quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A desastrosa demagogia do GOP na Saúde

                        

       No Brasil existe provérbio que poderá ser confirmado muito em breve nos EUA: não deseja muito uma coisa, pois ela pode acontecer. Aprovada no tempo em que os democratas tinham maioria na Câmara e no Senado,  nos dois primeiros anos da Administração Barack Obama, a Lei do Seguro Médico Custeável (ACA) virou bicho-papão para o Partido Republicano.

      Alcançada a presidência e a maioria no Senado - na Câmara dos Deputados, enquanto as Cortes de Justiça não fizerem o que deve ser feito, a falsa maioria do gerrymander permanecerá - o GOP dispõe de sufrágios suficientes para derrubar a reforma sanitária de Barack Obama, que os republicanos tentam manchar sob o apelido de Obamacare.

      Falta a muitos dos republicanos a responsabilidade de admitir que ainda não dispõem de substituto adequado para o ACA. Com efeito, a maior parte dos peritos e da indústria sanitária - inclusive associações comerciais que representam seguradores, hospitais e médicos - já advertiram que revogar a lei sem um substitutivo adequado pode ser desastroso. Por outro lado, o seguro sanitário ao não ver futuro de longo prazo para a Lei não terá incentivo em oferecer planos que esteja disposto a bancar.  E as tão faladas Câmaras de seguro sanitário que foram criadas pelo ACA cairão por conta da insegurança jurídica, irresponsavelmente criada pelo Congresso republicano ao repudiar o mandato individual que habilita a adquirir o seguro sanitário, ou até mesmo rebaixar os subsídios que permitem aos interessados adquirir as apólices. 

       Com grande oportunidade, nesta hora da onça beber água, The New York Times nos relembra das ocasiões perdidas pelo Presidente Barack Obama de divulgar para o Povo americano os benefícios trazidos pela Lei do Seguro Sanitário e quais são os perigos de sua revogação.

         Sabemos que pelo voto popular, a candidata Hillary Clinton teve três milhões de sufrágios a mais do que seu adversário Donald Trump. Será outro republicano a vencer pelo voto indireto, como foi também o caso de George W. Bush contra Albert V. Gore, mas nesse último caso com a agravante de que, além de perder no sufrágio popular, Bush júnior ganhou graças à primeira intervenção direta no processo eleitoral da Suprema Corte (com maioria do GOP, é claro)!

           Movido por motivos ideológicos, o Partido Republicano quer porque quer acabar com a Lei da Reforma Sanitária, e que vá à breca a base da sustentação dessa grande reforma. A oposição dos republicanos ao que chamam de Obamacare é visceral, como é também visceral o antagonismo a tudo o que venha do outro lado parlamentar.

           A motivação é basicamente política, e não se funda em realidades factuais. Exemplo disso está na circunstância de que Mitt Romney candidato republicano a presidente, derrotado por Barack Obama em 2012,como governador de Massachusetts aprovara reforma sanitária que forneceu o modelo para o ACA. A repulsa dos republicanos foi tal, que Romney, enquanto candidato presidencial, se viu forçado a renegar o seu comprometimento com a reforma médica estadual - que fora da lavra da própria administração republicana estadual - pela simples razão de que, para todos os efeitos, essa reforma sanitária se tornara Obamacare para os políticos republicanos a nível nacional...

              E aí está o vício fundamental que marca a atual campanha do GOP contra o ACA. Ele se baseia em ocas motivações de fundo ideológico que pouco ou nada têm a ver com o interesse do Povo americano.

             E em chegando a tal ponto, no frigir dos ovos da política, os supostos ideólogos republicanos, querem porque querem derrubar o tal Obamacare, contra o qual invectivam desde 2010...

             Como toda antipolítica - aquela movida por razões de prestígio e propaganda, sem  qualquer base no interesse popular - os resultados do visceral repúdio do Partido Republicano à reforma de saúde serão extremamente negativos para quem precisa de assistência médica.
             Infelizmente, em política, nem tudo que é vazio está destinado à lata de lixo da história. Na Pennsylvania (956 mil) e um milhão de pessoas seja na Georgia, seja na Carolina do Norte, vão ficar sem cobertura do ACA por terem votado em Donald Trump e nos candidatos republicanos ao Congresso.

              Porque o GOP, com escassa maioria de 52 contra 48 no Senado, tenta evitar o filibuster[1] pelos democratas, através da recomendação a comitês congressuais para redigirem projeto de reconciliação orçamentária, de modo a repudiar a regulamentação do ACA em termos de imposto e de provisões de despesa, retirando-lhe os fundos previstos pelo Orçamento e com isso aumentando o déficit. Com as suas inchadas maiorias,  vindas do gerrymander, a Câmara de Representantes não terá dificuldade de repercutir a manobra por ela realizadas dezenas de vezes (até hoje, felizmente, sem qualquer resultado útil). Será diferente agora, quando os fanáticos anti-Reforma Sanitária se valem de um truque orçamentário para mudar a política fiscal, com as danosas consequências para o Povo Americano que se prenunciam.

                As esperanças de reviravolta pró-ACA são tênues, mas existem. À parte os ideológos direitistas fanatizados, o GOP ainda tem políticos que valorizam o próprio voto, tendo presente o interesse do Povo americano. Dessarte,  este grupo inclui Susan Collins, senadora pelo estado do Maine, que votou contra um similar projeto de reconciliação orçamentária, em 2015, porque retiraria fundos da Paternidade Planejada; Bob Corker e Lamar Alexander, ambos senadores do Tennessee, que declararam preferir repudiar algo desde que o possam substituir com outra válida medida; John McCain, do Arizona, que sublinhou para a imprensa "que precisamos concentrar nossos esforços em assegurar que ninguém fique sem suporte válido";  e Rand Paul, do Kentucky, a quem preocupa que a rejeição possa aumentar muito a dívida da Federação.  

               Procurar estropiar o Affordable Care Act (a Reforma Sanitária, também conhecida como Lei do Tratamento Custeável), por uma manipulação de voto, de âmbito orçamentário, e não um instrumento de grande relevância, que estabilizou o mercado sanitário, e deu ao joão ninguém assim como ao americano comum a possibilidade de dispor de uma base acessível para bancar os respectivos custos médicos - atualizando de resto a legislação americana ao que dispõe a lei de tantos outros países industrializados - não deveria merecer o sórdido tratamento, assim como a desonestidade intelectual que caracteriza a sectária oposição à Reforma Sanitária. Os seus apoiadores, como os irmãos petroleiros Koch,  os membros da facção Tea Party, e o vasto segmento de energúmenos que se empenham em desbaratar o ACA , não pelo que significa, mas pela abstrusa razão de sua procedência democrata, podem estar preparando com exemplar diligência a desgraça médica e a ruína particular de muitos infelizes, que acreditaram nas ocas palavras de demagogos irresponsáveis, como o futuro 46º Presidente.

              Erros tais não ficam decerto impunes. O único problema é que esse exemplar conjunto de má-fé,  burrice convicta, e cínico oportunismo eleitoreiro vá provocar, se acaso tiver êxito, muitas desgraças, infortúnio e, sobretudo, inútil sofrimento.

               A estupidez, por organizada e numerosa que seja, acabará desembocando na vasta cloaca a que se destinam as loucuras da História. O triste disso tudo é que geralmente quem paga por essa estupidez são os que tem menos defesas contra ela.

                Não se deve ter dúvidas em como toda essa armação republicana vá terminar. Decerto muito mal, mas quanta gente será penalizada porque um bando de imbecis dotados de grande convicção desembestaram por essa estrada da demagogia?

( Fonte: The New York Times )



[1] recurso parlamentar das minorias, que consiste em 'matar' propostas legislativas ao assumir a palavra e continuá-la de modo indefinido, até que seja declarado o fechamento da questão (cloture) pela impossibilidade do voto.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Das prisões do Brasil

                                  

          O vexame internacional pelas condições dos cárceres no Brasil pode ser que provoque conscientização mais aguda do problema,  tendo presente a afirmação do Ministro da Justiça de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, de que preferiria morrer a ser encerrado nas prisões brasileiras. Contudo, aí se indica distanciamento preocupante quanto às verdadeiras responsabilidades da pasta que então ocupava.

         E seria ledo engano pensar em que a grita internacional vá ter algum efeito para eventual revisão da atitude dos ministros  no que concerne a transformação ampla da condição das cadeias e dos presídios no Brasil. Pois a assertiva de Cardozo implica, de certa forma, em esquizofrênico distanciamento da realidade.

         Se o responsável pela Pasta tratou da questão das prisões e de seu abismal estado  presente como se fora algo imutável, tal implica no seu caráter em achar-se a respectiva essência fora da competência da principal autoridade do setor prisional.

          O pressuposto de que vá ocupar-se mais a fundo na questão - o que implicaria em pensar nas perspectivas de aperfeiçoamento corretivo - não é discernível nessa reflexão da maior autoridade quanto ao nosso sistema prisional.

           Cardozo, enquanto Ministro,  sequer cogitou na possibilidade de melhorar o sistema, torná-lo mais humano e capaz de evoluir. Se psicanalisarmos essa suposta atitude, não semelha possível que não se deduza visão ultra-negativa do ministro delle prigioni  (prisões), pois a sua imagem de tais construções não poderia ser mais derrotista.

            Dado o caráter calamitoso desses calabouços, em que os presos são tratados como animais (ou mesmo de forma pior, eis que nas atenções dispensadas às alimárias há - ainda que pelo egoismo do lucro - certos dados que são formalmente obedecidos, como tratamento mais adequado a condicioná-las a ganhar peso e manter a respectiva saúde - além da implícita preservação do espécime), a situação do sistema prisional no Brasil atravessa crise ainda mais grave do que a sofrida por outras áreas.
             Para que se tenha idéia da gravidade da crise, há cadeias despojadas de teto, assim como presídios a que se permite perdurar como locais de concentração de condenados, apesar de não mais disporem de ambiente propriamente humano. Como poderia classificar os presídios de Porto Alegre e de São Luís? Neles a deterioração física de suas alas tem igualmente uma decomposição da natureza humana, pois não se poderia considerar como normais as características que lá prevalecem.

             A autoridade nesses ergástulos está deformada, na medida em que boa parte do poder carcerário é exercido por facções, que têm a força quase total, dado o respectivo condicionamento a uma [1]vis que dentro do microcosmo detém a faculdade de decidir sobre o direito à vida dos que ali estão.

             A degradação moral e física pode expressar-se na alternativa: ou a renúncia da autoridade civil do Estado se reflete no próprio reconhecimento de estritos limites de exercício do poder, com uma espécie de auto-renúncia, fixada por um auto-cerceamento da soberania estatal; ou em casos de desfazimento da autoridade inda maiores, guarda-se apenas a aparência do poder civil, que apenas existe, nesse universo bestializado, como simples faz-de-conta. Esse seria o famoso jeitinho brasileiro no mundo prisional. Sabe-se quem manda, e se procura manter as aparências, de acordo com as corruptas coordenadas que passam como sistema.

            Para que tais antissistemas existam e tornem a exceção regra, o bolo carece de ter os seguintes ingredientes: distanciamento do Estado, como refletido no exemplo do Ministro de Dilma: ele se via como autoridade política, e não tem tempo nem vontade de mudar as regras, e torná-lo lugar de correção e de aprendizado para a mudança efetiva de sistema existencial.

             Como se fora maldição, pairam sobre o estabelecimento prisional, duas autoridades. A primeira é a estatal, e por isso, se autolimita,  a uma postura pro-forma, que é tanto mais fácil de ser mantida, porque objetivamente não cerceia a real autoridade, desempenhada pelo fora-da-lei, cujo aparente respeito à forma enseja a composição entre o poder formal, do Estado, e a força nua dos supostos prisioneiros, cuja aparente renúncia enseja as condições daquela composição.
         
              Trazendo para dentro do presídio, a imitação do mundo lá fora, guardadas as aparências a ficção da paz dentro do ergástulo poderá ser mantida. O poder civil não desconhece, de resto, que quem chancela a ordem serão os representantes da mala vita, na medida em que tal lhes aproveita.
              Este é o status presente no mundo carcerário brasílico. Pela renúncia das autoridades civis (V. lamento de J.E. Cardoso, Ministro de Dilma) são dadas  as condições para que se mantenha a realidade presente, i.e., falta de dotações apropriadas e de política submissa a condições que nada tem a ver com o mundo prisional.
       
              Em outras palavras, atendida a deformação no presente dos presídios e dos cárceres, e o ethos dos dirigentes políticos nacionais, que não parecem ter tempo para se ocuparem de cadeias e presídios, quem sabe não estariam dadas afinal as condições para o surgimento de um novo Cesare Bonesana, o Marquês de Beccaria, que trouxe no século XVIII o Iluminismo para o universo prisional italiano, com a sua obra prima Dos delitos e das penas.  



[1] força.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O alto preço das fobias de Erdogan

                            
         Por envolver-se em todo tipo de conflito possível no Oriente Médio, como assinala Ibrahim Sirkeci, professor na Regent's University em Londres,  o governo turco de Recep Tayyip Erdogan, na análise desse intelectual turco-britânico, poderia estar agravando a própria situação.

        São três os principais problemas enfrentados pelo governo turco. Algumas dessas questões decerto não foram criadas artificialmente pela administração de Ankara. De início, é o caso da guerra civil na Síria (com que a Turquia colinda ao sul). Dura há cinco anos, e o conflito tem afetado o sul da Turquia.  Nesse contexto, o governo Erdogan defende os rebeldes e quer afastar das negociações o presidente Bashar al-Assad, que teve, por sua vez,  a própria posição reforçada, logrando virar o jogo quase nas prorrogações,  ao ir a Canossa e colocar-se sob as ordens do presidente Putin.

          Por outro lado - e neste caso a fobia do presidente turco teria alguma base - o movimento do clérigo muçulmano, Fethulah Gülen, que está exilado nos Estados Unidos, é inculpado pelo putsch de 15 de julho.

         No entanto, o governo de Erdogan não logrou obter nenhuma prova concludente da participação de seguidores de Gülen naquele intento,  que foi caracterizado por muitos como um pretexto do presidente para livrar-se de numerosos opositores nas Forças Armadas, além de proceder a uma razzia de intelectuais alegadamente suspeitos no serviço público turco.

          Além disso,  Erdogan persegue os curdos, que são uma grande minoria, presente em muitas áreas da Anatólia, e a quem o presidente turco  enfrenta através de tenaz perseguição e de sistemática contraposição política.

            Escolher os próprios inimigos pode parecer atitude no limite sensata, mas tal postura perderá sentido se se resolver enfrentá-los conjuntamente. Tal parece ser a estranha estratégia  de Erdogan, que, além de antagonizar os curdos, persegue os adeptos (de resto, numerosos) do clérigo Fethulah Güllen, a quem costuma responsabilizar por tudo que de errado grasse em seu país.

            Com mão demasiada pesada, o autoritário Erdogan também contribui e bastante para agravar a própria situação securitária da Turquia. Dada a sua aparente paranóia em relação à suposta diabólica capacidade do clérigo Fethullah Güllen  de desestabilizar-lhe o governo,  Recep Erdogan procedeu a brutal expurgo tanto no serviço secreto, quanto nas forças armadas. De resto, muitos inocentes foram demitidos sem outra razão que as fobias persecutórias do autoritário presidente.

             Em função disso, o E.I. agradece e tem penetrado com relativa facilidade através das barreiras de segurança do estado turco, dado o número de agentes capacitados que foram afastados de suas funções pelas excessivas suspicácias de Erdogan.



( Fonte: Folha de S. Paulo )

Existe sistema prisional no Brasil?

                    

        Massacres como o ocorrido no presídio Anísio Jobim, em Manaus, desafiam a nossa compreensão. Como uma barbárie desse gênero pode ocorrer?

          Há limites ou não para a negligência quanto ao estado desses estabelecimentos?
  
      Não é que sejam ocorrências totalmente fora dos 'padrões' dentro das chamadas guerras entre facções rivais. No Paraná, não faz muito, já houve sacrifícios de presos.

        O maior massacre de todos - Carandiru, em 1992 - como pode ser declarada uma anomalia, se revoltas como esta do presídio Anísio Jobim não são acontecimentos isolados?

          Desta feita, 56 mortos, executados em guerras de bandos, muitos com inaudita crueldade.
     
      Tratam-se tais prisões e tais ocorrências, como se fossem inauditas anomalias, que de repente estouram sem qualquer aviso, e por bárbara roleta decretam a morte de uns tantos infelizes.
   
       Lembram-se do Ministro da Justiça de Dilma, que disse que preferiria morrer a ser preso num dos cárceres - que, diga-se de paso, estavam sob sua responsabilidade?
     
       Na época, até houve quem considerasse corajosa a afirmação. Na verdade, ela apenas refletia uma verdade que persiste, vale dizer, a total indiferença diante da real condição das cadeias no Brasil.
      
       É esta soma de secular e cínica lavagem de mãos - como se o problema não dissesse respeito à autoridade encarregada - que se acha na raiz da repetição de tal selvageria.
      
      Indiferença diante de um problema que julgam fora de controle será a razão principal? Mas será que não existe autoridade  que além de  clamar por socorro e pela conscientização da cidadania,  ao invés de tratar como se fora algo que foge de sua competência, sempre entregue aos cuidados de um futuro que jamais acreditam possa materializar-se?    



  (Fonte:  O Globo )

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

E o Congresso Republicano?

                              

        Superficialmente, o domínio do GOP sobre os poderes executivo, legislativo e judiciário semelha indiscutível. A Suprema Corte continua com um membro a menos, por causa da recusa do GOP - e especificamente de Mitch McConnell, o líder da maioria republicana no Senado - de sequer conceder ao Juiz Merrick  B. Garland (a proposta de Obama para preencher a vaga no Supremo) o benefício de ter a chance de contar com a própria candidatura examinada pelo plenário.

          É a chamada tática republicana, que escarnece das idéias, e prefere apelar para a negação nua e crua, do que correr qualquer risco, muito menos elevar a qualidade de um Supremo envelhecido e com grande necessidade de renovação.

           Em consequência da quebra da regra do fair-play  pelas hostes do implacável mas não excessivamente brilhante Mitch McConnell (aquele que prometera fazer de Obama presidente de um só mandato...), os republicanos tem pela frente o exame diligente, por vezes sardônico, outras no limite da hostilidade pela bancada minoritária democrata, e sempre não-apressado das indicações de Donald Trump para o gabinete. Depois de muitas aprontarem, os coleguinhas republicanos terão de aguentar poucas e boas, no exame pelos senadores democratas de um ministério que concorre pra valer para ser um dos mais fracos da República estadunidense...

            Os republicanos já salivam a oportunidade de tentar destruir o legado de Barack Obama.  O ataque inicial se voltará contra  a maior conquista democrata - a lei do tratamento médico custeável -, a que o GOP sempre chamou de Obamacare, tentando menosprezar uma grande conquista democrata, que barateou a assistência médica para o povo americano em geral e a tornou igualmente acessível às classes mais pobres em particular.

              A Câmara de Representantes  - apesar do nome, a representatividade deixa muito a desejar, por ser o resultado do gerrymander, isto é a manipulação dos distritos eleitorais - feita quando da derrota do shellacking (tunda), causada pelo inepto primeiro biênio ( em termos de política menor) de Barack Obama.

                A embaraçosa circunstância de que essa Câmara esteja sob domínio republicano (nos seis anos dos oito que completará em breve o 45º presidente americano), o que além de privar a política estadunidense de uma real disputa entre a direita (republicanos) e a esquerda (democratas), constituíu barreira intransponível para a aprovação de legislação mais aberta e progressista. Tais são alguns dos efeitos da fraude que a Câmara representa: isso não está decerto no que se desejara fosse o seu papel dentro do jogo político americano. Transformou-se em mais do que um feudo do Partido Republicano, mas também em um atoleiro para qualquer legislação progressista. Morreram ali uma política racial mais equânime e justa, a par de uma política migratória mais aberta e democrática.  É um lugar sem brilho, a par de clamar  contra a Constituição, sendo uma chaga aberta no que tange à democracia e às votações não-falseadas.  Por quanto tempo isso há de perdurar vai depender do próximo censo e das maiorias nas assembléias estaduais que foram objeto do gerrymander . O que é  mais do que lamentável é o seu congelamento como fruto de uma enorme fraude, cuja continuidade é de certa forma coonestada pela grande imprensa - que não menciona o que está por trás do domínio do GOP nesta Câmara.  Somente em revistas como The New York Review este desvio e esta fraude são discutidas sem rebuços.   

                   Infelizmente, por outro lado, o impensável - como o chamara Michael Tomasky - ocorreu e o fraquíssimo Donald Trump, sabe-se lá como (as recontagens em Michigan, Pennsylvania e Wisconsin não contaram com apoio pró-ativo do Partido Democrata), logrou o impossível, i.e., arrebatar a presidência. Como esse blog já o comentou, não foi sem um empurrão do diretor do F.B.I. James Comey (que tradução de artigo publicado neste blog o revelou de forma indubitável). O mais penoso nisso tudo é a circunstância de que foi Obama quem nomeou este senhor republicano para tal lugar-chave.

                    Não se carece ser dotado de qualidades de Nostradamus para prever que o quadriênio de Trump - imaginá-lo reeleito será talvez quase impossível...- há de contribuir de forma bastante eficaz para o tão apregoado declínio de Tio Sam, a ver-se tanto pela qualidade de seu gabinete, quanto pela militante filosofia desse milionário do Grand Old Party...

                      Sem embargo, até mesmo o mal pode trazer o bem e, por conseguinte, boas consequências para os Estados Unidos. Se Donald Trump não desmentir o passado retrospecto, é de prever-se  que, já nas eleições intermediárias de 2018, o Congresso pode balançar, e se Trump meter os pés pelas mãos, como é seu hábito, não se pode excluir que o Senado volte ao regaço democrata, e no biênio seguinte se opere o milagre na Câmara baixa, afinal levando de volta à presidência, como Madam Speaker a Nancy Pelosi, a corajosa e hábil representante democrata. E se tal acontecer, terá o burrinho democrata sobejos motivos para agradecer a ajuda recebida do 46º presidente...



( Fontes: Michael Tomasky, Elizabeth Drew, e outros articulistas  em The New York Review; e  The New York Times )

domingo, 1 de janeiro de 2017

Presença americana contra o ISIS

                     

       As explosões em Bagdá, reivindicadas pelo ISIS, refletem tentativa desesperada de afirmar presença no Iraque, que tudo indica não tarde a desaparecer de Mosul.

       Com o apoio de forças convencionais estadunidenses prossegue, entrementes, o esforço deliberado do Iraque e dos Estados Unidos de pôr fim ao domínio pelo Daesh [i]de uma parte da cidadela de Mosul, que é o que resta ao E.I. dos largos territórios de que se apossara em 2014, no norte e no oeste do Iraque.

       A segunda fase da ofensiva, com o apoio estadunidense, lançada nessa quinta-feira, 29 de dezembro, vem encontrando feroz resistência de parte do Exército islâmico. Depois de semanas de paralisia, as forças americanas ora participam de forma mais sensível e intensa do que na fase anterior, marcada por semanas de intensa luta, num cenário de pouca mobilidade.

        As forças americanas participam de esforço nos fronts do sudeste e do norte, no sábado. Assim, unidade de elite do Ministério do Interior progride nesse sábado através do distrito Intisar de Mosul, aonde unidade do exército treinada pelos americanos lograra avançar, depois de penetrar em novembro nesse distrito, que se situa na zona sudeste dessa cidade.
  
          Essa luta envolvia uma pesada artilharia, e helicópteros de ataque, enquanto centenas de civis abandonavam suas casas.

         Por sua vez ao norte, outra unidade do exército avança para os limites da cidade de Mosul, depois de recapturar várias aldeias vizinhas nos últimos dias.

         De acordo com informação telefônica dada pelo tenente-coronel Abbas al-Azawi "trava-se  batalha na área de Argoob, que é considerada como acesso para Hadba". No caso, o oficial se reporta a estratégica área norte, das cercanias das hostilidades. 

         Desde que a ofensiva começou em dezessete de outubro último, as forças de elite empenhadas já retomaram uma quarta parte de Mosul. Trata-se da maior operação militar terreste desde a invasão de 2003, encabeçada pelos Estados Unidos, que levaria à queda de Saddam Hussein. Consoante o Primeiro Ministro Haider al-Abadi, esse grupo do Daesh  será expulso do Iraque por volta de abril p.f.

         Conquanto os militantes do E.I. sejam em número bastante inferior ao atacantes, liderados pelas forças americanas, eles lograram cercar-se de residentes de Mosul, o que vem obstaculizando as forças iraquianas, que tentam evitar baixas entre os civis.  Contrariamente à expectativa, malgrado carência de água e alimentos, a maior parte dos civis permanece em suas casas, em vez  de fugir, como era esperado.
    
      Por vezes, tais baixas são inevitáveis. Nesse contexto, um residente de Mosul - que se logrou contactar por telefone na última sexta-feira - disse que foguete atingira uma casa no distrito oriental de Mithaq, provocando a morte de seis membros da família.

        Na mesma comunicação, tal morador disse: "Não vimos mais ninguém do Daesh, desde que as forças iraquianas retomaram a ofensiva. Temos ouvido estrondos de grandes bombas. Hoje (sexta-feira, trinta de dezembro) escutei pelo menos dez enormes explosões."
      

( Fonte: The New York Times )



[i] Exército islâmico.

Paz e festa em Copacabana ?

                            

         Já modesto passeio entre Arpoador e Posto Seis, nos mostrara que o nível de policiamento entre Copacabana e Ipanema fora drasticamente restrito.

         Assim a manchete de O Globo digital me parece estranhamente contraditória. Como 2017 surge em paz, se cresceu o número de assaltos?

          Que paz é esta para o carioca e o turista, seja estrangeiro, seja de outros estados, que vindos para admirar a tão decantada simpatia e bonomia do Rio de Janeiro, de longe ou de perto, se descobrem vítimas de bandidos com o seu uniforme habitual?

          Pensar que mundaréu de gente afugenta a mala vita é dar prova ou de muito despreparo, ou de sólida má-fé. E se nos anos anteriores o esquema funcionou, não será cortando na carne do dispositivo de segurança que se fará economia para os cofres públicos.

          Pois a experiência já havia demonstrado, e à saciedade, de que não é nem oportuno, nem sensato fazer esse tipo de poupança, cerceando no policiamento, porque a bandidagem logo se dá conta das falhas na segurança, e diante delas, ela pode voltar a agir impunemente, pois a multidão desarmada não afasta esses elementos. Na verdade, ela os atrai.

          Que paz carioca é essa, portanto, que submete  toda essa gente de branco a desconforto de tal gênero, coalhando a alva cor da paz e da esperança, com as irrequietas sombras de intrusos que repontam sempre que a autoridade fraqueja?

          Como o poder armado na mui leal e heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro está submetido à autoridade estadual, não é hora de afrouxar nem desguarnecer a guarda na Cidade Maravilhosa, na noite dos fogos que marcam a presença carioca no desfile de luzes e de otimismo com que se sauda o Ano Novo! 

          Ao invés de cortar no chamado dispositivo de segurança, deve-se mantê-lo, para que a bandidagem não venha a estragar a festa da Virada. Economizar nesta hora é dar prova de tanto bom senso, quanto o de desguarnecer as defesas para a imensa maioria daqueles que vêm à Copacabana não só para festejar, mas também para contemplar a bela sinfonia dos fogos orquestrados. Decerto essa gente boa e alegre  não para cá se abala com o intúito de ser cruelmente relembrada, em hora de tais festejos,  da inépcia do Poder Público!

          Quem pensará acaso que a Autoridade competente vá desfazer do turismo e das grandes ocasiões?  Ela que não trepida em agarrar-se às próprias vantagens, não deve fazer economias na hora errada, desprotegendo cariocas e turistas vindos em paz, para saudar o Ano Novo e homenagear a grandeza de festa cujo atrativo e celebridade dependem de autoridades com responsabilidade !




( Fonte: Site de O Globo )