quinta-feira, 5 de julho de 2018

Trump considerou invadir a Venezuela


                         

         O republicano Donald Trump levantou em reunião confidencial a possibilidade dos Estados Unidos invadirem a Venezuela para derrubar o regime de Nicolás Maduro. Participavam, no Salão Oval, o então Secretário de Estado, Rex Tillerson e o Conselheiro de Segurança Nacional, H.R. McMaster.
         O raciocínio de Trump se baseava em duas outras operações americanas contra o Panamá, em que prenderam Noriega, e Granada, realizadas pelo governo  Bush (pai). Nessa ocasião (agosto de 2017) os especialistas envidaram esforços para dissuadir Trump, fundados sobretudo no argumento que a empreitada ameaçaria o apoio recebido dos países latino-americanos.
          No dia seguinte, mostrando-se cético quanto aos argumentos para preservar o apoio dos governos latino-americanos, alarmou o círculo mais próximo, com ditos sobre a 'opção militar' para tirar Maduro do poder. Levantou, inclusive, a questão com o presidente colombiano Juan Manuel Santos.
           Então em setembro, às vésperas da Assembléia Geral das Nações Unidas, Trump retomou o assunto, desta feita em maior profundidade. Tal ocorreu em jantar com líderes de quatro países latino-americanos aliados, inclusive o colombiano Santos.
             Como é seu hábito, Trump costuma não levar em consideração  observações para evitar um tema delicado. Nesse contexto, encetou a sua menção à questão com o comentário de que "minha equipe me alertou a não falar sobre isso". A seguir, perguntou a cada líder latino-americano se tinha certeza de que não queria uma solução militar. Todos em unissono responderam que tinham certeza.
             A preocupação de Trump sobre o assunto mostra que o presidente deu muita atenção à crise na Venezuela,  o que o diferencia de seu antecessor, Barack Obama.
              Há reações contrastantes a esse interesse manifestado por Trump. Nesse contexto, fonte do Conselho de Segurança Nacional reiterou que os Estados Unidos considerarão todas as opções à disposição, para ajudar na restauração da democracia na Venezuela e o seu retorno à estabilidade política e econômica.
               Nesse quadro, sob a liderança de Donald Trump, não só os Estados Unidos, mas também o Canadá e a União Europeia impuseram sanções a dezenas de funcionários do alto escalão chavista, inclusive ao próprio Maduro, por acusações de corrupção, tráfico de drogas, e abusos em relação a direitos humanos.
                Ainda nesse quadro, os Estados Unidos distribuíram mais de US$ 30 milhões para ajudar os países vizinhos da Venezuela a absorverem um fluxo de mais de um milhão de nacionais que abandonaram o país.
                 Como se sabe, o Brasil é o segundo país latino-americano em termos de refugiados da Venezuela. Não há indicação se houve ajuda americana para a substancial migração de naturais venezuelanos para o Brasil (Roraima). O maior número se dirige para a Colômbia, dada a cercania desse país nesta geografia do infortúnio da Venezuela sob a ditadura de Nicolas Maduro.

( Fonte:  O Estado de S. Paulo )

Limites ao Supremo ?


                           
        O editorial do Estado de S. Paulo de hoje, cinco de julho, reveste indubitável importância e oportunidade. Por isso, me permito citar in extenso 'Limites ao poder monocrático'.
       "Foi aprovado recentemente em caráter conclusivo pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 7.104/2017 é muito oportuno nestes tempos de protagonismo judicial. Ele estabelece que, no caso de Ação Direta de Inconsti-tucionalidade (Adin) e de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), a concessão de medidas cautelares depende exclusivamente da aprovação da maioria absoluta dos membros do tribunal competente.
         Na realidade, continua o editorial do Estadão, o ar. 10 da Lei 9.868/99 já prevê essa condição, mas como os tribunais, especialmente o Supremo Tribunal Federal (STF) têm ignorado a exigência, é conveniente pôr um esclarecedor ponto final a esse desequilíbrio institucional, que, além de provocar insegurança jurídica, interfere abusivamente na relação entre os Poderes.   
         O Poder Judiciário, especialmente o Supremo, tem competência para realizar o controle de constitucionalidade das leis aprovadas pelo Poder Legislativo. Trata-se de uma consequência do próprio Estado Democrático de Direito, no qual nenhum dos Três Poderes dispõe de autonomia absoluta. Todos devem respeitar a Constituição, e cabe à Justiça dar a palavra final sobre a constitucionalidade das medidas aprovadas pelo Congresso.
         Os limites do poder de legislar não podem, no entanto, subverter o equilíbrio institucional, fazendo com que a voz de uma única pessoa - por exemplo, um ministro do STF - valha mais que a voz conjunta da Câmara e do Senado. As leis vigentes têm presunção de constitucionalidade, o que é decorrência do respeito mínimo que se deve ter às decisões dos representantes eleitos pelo povo.  Por isso, o art. 97 da Constituição define que "somente pelo voto da maioria absoluta  de seus membros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade da lei ou ato normativo do Poder Público".
        Vale lembrar que as leis, além de terem sido aprovadas pelo Congresso, são submetidas à análise  do Poder Executivo. Muitas vezes  o presidente da República  veta determinado trecho legal por considerá-lo in-constitucional. Neste caso, o projeto de lei volta ao Congresso, que decidirá pela manutenção ou não do veto. Ou seja, para que uma lei entre em vigor, ela passou antes pelo crivo do Legislativo e  do  Executivo.

      É, portanto, manifestamente desproporciona a facilidade com que hoje um ministro do STF suspende sozinho, por liminar, os efeitos  de uma lei. Recentemente, o ministro Ricardo Lewandowski entendeu  que um artigo da Lei das Estatais era inconstitucional e instaurou, monocraticamente, novas obrigações para alienação do controle acionário, tanto de empresas públicas como de suas subsidiárias e controladas.
    
      Além de aumentar as dificuldades para privatização das distribui- doras da Eletrobrás, a liminar do ministro Lewandowski travou os planos de recuperação financeira da Petrobrás, que incluíam a venda de alguns ativos. Com a decisão, a Petrobrás precisará ter a autorização do Congresso para realizar as vendas planejadas.
  
      O PL 7.104/2017 prevê  procedimento especial para o período de recesso judicial. Neste caso, havendo urgência excepcional,  o  presidente do STF poderá monocratica-mente conceder medida cautelar em Adin. Nesta hipótese, o pleno do Tribunal "deve-rá examinar a questão até  a sua oitava sessão após a retomada das atividades". Hoje, um ministro concede liminar e não se sabe quando o colegiado irá julgar o mérito. Por exemplo, decorridos mais de cinco anos, o plenário do STF ainda não julgou medida cautelar de março de 2013 contra artigos da Lei 12.734/12, que tratam da distribuição dos royalties do petróleo.
               O controle de constitucionalidade deve servir para que a Constituição pre-valeça. Do jeito que se faz hoje, ele possibilita que a voz de uma única pessoa, que não recebeu nenhum voto, sendo tão somente um integrante de um órgão colegiado, impere sobre toda a República. É urgente retificar tal anomalia, que, sob pretexto de proteger a Carta Magna, a subjuga.'

(Fonte: editorial "Limites ao poder monocrático" do Estado de S. Paulo).

quarta-feira, 4 de julho de 2018

O Gabinete Merkel e sua sobrevida


               

        Por quanto tempo a sobrevida do gabinete de Frau Angela Merkel dependerá da CSU (União Social Cristã)?
          Em verdade, de repente, o céu diante da Merkel se enfarruscou. Quando em política se fala de sobrevida de um governo (ou ministério), há um sinal claro de mares turbulentos à frente.
          Por isso, quando Horst Seehorf, líder do partido bávaro União Social Cristã (CSU), e que é ministro do Interior no gabinete da Merkel (CDU) com a SPD (social-democrata), dizendo haver chegado a um acordo sobre imigração com a Merkel, estaria, então, a temida crise resolvida?
          Sim e não.  Do lado positivo, Seehorf podia anunciar que chegara a acordo "para impedir a imigração ilegal na fronteira entre a Alemanha e a Austria". A Merkel, por sua vez, explicou que manterá os imigrantes em centros de trânsito na Alemanha, enquanto se negocia o seu retorno aos países da União Europeia em que foram de início registrados como solicitantes de refúgio.
           A Chanceler acrescentou que o acordo entre a CSU e seu partido garantirá o princípio da liberdade de movimento dentro da U.E., enquanto permite à RFA adotar "medidas nacionais" para limitar a chegada de imigrantes.
            Segundo a Merkel "o espírito de parceria na U.E. será preservado e, ao mesmo tempo, um importante passo será dado para organizar e controlar a migração  secundária.  Por isso, acho que encontramos um bom acordo após difíceis negociações."
             Tenha-se presente que o lider do partido bávaro, Horst Seehorf, pressionava a Merkel a adotar regras de imigração mais rigorosas e fechar a fronteira da Alemanha a todos os solicitantes de refúgio registrados em outros países.
              Nas conversações prévias, a Merkel havia rejeitado a proposta, alegando que qualquer solução deveria envolver as outras nações da U.E.  Como já foi antecipado, Seehofer dera no dia 22 um ultimatum de quinze dias para que a Chanceler chegasse a um acordo com seus parceiros do bloco para reduzir o fluxo migratório.
                Terminando na semana passada uma cúpula entre os líderes europeus sem solução definitiva, Seehofer voltou a oferecer sua renúncia ao cargo de ministro federal (Interior) assim como à chefia da CSU.
                  No entanto, seus parceiros da legenda insistiram em que retomasse as conversas com a Chanceler.  Por sua vez, o SPD (partido social-democrata) ainda deve dar sua aprovação ao  acordo.
                   Ângela Merkel, há quase treze anos no cargo, está enfraquecida pela relativa derrota de seu partido, a CDU, nas eleições de setembro, quando a sua bancada sofreu uma redução. Sem embargo, a Merkel logrou formar uma coalizão com a CSU, que tem posição contrária à imigração.
                    Em 2015 e 2016, Ângela Merkel adotara posição corajosa, mas politica- mente arriscada. Recebeu cerca de um milhão de imigrantes nesses dois anos, com que discrepou de muitos outros governos ocidentais, que ao invés de abrir os portões das aduanas, receberam os refugiados - mormente os da guerra na Síria - em número bastante escasso.
                     Se não faltou à Merkel coragem política para dissociar-se do ramerrame do conta-gotas para o ingresso nos portões das demais  potências e pequenos países, ela iria pagar um alto preço pela sua corajosa abertura, com o ingresso na RFA de cerca de um milhão de refugiados.  Diante dos inevitáveis problemas sociais (e políticos) que esse aporte iria provocar na Alemanha, a Merkel perderia uma série de eleições nos Laender* mais afetados por tal 'invasão'.
                       Agora, ressurge a hidra do estrangeiro dando na Baviera ajuda a neo-nazista Alternativa para a Alemanha (AfD), que com as suas soluções radicais e xenófobas  para o problema migratório ameaçam na Baviera o predomínio da União Cristã-Social, velho parceiro da CDU nas coalizões presididas pela Merkel (na verdade, a aliança entre esses dois partidos data da era de Konrad Adenauer). As exigências de Horst Seehorf se prendem, por conseguinte, à própria sobrevivência política - a AfD ameaçaria a CSU na Baviera, em termos de governo local. Não há nada, portanto, de abstrato nessa disputa entre a CSU e a AfD. O perigo está justamente aí.

*  Estados.

( Fonte:   O Estado de S. Paulo )       

Cresce o isolamento de Trump


                        
        As marchas se sucedem nos Estados Unidos e aumenta o repúdio à  Administração Trump. Note-se que se fala de repúdio e não de simples contestação ao ruinoso governo de Donald Trump.
          É de assinalar-se que o protesto em Washington começa em frente à Casa Branca, como se se desejasse apontar a causa do mal que aflige o país. Pois a infame sugestão de Jeff Sessions, Secretário de Justiça de Trump, não germinou no ar, mas no ambiente palúdico dessa Administração, que parece fremir de prazer quando tem oportunidade de fazer o mal, como ao ensejo da infame ideia de separar as famílias, sem deter-se instante sequer em sopesar o sofrimento que causaria à  genitora,  mas, sobretudo, a uma criança, separá-la da própria mãe, como no caso do menino brasileiro, de que me ocupei em blog recente.  
          E qual o motivo de tantas monumentais passeatas, da difusão dos protestos, e da indignação popular?
           Separar adrede o filho da genitora não é um ato gratuito, porque gera demasiada angústia, profundo recalque, e a insegurança extrema de quem se vê em ambiente hostil, rodeado por seres estranhos, que semelham regozijar-se com a angústia da criança.
           A Trump, viria essa estranha dádiva de uma figura inventada por Obama - a quem faltara o bom senso ao nomear, ele um democrata negro, a um posto de relevância como o de diretor do FBI, a James B. Comey, ainda por cima republicano, que iria deleitar-se em lançar armadilhas para a candidata Hillary Clinton, até o infame ponto na vigésima quinta hora de atiçar no incauto eleitor a suspeita de atroz deslize de parte da democrata, ao mandar pressuroso ao Congresso mensagem de possível trapaça de Hillary - e logo na ocasião dos chamados eleitores antecipados - que poderia encontrar-se no computador do marido afastado de Huma Abedin, a competente secretária da candidata democrata. Nada, por certo, foi dito ou escrito quanto a possível infração. Mas anunciar ao mundo ao abrir-se o período dos eleitores apressados sem nada dizer, mas deixando tantalizante pairar a dúvida que algo contra Hillary pudesse ser afinal encontrado?
            Qui se ne frega (quem acaso se importa) dizem os meus amigos italianos, quando ocorre um caso similar a esse ? No entanto, a má-fé dessa figura malévola de James Comey cuidaria de levantar a suspicácia do eleitor: quem sabe não aconteceria agora o escândalo do soez truque por fim  descoberto em tricky Hillary?
             Que me perdoe o leitor se retorno a essa caverna em que germinaram os males que acabaram com as esperanças da maioria do Povo americano - pois, também neste caso Hillary, a candidata perdedora, a quem Trump queria ver na cadeia (imaginem gente, logo ele que tem tantas no seu rastro...) venceu (como Albert V. Gore) no cômputo do sufrágio popular, e é derrotada pela vagante abstração do século XVIII. E só para terminar essa historieta com final ruim, o ignorante D.Trump, nervoso diante da possível derrota, chega a dizer que os sufrágios a mais de Hillary tinham vindo de eleitores ilegais, que atravessaram a fronteira para votar na democrata...
             Bem-feito para a América - como diz a gente da terra - se se apega a um procedimento obsoleto, inventado na época das carruagens, para um país continental como os Estados Unidos da América...

(Fonte: memórias de uma noite de apuração, trazidas para insones espectadores pela CNN)  

Estrebucha a ditadura sandinista


                       
         Pelo menos dez pessoas ficaram feridas neste fim de semana quando os sólitos desconhecidos dispararam contra marcha de manifestantes que exigiam a deposição  do  presidente da Nicarágua, Daniel Ortega.
            Esse grave incidente ocorreu em propriedade particular, invadida pela súcia paramilitar de Ortega.
            Não se detém o levante que a máfia sandinista há meses intenta abafar.
             Mais esse tiroteio ocorreu quando um grupo de manifestantes - que participava da "Marcha das Flores", que clama pela pronta renúncia do ditador Daniel Ortega - tentara entrar na Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua - em apoio aos estudantes que lá se acham entrincheirados.
              Justiça é o que clama o Povo nicaraguense. Ilustrando a bárbara violência do regime sandinista, os demonstrantes populares exigem justiça pela morte de vinte crianças, nos últimos sessenta dias, em meio à brutal repressão  pelo governo Ortega.
                Nesses dois meses se registram mais de 220 vítimas fatais.
                Entre os casos que mais chocaram a população, está o de um bebê de cinco meses que foi queimado vivo em incêndio criminoso na própria residência familiar. E ainda no campo infantil, o caso de um menino baleado na cabeça em rua de Manágua. Em ambos as ocorrências, as famílias enlutadas apontam como autoras as forças da ditadura de Daniel Ortega.
                 Perguntado acerca dos motivos que o levavam a arriscar a vida, assim se expressa estudante de quinze anos, com o rosto coberto por máscara: "Estou aqui porque quero ver livre a minha Nicarágua". E acrescentou: "Doi que jovens como eu tenham morrido, mas devemos continuar lutando para derrubar o ditador."
                  O movimento revolucionário se espraia por toda a Nicarágua. Em outras cidades, como León, no norte, e Masaya, no sul, que são os centros urbanos segundo e terceiro em importância na terra nicaraguense, também foram realizadas marchas da "Aliança Cívica pela Justiça e Democracia", a qual reúne a sociedade civil.  Em um formato já tristemente costumeiro, grupelhos de gente encapuzada e fortemente armada - cães de fila do ditador Ortega - tentaram insuflar o pânico durante as ditas manifestações pacíficas.
                   É o embate do Povo nicaraguense, cansado e revoltado por causa da podre ditadura dos Ortega.  Nesse contexto, a "Marcha das Flores"  foi a primeira na capital Manágua desde trinta de maio,
                     Então, nessa data, outra manifestação, em solidariedade às mães de jovens mortos nos protestos, foi atacada por policiais e paramilitares, a soldo da súcia dos Ortega. Dezoito mortos jaziam no chão, ao cabo de mais esse choque, dos que defendem a liberdade contra o bando criminoso que busca, a despeito da manifesta vontade da Nação, enojada pela corrupção e desmandos da quadrilha dos Ortega.
                      O dobre do Sandinismo pode ser ouvido e sentido em cada esquina da Nicarágua.
                  O Povo nicaraguense está cansado diante da insolência e da crueldade dos sequazes do sandinismo, que, como todos os rótulos carcomidos pela exploração da respectiva gente pacífica e laboriosa, já farta da avidez da camarilha sandinista, não mais se detém diante da intimidação e dos sangrentos atos de um governo podre, que se recusa contra toda a evidência da geral condenação pela gente da Nicarágua,  a acatar tal veredito e partir em paz.
                        Só os cegos  pela ambição podem pensar que resta ao bando sandinista alguma esperança em prevalecer.
                      Pela força de vontade e da própria resistência do Povo da Nicarágua, a despeito de todos os crimes da canalha sandinista, estão contados os dias do infame regime que buscou escravizar a boa gente nicaraguense.
                      Já se entrevê um futuro melhor, cujas estacas hão de aniquilar as criminosas ameaças  dessa maldita governança, enquanto desaba a infame quadrilha dos Ortega.

( Fonte:  O  Globo ).

terça-feira, 3 de julho de 2018

O que fazer da Merkel e dos líderes populistas ?


                   
        A crise provocada por Horst Seehofer,  chefe da CSU, continua pendente. Não se trata de uma questão menor sobre a Lei do Asilo entre a Chanceler Angela Merkel, que encabeça a CDU (os cristãos democratas) e o Ministro Horst Seehofer, atualmente Ministro do Interior e chefe da CSU, parceiro de longa data da CDU, e que na esfera regional (Baviera) está sendo empurrado para a direita.
          Herr Seehofer tem feito várias ameaças de exonerar-se, se Frau Merkel não reforça as Leis da Alemanha sobre o asilo. Como toda questão pendente, às vezes dá a impressão de estar sendo resolvida, depois de uma mini-crise. No entanto, como o problema persiste, e malgrado as suas idas e vindas cresce a impressão de que as diferenças crescem tanto entre os dois partidos, quanto entre os líderes.
           A crise está na possibilidade de que o antes partido irmão da CDU - a CSU - apresentasse uma cisão além das possibilidades de que remendos a contessem, e por isso deixasse a aliança com a CDU.  Com a partida dos sociais cristãos, a coalizão encabeçada pela Merkel  - a CDU e a SPD (os sociais democratas)  ficaria com dois votos a menos de ter a maioria absoluta no Bundestag.
             Tornar-se-ía impossível evitar a convocação de novas eleições,  e no horizonte a perspectiva do fim da carreira política da Merkel. Como algumas vezes ocorre, dissídios nascidos de próceres menores poderiam ocasionar o término da carreira de uma grande líder.
              Como é sabido, a crise nasceu na CSU, eis que a antiga irmã da CDU se vê ameaçada na sua direita pelos neo-nazistas da Alternativa para a Alemanha. Pela repetição da  necessidade de  Leis de Asilo  mais severas,  esse partido vem crescendo pelas franjas da direita, e com isso ameaçando a maioria que a CSU tradicionalmente mantém, de modo a assegurar-lhe a administração do Land da Baviera.
               O medo se vai transformando em pavor nos membros da CSU, o que repercute no chefe partidário, por muito um simples apêndice da CDU, mas hoje ameaçado de perder  a  porção de votos necessária para aferrar-se ao seu domínio na Baviera. A derrota seria um choque que repercutiria tanto na perda do poder no Land, e por conseguinte na representação federal  no Bundestag. Tudo isso apavora os membros da CSU, que posta contra a parede, renega princípios e endurece outros, notadamente aqueles que concorram com a Alternativa para a Alemanha (neo-nazistas). Na realidade, a CSU está sendo empurrada para a extrema-direita (ou quase), pela visão da crescente penetração da AfD (Alternativa para a Alemanha) junto aos eleitores da Baviera (e, obviamente, não só no Land bávaro).
                   Esse carrossel está mudando tanto de inclinação, quanto de público, e a ameaça para a CSU que venha a perder o mando na Baviera põe fora do sério tanto Herr Seehofer, quanto os deputados e todos os funcionários menores - que se sentem com os seus privilégios ameaçados, eles que estavam habituados a uma supremacia de cerca sessenta anos.
                      Não há dúvida que a Merkel não será derrotada pela falta de mérito ou de habilidade política. Não lhe faltam trunfos nem capacidade inventiva, mas como a política é a primeira a mostrar, os sentimentos mais baixos - que a AfD se compraz em recorrer - podem superar a sutileza e o talento, quando se servem do medo, como é o caso do temor perante o imigrante que por motivos por vezes insondáveis tende a ser visto em certos casos como uma ameaça.
                       Servindo-se do pânico, do preconceito e de outros sentimentos pouco nobres,  a AfD incute na população - e tais reações não se limitam a classes sociais - um temor do estranho e estrangeiro, máxime se proveniente de países subdesenvolvidos.
                       A Merkel encantou o mundo - mas não necessariamente a Alemanha - com a sua coragem em abrir as portas do Reich para um milhão de indivíduos que batiam em vão nas aldravas de outras alfândegas. Através desse gesto, ela garantiu a gratidão de grande parte desses infelizes, mas não necessariamente junto a seus próprios co-nacionais. Nesse sentido, a Merkel quando o ingresso dos flagelados da Síria - que tanto diferia do egoismo e/ou indiferença de tantos outros líderes ocidentais - lhe ensejou a formulação de um princípio respeitável, mas que derrotou a CDU em vários Laender, quando das eleições.
                            Agora a Merkel luta na companhia de outros líderes europeus no intento de criar condições de maior flexibilidade para o ingresso de imigrantes, mas por quanto tempo esses líderes - como o Pres. Macron, v.g. - não se verão compelidos a apertar as cravelhas, diante dos diversos particularismos de seus povos respectivos?
                            Já existem na Europa hodierna - e o cotejo com a Europa de entre-guerras é de molde a preocupar - uma série de governos de direita (Polônia, Hungria estão na dianteira do atraso nesse particular) que tornam cada vez mais árduos planos abrangentes para esses novos miseráveis dos tempos modernos. 
                             A incrível conquista da maioria parlamentar na Itália já é um desenvolvimento que faz pensar.  O fascismo - depois das cópias dos antigos missinos - estaria acaso de volta com a Liga do Norte, de Matteo Salvini ? E o populismo que se afasta Berlusconi, por julgá-lo demasiado óbvio e transgressor, mas se afirma com Luigi di Maio ? O senhor Giuseppe Conte é um Presidente do Conselho de que se poderia dizer - mai sentito nominare (nunca ouvi falar dele). Mas os dois pro-cônsules terão preferido designar alguém sem força política própria, de modo a não fazer-lhes sombra na direção do Governo. 

( Fontes: The New York Times; O Estado de S. Paulo)

O que fazer de Ângela Merkel ou do dilema do Poder


                     

          A  direita na Europa, nunca à vontade sob a liderança de Ângela Merkel, conseguirá livrar-se da firme, avuncular, corajosa Frau Merkel, diante da ameaça do crescimento da direita e da intolerância nas relações humanas?
            Aparentemente, o desafio colocado pela União Cristã Social, de Horst Seehofer seria apenas resultante do temor excessivo diante da ameaça colocada pela dita Alternativa para a Alemanha, que ressurgiu no verão passado, sob o inesperado empurrão da penada da Merkel, corajosamente contrariando a covardia de rigueur de tantos líderes, e abrindo, com incômodo estrépito, para os refugiados da guerra na Síria os portões das aduanas germânicas.
             Cerca de um milhão de infelizes, escorraçados pelo tirano Bashar al-Assad, salvo não de Sunset Boulevard, como para onde os áugures da imprensa já se apressavam em despachá-lo, mas por gospodin Vladimir Putin, que o recebeu em audiência no Kremlin, e com a habitual frieza soube entrever o quão proveitoso lhe seria salvá-lo da estrada para o Tribunal Penal  Internacional (TPI).
              Com efeito, a secular busca pela Rússia dos mares de águas quentes seria afinal satisfeita, com as bases russas bem plantadas na Ásia ocidental, em terras de al-Assad, que in extremis  lhe suplicava a vassalagem. A partir de então, sobre a indômita revolução síria cresceram as sombras da tirania, máxime quando Barack Obama responderia com um não a proposta de Hillary Clinton, então Secretária de Estado, de que fosse dado à revolução síria um apoio mais efetivo do que o prestado até então. Pelas indecisões estadunidenses, o estandarte contra a feroz ditadura de Assad já não contava com o apoio de antes.  Hillary, apoiada por todos os chefes de secretarias americanas com participação naquela luta infinda contra a infame ditadura dos al-Assad,  propunha que a liga dos partisans tivesse o apoio dos Estados Unidos, apoio este que não  se refletiria em mandar para aquelas velhas terras soldados de Tio Sam.
                Para quem movia por tantos anos uma campanha expedicionária contra o taliban no Afeganistão, com as perdas inelutáveis de G.I.s, haveria de surpreender que o Presidente Obama não haja mostrado qualquer entusiasmo pela sugestão de seus Chefes de Departamento, com competência na matéria, a que Hillary, sua Secretária de Estado, encabeçava.
                Por essa razão, a sua companheira de partido, e que na campanha eleitoral de 2008 lhe fora forte concorrente, mas que, quando se abria a Convenção Democrata, contrariando o que lhe sugeria o marido, o ex-Presidente Bill Clinton, renunciou a nela adentrar como candidata à Presidência, por estimar que dividiria o Partido Democrata, e prejudicaria a campanha de Obama. Teve ela naquela oportunidade a nobreza de enjeitar até mesmo os apelos de seu devotado esposo.
                      São difíceis de determinar os motivos porque Obama negaria mais tarde a proposta, ratificada por todos os seus chefes com competência na matéria, de uma coordenação da capacidade americana não de entrar no atoleiro sírio, mas de reforçar aqueles que combatiam por uma Síria livre da infame ditadura dos Assad.  Tanta prudência em negar apoio a quem se batia, em desigualdade de condições, contra o tirano Assad, fará parte das interrogações da História, e dos males que se teria podido evitar - e sequer surgira no horizonte a carantonha horrenda do Exército Islâmico. Ter presente que a dita aliança dos Chefes de Departamento, a que a Secretária de Estado Hilllary Clinton encabeçava, combateria a infame Santa Aliança,  que a redesperta cobiça do Senhor do Kremlin saberia empregar a bom termo.
                        Em trabalho meu sobre a Guerra Civil Síria, datado de 22 de fevereiro do corrente ano, reportei-me ainda uma vez à sonora negativa de Barack Obama à solicitação  da  então Chefe do Departamento de Estado, Hillary Clinton, que, em próprio nome e no de todas as demais autoridades do governo americano, com competência na matéria, ponderou ao 44º presidente "do grande interesse  estadunidense de apoiar de todas as formas, excluído o envio de tropas americanas, os rebeldes na Síria, que tinham o apoio da Liga Árabe e que defendiam nessa conflagração a bandeira da democracia, e não a da ditadura."
                          Sem querer cansar o leitor,  creio importante que se tenha presente essa grande oportunidade de defender a causa da democracia - ou da maior liberdade, neste mundo, vasto mundo de condicionamentos cruéis - que se busque recordar a fotografia de uma criança de três anos de idade, refugiada ela também, trazida por pais igualmente nessa condição, e cujo corpo se transforma em anti-monumento à crueldade estúpida daqueles que se crêem poderosos.  Por artes de tantos grandes homens, alguns por fraqueza, e outros por crispada má-disposição, o seu corpo inerme foi carregado pela mídia e, em um mundo empedernido e indiferente, tocou a muitos pela sua inexpressa mensagem de uma paz que a colusão da tibieza e da estupidez mal cobria e tornava a anti-imagem de um tempo desgraçado, que confrontará em clamoroso silêncio, os poderosos de turno, então na balbúrdia da mídia, e mais tarde nos desvãos da memória, que se tarda por vezes em contemplar a inocência dos desgraçados e dos infelizes, cujas imagens jamais atingem os poderosos de turno, nos seus pomposos gabinetes. Só muito mais tarde, quando o bulício dos cortesãos e dos obsessivos do poder, será talvez dado o ensejo de inteirar-se, quem sabe até conscientizar-se de quanto mal tenham feito, apenas assinando despachos, e acreditando construir a própria imortalidade.

(Fontes: blogs sobre a política americana e a guerra civil síria; Carlos Drummond de Andrade)