéritos abertos no STF sobre o Senador Ciro Nogueira (PP-PI), com base na delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC.

        Dada a sua relevância, semelha oportuno ressaltar o parecer do Ministro Gilmar Mendes: de início, Sua Excelência alertou  para o risco de a decisão enfraquecer a Lava-Jato. 

      “ É uma questão de grande relevo. Do contrário, não estaria tendo essa disputa no próprio âmbito do Tribunal.  No fundo o que se espera é que o processo saia de Curitiba e não tenha a devida sequência em outros lugares. Vamos dizer em português bem claro.”                    

        Para Gilmar, o esquema no Planejamento tem relação com o da Petrobrás. Concordou com o argumento de Janot (Chefe do Ministério Público Federal)) de que os operadores são os mesmos e também a forma de agir. E avisou, por conseguinte, que a investigação pode ser prejudicada, porque o novo juiz não conhece os casos em profundidade.

        E enfatizou o Ministro Gilmar Mendes: “Não se tem, na História deste país, nenhuma notícia de uma organização criminosa desse jaez, fato que nos envergonha por completo. Estamos falando de um dos maiores, se não o maior caso de corrupção no mundo.”

        O Ministro Gilmar Mendes frisou igualmente que os fatos atribuídos à Consist estão ligados com os da Petrobrás, e a pulverização do caso em vários processos enfraquece a investigação.

 

( Fonte:  O Globo )

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Visita do Papa aos EUA

 

        O Papa Francisco, depois de sua passagem por Cuba, com grandes multidões, mas eclipse de dissidentes, chegou hoje, quarta-feira, 23 de setembro,  pela manhã à Base de Andrews, em Washington, quando foi recebido pelo Presidente Barack Obama e pelo Vice Joe Biden.  As duas maiores autoridades americanas estavam acompanhadas de suas esposas.

       Há muita expectativa com a visita pontifícia, expectativa essa que se deve sobretudo ao carisma de Francisco, e a sua intenção de levantar tópicos que em geral não frequentaram as agendas papais de seus antecessores, desde Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

       Em Washington Francisco conversará com o Presidente Obama, e as concordâncias devem ser largas, posto que não completas. Há expectativa na sua sessão perante o Congresso americano, em que o Santo Padre há de procurar diplomaticamente maior participação americana no que tange à crise do meio ambiente, uma das principais inquietudes de Francisco. Arraigado a postura que é mais reminiscente do incrédulo século vinte, o Congresso será talvez convidado a maior abertura ambiental, eis que das posições céticas ou negacionistas, o aquecimento global e a crescente violência climática vem mostrando de forma impiedosa a inanidade. Sem embargo, dado o relativo imobilismo prático de Senadores e Representantes, as frases do sucessor de Pedro podem ecoar, sendo pouco provável que o seu resultado muito venha a diferir de tantas alocuções aí ouvidas, que mais seguem o exemplo dos clamores de Lawrence, na obra prima de David Lean.

      Em New York, Papa Francisco terá previsíveis multidões e o discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas.

      Por fim, em Filadelfia a visita deverá concluir-se. Dada a popularidade do Papa, o seu carisma e simplicidade, agregadas as próprias palavras para os desfavorecidos da sorte, antecipam-se grandes multidões. Haverá decerto a ocasião para lidar com o dissenso da vez, a formulação eventual de posturas antagônicas e críticas,  assim como a caça habitual das atenções oportunistas.

      Essa visita de Papa Francisco, com a compreensível ansiedade e o grande afluxo que a devem acompanhar, representam o grande desafio da vez para este grande pontífice, que veio trazer a Igreja de Cristo para o século XXI, assim como o seu grande antecessor o Santo João XXIII trouxera o catolicismo para o mundo moderno e o século XX. 

     Assim como Papa Giovanni o fez a seu tempo, Esperemos que, uma vez mais, Papa Bergoglio venha a surpreender e no melhor sentido, como é seu hábito. 

 

( Fontes:  The New York Times,  site de  O Globo )

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Más Notícias para a Lava Jato?

                    
 
       Em blog de segunda-feira, 14 de setembro corrente, sob o título de ‘Más Notícias?’, me ocupei notadamente da decisão do Ministro Teori Zavascki, e das preocupações que forçosamente provocou.

       Integrante da força-tarefa da Lava Jato, o Procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima manifestou preocupação de que a decisão do Supremo Tribunal Federal de dividir parte da investigação ameace o futuro  da operação. Nesse sentido, enfatizou o Procurador Lima à Folha de S. Paulo: “Pode significar o fim da Lava Jato tal qual a conhecemos”.

       O responsável pelos inquéritos do caso no Supremo, entendeu o Ministro Teori Zavascki que suspeitas contra a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) por desvios  no Ministério do Planejamento não tem conexão com o restante da Lava Jato, que trata de corrupção na Petrobrás. Por isso, ele decidiu que o caso da ex-Chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff no primeiro mandato desta pode ser julgado por outro ministro, e o processo foi redistribuído para Dias Toffoli.

       Qual é o temor do Procurador Santos Lima? A sua lógica é simples e irrefutável:  a partir (dessa decisão monocrática) a investigação sobre essa etapa (e inclusive várias outras, que não tratem da Petrobrás) seja remetida para outra vara federal, até mesmo fora do Paraná, e deixe de ser conduzida pela força-tarefa da operação.

       “O que queremos mostrar é que não estamos investigando a Petrobrás. Estamos desvelando a compra de apoio político-partidário pelo governo federal, por meio de propina institucionalizada nos órgãos públicos”, declarou o Procurador da República Santos Lima.

         Em sua entrevista à imprensa, o Procurador Santos Lima afirmou, outrossim, ainda acreditar que o esquema investigado pela Lava Jato foi gestado dentro da Casa Civil do governo Lula (2003-2010), comandada à época pelo ex-ministro José Dirceu, também preso na operação.

         O seguinte comentário do Procurador Carlos Fernando dos Santos Lima tem um tom necessariamente didático e não o é por acaso : “Mensalão, petrolão, [desvios na] Eletronuclear são todos eles conexos, porque dentro deles está a mesma organização criminosa. No ápice dessa organização, estão pessoas ligadas a partidos e, não tenho dúvida, à Casa Civil do governo Lula”.

         Não é decerto por acaso que o Procurador Lima faz referência expressa ao governo do Presidente Lula. A implícita gravidade da decisão do Ministro Teori Zavascki induz a tal sinalização. Como refere, a propósito, a notícia da Folha: “Nos bastidores, investigadores temem que a decisão do STF tenha tido influência política, com o objetivo de refrear a operação." 

          Foi  tendo presente a seriedade desse trâmite processual, que a Procuradoria Geral da República recorreu da decisão do Ministro-relator Teori Zavascki, mas até agora não conseguiu revertê-la. Assim, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, denegou um primeiro recurso, na semana passada. A intenção da Procuradoria persiste, no entanto, em que o caso da senadora Gleisi Hoffmann permaneça como parte integrante da Lava Jato.

               Nesta segunda-feira, dia 21 de setembro,  foi deflagrada mais uma fase da Lava Jato, voltada para apurar suspeitas de desvios em contratos da estatal Eletronuclear. Foram presas duas pessoas: o sócio da Engevix, José Antunes Sobrinho, e João Augusto Rezende Henriques, apontado como operador ligado ao PMDB.

              É de notar-se que Sobrinho já é réu em outro processo por suspeitas de participação no esquema de corrupção  da estatal. A reação de seu advogado, feita em nota, afirma que a prisão desta segunda-feira causa ‘perplexidade’ e que seu cliente, José Antunes Sobrinho não procurou qualquer testemunha para “produzir, ocultar ou alterar prova”. A Eletronuclear já tinha sido alvo de fase anterior da Lava Jato, no fim de julho.

              Por fim, a nota explicativa da Folha se refere à 19ª Fase da Lava Jato, a chamada “Nessun Dorma” (que ninguém durma), que é o título de ária da ópera Turandot, do italiano Giacomo Puccini.   

              É de esperar-se, por conseguinte, que as ponderações da Procuradoria-Geral da República sejam atendidas. Não é firula processual. Dentro da Lava Jato, os procuradores e os delegados da P.F. elevam bem alto a tocha da  Justiça.

            É compreensível que as resistências cresçam, com o escopo de refrear essa grande Operação, à medida que a Lava Jato adentre os mais altos gabinetes da República.  É o que também hoje refere o principal colunista político de O Globo, como oportunamente assinalado no blog 'Está Faltando Um'.

            A quem serve a fragmentação da Lava-Jato? Dada a obviedade de que não é para atender ao interesse da Justiça, se insinua a dúvida de que haja influência política, em desesperada tentativa de refrear uma operação que é seguida não só com grande interesse mas com o forte apoio da Opinião Pública Nacional.    

   

( Fonte:  Folha de S. Paulo )

Está Faltando Um

                                                

        A impressão se reforça de que para alguns  não são só poucas decisões importantes que reserva o futuro, mas que a mor parte de o que está por vir será escrita em Curitiba.

        O que está acontecendo em Brasília, com o Palácio do Planalto não mais comandando as atenções, dá a crescente impressão de que é levado por corrente sobre a qual  parece não ter controle.

        Há poucas centenas de metros, o sítio do Congresso, com os dois simbólicos pratos, confunde mais do que tranquiliza. A crise, hora de juízos conflitantes e imprevisíveis, é a senhora do momento, e não há harúspice que se atreva a ler-lhe as vísceras, embora, em patéticos esforços, um poder presidencial ameaçado, como há de cuidar das contas do Estado, sob a perspectiva de gastos desatinados que esse poder cambaleante e desmoralizado não dá  a impressão de conseguir evitar.

       Seja o parâmetro de Toynbee[1] em que a autoridade legal não mais conduz, e sim é conduzida pela corrente, e assim todos os desatinos como as pautas-bomba, o aumento bilionário do Judiciário, surgem pimpantes na ordem-do-dia, na hora em que a fraca raínha[2] enfraquece não só a boa gente e suas instituições, mas também o bom-senso.

       Será nesta hora do desgoverno que aparecem as bestas-feras, como as pautas-bomba e o aumento do Judiciário, uma assombração só crível em tais horas.

       Por isso, voltemos rápido a Curitiba, onde jovem juiz com letra firme escreve sentenças que prenunciam, inda que com o inelutável vagar da Justiça, um tempo melhor para a Pátria brasileira e sua gente.

       Como hoje diz cronista – com que nem sempre concordo – “se Lula desconfiava (...) de que o objetivo final da Operação Lava-Jato é ele, ontem o ex-presidente deve ter tido certeza disso. Nunca a Lava-Jato chegou tão perto dele, por enquanto apenas na retórica de seus procuradores ou do próprio juiz Sérgio Moro, mas com ações que se aproximam cada vez mais de denúncias que envolvem diretamente Lula no esquema de  desvio de dinheiro da Petrobrás.”

       Sugestivamente, se dá início a mais uma fase da Lava-Jato – desta feita chamada de forma sugestiva ‘Nessun dorma’ (que ninguém durma) – e, a propósito, o Procurador-Regional da República, Carlos Fernando dos Santos Lima afirma em entrevista coletiva que “não tem dúvida nenhuma” de que os escândalos de corrupção na história recente do país – mensalão, petrolão e Eletronuclear – tiveram origem na Casa Civil do governo Lula, cujo titular mais famoso, o ex-Ministro José Dirceu baixou à prisão pela segunda vez.

       Tem-se presente que a ‘Nessun dorma’ apura a propina recebida na diretoria internacional da Petrobrás de 2007 a 2013, ocupada por Nestor Cerveró, que negocia uma delação premiada com o Ministério Público. Assinale-se, a propósito, que a primeira negociação com Cerveró não foi aceita, por imprecisões nas informações desse ex-diretor da Petrobrás. Nesse contexto, a lente do Ministério Público percorre ações como as negociatas da Eletrobrás, e também o superfaturamento do contrato da sonda Vitória 10.000. Esta última irregularidade foi feita, segundo Cerveró, a mando  do próprio Presidente da Petrobrás na época, i.e., José Sérgio Gabrielli, para saldar dívidas de campanha de Lula com o grupo Schahin.

          Na proposta de Cerveró para a delação premiada – ainda não aceita – ele afirma que Gabrielli lhe disse que a dita ordem veio ‘do homem de lá de cima’ – numa clara referência ao então presidente Lula da Silva.

          Segundo reporta ao final o colunista, este caso da construtora Schahin está ligado a um outro, mais nebuloso, que se reporta ao assassínato do prefeito Celso Daniel.  O caso foi supostamente revelado à época do Mensalão, em tentativa malsucedida do lobista Marco Valério de fazer delação premiada para se livrar da pena de mais de quarenta anos, a que foi condenado no contexto da Ação Penal 450. 

 

 

 ( Fontes:  O  Globo, Coluna de Merval Pereira, A.J. Toynbee (A Study of History) )




[1] A.J. Toynbee, A Study of History.
[2] Camões, Os Lusíadas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Notícias de Tio Sam (VII)

                                    

Campanha eleitoral

 

         No campo democrata, Hillary Clinton viu cair a sua antes folgada liderança nas pesquisas de 66% para 42%. Além de outros pré-candidatos, tanto novos quanto velhos, Hillary terá de atribuir à sua própria inabilidade a circunstância de que o seu tratamento do famoso servidor privado de e-mail, utilizado quando foi Secretaria de Estado a perseguiu por meses a fio, sem que lhe dispensasse a atenção que gritava aos céus o tópico – na sua aparente insignificância para a pré-candidata – fazia por merecer e de forma urgente junto a seu eleitorado.

         De início, Hillary pensou resolvê-lo pelo desprezo, como se fora coisa de somenos que não merecia a sua atenção.  Mas os seus adversários não desperdiçaram a oportunidade criada pela imprevista inépcia política da tarimbada Hillary Clinton.

         Ignorando o tópico, ou dele pensando desfazer-se através de ironia, a pré-candidata parecia não estar consciente das características do povo americano, em que a verdade e o relato escrupuloso dos respectivos procederes não deve ser tratado como se fossem questões de  lana caprina.

         Esqueceu-se a sua segura e bem-sucedida gestão porque o público americano começou a desconfiar do porquê ela não confrontava a tal questão do servidor privado de e-mails. Por tratar o assunto de forma superficial, ela ignorou a máxima da pequena política: não se deve deixar ao relento uma questão que possa ser suscetível de aproveitamento pelo adversário, que a apresentará com versões pejorativas, apontando-a  como falsa ou mentirosa.

          Estranha que política tarimbada como Hillary Clinton tenha deixado fermentar por tanto tempo sem  resposta adequada a famigerada questão do servidor privado de e-mail.  Se ela tivesse dada a atenção que a questão merecia, menos pela sua importância intrínseca (que é pequena), mas por causa da respectiva distorção e hipertrofia que foi dada pelos rivais, Hillary teria sepultado de vez a tal falsa questão, que ora ainda sobrevive por causa de sua estranha negligência. Com a sua lassitude, ela deixou entrar na sala de espera dos seus possíveis eleitores, os velhos clichês da Hillary mentirosa.

           O futuro dirá se o Povo americano se reconciliará com o fato de que ela é a melhor candidata. Têm crescido as preferências pelo Senador Bernie Sanders, que é ótimo orador, mas não me parece um bom candidato se os democratas desejam escolher um vencedor. Os seus comícios tem sido sucesso de público, pela sua qualidade oratória e pelas respectivas idéias populistas. Mas os seus pendores socialistas, ainda que matizados (socialista democrata), revelam em uma sociedade conservadora como a americana uma grande e potencial vulnerabilidade.  Ele poderá vencer as primárias de Iowa e de New Hampshire, cuja importância está menos no número de delegados (esses estados são pequenos) do que na circunstância de indicarem uma tendência já no começo da campanha. Mas dificilmente a Convenção democrata o escolheria como candidato, pois ao partido interessa escolher um vencedor nacional.

                 No entanto, a súbita fraqueza de Hillary (que só não é inesperada por sua obstinada e errônea decisão de menosprezar a questão do servidor privado de e-mail, o que representou um crasso erro político) tem atraído outros mouros às costas democratas. O vice Joe Biden, depois de retirar-se da campanha, ao julgar Hillary imbatível, mudou de idéia ao ver a campanha dela em crise, e fez circular a notícia de que está ‘reconsiderando’. O Secretário de Estado John Kerry é outro has been, com que os americanos qualificam antigos candidatos (ele foi derrotado por George W. Bush).

                 Hillary – que é uma grande lutadora – tem, portanto, pela frente adversários temíveis e até populares, como Bernie Sanders, mas eles tampouco devem esquecer que Hillary Clinton é política experiente e tenaz (como demonstrou quando enfrentou a força da natureza que é Barack Obama). Como não se vê no cenário de Tio Sam nenhum contendor que se compare ao atual Presidente estadunidense,  no meu entender Hillary continua a ter  boa chance de tornar-se a primeira mulher presidente dos Estados Unidos. Mas a sua nomination vai implicar em luta acirrada.

 

Diálogo Russo-americano sobre a Síria

                  

              A dezoito do corrente se iniciou o chamado diálogo russo-americano sobre questões militares no conflito sírio.

              Se Putin não logrou desta feita elevar as conversações a nível presidencial, do exercício à distância participam o Secretário da Defesa, Ashton Carter, e pela Federação Russa, o seu homólogo, gospodin Sergei Shoigu.

              Foi definida como ‘construtiva’ a conferência telefônica, em que se discorreu  sobre áreas onde as perspectivas dos Estados Unidos e da Federação Russa coincidem, e acerca de áreas onde há divergências.

               Foram discutidos meios e modos para evitar problemas na coordenação das ações das duas partes na Síria.  Foi igualmente tratada a campanha aérea contra o Estado Islâmico.

               Dada a liderança americana – partindo agora de bases na Turquia, bastante mais próximas do que as do Golfo Pérsico – nos ataques aéreos contra o EI, há suspeitas de que as forças russas pretendam atuar com suas aeronaves militares contra o  ISIS, no intento de ajudar o cambaleante regime de Bashar al-Assad.

                Nesse sentido, consta que a Rússia já tenha deslocado para a base de Latakia quatro caças.           

 

( Fonte: Folha de S. Paulo )