quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Do Complexo do Alemão e outras estórias

                             

       Esse título, leitor amigo, pode significar, no mínimo, duas situações antagônicas. Em primeiro lugar, se terá presente a ansiedade do Povo brasileiro, que deseja ver perspectivas de solução favorável dos respectivos problemas como firme indicação de que tal desejo venha a  transformar-se em realidade.
       Um exemplo dessa predisposição está na operação - com amplo suporte visual da mídia - da chamada tomada do Complexo do Alemão, realizada entre 25 e 28 de novembro de 2010.
       Esta operação conjunta, de que participaram as Forças Armadas, inclusive com blindados, assim como a PM em peso, terá recuperado o controle desse Complexo do Alemão. Para marcar a efeméride, houve içamento de bandeiras federal e estadual, e a presença tutelar do governador Sérgio Cabral sublinhava o empenho das forças de segurança, a que se agregava o próprio Exército.
       Para a opinião pública, o espetáculo midiático refletia o geral entusiasmo pela reconquista de um território por demasiado tempo entregue às sombras do tráfico e do banditismo. Como sói acontecer em tais ocasiões, se confunde desejo e virtualidade do controle como expressão de nova e permanente realidade.
       O Complexo do Alemão, por uns tempos, se transformaria em imagem virtual de uma nova dinâmica - uma presença da PM mais afirmativa e a consequente derrota da chamada entidade do 'tráfico'.
       Nesse contexto, a exuberância da mídia apresentaria a fuga multitudinária do tráfico - cerca de trezentos bandidos que acompanhados pelas câmeras da tevê debandavam pela estrada de terra que sai das alturas do Alemão e que adentra os bairros vizinhos. Outra indeterminada parcela de fora-da-lei teria igualmente escapado pela mata que contorna partes do Complexo.
       Diante da perplexidade de uma pequena parte da mídia - que se perguntou por que o Estado não se valeu da oportunidade para deter todo esse bando fora-da-lei - a resposta dos poderosos de então se limitou a um olhar cético, como se aquela operação de limpeza do Alemão constituísse uma realidade que a si própria se bastava. As forças estatais intervieram com mostra de todo o seu poder de fogo, que foi bastante para pôr em debandada aqueles que se tinham indevida e traiçoeiramente apoderado de um grande bairro, habitado na sua maioria por gente respeitadora da lei.
          Talvez pensando que os mais de trezentos meliantes que se escafederam à vista das câmeras, e para tanto se valendo de todos os veículos que imaginar-se possa, de alguma forma seriam absorvidos pela cidade grande e deixariam de importunar e, sobretudo, comandar a gente honesta do bairro do Alemão.
           Como que deitados em leito esplêndido, acreditando que os desatados fios do crime de alguma forma estavam desfeitos de forma permanente, o Estado começou a cuidar do Alemão como se a varinha de condão da operação conjunta encetada a 25 de novembro de 2010 deveria ser completada por acesso aéreo de cabinas ao bairro do Alemão, o que foi providenciado. Outras formas do abraço da urbe se sucederam como em novela da Rede Globo, igualmente situada no bairro reconquistado do Alemão.
             Toda essa fábula - que a muitos convenceu - sublinha um ponto fraco da nacionalidade. O nosso desejo por uma volta aos bons tempos em que a mala vita não era presença usual em Pindorama - ou, pelo menos, seria realidade ainda insignificante no  cômputo estatístico da vida na cidade,  esse desejo continua forte por demais e a tal ponto que nos faz esquecer pormenores relevantes no dia-a-dia.
             O que terá muita gente esquecido naquela triunfalística data de vinte e cinco de novembro de 2010, com direito à cerimônia de alça de bandeiras (federal, estadual e municipal) e a ubíqua presença da mídia - a que como insetos da luz, acorreram também as autoridades do tempo ?  Temos tanta vontade que tudo volte aos bons velhos tempos que nos esquecemos de certos pormenores para que esse desejo do eterno personagem de René Clair - que nos traz o canto das sereias de Ulísses e nos promete a volta próxima e segura desses bons velhos tempos  - que a boa gente brasileira pode parecer, com o passar impiedoso do tempo, essa peneira cruel das vãs esperanças e dos tolos propósitos, como uma simples, meretrícia ilusão...
                Hoje há gente que se pergunta, por que não se prendeu todos aqueles trezentos fora-da-lei que fugiram pelas estradas de terra que ligavam o radiante bairro do Alemão, de repente transformada como uma metáfora para a ansiedade realidade de todos?
                Não prendeu - e aí se podem elencar os poderosos de então, muitos dos quais hoje demoram em bairros longínquos, como proscritos por um Povo pelos ditames severos de esquecimento.
                Temos o hábito - tolos que somos! - de pular e abraçar o desejo hodierno como se fora a concretização da realidade.
                 Esquecemos dos pormenores e, num grande salto, abraçamos o que se pensa seja a realidade.
                 E, aí  minha gente, é que está o problema. Na nossa ânsia de chegar a Pásargada, onde o poeta é amigo do Rei, olvidamos muitos detalhes e sobretudo a aborrecida faina que as grandes, vaidosas realizações costumam exigir.

( Fontes: Rede Globo, Manuel Bandeira, Homero, René Clair)   


O Primeiro Debate

                                 
         A vitória de Hillary Clinton no debate que abre a série de quatro, não se pode dizer que surpreenda. Temerosa a princípio, ela não se atrevia a ataques mais declarados. O inimigo mais perigoso será aquele que se desconhece. E por isso o debate custou a ganhar força própria.
        Mas foi o conhecimento do adversário e de suas limitações que iria dar uma nova feição ao embate.
        Com o passar dos minutos, Hillary foi ganhando confiança. As limitações de Donald Trump foram aparecendo. Ressurgiram tópicos que se pensava estivessem superados, como  a tese do  
        Dado o caráter errático do debatedor, a sua capacidade de ressuscitar temas como o do Obama não-americano e sim nascido no Quênia pouco ou nada tinha a ver com a lógica.
        E por aí ela foi ganhando confiança, como alguém que se preparou com esmero e concentração para enfrentar Trump bicho-papão, e que acaba por dar-se conta que Donald é o que está em oferta ao Povo americano, com todas as suas contradições e raciocínios atravessados.
         Por isso, o sorriso de Hillary se alargaria mais, ao inteirar-se do comportamento do adversário, e dos seus passos em falso.
          Cresceu a empatia com o público e ela era consequência de dois fatores: a séria preparação para o duelo e a progressiva consciência de que era crescente o seu controle do debate.
          O público se ia conscientizando da maior desenvoltura da candidata democrata, desenvoltura essa que provinha do seu estudo do adversário, da  consequente realização das respectivas falhas na articulação do argumento, e a inexorável abertura de pontos em descoberto que se prestavam à maravilha para a sucessão das frases cortantes, e da consequente empatia com o público.
            Tudo isso iria contribuir para apresentar um debate que, após os avanços cautelosos e guardados, a consequente confiança e a certeza de manter o combate verbal sob controle, contribuíu para desenhar um resultado ainda mais à feição da democrata, enquanto o campo adversário mostrava tanto no semblante de Trump, quanto nas  reações da assistência quem realmente prevalecia.
              O moderador do debate foi forçado a intervir mais  do que é consueto, pelos seguidos deslizes de  Trump quanto às regras estabelecidas. Foram tantos que houve gente que interpretasse as consequentes intervenções do árbitro como prova de parcialidade. Na verdade, enquanto força da natureza, o candidato republicano verá muitas de suas atitudes contestadas, por desrespeitarem essas mesmas regras que existem  para serem implementadas pela mesa. Daí os entreveros e a impressão de eventual favorecimento de Hillary, e de aparente desequilíbrio na aplicação das regras.
              Impressão essa que um exame mais acurado desfará com relativa facilidade. Na verdade, queixas à parte, o próprio Trump reconhece "que foi prejudicado" e que "será mais agressivo". É o canto universal do perdedor da vez.
              Vejamos o que nos reservam os seguintes debates. Pelo que valhe, o primeiro já marcou vantagem para Hillary Clinton, de que, na linguagem universal de perdedor, até o adversário passou recibo.


( Fontes: CNN e O Globo )

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O PT e a Lava-Jato

                              

       Fazia muito que pesava sobre Antonio Palocci a suspeita das 'consultorias'. Visto com um bom, excelente mesmo quadro do PT, a sua trajetória no grande serviço público se viu várias vezes prejudicada por suspeitas que se lhe atravessaram no caminho.
      Tal ocorrera na Casa Civil de Dilma e no Ministério da Fazenda, no governo Lula, quando o estranho caso do caseiro interrompeu-lhe a exitosa trajetória.
       No tempo anterior à Lava-Jato, gerou suspicácia o cabedal acumulado por Palocci. Demasiadas consultorias, que por seu  montante acumulado se tornam algo difíceis de engolir.
        Hoje,  Antonio Palocci inaugura a 35ª fase da Lava-Jato, com o cognome de 'omertá' (que é o silêncio dos mafiosos sobre os respectivos crimes). O fato que venha a ser retirado da penumbra  por essa nova fase da Lava-Jato, é mais um golpe no Partido dos Trabalhadores, já enfraquecido pela carga excessiva da corrupção que não parece ter recato algum.
         Ele é investigado como operador de propinas das empreiteiras, uma espécie de elo para essa corrupção sistêmica. Levantar os véus deste melancólico período, é um exercício necessário, embora deprimente. Sendo solícito atuante em favor das negociatas entre PT e empreiteiras. Na  mensagem do gárrulo Marcelo Odebrecht  (presidente afastado da empresa), este último afirma que Palocci iria 'compensar' revés sofrido em lobby de uma Medida Provisória em 2009: "Ele mesmo pediu, além dos argumentos para a sanção/veto parcial, que levássemos alternativas  para nos compensar. Sejamos criativos." Nunca se viu tanto cinismo, ou tão pouca cura do desastre iminente. Parecem moradores de Pompéia que  levantam taças do bom vinho da terra em homenagem ao Vesúvio que logo os sepultaria na  lava que vomitaria da própria cratera.
          Palocci também teria atuado na licitação da Petrobrás para compra de 28 navios-sonda, no desenvolvimento  de  submarino e no financiamento do BNDES  para obras em Angola.
           A prisão de Palocci teve outras repercussões. Para a Pasta mais antiga do governo, e que tem como norma a discrição, é forçoso convir que o Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes fala demais e, por conseguinte  constrange desnecessariamente ao Presidente Michel Temer. Mexeu em casa de marimbondos ao antecipar a nova etapa da Lava-Jato. Parece que não entendeu ainda a autonomia da Polícia Federal  em termos de tais operações.
             A sua posição na Pasta esteve por um fio, mas ao fim e ao cabo Michel Temer optou por suavizar a ´bronca´, pois não lhe interessa ter mais uma crise na esplanada dos ministérios.
             Essa operação da Lava-Jato en passant  vibra ulterior golpe nos latagões do Partido dos Trabalhadores. Faz tempo que a sua presença saíu da página política para esparramar-se na reservada aos escândalos.
             A figura de Lula parece uma sombra do fasto antigo. Lembram-se da sua então enésima operação de eleger postes, com o acordo de última hora, com esse estadista do governo militar, Paulo Salim Maluf, que muito folgou em apoiar o jovem professor universitário Fernando Haddad  para a prefeitura paulistana.
              Passa o tempo, e Haddad, decerto empurrado pelo PT, faz carreata em São Paulo, na qual se entrevê  um Lula que em nada parece com o espécime anterior, que ria  solto com o favor popular e a sua valsa dos postes.Vejam ilustres passageiros como se acabou o belo tipo faceiro que se agarra ao bonde da história. Desapareceu-lhe o sorriso, que vira esgar.  E  o seu candidato olha  inquieto o incômodo trajeto, ansiando por um pronto fim para a comédia. Então poderá voltar para a própria cátedra, que agora lhe parece tão mais interessante...


( Fontes: O Estado de S. Paulo; Folha de S. Paulo )

Notícias da Corte (II)

                              

Operador do PMDB depõe na Lava-Jato


         A 35ª fase da Lava-jato, a Operação Omertà, em operação de condução coercitiva e de buscas e apreensões, levou para interrogatório o lobista  Milton de Oliveira Lyra  Filho, que é ligado ao Presidente do Senado,  Renan Calheiros (PMDB-AL).
         A Omertà identificou relações de Lyra  com recebedores de propinas da Odebrecht, que estão identificados nas meticulosas  planilhas do Setor de Operações  Estruturas  da empreiteira - que é apontado, de resto, pela força-tarefa da Lava-Jato como o "departamento da propina".
         Milton Lyra, segundo registra o Estadão, é empresário sediado em Brasília.  Já há alguns anos chefia o empreendimento comercial Meu Amigo Pet, que uma rede de produtos destinada a animais de estimação. Essa rede, além de valer-se da internet, dispõe igualmente de lojas físicas. 
          Relacionado com numerosos políticos, Milton |Lyra se aproximou do presidente do Senado, Renan Calheiros, já há cerca de dez anos.   Lyra também já trabalhou  com o usineiro e ex-deputado João Lyra. A sua última eleição foi em 2010, pelo PTB, das Alagoas, mas mais tarde se filiou ao PSD.
           Lyra apareceu em delação premiada, firmada com a Procuradoria-Geral da República, por Nelson Mello, ex-diretor  de Relações Institucionais do Grupo Hypermarcas.  Mello afirmou  que pagou R$ 30 milhões a dois lobistas com trânsito no Congresso para efetuar repasses  para senadores do PMDB, entre eles o Presidente do Congresso, Romero Jucá (RR) e Eduardo Braga (AM).  Além de Milton Lyra, foi igualmente citado Lúcio Bolonha Funaro.  Lyra afirmava agir em nome dos senadores da "bancada do PMDB", que teriam sido  destinatários da maior parte da propina, informa o delator.
            Mas Lyra também é investigado em outra área, aquela que apura desvios nos fundos de pensão. Ele aí aparece como operador de duas empresas que captaram R$ 570 milhões do Postalis, fundo de pensão dos Correios.
                    
            Além disso, o lobista é beneficiário da offshore Venilson Corp., aberta em fevereiro de 2013 no Panamá, segundo assinalam os documentos do Panama Papers.  Essa empresa foi usada para abrir conta  numa agência do banco UBS na Alemanha.  Tal instituição bancária encerrou as relações com o brasileiro cerca de dois meses mais tarde, quando houve tentativa de movimentar  alta quantia pela conta sem que fosse esclarecida a origem do numerário.
             Por outro lado, em fins de 2015, o lobista Lyra aparece em um bilhete apreendido  na casa de Diogo Ferreira, então chefe do gabinete do Senador cassado Delcídio Amaral (sem partido-MS), que tratava de suposta propina de R$ 45 milhões. Lyra nega qualquer tipo de  conexão com o aludido caso.
 
Comissão de Ética vai examinar fala de Moraes      


             Nesta terça-feira, a Comissão de Ética Pública, vinculada ao Planalto, irá discutir se abre ou não procedimento para investigar as declarações do Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, acerca da Operação Lava-Jato.
              Já no Congresso a oposição a Michel Temer anunciou duas providências: PT e PCdoB entraram com representação na PGR contra o Ministro da Justiça, assim como parlamentares oposicionistas estudam convocá-lo para prestar esclarecimentos sobre a afirmação  de que uma nova fase da Operação Lava-Jato poderia ser deflagrada nesta semana.
               Não basta que o Presidente Temer faça saber que chamou Moraes a palácio para dar-lhe um puxão de orelhas. Preservar a operação Lava-Jato de ingerências políticas é algo mandatório, e tem de ser respeitado.



( Fontes:  O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo )

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Lembranças do Padrinho Chico (XIV)

                             

         As férias, infelizmente, elas estão sob o domínio do efêmero. Assim, como vêm, também se vão.
         Ainda me recordo de outras temporadas que passamos na rua Turquia, 26. Ficando um pouco mais taludo, podia juntar-me ao grupo familiar, no programa semanal da ida ao cinema.
        Naquele tempo, os adultos ainda íam enfarpelados aos filmes. E não  raro o programa terminava em  restaurante. Era a atmosfera do sábado. Se excluirmos o lado burguês da diversão, havia ali muito do espírito que Vinicius retrata no seu poema porque hoje é sábado.
        Também Chico gostava de dançar com a esposa, minha madrinha. Salvo as crianças, os homens de terno e gravata, e as senhoras, com vestidos curtos de soirée.
        Era também  bastante comum que os restaurantes tivessem pista para dansar. Alguns até com conjunto musical, outros com música de fonógrafo. O sábado era o dia talhado para tais programas. Em geral, depois do cinema.
        Já na manhã de domingo, íamos a missa. Havia igreja do outro lado da avenida, a que se podia ir caminhando. Todos, por assim dizer, endomingados.
         Lá pelo meio-dia, voltávamos para casa. Era hora do almoço. Como a nossa família não tinha outros parentes na Paulicéia, as empregadas preparavam a refeição e deixavam o ajantarado pronto, que se servia quando baixasse a noite.
         Como naquele tempo os programas da tevê não tinham a nitidez, não digo do melhor analógico, eles não despertavam o mesmo interesse que atualmente. Só com o passar do tempo as transmissões foram melhorando em qualidade. Antes eram granulosas e pouco nítidas. Entende-se, portanto, que só em circunstâncias muito especiais, elas atraíssem o público.
          Por uns tempos, não sei por ideia de quem, nessas um tanto tediosas noites dominicais, se introduziu o carteado. Os adultos jogavam por mera diversão, mas as cartas podem ter às vezes o condão de indispor as pessoas.
           Chico, como me dei conta, por temperamento encarava tal exercício como algo sério, que obrigasse a certa atenção. Por isso - e ainda me pergunto de quem terá partido tal ideia - o que devia ser diversão virava fonte de tensão e, por  conseguinte, de aborrecimento.
           Ao contrário da mulher e da cunhada, que encaravam o exercício pelo que ele representava - simples diversão -, Chico não sei por que cargas d' água queria mais atenção e seriedade no jogo.
           Dadas tais características conflitantes, elas considerando a prática pelo que deveria ser, simples jogo e, portanto, brincadeira, ele atento aos detalhes, e às cartas que se jogava fora, e àquelas que se guardava, eis que a prática do suposto passatempo se transformava em  ocasião algo tensionada.
            Se a tudo isso minha tia e minha mãe davam importância pro-forma, e o padrinho se comportava como se algo de importante estivesse em jogo, se há de intuir que a coisa não acabaria bem, com reclamações de Chico e respostas desabridas da esposa.
             Indo a prática de mal a pior, depois de enésima discussão, se decidiu dar merecido descanso à prática.
             Parece que o deslize terminal foi dado por uma das parceiras que, diante das vistas irritadas do padrinho, terá feito alguma besteira.
             Chico então disse o que não deveria ter dito, segundo sentenciou a madrinha.
             "Damn it!"
              Só agora, passado tanto tempo e longe da cerceante atmosfera dos anos cinquenta, o que se poderia traduzir com a expressão "com os diabos!" me parece algo mais para o light, ao invés da imprecação de que o preconceito dos anos cinquenta vedava o emprego  em ambiente familiar... Além disso, o padrinho tomava o cuidado de vestir os respectivos impropérios com interjeição inglesa, língua que uma das  irmãs ignorava, e de que a outra tinha apenas vaga idéia...

              Depois de tal entrevero, a paz voltou à rua Turquia 26.          

A quem assusta a Lava-Jato ?

                    

          Aquela velha pergunta - Quem tem medo de Virgínia Woolf? - volta a assombrar os políticos brasileiros e, em especial, os personagens de um partido que até há pouco dava e, na verdade, ditava as cartas na cena nacional.
          A dita indagação, decerto retórica no caso da famosa autora inglesa, deixa de sê-lo se a transpusermos para a frase que encima esse artigo.
          A Lava-Jato, detestada pelos corruptos e por uma certa esquerda, pode até tentar repontar sob a pena de algum cartunista. Há políticos, sobretudo aqueles marcados por escândalos que, por um conjunto feliz de circunstâncias, logram ir escapando do bote inesperado das prisões, cuja  sobrevivência seria fruto de conluios e da sorte benfazeja que sói visitar os poderosos de plantão.
           Ora, nada como um dia depois do outro. O caso de Antonio Palocci, a despeito de seus tropeços, estaria nesta lista, que, por idiossincrasias próprias, se vai completando à medida que as fichas vão caindo.
           Depois de exercer tanto poder - a que se agrega louvável atenção à gestão fazendária - eis que, ou por ações impensadas e voluntárias, como as do caso do caseiro, ou então porque o passado das consultorias contra ele se volta, eis que a casa cai.
            Se Guido Mantega parece estar na marca do pênalti, tal não semelhava ser o caso desse antigo peso pesado, Antonio Palocci, político importante na família petista, que hoje vê a polícia bater-lhe à  porta.
            São altas somas de que deverá dar conta ao juiz Sérgio Moro.
            As eleições estão marcadas para o próximo fim de semana, e esses grilhões que a Justiça traz são  mau augúrio para a vermelha estrela solitária.
             Essa invenção que acreditam demoníaca empurra para baixo um prestígio já bastante machucado.
             Pensando bem, atendidos os escândalos passados, a sobrevida parece ter ido além, muito além da Taprobana.
               É o que decerto se verá em relatos que concernem ao velho café com leite.


( Fonte: Folha on-line ) 

Na diplomacia erros não perdoam

  
                           
         França, Inglaterra e Estados Unidos convocaram reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações  Unidas, neste domingo, dia 25, e acusaram a Federação Russa  de cometer "crimes de guerra" em Aleppo, na Síria. Os três membros ocidentais do Conselho de Segurança insistiram em que Moscou interrompa os bombardeios que realiza em apoio ao regime de Bashar al-Assad.
        A embaixadora estadunidense nas Nações Unidas, Samantha Power, disse que foram registrados mais de cento e cinquenta bombardeios em Aleppo, no norte da Síria, nas últimas 72 horas, e acusou o regime sírio do ditador  al-Assad, e sua aliada, a Rússia de Vladimir Putin, de lançarem uma "ofensiva total".
         Esse 'tapete' de bombardeios, neste fim de semana, deixou pelo menos 124 mortos em áreas controladas pelos rebeldes em Aleppo. Do total das vítimas, pelo menos 26 são civis, segundo a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos.
          Segundo o noticiário, esta ofensiva aérea russo-síria terá sido a mais letal desde o início da guerra civil, em 2011. Tal ataque, com as consequências acima descritas, torna, obviamente, a situação naquela sitiada cidade ainda mais difícil.  Note-se que lá havia mais de duzentos e cinquenta mil civis.
           Foi por causa disso mesmo que o Secretário de Estado John Kerry assinara mais um acordo de suposta trégua com o Ministro do Exterior de Putin, Sergei Lavrov, que é uma espécie de Talleyrand[1] do autócrata russo. O seu compromisso não costuma ser com a verdade, mas sim com o próprio amo. E terá sido também por causa disso que o atual Secretário de Estado não terá pesado devidamente o valor relativo das promessas e da firma  de Lavrov nos acordos.          
             Mas convém reconhecer que as vantagens no terreno de Putin se devem mais à própria coerência (o seu norte não é o interesse da Paz, mas sim a conveniência da Rússia e sobretudo do atual amo do Kremlin), do que às eventuais promessas por ele feitas ao Ocidente e aos Estados Unidos, em particular.
               Como já escrevi em outra parte, o principal erro dos Estados Unidos nessa questão é atribuível a Barack Obama. Quando os quatro chefes dos Departamentos americanos competentes para o conflito na Síria lhe propuseram um pacto - quem os encabeçava eram a então Secretária de Estado Hillary Clinton - cujo principal escopo era armar os rebeldes sírios, o Presidente Obama, o recusou. Na prática, deu preferência à guerra no Afeganistão (cujos resultados seriam previsíveis), e praticamente nada à Liga Rebelde.  Diz o velho ditado que quem planta ventos costuma colher tempestades, e é o que sucede no fim do mandato de Barack Obama.
                Qual a credibilidade de assinar acordo de cessar-fogo com Putin? Muito baixa em verdade, eis que ele é estreito aliado (na verdade, protetor) do ditador Bashar al-Assad, que a troco dessa aliança já concedeu ao homem forte da Rússia pelo menos duas bases, para as suas naves (a Rússia como sempre necessita fugir das águas frias do Mar Negro e buscar as quentes do Mediterrâneo), e também para as próprias aeronaves.
                  Putin se tem saído demasiado bem com os seus adversários americanos, porque estes não fazem o dever de casa. Bush, o jovem, o único presidente americano eleito pela Corte Suprema, se deu mal com Putin, ao tentar apoiar - sem muito cacife - a Geórgia, e deu no que deu, com mais um país atrelado ao urso russo.
                  Depois de fazer a magistral manobra de ceder o mando aparente a seu alter-ego Dmitriy Medvedev, ao elevá-lo à Presidência (2008-2012), Putin, como Primeiro Ministro, continuou com grande parte do poder, e logrou assim fazer esquecer as marcas do periodo anterior. Pôde assim retomar todo o poder até hoje.
                  Não aproveita a Obama e aos Estados Unidos que a Federação Russa assine acordos até mesmo de cessar-fogo, como foi o caso recente, se Putin está bem implantado no terreno.
                   Putin pode até não participar diretamente dos ataques aéreos. Mas só por olhar para o outro lado, deixa ao seu aliado (no antigo sentido romano da dependência estrita) o papel de atacar Aleppo e os bastiões rebeldes.  Por isso, os eventuais compromissos de paz assinados pelo seu Ministro Lavrov tem o mesmo valor de que os 'pedaços de papel' assinados por um antigo adversário da União Soviética, e que tanto mal fez à Civilização Ocidental e à própria Alemanha, em que pensara erigir o Reich de mil anos...
                     Agora o Ocidente acusa a Rússia por ataques à Síria. Por não ter outros meios, Obama - que chamara Putin de chefe de 'poder regional' - pensa valer-se no papel de acordos de cessar-fogo. Gospodin Putin, como já mostrara (e humilhara) o jovem George Bush, pode fazer o mesmo com o seu sucessor, eis que Barack Obama não poderia acreditar que com palavras empenhadas possa fazer progressos com Vladimir V.Putin. Este pelo visto, só entende uma linguagem, que é a da força.
                      Para ele, os tratados  - como para outros supostos 'realistas' no passado - só valem se solidamente apoiados em realidades tangíveis, de preferência militares. Quem não as utiliza, está condenado a sofrer-lhe as consequências.

( Fontes: The New York Times, Folha de S. Paulo )




[1] O príncipe de Benevento (1754-1838), no antigo regime, bispo de Autun, presidente da Assembléia Nacional (1790),  camaleonicamente servindo a todos os regimes da revolução, até Napoleão inclusive, se 'reconciliou' com a restauração de Luis XVIII - onde fez grande trabalho no Congresso de Viena, salvando a França dos vencedores de Napoleão. Dada a sua grande habilidade, é uma espécie de patrono da diplomacia.