sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Violência nas Eleições

                                

        Chocou o país - se tal ainda é possivel - o brutal assassinato de Zé Gomes,  candidato a prefeito pelo PTB da cidade goiana de Itumbiara.
        O autor dos disparos  - que também feriram o vice-governador do Estado, José Eliton (PSDB) - foi o funcionário público  Gilberto do Amaral, logo em seguida também abatido, no tiroteio subsequente com a polícia.
         A violência no processo eleitoral brasileiro é inquietante presença - que não parece fazer jus da sociedade e da mídia tanto a atenção, quanto as providências de que é manifestamente carente.
          O Ministro Gilmar Mendes - presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e membro efetivo do Supremo Tribunal Federal)  - qualificou de "chocante" o episódio.
          Nesse sentido, o presidente do TSE contactou o Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, e encareceu agilidade na apuração do grave atentado.
           A violência no processo político eleitoral é realidade que, muita vez, se vê empurrada para as páginas internas e as letras miúdas dos periódicos.  Careceria, contudo, de ser contextualizada na sua preocupante frequência, eis que desde junho de 2016, 45 pré-candidatos ou candidatos foram objeto de ataques por arma de fogo, sendo que 28 deles perderam a vida.
            Consoante o professor de direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV),  Michael Mohallen, o nosso país sempre foi marcado pela violência no período pré-eleições. Uma das teses disponíveis, seria a da involução para o campo criminal.  Segundo os seus adeptos,  nesse momento de escolha de representantes nos poderes executivo e legislativo,  grupos criminosos se serviriam de políticos como meios para tentar ampliar suas redes de influência e poder.
              Tampouco se deveria esquecer quanto  às características desse processo e a sua intrínseca possibilidade de  empurrar, sob determinadas circunstâncias, os grupos em disputa para a radicalização. Tal involução, no entanto, dependerá necessariamente das condições locais, das características da sociedade  e de sua eventual inclinação para o recurso à violência.



(Fonte:  Folha de S. Paulo)

A Herança Maldita

                               

          O mau gestor - no caso, a má-gestora - pode ter uma influência perniciosa muito além de o que imaginar-se possa.
          A piora sensível nas contas públicas foi causada pela política econômica desastrosa de Dilma Rousseff, já a partir de seu primeiro ano de governo.
          Na sua ânsia do distributivismo na economia, não hesitou em redespertar a inflação, através de políticas ruinosas, com que visou à elevação do salário mínimo, enquanto partia para um distributivismo acelerado.
           Pensando que podia fabricar dinheiro e aumentar o rendimento das classes mais baixas, Dilma já nos primórdios de seu primeiro mandato, cuidava da inflação com o gogó, empregando um discurso retrógrado ou cínico, no gênero do não permitirei isto ou aquilo, como se as forças econômicas e a taxa da inflação viessem a obedecer  suas regras de economista de terceira.
           Além de enfraquecer os instrumentos para combater a carestia - valeu-se de um chefe do Banco Central que não tinha autonomia alguma - Dilma encetou uma elevação brutal no salário mínimo, engordado não só por critérios financeiros, mas também pela demagogia dos governos sindicalistas (modelados no chavismo).
             Daí os seus crescentes recursos a meios heterodoxos em termos de economia e finanças, que tiveram as consequências previsíveis, tanto aqui, quanto em outras plagas da América Latina. O governo de Maduro - que se sustenta contra o Povo, que o quer ver - e com toda a razão - pelas costas, dada a sua criminosa incompetência.
             Dilma conseguiria reeleger-se mas à custa de tão grandes mentiras e com curtíssimo prazo de validade, que o seu segundo governo seria reedição piorada do primeiro, e a fortiori sob o conjunto ataque do merecido descrédito popular (enraivecido pela boçal dose de mentiras na respectiva propaganda) e a explosão dos escândalos financeiros.
             Surgiria então a operação Lava-Jato, que lancetou a inchação burocrática e, sobretudo, a deslavada corrupção que tão bem se reflete nos cínicos diálogos dos empreiteiros com o poder petista.
             Debalde tentou Dilma quebrar o poder judiciário e sobretudo o Juiz Sergio Moro que de Curitiba encetou um processo de recuperação ética e financeira de um processo então fundamente comprometido pelas relações entre o petismo e as grandes empreiteiras, com a Odebrecht à frente.
            O grande erro de Luiz Inácio Lula da Silva foi ter acreditado possível criar uma estrutura de poder fundada na corrupção sistêmica. Na cegueira da húbris acreditou ainda mais como possível sustentar o governo sob os princípios da fraude e do fraudulento arrocho da corrupção que, atingido certo grau, sai do controle e passa a julgar possível que aqui possamos estruturar um sistema baseado na mentira.
             Seja pela lei penal, seja pela própria economia, o que parece possível em estruturas ainda rudimentares e de baixa cultura política - como Angola, v.g.,  venha a  implantar-se com êxito em economias mais desenvolvidas.
              A fraude é um câncer que tudo distorce. Ao atacar a Petrobrás, o governo do PT pensou possivel para cá transplantar esquemas tortos de gestão que semelham ter sucesso no México, na Venezuela e na África.  A cruzada iniciada pelo juiz Moro, como a outra ponta da Lava-Jato - a do juiz justo e inflexível, que pelo apoio popular torna inviável os habeas corpus da influência, e corta pela raiz o poder dos corruptos, que no passado retinham ainda força para inviabilizar operações nascidas com boas intenções, mas com baixo apoio sistêmico.
                A popularidade do Juiz Moro é a maior garantia que o atual sistema jurídico pode ter na correta aplicação da justiça. Se as forças da corrupção estarão sempre à espreita, no aguardo de eventuais falhas na aplicação da lei e na impiedosa perseguição da aliança dos corruptos, cabe ao Ministério Público, através do trabalho consciente de levar a juízo os suspeitos - qualquer que seja a sua hierarquia, e como bem sabemos, o crime e a corrupção estão aninhados em muitos extratos da sociedade, e não lhe faltam representantes/defensores em todos os níveis. Eles sabem que a sua única esperança está em estabelecer em relações adulterinas com os grandes representantes da mala vita, e os há em todos os organismos do Poder.
                 Assim, os ingênuos, sejam eles verdadeiros ou falsos, não são a madeira de lei para montar as bases de um ataque bem-sucedido contra a cidadela do crime em todas as suas formas.
                  Lula da Silva cometeu talvez o seu maior erro ao acreditar possível fazer de Dilma Rousseff alguém que lhe pudesse continuar no respectivo caminho.  As falhas do seu projeto podem ser consideradas ínsitas, na medida em que a corrupção - que mina o Estado e a Economia - não terá condições de preponderar com  estrutura judicial e policial com uma parcela ponderável de  funcionários honestos, preparados e, por conseguinte, corretos e eficazes.
                  E este era felizmente o caso do Brasil, como se poderá ver adiante. O projeto de Lula da Silva se levado adiante dentro das premissas do dito Mensalão poderia gerar um monstro no Estado brasileiro, que se descobriria vítima dos princípios do mal, que através da localização para eles apropriada poderia controlar os impulsos éticos da cidadania. Todo Estado corre este magno risco, como vemos, v.g. na Federação Russa de Vladimir Putin, um estado do racket, que pelo estudo magistral da professora Karen Dawisha é exposto para quem tenha olhos para ler no seu livro "Putin's Kleptocracy" (A Cleptocracia de Putin). E não se iludam aqueles ingênuos de plantão de que tal seja impossível.
                     Pela ingenuidade de uns, pela disponibilidade de outros (escolhidos no país e também fora dele) como está demonstrado pela prof. Dawisha, que leciona na Universidade Miami, em Oxford, Ohio, e é diretora do Centro Havighurst  para estudos russos e pós-soviéticos, dessa universidade.


(a continuar)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Há segurança no Rio ?

                              

         Com a falência do Estado, devida aos reflexos da política temerária do ex-governador Sérgio Cabral, a virtual acefalia sob o vice Francisco Dornelles, e as finanças continuando à beira do abismo da inadimplência, não é nada difícil entender porque a segurança do Estado está entregue mais aos bandidos do que às baratas.
         O panorama do Estado mostra uma Polícia Militar que aparece nas falas do Secretário Beltrame, e, entretanto, para ti e na prática, ela não se vê em parte alguma, com o sensível, quase debochado aumento da criminalidade, a qual diante da situação - inação e ausência das forças da ordem - como não há de ficar cada vez mais presente e ousada , nesse Rio de Janeiro, a verdadeira  Cidade Maravilhosa do Crime.
         A falência do sistema das UPPs é menos atribuível ao Secretário Beltrame, do que à falta de verbas, que restringem os deslocamentos e a presença da PM. Depois de Amarildo, que credibilidade restou às UPPs?
          Nos parques citadinos, como, v.g., naquele do Flamengo, forçoso será reconhecer que não se vê polícia em parte alguma. A ausência das forças da ordem é uma benesse... para o crime. Este atua desimpedido, arrancando bicicletas de jovens que acreditaram na presente ingênua crença de que as suas alamedas não são  para proteger bandidos, mas sim para que todos se exercitem livre e saudavelmente.
            Como antes na Lagoa, em que dois dimenores covardemente assassinaram pelas costas um médico, agora a caça está aberta para os fora da lei, que, a seu tempo e com toda a calma, arranca as bicicletas de jovens ciclistas, roubando-lhes a prática de saudável exercício.
            É verdade que os bondes desapareceram. Poder-se-ía dizer que eles não podem ser blindados e andam muito devagar.
             O deserto da polícia é o sinal que não se apaga nunca, na medida em que consiste no contínuo aviso aos navegantes do mal que a caça está aberta.
             A ausência da Polícia é um sinal malévolo e maligno, pois ele atua e mesmo chega a cooperar para a multiplicação do crime. Nada mais terrível e contraproducente que os repetidos assaltos por grupos de delinquentes que montam em ônibus de linha nas proximidades do Fundão para arrancar as mochilas dos estudantes. No outro dia, cerca de doze jovens bandidos adentraram um ônibus - pergunto-me porque os motoristas param os coletivos para esses óbvios saqueadores - e assaltaram a todos os passageiros estudantes, levando-lhes as mochilas.
               O embarque foi na vizinhança do Fundão e o escopo era de obviedade lancinante. Mas,  mesmo assim, o motorista parou, solícito, para que esse estrume humano entrasse no ônibus, para arrancar dos estudantes os seus livros, cadernos e quaisquer valores que essas águias rapaces pudessem se apossar do  material adquirido com sacrifício. No gesto desses boçais há o prazer que os animais de rapina não têm, pois ele só mata quando tem fome. Não é o caso desta gente, condenada pela própria via aos mangues da ignorância. Eles se apossam de muito, mas ficam com pouco, e jogam no lixo o que sobra, na sua raiva incontida contra a grei dos honestos e dos trabalhadores, que lutam por construir um digno futuro.
                 Porquê essa mentalidade de carneiros que mal enxergam estar indo para o abatedouro? Porquê esse silêncio das vítimas, essa resignação dos fracos diante desse grupo de biltres e energúmenos, que vivem do saqueio e cuja bruta boçalidade os condena para a vida breve e estúpida que na sua peculiar animalidade tem prazer em matar, mesmo sem fome.

                 Que cidade é essa, em que a segurança só está nos letreiros do caminho? E se dirigires, reza muito para que teu anjo da guarda não esteja de folga, e que a sorte cruel dessa cidade, em que o polícia, ave rara que não está decerto à tua disposição, te livre da sarna dos bandidos, se tiveres a sorte da sua eventual presença, que será naquela tarde uma dádiva caprichosa para o teu incerto futuro. 

Lembranças de Padrinho Chico (XV)

                     

        A súbita adesão ao Corinthians, em jogo no Pacaembu, do padrinho Chico (V. blog X da série), além de surpreender-me, iria mudar a minha atitude e nem sempre para melhor.
        A raiva que sentira pela forma revestida pela súbita identificação do padrinho com o Corinthians, e ainda por cima no jogo em que vencera o Vasco da Gama, não se evaporaria em pouco tempo.
       Além de tomar partido em questões que de alguma maneira afetavam o tio, o meu viés seria sempre contrário à postura do tio Chico.
       Em jogos de futebol de que participasse o Corinthians, sempre ficaria  na torcida adversa, nunca deixando de externar os meus próprios sentimentos de forma a mais protagônica possível.
       Eu o fazia movido pelo mais óbvio despeito, e cuidava  de marcar a minha posição de forma a mais provocadora possível.  Era decerto maneira desastrada de afrontar o padrinho, as mais das vezes por razões com pouca ou nenhuma credibilidade.
       Diga-se em favor de meu tio que ele mostraria não pouca grandeza de temperamento ao não atentar para as minhas provocações. Ele agia como se fosse natural que eu buscasse contrariá-lo sempre que se colocasse algum  tema em que a sua opinião ou posição já fosse conhecida.
       Passado tanto tempo ainda sinto algum remoro por aquela ânsia de confrontação que o tio sempre saberia contornar, com jeito sereno. Sem o saber, ía aprendendo a lição de que a compostura sairá sempre melhor no quadro, do que a sistemática implicância, que parece pedir uma boa e definitiva lição.
        Pois o tio optaria pela contenção e a nobreza de caráter. Como não caía nas minhas rudimentares armadilhas, ele foi aos poucos pondo à nu, sem que me desse conta de início, a estultícia da minha reação.
       Meu padrinho era um descendente de italiano que não se deixava vencer por raiva e emoção. Gostava de esfregar as mãos, e com isso exorcizar as imediatas reações. Pouco a pouco,  ao pé da televisão, ele me mostrava da importância da fleuma e da frieza nas atitudes. Não que tivesse sangue de barata, como ele o demonstraria na ocasião certa.
          Soube, a propósito, e não por seu intermédio, que ele se tornara sócio do clube Pinheiros - antes Germânico, se não me engano.  Provocado pelo porteiro, que lhe pedia sistematicamente a carteira, enquanto não a solicitava dos muitos sócios de origem alemã, Chico acabou perdendo a paciência.
          "Vejo que V. tem dificuldade em me reconhecer. Como isso não ocorre com os alemães, a quem V. nunca pede a identificação, não terei problema em lhe mostrar a carteira uma vez mais, mas com uma condição: V. vai ter que pedir da mesma forma que mostrem o documento a  todos os alemães que aparecerem."
            Era assim o meu tio Chico. Temperamento calmo e controlado se o respeitassem. O que não admitia era que abusassem da autoridade, ou que menosprezassem alguém.

            Então a ascendência italiana repontava.

Rasgando a fantasia ?

                                     

          O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Ricardo Lewandowski, em conferência na USP, se pronuncia mais como militante político, do que enquanto membro do STF. Sua excelência, em palestra na universidade paulista, considera o impeachment como 'tropeço na democracia', chegando a apostrofar de lamentável o aludido processo durante aula por ele pronunciada  na referida universidade da Paulicéia.
          São demasiado conhecidas as raízes petistas de Sua Excelência Lewandowski. Não foi à toa que ele teve dificuldades em eleição passada, quando o público presente em seção eleitoral paulistana forçou-lhe a  saída pela porta dos fundos, com os eleitores revoltados com a sua atuação como revisor do processo da Ação penal  470 (mensalão), em especial os respectivos embates com o Ministro Joaquim Barbosa, então relator desse histórico processo - que encetara a derrocada do Partido dos Trabalhadores - e Presidente da Corte.
           Outra recentíssima e polêmica decisão de Sua Excelência Ricardo Lewandowski, foi de aceitar o fatiamento da sentença de impeachment de Dilma Rousseff, ao concordar, de maneira insólita, em aplicar apenas parte do dispositivo constitucional, como se os artigos da Lei Magna, lavrados no mármore ático das disposições perenes, pudessem admitir aplicação em oportunistas juntadas com disposições regimentais do Senado Federal.
          Ora, a Constituição, quando aplicada, decerto não admite que seus artigos sejam talhados ou fatiados, para ajustá-los ao mood das maiorias ou de turno, ou do crasso oportunismo. É de prever-se que o arreglo aprovado por Sua Excelência Lewandowski, que se deixara convencer pelas vozes de estranha e casuísta maioria, vá ter, oportunamente, o destino que merece.



( Fonte: Site on-line de O Globo )                      

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Ocidente precisa salvar Assad?

          

           É deprimente que os Estados Unidos veja a sua recente tentativa de estabelecer em Aleppo área de não-agressão desprezada pelo ditador Bashar al-Assad.
             O acordo que foi assinado pelos Ministros Sergei Lavrov e John Kerry, que visara  suspender as hostilidades na Síria, na prática já surgiu natimorto.
             Nesse sentido, ignorando as vítimas civis, Bashar, sua aviação e tropas retomam o controle do bairro de Farafra, na área central da cidade, após semana de intensos bombardeios.
             Lixando-se para as consideráveis baixas na população civil - que é tratada como se militar fora -, as forças sírias legalistas, com óbvio apoio da Rússia, investem contra os bairros de Sa'ar e Mashhad, na área leste de Aleppo.
            Segundo  a ONG londrina Observatório Sírio de Direitos Humanos, onze pessoas morreram nesta ofensiva, a maior desde o fim do cessar-fogo na semana passada.
            Cerca de 400 pessoas foram mortas com o recrudescimento dos ataques nos últimos cinco dias. A intensidade dos ataques e dos bombardeios por forças de Bashar continua a crescer, enquanto 250 mil pessoas estão sitiadas em bairros de Aleppo dominados pelos rebeldes.
             Na confusão dos ataques, o regime sírio quer aparentar firmeza, e declara que a ofensiva continua até que os rebeldes tenham sido "varridos da cidade". Nessa grande confusão, em que a verdade desponta como a primeira vítima, a força insurgente afirma haver repelido a ofensiva síria.
              A lenta recuperação territorial do regime de al-Assad sempre contara com o apoio do Irã e da falange xiita do Hezbollah, chefiada por Hassan Nasrallah. Recentemente, foi morto em bombardeio  alto dirigente desse grupo xiita, Samir Kantar, cuja presença no Líbano representa um desestabilizador para aquele país, em que há forte comunidade cristã maronita.
               A que se deve o lento renascer da ditadura de Bashar?  Depois de atravessar o nadir de sua trajetória política - em que foi abandonado até por parte da família, e a sua perspectiva política parecia próxima do fim, enquanto crescia a probabilidade de mais um julgamento de cruento ditador pelo Tribunal Penal Internacional da Haia - salvaram Bashar - para desgraça da gente síria - a coalizão dos xiitas do Irã (a que o crédo alauita sincretista da família al-Assad a torna aliada de Teerã), e gospodin Vladimir Putin - que já investira demasiado na Síria, onde dispõe de porto marítimo e base aérea - para que corresse o risco de perder tais aquisições estratégicas, tão importante para as suas grandes ambições de recuperar o lugar de Moscou no grande jogo com o Ocidente..
                 Por isso, Bashar, na sua vigésima-quinta hora,  ressurgiria da grei infame dos mortos políticos. Mas a fortuna do ditador sírio contou igualmente com a deterioração da Liga Rebelde, a despeito do apoio das monarquias do Golfo.  Nesse sentido, as hesitações de Barack Obama terminaram por enveredar na determinante negativa de armar as forças insurgentes que lutavam contra o regime sírio.
                  Obama, para tanto, mostrou grande firmeza em negar o plano de apoio aos rebeldes costurado por Hillary Clinton, então Secretária de Estado, e que contava com a adesão de mais três comandantes militares americanos, inclusive o do Pentágono e da própria  CIA.  Obama deu preferência à presença americana no Afeganistão, esse grande cemitério de expedições do Ocidente, a partir da malograda tentativa das forças de Sua Majestade Britânica, no século XIX.
                   Dessarte, com tal negativa de apoio, o Ocidente permitiu a ressurgência do tirano Bashar e condenou o povo sírio à continuação da luta intestina empreendida por Damasco para recuperar as bases e os centros populacionais antes dominados pela Liga Rebelde.  Daí não espantará a progressão do ditador sírio recuperando o controle da costa mediterrânea, e das principais metrópoles sírias. Para quem já via a Liga Rebelde nos subúrbios de Damasco, a  recuperação de Bashar é um falso enigma, pois a grande negativa de Obama levou a três resultados adversos para Tio Sam: a ressurreição de al-Assad, um ganho político apreciável para o adversário Putin, e de cambulhada, mais fatores negativos para os EUA, com o aparecimento do Exército Islâmico, entre outras.
                       Se a Liga Rebelde houvesse recebido o apoio de que carecia, parece pouco provável que surgissem tantos inimigos do Ocidente como apareceram de repente no horizonte. Não fosse esse abandono da Liga Rebelde, que já via no próprio visor a perspectiva da queda do tirano sírio, é difícil visualizar que tantos adversários dos Estados Unidos  tivessem obtido tantos ganhos determinantes, como a própria Federação Russa, a quem foi muito proveitosa sua operação de salvar o seu aliado Bashar.           
                          Tampouco teria havido a grande e custosa confusão aprontada pelo EI, tanto no Iraque, quanto na própria Síria, aonde ainda se encontra.  Não menciono sequer os americanos que foram sacrificados pelo regime do Califa al-Baghdaadi.
                            Decerto o meio-oriente nessa área não seria ainda a terra da fartura, mas diante da negativa de Barack Obama aos seus quatro chefes de departamentos militares e de missões com interesses convergentes, a que a atual candidata a Presidente dos Estados Unidos liderava, constitui uma hipótese tentadora que a presente confusão nessa área do Oriente Médio poderia ter evitado se surgisse no lugar de Bashar um regime próximo ao Ocidente e em condições muito diversas do inferno médio-oriental que aí surgiu,  se tivermos presente todo o imenso sofrimento da população civil na área.
                              Quanto mais se reflita sobre esse gran rifiuto[1], e as pesadas consequências que teve para as povoações envolvidas, fica ainda mais árduo entender porque o Presidente americano se recusou  a  estender a mão para a união dos combatentes, que via próxima a hora última do sanguinário regime dos al-Assad. A própria situação hodierna dos Estados Unidos nessa área não pode ser comparada com a de uma Síria pacificada, sob regime simpático aos Estados Unidos, a quem deveria, senão o estabelecimento de Pax americana, um estado de coisas incomparavelmente superior em termos de qualidade existencial, do que o atual inferno aí prevalente.

( Fontes:  O  Globo; Economist )



[1] Grande recusa

Fora Dilma!

                                                            

        Ao contrário da outra expressão, esta acima não é um simples expletivo, sinal de pontuação ou mirífica chave de acesso à Terra da Cuccagna, terra essa que todos sabemos não existe, mas que pode servir como senha de acesso à realidade que, ou está perdida, ou como  na corrida dos lemingues, está por perder-se.
        A realidade do PT tem várias datas para marcar-lhe a derrocada. A Lava-Jato, que eles mais detestam, seria talvez a mais eficaz e, por conseguinte, aquela que mais os traz às plagas da realidade.
        Agora, introduzo o Fora Dilma!, um pouco atrasado, é verdade, mas deve-se acrescentar que a preocupação não é tanto a da realidade - que isso, como sabemos, não interessa à boa gente do PT - mas a sua presença como metáfora, com pretensões à substituir-se à situação presente, com todos os problemas que tal acarretaria.
        Fora Dilma! é grito contra a hipocrisia, contra a república de mentirinha, contra a inflação, contra a desordem nas contas, contra o Petrolão, contra o desemprego, contra a demagogia, contra, enfim,  toda a empulhação dos governos do PT.
        O Fora Dilma! é também um grito contra o fatiamento, contra a desmoralização em temas constitucionais, contra todo o gênero de patranha que vise a manter, de alguma forma, pairante e, por conseguinte, presente tal imagem de personagem que tanto mal acarretou ao Brasil, trazendo de volta a inflação, e todo o seu chorrilho de baixo-nível e achaques.   
         Dilma Rousseff, no seu segundo mandato, foi objeto de um processo constitucional de impeachment. Tal processo foi acionado não pelo ex-deputado Eduardo Cunha, como alegada vingança contra a Presidenta.
         O impeachment foi decorrência de processo constitucional, que foi iniciado por um ex-petista, figura histórica daquele partido que hoje desapareceu, pois então era ético e jacobino[1]. Por conveniência, se esquece que quem se valeu desse recurso de última instância constitucional, foi um dos fundadores do PT, que dele se afasta quando estoura a roubalheirão do Mensalão. Trata-se de Hélio Bicudo, fundador e militante histórico de um antigo PT, que por suas características de severidade, honestidade e rigor republicano, infelizmente nada mais tem a ver com o partido não só do Mensalão, mas do Petrolão e da desbragada corrupção, inaugurada pelos governos de Lula da Silva, e continuada pela administração de Dilma Vana Rousseff.
             Dilma é hoje uma cidadã, como qualquer outro. Sobre ela não caíu raio cuja procedência seja ignorada, mas sim providência republicana causada pela própria gestão temerária da cousa pública. As ditas pedaladas fiscais que desrespeitavam o poder constitucional do Congresso são a última gota.
              Por desgraça, ainda enfrentaremos por muito as inúmeras infaustas consequências dessa irresponsável gestão da economia: corrupção, inflação,  desemprego, recessão e queda no ranking da competitividade.
              Se ela não é a principal culpada pela situação em que o Brasil se encontra - bem sabemos quem é o verdadeiro responsável.
              A esse propósito, me parece oportuno relembrar lição que aprendi a posteriori de quando ela me foi ministrada.
              Vivíamos então na doce ilusão de que a eleição de Lula em 2002 surgia não só como  aspiração nacional, mas também e sobretudo como realização da História. Por isso, eu e mais o companheiro Rezende perguntamos ao velho colega Pedro Neves da Rocha porque ele também não se associava à ampla rede de apoio da cidadania ao então candidato do PT, predestinado já a galgar a Presidência da República.  A resposta do amigo Pedro, hoje ausente, nos surpreendeu pela singela razão: não voto para presidente em que não tenha galgado ao grau superior nos seus estudos.  Se o que nos disse à época, me pareceu absurdo, prepóstero mesmo, a convicção aparente me levou a não mais levantar a questão, por mais desavisada que então me parecera a sua postura.
                   E, no entanto, se Pedro desde muito não mais está entre nós, isso não é razão para que não se concorde em quão acertada e sensata foi a sua decisão na matéria.

( Fonte: Cartas ao Amigo Ausente )




[1] Bicudo saíu do Partido dos Trabalhadores quando estourou o Mensalão.