quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A antidiplomacia de Dilma


                      
         Mais uma vez a Presidenta Dilma Rousseff mostrou que a diplomacia não é seu forte. À vista d’olhos, falta-lhe sensibilidade, respeito e conhecimento nessa função. Por isso, costuma ou meter os pés pelas mãos, ou desconhecer as práticas usuais nesse mister, e o que é corolário dessa atitude, ignorar na prática as sugestões[1] de seu Ministério de Relações Exteriores. O que me leva a afirmar isto, é a circunstância de não ser crível que o Itamaraty não a informe de o que seria o procedimento usual e recomendável nos diversos casos em tela.

         Com o presidente Lula da Silva, abandonou-se a diplomacia de estado, para abraçarmos a de partido. Tal se viu no caso do Paraguai, quando concedemos ao então presidente guarani, Fernando Lugo, uma compensação absurda ao Tratado de Itaipu, como se já não houvéssemos concedido vantagens além da medida a Assunção. Mais tarde, em 2012, a presidente Dilma se valeu do pretexto do impeachment de Lugo, pelo Congresso paraguaio, decretado na forma da lei (ainda que com grande desenvoltura), para suspender o Paraguai do Mercosul – medida que implementou quase manu militari junto a colegas recalcitrantes.

         A manobra, na verdade, visava a favorecer a Venezuela de Hugo Chávez, eis que o Paraguai era o único membro do Tratado de Assunção a opor-se à adesão de Caracas. A violência da medida – em que a diplomacia de partido se sobrepunha à de Estado – prejudicaria as nossas relações com Assunção. Por outro lado, nas condições da economia venezuelana – pioradas ulteriormente sob Nicolás Maduro – caberia perguntar a quem aproveita o ingresso da Venezuela no Mercosul, se já lidamos com o contrapeso do peronismo kirchnerista na Argentina ?

        Essa atitude dos governos do PT, se evidenciada com Lula de Silva (e a sua aceitação do procedimento ilegal de Evo Morales). A sucursal da Petrobrás na Bolívia lá estava por acordo internacional, e não de forma irregular. Isto pressagiava duas tendências do lulo-petismo: (a) não só passar a mão na cabeça dos ‘irmãos’ do esquerdismo sindical sul-americano, (b) senão prejudicar a maior empresa pública nacional, como o presente o demonstra com excesso de agravos.

        Lula, no entanto, pela simpatia natural, gozou de certa liderança internacional, assim como facilidades de trânsito, inclusive com o republicano George W. Bush.  No entanto, por questão de temperamento, Dilma não logrou ocupar posição similar à Lula.

        Limitar-me-ei a assinalar três episódios que sublinham o seu viés anti-diplomático: asilo do senador boliviano Roger Pinto na embaixada do Brasil; invasão da privacidade pelos programas da NSA e deterioração nas relações com Washington; reação acomodatícia diante da ilegal anexação da Crimeia pela Rússia. Como cereja neste bolo, o peculiar discurso com viés eleitoreiro, uma peça de política interna lançada no grão-salão dedicado às questões da diplomacia mundial.

        No asilo de Roger Pinto, além de mantê-lo em compartimento inadequado para a sua saúde sem a necessária exposição solar, o Brasil de Dilma foi fraco em não exigir o salvo-conduto, que é condição sine qua non do término do asilo diplomático pela sua passagem a asilo territorial em outro país. E foi ainda mais fraco ao consentir em transmitir ao asilado a possibilidade de sua renúncia ao dito asilo. É inaceitável que Evo Morales tenha desrespeitado a soberania brasileira, chegando mesmo a mandar revistar aeronave de Ministro de Estado brasileiro, de passagem por La Paz. Diante disso tudo, a atitude corajosa do Ministro Eduardo Saboia, então Encarregado de Negócios, é a decorrência dessa desídia de Brasília. Saboia não hesitou em por em risco a própria vida ao transportar, por vinte horas, em viatura da Embaixada, o asilado Roger Pinto – cujo principal crime era ser desafeto do homem forte da Bolívia – para a segurança do território brasileiro.  

         Quanto à invasão pela National Security Agency dos Estados Unidos das comunicações oficiais e privadas da Presidente Dilma, trata-se de atitude indefensável e reprovável por todos os títulos. Dilma estava convidada para recepção presidencial em sua honra, com o mesmo alto grau honorífico da que fora prestada a Fernando Henrique Cardoso por Bill Clinton, na Casa Branca.

          Insegura em diplomacia, a minha impressão é de que utilizou mal as cartas de que dispunha. Não há negar de que a Presidente Dilma Rousseff, como a parte ofendida, estava plenamente justificada em formular juízo bastante negativo do episódio. A sua reação, no entanto, caíu  na areia movediça de quem tem demasiada razão e, por conseguinte, carece de modular a própria resposta de modo a paradoxalmente não pôr tudo a perder.

           Nesse contexto, semelha interessante comparar -lhe a sua reação com a da Chanceler Angela Merkel. Também invadida na sua privacidade, a Chefe de Governo alemão soube dosar a própria atitude de forma a sublinhar o respectivo desagrado, mas de forma a não comprometer de todo as relações necessárias para que ulteriormente o diálogo fosse mantido em nível em que a sua dignidade fosse respeitada. Essa diplomacia nada tinha de subserviente. A despeito do agravo, dada a importância das relações bilaterais, a parte ofendida dosaria a respectiva resposta, atendendo a duas premissas básicas: o restabelecimento do respeito mútuo, como condição sine qua non, do desenvolvimento da relação oficial; e o avanço gradual nessa linha de concessões pré-estabelecidas, sempre em boa fé, a ser mantida sobretudo pela parte antes transgressora. E, por fim, a regra básica: a altercação, nesse nível, deve proceder de forma secreta, sem qualquer vazamento. A publicidade nesta questão de Estado teria efeito deletério.

             Outro grave erro diplomático, de responsabilidade da Presidenta Dilma Rousseff, foi o de haver associado o nome do Brasil àqueles países que não se opunham, em votação da Assembleia Geral das Nações Unidas ao ato de força da Rússia, apossando-se manu militari da Crimeia.  Tal província no Mar Negro integrava a Ucrânia desde 1954, por determinação do então Primeiro Secretário do PCUS, Nikita Kruchev. Esse ato de força da Federação Russa foi ‘confirmado’ por referendo feito de afogadilho, e sem qualquer cuidado voltado para uma votação livre e regrada dos habitantes da região. Por preceito de nossa Constituição de 5 de outubro de l988, o Brasil democrático e respeitador das liberdades não poderia ter associado o seu nome à coonestação desse desrespeito flagrante do presidente Vladimir V. Putin ao Direito Internacional Público.  O Barão do Rio Branco, patrono de nossa Diplomacia, e o Embaixador Hildebrando Accioly, o nosso maior publicista, pedem vênia para dissociar-se de tal contrassenso.

              Essa singular desenvoltura da Presidente Dilma Rousseff no que tange à diplomacia,– em contraditória ambiguidade em que a depreciação se dá as mãos à valorização – o Itamaraty, na sanha presidencial de poupar o dinheiro do Tesouro para o mais desvairado assistencialismo, é vítima de um corte absurdo dos respectivos fundos, a ponto de não ter dinheiro para exercer as respectivas funções básicas.

               Não se vá pedir, no entanto, à Presidenta que falte à abertura ritual do debate na Assembléia Geral das Nações Unidas. Como se sabe, cabe ao Brasil esta honra desde o início dos trabalhos – marcada para a segunda quinzena de setembro – de pronunciar o discurso inaugural (a que se sucede o dos Estados Unidos). Em consequência desta contiguidade – e estando em New York – é muito raro que as palavras do Chefe da Delegação do Brasil sejam citadas pelo New York Times, que é desde muito o principal periódico americano.

                No início das Nações Unidas – tenhamos presente que naquele tempo pós-guerra o número de países-membros era de 55 – a tradição do Brasil abrir os trabalhos da AGNU cabia ao chefe da delegação brasileira junto às Nações Unidas. Depois, este honroso cargo passou ao Ministro de Estado das Relações Exteriores. Somente com a Constituição de 1988, Fernando Henrique Cardoso aí discursou (falando em inglês), e uma vez descoberto a nova oportunidade, Luis Inacio Lula da Silva e Dilma Rousseff. O fato de falar em português por vezes como no caso do monoglota Lula é inevitável, mas a preferência do inglês, se o discurso for de boa qualidade, ajudaria na sua maior difusão.

                Muita coisa já ocorreu naquela tribuna famosa (talvez a palma esteja com o Primeiro Secretário Nikita Krushev, que retirou o respectivo sapato para enfatizar os próprios argumentos quanto a substituir o Secretário-Geral por uma troika). No entanto, a alocução da Presidenta, com o seu viés local e eleitoreiro, tocou em tecla pouquíssimo utilizada. Já diz o velho ditado que ‘elogio em boca própria é vitupério’.  Ionesco, no seu teatro do absurdo, lamentaria não haver pensado em tal probabilidade, mas não discutiria de quanto poderia aproveitar o ridículo e o farsesco dessa ideia.

                 Destacar feitos do PT a dez dias da eleição – João Santana decerto providenciará um filmete (posto que preferisse fazer um com as usuais mentiras sobre Marina Silva) – é dar prova de total falta de mancômetro (releve-me o leitor a eventual baixaria, mas convenhamos que é para melhor integrar-se ao discurso da Presidenta). O imortal Henfil também gostaria de estar presente com seu Gastão, o vomitador – que infelizmente seria retirado por motivos de saúde pública da Aula augusta da ONU, pelo respectivo serviço de segurança...

                 O mais penoso das brincadeiras é quando elas recobrem, com o diáfano véu da fantasia, uma constrangedora realidade.

 

(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, Tratado de Direito Internacional Público, de Hildebrando Accioly)              



[1] Malgrado os meus cinquenta anos de serviço diplomático, dada a minha situação de inativo, não me valho de quaisquer indicações internas, não só pela circunstância de não mais recebê-las, mas também pela impositiva discrição que o ofício me ensinou.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

IBGE: Mouros na costa


                                            
          Para o lulo-sindicalismo – de que são irmãos o chavismo e o peronismo-kirchnerista – o IBGE é um animal a ser perseguido e dominado, assim como a terrível grande mídia.

           Mesmo em período eleitoral, quando a Presidenta  corre perigo de se tornar  história, o alto-comando petista pareceu bastante excitado com as perspectivas abertas pela gravíssima falha (conforme a Ministra Miriam Belchior) cometida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

           Calçando altos coturnos e com o gesto turvo da raiva sob encomenda, na audiência em Palácio, Dilma Rousseff “reagiu absolutamente perplexa que o IBGE possa ter cometido um erro tão básico”. A descrição, feita pela direta auxiliar Miriam Belchior, guardava talvez um pouco de ressaibo de uma derrota do grupo petista (entre os indigitados, Gleisi Hoffman e a própria Miriam), que desejara censurar uma anterior divulgação da Pnad.

           A vingança – aquele proverbial prato que se come frio – luzia nas expressões  e nas providências dos superiores petistas. Serão criadas duas comissões por causa dessa falta banal (Dilma). Em uma intervenção não tão branca no IBGE, foram criadas as tais comissões, uma para avaliar a consistência da Pnad. Integrarão essa primeira especialistas, nomeados por portaria. A segunda, a de sindicância, para investigar os erros da pesquisa e apurar responsabilidades. Essas duas comissões terão trinta dias para apresentar os resultados.

          Não é propriamente a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, que corre um sério risco. Como Vinicius Mota assinalou em nota-editorial na Folha, ‘agora, com o erro na Pnad e em meio a uma guerrilha sindical contra a presidente do IBGE, alguém no governo Dilma enxergou uma oportunidade’.

          O mais estranho é que o IPEA, outro órgão federal de estudos, não teve a mesma sorte madrasta. Como Vinicius Mota sublinha, o Ipea “cometeu uma barbaridade numa pesquisa a respeito da violência contra a mulher. Divulgou que 65% dos brasileiros concordava com uma frase machista sobre ataque sexual. A cifra real era 26%. Corrigiu-se, mas não foi alvo da reação ‘perplexa’ da presidente da República, tampouco foi ameaçado com intervenção.”

          A diferença no tratamento é fácil de explicar. O IPEA já foi domesticado há tempos, eis que a sua direção “desde o governo Lula alinhou-se ao esquerdismo de oportunidade e sobretudo ao governismo desbragado.” Trocando em miúdos, o IPEA  está aparelhado pelo PT, o que não é ainda o caso do IBGE.   

           Nesse contexto, é importante ler o testemunho de Míriam Leitão, colunista econômico-financeira de O Globo. Ainda que a presidência  negue ‘com números e mais números que haja sucateamento do IBGE’, o que dizer então do “corte que houve recentemente no orçamento pedido pelo instituto para pesquisas (em 2015) foi de 73%. Isso levou à suspensão de duas pesquisas, uma delas a importantíssima Contagem da População, e conspira contra a ideia de que houve aumento de meios e recursos humanos no órgão.”

            Apesar de ser um órgão vital para o Brasil, como esta no próprio título do artigo de Miriam Leitão, datado de 23 do corrente, e de ser qualificado como “fundamental ao Brasil”, o IBGE no presente universo de poder petista, está fragilizado.

            Não creio, contudo, que no atual momento político a presidenta Dilma vá com muita sede ao pote.  Se o erro, decerto instrumentalizado e exacerbado dentro do esquema lulo-petista, enfraquece o Instituto, Dilma ora enfrenta o seu maior desafio em termos de sobrevivência política (em comparação, a disputa com José Serra foi um passeio, malgrado a necessidade do segundo turno).

             Por isso, no campo dilmista será hora de ensarilhar armas, na esperança de poder usá-las brevemente. Tudo indica que Marina logrará vencer a prova de enfrentar com dois pífios minutos os dezesseis da Presidenta (e de  João Santana), no que concerne a torrente de mentiras despejadas pela propaganda política do lulo-petismo. Essa ‘vitória’ será, como é óbvio, chegar ao segundo turno, e então dispor de tempo igual para a propaganda (é de esperar-se, nesse contexto, que mais fundos e meios sejam encontrados para enfrentar com êxito o desafio das fabulações da máquina adversária).

             No entanto, por ora, a argumentação terá de cingir-se às contingências presentes. De qualquer forma, não interessa ao Brasil esvaziar o IBGE e transformá-lo na sombra ambulante (como os mortos no Hades) do Indec. A sôfrega arrogância dos Kirchner destruíu “a credibilidade” do Instituto argentino de estatísticas. Não se pode fundamentar o projeto de desenvolvimento econômico e social de um país em ficções e  dados de frágil conexão com a realidade.

 

(Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Diário da Mídia (XXIII)

 

Entrevista de João Paulo Capobianco

 

         Muito boa e positiva impressão no leitor das respostas do biólogo João Paulo Capobianco, principal interlocutor de Marina Silva com o agronegócio e setores econômicos, na série de Entrevistas à Folha da  Segunda Feira.

         Os jornalistas da Folha lhe fazem um elogio raro: “Ele não fala difícil, não inventa palavras como ‘desadaptação criativa’, não faz rodeios”. Com efeito, a leitura da entrevista confirma essa impressão.

         A manchete da matéria é: ‘Vamos acabar com a hipervalorização dos líderes dos partidos’.

          Quanto à linha de propaganda destrutiva de João Santana, marqueteiro de Dilma Rousseff, que tal a observação de Capobianco, no contexto da campanha do PT de que Marina acabará com o Bolsa Família: “ ‘O mais absurdo é que o PT acusa Marina de coisas que sabe que ela não fará. Uma forma irresponsável de simplificar a discussão, porque é mentirosa. Não é nem o PT, é o marqueteiro. Não duvido que o João Santana já não tenha preparado  um filme dizendo que Marina come criancinhas. É o que está faltando’, ironiza ele, sem sorrir.’”

            Perguntado se há projeto para emendas, disse: “ O fim da reeleição e a proposta de coligar programaticamente. Você se une em cima de uma proposta, não para juntar dinheiro, tempo de TV, esquema (grifo do Blog).Na reforma política você joga elementos para combater o ‘toma-lá-dá-cá’, que só vai deixar de existir  quando você não tiver o ‘dá-cá’. Nós não vamos dar.”

            E perguntado ‘como vai ser o perfil do eventual ministério da Marina ?’, Capobianco respondeu: “Não existe ministério no governo Dilma. Marina explorará o debate interno. Ministros serão ministros de verdade, com independência.”

 

Mais um Vice-Campeonato

            A derrota para a Polônia – depois de ter brilhado em passado distante, os poloneses, como time da casa, levantaram de novo a taça – assinala característica desagradável do vôlei brasileiro masculino: nos especializamos em vice-campeonatos.

               O vôlei brasileiro masculino deve muito ao técnico Bernardinho, mas nos últimos tempos (desde 2011, como mostra o quadro da Folha) sempre surge um rival que nos arrebata o título. Assim, perdemos na decisão para a Rússia na Liga Mundial 2011 e 2013, e nos Jogos Olímpicos, quando ficamos com a prata; para os Estados Unidos, na Liga Mundial, em 2014; e, por fim, a Polônia, na Campeonato Mundial.

               Já com as moças, temos vencido na final. Com o técnico José Roberto Guimarães, o vôlei feminino ganhou o ouro olímpico em Londres (2012) e em Pequim (2008), ouro no Pan-Americano de Guadalajara (2010), ouro no Sul-Americano de Lima (2011), e ouro no Grand-Prix de Tóquio (2009).

                 O técnico Bernardinho tem dado mostras de stress. Protestou contra a Federação internacional, que, segundo ele, empregou táticas para ‘desestabilizar’ sua equipe na decisão. Chega mesmo a declarar: “Vi tanta coisa feia. A Federação realmente age de uma maneira baixa demais”. Tem como desafetos a dupla de árbitros Milan Labasta (República Tcheca) e Frans Loderus (Holanda).

                   Nesse sentido, afirma estar preocupado com o futuro de nosso vôlei: “Acho que em termos de instituições estamos desprotegidos. A Federação está fazendo um pouco de gato e sapato de nós”.

                   São acusações graves. Cabe talvez perguntar se não se deveria  recorrer a  posturas mais diplomáticas.

 

A 'Democracia' Chavista   

                  

                     O tratamento dispensado a Ivan Simonovis, ex-chefe de polícia de Caracas, causa mais do que preocupação. Condenado a trinta anos de cadeia, e está metido na masmorra de ‘Ramo Verde’. Lá  se acha igualmente o líder da oposição Leopoldo López, preso em fevereiro último, sob a alegação de protestos violentos  nas ruas contra o atual Presidente Nicolás Maduro.

                       Simonovis, preso há nove anos em cela minúscula, sem qualquer luz solar, sofre de osteoporose (os próprios médicos da cadeia – que está em nível medieval – o alertaram que corre o risco de fraturar a coluna simplesmente ao agachar-se para calçar-se). As suas condições de saúde são tão graves que o regime concedeu-lhe prisão domiciliar temporária.

                           O regime chavista trata os opositores  como criminosos políticos do tempo de Joseph Djugashvili, mais conhecido como Stalin. Esse termo, obviamente, tem de ser entendido em contexto pior do que o tratamento dispensado aos delinquentes comuns nos presídios, v.g. do Maranhão e de Porto Alegre.

                           Pelo visto, não há perdão para as oposições e as condições carcerárias na Venezuela podem ser consideradas pré-Marquês de Beccaria, o grande nome do iluminismo italiano que tanto contribuíu com a sua obra ‘Dos delitos e das Penas’ para melhorar as condições nas prisões do século XVIII.

                                 

(Fontes:  Folha de S. Paulo,  O Globo )

Descontrole Fiscal


                                          

         O problema com o governo Dilma Rousseff está bem refletido na sua atual manobra para contornar a falta de fundos.

         O baixo crescimento da economia força um redimensionamento da previsão de receitas para 2014.  Dessarte, a Fazenda reduziu em R$ 10,5 bilhões a sua previsão de receitas para o ano corrente. No entanto, e aí entra a dílmica gastança, ao invés de adequar-se à realidade da economia – a projeção de crescimento do  PIB seria na versão oficial 0,9%, mas o mercado financeiro prevê apenas uma alça de 0,3%  - o governo vai sacar R$ 3,5 bilhões do Fundo Soberano.

          Temos de volta, por conseguinte, as velhas manobras na contabilidade fiscal, para fechar as contas públicas em 2014, sem corte efetivo nas despesas discricionárias (custeio e investimentos).

          Para compensar a perda na arrecadação, o Tesouro vai sacar R$ 3,5 bilhões do Fundo Soberano. Esse Fundo foi criado em 2008 (governo Lula), com recursos do superávit primário (que, em princípio, deve ser utilizado para amortizar os juros da dívida).  O Fundo Soberano é, portanto, uma reserva de emergência para ser empregada em momentos de crise. Já em 2012 – e portanto, sob a administração de Dilma Rousseff – o Erário sacou R$ 12,4 bilhões do Fundo para fechar o caixa do ano... (quando criada, a poupança tinha R$14 bilhões).

            Como se poderia esperar, a previsão dos especialistas no assunto é de que o Governo Dilma Rousseff , mesmo com as notícias ontem anunciadas, não vai cumprir a meta de superávit primário prevista para 2014.

           Tanto Margarida Gutierrez, da Coppe/UFRJ, quanto Raul Velloso (experto em contas públicas) dão opiniões assaz negativas sobre os procedimentos fiscais do Governo Dilma. Assim, a professora Gutierrez aponta para o ceticismo que cercou a criação do Fundo Soberano: “é mais uma medida que só mostra a indisciplina fiscal que reina no país desde 2012”.  E Velloso aduz: “O que eles estão fazendo e refazendo são estimativas, sem nenhum corte.”

            Na verdade, esse fim de festa da Administração Rousseff corre o risco de tão só repetir o jogo de cena do ano anterior. Então, como se recorda, o Ministro Guido  Mantega, em jogada de mágico, tirou da cartola o coelho de um surpreendente superávit primário.

            O efeito de prestidigitador duraria muito pouco. Na verdade era outro truque fiscal com o emprego de Restos a Pagar, para a suposta salvação da lavoura. Daí há uma forte possibilidade – que o comportamento fiscal antecedente aponta com fortes indícios de probabilidade – de reincidência da Fazenda em manobras do gênero.

             Intui-se, portanto, o ceticismo dos especialistas acima citados no que tange às perspectivas (fiscais) para o corrente fim de Governo. No ar, além dos aviões de carreira, na frase famosa de Aporelli, paira o ceticismo acerca de mais essa mágica manobra que também teria prazo de validade bastante reduzido, haja visto o descrédito colhido pelas lambanças fiscais anteriores.

( Fonte:  O Globo )

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Rescaldo de Fim de Semana

                       

Massacre de Marina?

         Como já referido nesta coluna, os ataques do PT à candidata Marina Silva continuarão.  A campanha de Dilma segue as determinações do marqueteiro João Santana: a ênfase continuará a ser negativa. A objetividade fica em segundo plano. A prioridade está no ataque, com máxima atenção a tudo que gere dúvidas sobre a confiabilidade da ex-petista.  Por isso,  não há interesse maior do estamento petista em delinear, em termos conceituais,  programas para valer. O objetivo é o ataque à ameaça Marina, destruí-la em termos de apoio na opinião pública, por meio de dúvidas, imprecisões, mentiras mesmo.

         Não é uma campanha que tenha por escopo desenhar uma perspectiva de atuação de Dilma em relação ao Povo brasileiro. As limitações da Presidenta são demasiado conhecidas. A sua responsabilidade em trazer de volta a inflação, a sua leniência com a corrupção (depois do curto interregno da faxina) e as características da administração da discípula são de molde a desencorajar quaisquer ilusões sobre a possibilidade que o Dilma 2 venha a ser diverso do Dilma 1. Um governo chocho, com mais escândalos, e a inchação do ministério que tudo levaria a crer iria atingir o número mágico dos ‘quarenta’.

         Em consequência, está fora de hipótese uma campanha propositiva. A ênfase estará no negativismo anti-Marina, que visa retirar a aura de novidade e de promessa da candidata do PSB. Para tanto servirão a meia-verdade e até mesmo a mentira deslavada.

        João Santana não há de esquecer a máxima do Dr. Joseph Goebbels, corifeu da propaganda nazista, segundo a qual mentira repetida vira verdade. Continuará a bater na tecla de campanha argumentos toscos e duvidosos, confiado na baixa cultura do meio a que se dirige. Para que se veja o estilo, basta assistir o filmete sobre o Banco Central, que a crer-se na falaciosa apresentação vai retirar a comida da mesa do pobre. Que não se tenha dado direito de resposta à  publicidade tão  falsa e desonesta diz muito sobre as condições em que trabalha o mago da propaganda petista.

        Segundo ‘levantamentos internos’ – é pelo menos o que consta da informação vazada pela campanha petista à reportagem da Folha – a duas semanas da eleição, a cúpula dilmista “trabalha com o cenário, baseado em levantamentos internos, que a petista superou Marina Silva nas simulações de segundo turno e seguirá na estratégia de mostrar que a candidata do PSB não estaria preparada para dirigir o país”.

       Assim, no intervalo que aguarda as novas pesquisas, se insere a perspectiva de que a estratégia dilmista navega em mar de almirante, enquanto avança contra a canoa de Marina, que perderia a vantagem não nos cenários do Datafolha, mas em uma projeção jogada para o público, a quem se deseja influenciar no sentido do poder petista...

 

Dilma e Paulinho 

 

          Ricardo Noblat, na sua conhecida coluna das segundas feiras de O Globo, que avulta pela importância das informações levadas ao conhecimento público, nos refere que Dilma Rousseff, na sabatina de O Globo com a candidata à reeleição, ‘repetiu várias vezes que era a principal interessada na apuração de denúncias de corrupção dentro ou fora da Petrobrás.’ Quanto a Paulo Roberto Costa ela garantiu que ele jamais fora homem de sua confiança. Não tinha com ele sequer a mais remota intimidade. Tanto que o demitiu em 2012.’

          Noblat vai adiante. Àquela altura da sabatina – consoante declara – não sabia ainda que o homem sem afinidade com Dilma havia sido um dos quatrocentos convidados  por ela para o casamento de sua filha em Porto Alegre (final de 2008). Presentes Lula, dez ministros de Estado e onze governadores. Ela trajava um vestido azul-petróleo. Lula confraternizou com Paulo Roberto, a quem chamava de ‘Paulinho’.

          Como foi indicado alhures, Lula manteve reuniões com o diretor Paulo Roberto.

           Aproveitando a sabatina, Noblat tentou por três vezes perguntar o seguinte a Dilma: “Se a senhora tanto se empenha em investigar a corrupção, por que não deu ordens expressas ao seu pessoal da CPI da Petrobrás para proceder assim”. Como a Presidenta tergiversasse e não respondesse à pergunta, o repórter tornou por mais duas vezes à carga. Debalde.  Quando quer, Dilma sabe fazer ouvidos de mercador.

            Apesar de dizer expressamente – como consta do final da coluna de Noblat – que ‘vou fazer a minha campanha. Tenho muito que mostrar. Não posso ficar preocupada com qualquer pessoa.’  No entanto, desde que apareceu empatada no Datafolha com Marina, ‘Dilma se ocupa em fabricar  mentiras diárias contra Marina. Precisa que a rejeição dela aumente para que possa tentar derrotá-la no segundo turno.’

 

O Erro do IBGE na pesquisa da PNAD

 

           Um dos poucos órgãos públicos que não foram aparelhados pelo PT, os dias de autonomia (e de consequente credibilidade) do IBGE podem estar contados.

           A primeira reação da Ministra Miriam Belchior, do Planejamento – a que está subordinado o IBGE – não poderia ser mais dura. Classificou a falha como gravíssima e acrescentou que Dilma Rousseff ficou perplexa ao ser comunicada do problema.

           A reação da Ministra deve ser vista no contexto da derrota inicial no que tange à anterior publicação da Pnad, a que se opuseram Gleisi Hoffman e Miriam Belchior. A abertura da sindicância já está marcada.

            Embora procure aparentar isenção, a reação da Presidenta tampouco pressagia boas coisas para o IBGE.  A sua resposta na entrevista é um tecido de contradições. Assim, Dilma diz que o erro do IBGE é ‘banal’, o que entretanto não a impede de asseverar que a titular do órgão, Wasmália Bivar, pode cair, se houver ‘falta’.  A Presidenta, com o seu modo algo confuso, afirma: “Em princípio, não julgo ninguém antes das provas. Agora, a decisão a respeito do conforto  (de ficar no cargo) é dela (i.e., a presidente do IBGE), é pessoal e não é minha. Se se caracterizar qualquer falta, é óbvio que ela não pode ficar no cargo. Mas, não tendo falta...”

            Na prolixa linguagem da Presidenta, não faltam estocadas para que Wasmália se exonere. Tentando bancar o bom guarda (enquanto a Ministra Belchior seria o mau...), o viés presidencial é mais do que óbvio. É a velha intenção petista  de subjugar a autonomia do órgão técnico, em  que o PT sofrera o primeiro revés – até hoje não perdoado – quando da tentativa de amaciamento da Pnad...

            Será que o PT perderá essa oportunidade de fazer sangrar (como os picadores na tourada) um pouco além da conta o touro IBGE, culpado de ser demasiado sério e  autônomo?

            Que não haja dúvida de que a única salvação para o IBGE de não ter, por ora, cerceada a autonomia está no altar da Santa Reeleição. Se Dilma e sobretudo o Líder Máximo, Lula da Silva, têm juízo na cachola não cometeriam tal erro político...

 

(Fontes:  Folha de S. Paulo,  O Globo )

domingo, 21 de setembro de 2014

Corrupção de Regime na Petrobrás ?


                       
         Os escândalos na Petrobrás se sucedem. Como se verifica, não se tratam de operações isoladas na megaempresa.

          Há uma sequência (pattern), que se estende às grandes operações (Pasadena, refinaria Abreu e Lima). Dá para entender agora as dificuldades da Petrobrás, a maior empresa nacional, garroteada por preços inflados.

          Infelizmente, a absurda diferença de preço nas transações relativas à refinaria de Pasadena não pôde ser examinada para valer, pela fraqueza numérica da oposição e o esmagador domínio da maioria, dominada pelo PT.

          O sonoro, estridente despacho de Dilma Rousseff em resposta à pergunta de repórter,  mereceu muito alarde, mas no final de contas não correspondeu às expectativas levantadas.

          No caso dessa velha refinaria, o que choca é a brutal diferença nas cotações e o quanto a empresa teve de pagar a maior. Por mais circunspectas e compostas que tenham sido as explicações dos dirigentes implicados na operação, pairou sempre, teimosa, a estranha discrepância nos valores. Assim, por mais técnicos que fossem os esclarecimentos, persistia a sensação de que os dados não batiam, e por isso devoravam – como nos enigmas – a credibilidade das autoridades.

           Graças à Polícia Federal e à Operação Lava-Jato, se pôde pilhar uma série de ilícitos ligados à Petrobrás, como a transferência pelo doleiro Alberto Youssef  de US$ 444,6 milhões, por meio de operações fictícias de exportação e importação.

            A atividade de Youssef se iniciou, no que tange a ‘contratações de bens e serviços para a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco’ que eram negociadas por Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento da estatal, que hoje também está preso.

             Dessa teia de ilícitos que pesou sobre a empresa, teriam participado mais dois diretores – apontados por Paulo Roberto no esquema da delação premiada – Renato Duque (que teria sido indicado por José Dirceu) e que seria próximo de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. O outro diretor incriminado é Nestor Cerveró.

             Todo esse escândalo parece ainda mais grave, pela maneira com que se tentou justificar o injustificável. Ficou no respeitável público – que somos todos nós, ainda mais porque a Petróleo Brasileiro S.A. sempre foi considerada como a jóia da coroa, a maior empresa nacional, fonte de orgulho para quem ainda se crê patriota – uma impressão de que há muita coisa não respondida.

            A Petrobrás não é propriedade do partido do governo. A grita com a tentativa da Petrobrax era válida, e por isso foi apoiada pela opinião pública. Mas essa do PT de se apossar dos órgãos públicos e loteá-los, tampouco deve ser aceito.

             A Petrobrás, cuja lei inicial foi assinada pelo Presidente Getúlio Vargas, em seu último governo, é propriedade do Povo brasileiro, e por isso os governos – como o do PT – devem tratá-la com o respeito devido, e não com o que estão fazendo com ela agora, a exemplo de tantas outras empresas públicas.

 

( Fonte:  O Globo )

sábado, 20 de setembro de 2014

Uma Estória Anunciada

                        

           O marqueteiro João Santana será mesmo um mágico, na verdade um taumaturgo? Segundo corre a lenda, ou a história – a presidente Dilma Rousseff o consulta em tudo que diga respeito à comunicação política, e a sua palavra tem peso determinante.

           Sendo um contratado permanente do PT, tanto Lula, quanto Dilma tendem a seguir-lhe à risca as indicações. Por uma questão de experiência – e diria até de personalidade – é de supor-se que com a discípula a palavra do marqueteiro pese ainda mais.

           Consoante a revista VEJA, o crescimento inicial da candidatura de Marina motivou reunião do alto comando petista, que decidiu por uma reação forte. Há muitas maneiras de formular campanha política de crítica a candidaturas adversárias.

            Experiente no mister, Santana sabe como deva proceder. E não há para ele melhor situação do que agora, diante da brutal diferença nos tempos respectivos para a propaganda da candidata do PT (onze  minutos) e para Marina, com risível espaço em torno de dois minutos.

            As condições do êxito desta publicidade agressiva e de ataque, além da habilidade do marqueteiro e da disforme distribuição de tempo (que suscitaria, de certo, em outros rincões contestações constitucionais) também pressupoem um firme dispositivo jurídico-institucional que preserve indenes e sem qualquer retificação os filmetes de Santana.

             Quais são os públicos-objetivo de Santana ?  Precipuamente as classes C, D e E, que são tidas como mais vulneráveis em termos de conhecimento político, a par do temor quanto a preservação de seus benefícios (bolsa família, etc.). Por isso o marqueteiro não pode ser sutil, e o enfoque  tem que ser grosso, tosco e primário. É tautológico, portanto, que tem de carregar nas tintas, abandonar qualquer sutileza, para transmitir a sua mensagem ao povão.

               Grita aos céus, portanto, que a declamada habilidade do mago João Santana pressupõe não só um espaço de tempo desproporcional àquele concedido à candidata Marina, senão e a fortiori um cenário político-jurídico  que não vê problemas com esse tipo de temática simplista, deformativa e mesmo fora da realidade constitucional brasileira. Se as condições fossem outras – e aqui não falo sequer do tempo alocado à candidata do esquemão do poder petista e aquela do PSB – a desenvoltura do senhor Santana tenderia a ser cerceada, com a poda de todos os eventuais acréscimos distorsivos nessa propaganda virulenta.

               É tão grande a investida do ‘magico’ Santana, que ele até se pode dar ao luxo de ver cortado aqui e ali algum contrapeso, pois na prática as cancelas estão todas abertas e de par em par.

               No entanto, esses avanços nas prévias, obtidos nas condições acima enunciadas, não impedirão a candidata do líder máximo de acabar morrendo na praia. Com toda a desigualdade imperante no primeiro turno, e a reação oficial arrancada a ferro e fogo, o curriculum-vitae do marqueteiro assinalaria assim em nota de pé de página a inegável habilidade e o denodo do profissional, posto que não tenha logrado a reeleição, que é o objetivo precípuo e primordial de toda essa campanha política...

 

( Fontes:  VEJA, Folha de S. Paulo,  O  Globo )