quinta-feira, 3 de março de 2016

Tempestade no GOP


                               
         Os resultados da Super-terça, que reforçaram ainda mais a pré-candidatura de Donald Trump, acirraram a ebulição no comando republicano, que vê com grande preocupação, para não dizer medo, o avanço do populista Trump para assenhorear-se da Convenção do Partido. Por isso, e vivamente incentivado pelas instâncias de comando do GOP, Mitt Romney, o candidato republicano à Presidência derrotado por Obama em 2012, lançou, em local preparado às pressas, violenta diatribe contra o pré-candidato Trump, dando a clara impressão de que não desdenha ser candidato outra vez, e por isso não hesitou em associar-se à tentativa vizinha quase do desespero para conter de qualquer jeito a dinâmica de Trump.

       Já é consenso no establishment[1] republicano, que a direção partidária esperou demasiado para tentar parar o avanço de Trump. Partindo da subestimação a princípio - "o candidato do verão" - além de indisfarçável  menosprezo no que toca ao personagem. É esta a imagem a que os gerarcas republicanos se aferram, como espécie de tábua de salvação. Nesses termos,Trump, com seus procedimentos descabelados ou fora da ética, como a contestação de que Barack Obama fosse cidadão americano, terá projetado imagem de figura pitoresca que lograria ter alguma aceitação passageira, mas que pelo seu caráter, fora dos procedimentos normais dos candidatos, não reuniria condições de sustentar-se por muito no topo das pesquisas. Em outras palavras, para os dirigentes do Partido Republicano, Donald Trump faria, por um tempo, muito barulho, mas seria candidato efêmero, por parecer  pitoresco, popularesco e bombástico. A fortiori, os chefes do partido vêem com grande inquietação, a possibilidade de o candidato presidencial Trump dar aos democratas a maioria no Senado, e importantes governanças nos Estados, mas, como escrevi ontem, na Câmara  isto é quase impossível, pelo gerrymander sofrido pela Câmara baixa, e que levará tempo para ser sanado...

        Esta convicção do estamento republicano semelhava a princípio fazer muito sentido, e os grandes personagens julgavam que não valeria a pena afanar-se em barrar o caminho do candidato populista, confiados em que ele próprio faria alguma besteira ou outra derrapagem similar. A direção do GOP imaginou esse roteiro e nele baseada, julgou que não haveria necessidade de maior desgaste no episódio, pensando que o populista Trump acaberia rendendo-se às evidências.

        Esses grandes personagens esqueceram-se de  princípio básico em política. Não é sensato, nem seguro menosprezar um adversário, e ainda por cima, abrir-lhe espaços, na esperança de que o próprio se encarregue do serviço que cumpriria, na verdade,  à direção partidária.

       Dentro da democracia americana, poderão aventar que tal verticalismo seria inviável, e que tenderia a contrario sensu reforçar o candidato. É lógico que a direção do GOP não pode afastar da concorrência quem dispute com  os demais o apoio dos militantes. Mas há um grande abismo entre a pasmaceira e a inação, de um lado, e de outro, essa tentativa de cunho autoritário e quase in-extremis contra o pré-candidato.

       Porque dormiram, embalados pelas cantigas de ninar de que de alguma maneira a coisa se resolveria nos conformes de sempre, é que acabaram despertados pelo avanço inarrestável daquele candidato, que insistiam em desmerecer e carimbar de incapaz de virar o jogo.

       Ora, como qualquer cidadão americano há de reconhecer, Donald Trump continuou avançando, enquanto os queridos da direção, como Jeb Bush, se retiravam, cabisbaixos da porfia. A esse último tudo fora disponibilizado, inclusive gordos fundos para financiar a campanha. O que faltou a Jeb Bush, não foi decerto o apoio financeiro da família e de todo o esquema Bush, mas sim carisma e proposta política.

        O pelotão republicano tinha muitos nomes, mas poucos líderes com trânsito no povo americano. Daí, como as folhas secas nesse período que anuncia a chegada dos grandes frios e do inverno boreal, muitas dessas criaturas começaram a cair, como Cris Christie (cujas fumaças ele perdera em escândalo na Nova Jersey) Carly Fiorina e Ben Carson, o negro-republicano.

         Entrementes, Trump seguia em frente, começando a coletar delegados na série das primárias em que, ignorando os preceitos da hierarquia, teimava em vencer.

          Posto contra a parede, vendo que Donald Trump teimava em não distinguir a clara realidade (segundo a direção do GOP) e prosseguia no seu avanço, coletando maiorias em muitos estados, o Partido afinal resolveu intervir com um suposto grande dignitário, o candidato Mitt Romney (2012) que continua com fumaças de reapresentar-se, não obstante a sua fraca campanha contra o presidente Barack Obama. Ganhou, por displicência de Obama, um dos debates, mas seria vencido no seguinte e o que é pior, cometeu uma gafe (que, constitui, de resto particular familiar, eis que o seu pai acabara então com a própria campanha com a gafe da lavagem cerebral). Caberia a Mitt Romney seguir tais fatídicas pegadas, ao fazer o comentário dos 47% de inúteis (sustentados pelo Partido Democrata), e que um barman, no encontro de grandes doadores, não só distribuiria drinks, mas também desvelaria a observação preconceituosa.

          Na sua alocução, Mitt Romney investiu contra Trump, a quem procurou desqualificar ("não tem nem o temperamento, nem o juizo para ser presidente.  Sua política interna levará os Estados Unidos à recessão, e a política externa tornará os Estados Unidos e o mundo menos seguro."

           John Mc Cain, o candidato derrotado por Obama, e a quem Trump tratara grosseiramente, apareceu também para significar a sua insatisfação com a candidatura  do magnata nova-iorquinho.

             Por fim, não se pode ignorar que no seu afã de oferecer-se como candidato da hierarquia  (inclusive aventando uma Convenção especial, supostamente sob controle estrito do comando do GOP), Mitt Romney esquece comportamentos passados  que o põem em situação constrangedora.  Além de gestionar de modo pressuroso o endosso de Trump em 2012 (apoio que Romney, como  candidato republicano, então  tratou de divulgar com destaque), tampouco este último se terá dissociado do comportamento então de Donald Trump, que buscava incomodar Obama com a acusação de que ele não era americano nato...

             Para encerrar, continuam na disputa os Senadores Ted Cruz e Marco Rubio, e o governador  John Kasich. Este último, pretende por todas as suas fichas na primária de Ohio, de que é filho favorito (favourite son), a expressão típica para designar candidato que dependa do próprio reduto natal para avantajar-se na política. Dos três, Cruz tem o melhor desempenho, vencendo algumas primárias, e Rubio, que tem uma única  vitória,  embora permaneça ainda na corrida, já esteve melhor. Quanto a Kasich, põe todas as fichas no seu estado de Ohio, o que só poderia valer se pensa arrebatar a nomination não através de votos, mas sim graças ao apoio da hierarquia, junto à qual acredita ter trânsito.

 

( Fonte: The New York Times )



[1] estabelecimento

Pós-Super-terça democrata et al.


                       
       Com as suas vitórias nesta terça, Hillary Clinton mostrou que pode construir amplas maiorias baseadas nos eleitores afro-americanos e nos chamados latinos, além de ter largo apoio na população branca e sulista.

        Dessarte, agregando minorias - e nisso incluídos os segmentos de brancos de menor renda que a Senhora Clinton vem montando maiorias através das primárias desta eleição - tende a ser fórmula para a vitória da chapa da ex-Senadora por New York e  Secretária do Departamento de Estado, no primeiro mandato de Obama.

        Se Bernie Sanders continua ainda competitivo, com as  derrotas da Super-terça a sua posição se enfraquece, e já não mais parece o bicho-papão que surgira com a esmagadora vitória no pequeno New Hampshire.

         Há outro dado muito importante que merece especial consideração: com esta Super-terça, Hillary montou uma diferença em delegados comprometidos (pledged) para a Convenção Democrata que é superior àquele que possuía Barack Obama sobre ela, logo após a Super-terça de 2008.

         Ainda é muito cedo para considerar Bernie Sanders como fora do páreo, mas Hillary tem demonstrado forças e um approach eleitoral (aprendido e hoje internalizado pelas palmatórias da disputa primária com o jovem Senador Barack Obama, ao ensejo da competição pela nomination da campanha de 2008).

           E Hillary não desconhece uma outra premissa para construir sólidas maiorias para o além-Convenção, vale dizer a campanha pela presidência com o rival - possivelmente Donald Trump - representante de um indisposto GOP.

           Por isso, a senhora Clinton, ao deparar  o forte adversário nestas primárias, terá presente igualmente a necessidade de construir sólidas coalizões   para o dopo (depois) convenção de Charlotte. Dessarte, ela não desfará do contendor e deverá tratá-lo - se a campanha continuar a evoluir dentro das linhas das últimas refregas - não esquecendo que adversário hodierno poderá ser o aliado de amanhã. Não queimar pontes, portanto, com o pensamento voltado para a formação de largas alianças de eleitores das minorias (negros e latinos), de sulistas e população branca de baixa renda, inclusive operários - todos seus eleitores no passado e no presente - assim com a seara de Bernie, com os liberais (progressistas) e a juventude.  Por outro lado - e tenho a impressão de que isto virá por acréscimo - se incrementará a conscientização no público feminino da importância para o gênero de enfim mulher entrar na Casa Branca, não como cônjuge, mas como Madam President.

             Nessa grande democracia, não se fazem presidentes (ou presidentas) por indicação de algum magno cacique ou coronel - como talvez em outras partes da América isto seja possível.  Pode ter havido no passado um presidente 'eleito' pela Corte Suprema - e estou certo que os Estados Unidos pagaram muito caro pela circunstância de que Al Gore (que teve a maioria na votação direta, mas não na indireta, que é a que conta nos Estados Unidos) perdeu para quem seria um dos piores presidentes estadunidenses, George W. Bush, que com  a aventura do Iraque desperdiçou bilhões e bilhões de dólares do Tesouro americano, sendo por conseguinte o principal responsável pelo chamado Declínio, que é a retração da Superpotência (que pode ou não ser permanente) por força do desastre neo-conservador do intento de derrubar Saddam Hussein, encontrar as armas de destruição de massa (inexistentes)  e estabelecer a pretensa democracia no Oriente Médio...

             Um dos herdeiros principais do grande erro é o chamado ISIS, exército islâmico, composto em boa parte pelos soldados e apoiadores de Saddam Hussein.

              Em termos de destruição irreparável de monumentos de antigas civilizações, até então preservados, a palma vai para o chamado Exército Islâmico, sob o Califa al-Baghdaadi, que no passado servira sob as ordens de Saddam, junto com muitos de seus companheiros militares.

              Por sobrevoarmos, ainda que metaforicamente, a sua área de ação, que é a velha Síria, a terra da passagem entre Europa e Oriente Médio, será  bom ter muito presente a relevância de uma paz real na Síria. Infelizmente, por ora, Bashar al-Assad, graças ao apoio de gospodin Vladimir V. Putin (que ganha boas bases militares e navais em consequência)  deverá permanecer com algum poder. Isto decerto já não é dessa longuíssima sublevação um bom fim, porque permitiria a permanência do ditador responsável em última análise por todo o desastre ocorrido na região (e não é de menos que seja a origem do grande afluxo de refugiados que testa a resistência e a capacidade de absorção dos diversos países, a começar pelo mais afluente e com mais firmes bases na C.E. que é a Alemanha de Angela Merkel). E este milhão de refugiados acolhidos[1] pela Chanceler da RFA coloca não só a estabilidade política alemã em perigo, mas também a permanência no poder de Frau Merkel em dúvida mas a própria estabilidade da União Européia. Mas isso é um outro assunto...

 

( Fonte: The New York Times )



[1] com nobreza de caráter, muita coragem política, e riscos para dar e vender.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Trincheiras da Liberdade - 16


                                  
         O desgoverno chavista na Venezuela continua impávido, acumulando tropelias, ilegalidades e, mesmo, inconstitucionalidades.

         O Presidente Nicolás Maduro Moros, que realiza uma das piores administrações que imaginar-se possa, tratou de impedir que a vontade do Povo Venezuelano, expressa pela votação popular favorecendo a eleição de grande maioria de deputados da Oposição, possa produzir resultados efetivos.

          Depois da manobra, realizada em seguida à posse da nova Assembléia com maioria da oposição, o Tribunal Supremo de Justiça acolhera a contestação de grupo de deputados oposicionistas. Malgrado os protestos da nova Mesa do Parlamento, diante da demasiado suspeita suspensão de um número de deputados que desfalcaria a maioria da MUD e por coincidência somavam o número necessário que retira da Assembléia Legislativa a competência de adotar providências de alta relevância no interesse institucional.

           Nesse Tribunal Supremo, que é outra expressão do chavismo, se decidiu afastar do cargo treze juízes que ainda dispunham, na maioria, de um ano de mandato. A súbita superlotação do Tribunal Supremo chavista visa a prevenir que a Assembléia Legislativa possa cumprir, a seu devido tempo, as prerrogativas que lhe são próprias, com vistas a que a Corte jurídica pudesse responder não mais aos interesses inconfessáveis da quadrilha de Maduro e Diosdado Cabello, mas sim venham a ser colocados  em curuis porventura  vagas magistrados dignos deste nome.

              Segundo a Justiça Venezuelana, que na sua forma atual exprime apenas os interesses do chavismo de Nicolàs Maduro, a Assembleia não teria poder para revogar essas abusivas nomeações,  com o descarado escopo de impedir, através de manobras ilegais do Tribunal Supremo de Justiça que a maioria da Assembléia Nacional possa derrogar as indicações de treze juizes e 21 suplentes, realizadas às carreiras, pela antiga Assembléia Nacional, já em fim de mandato, com prazo constitucional para ser substituída por nova Assembléia Nacional, eleita  com larga maioria oposicionista, o que reflete o sonoro Não do Povo venezuelano às tropelias do Poder neochavista.

                 O único objeto desta manobra ilegal de Maduro, foi descaradamente superlotar o TSJ com juízes ligados ao respectivo partido, que acabara de ser desautorizado pelas urnas do Povo. Vê-se, por outro lado, a cínica má-fé do dito Tribunal Supremo, intentando evitar a anulação das nomeações no intervalo para a entrada em funções do Poder Legislativo com maioria da oposição, o que configura clara intenção de descumprir  a vontade popular, inequívocamente expressa nas urnas, e com enorme maioria para a Oposição.

                      Querendo manietar a Assembléia, os novéis juizes declaram que "as funções de controle político" da Assembleia não se aplicam a órgãos como o TSJ, e, extrapolando ainda mais a própria intervenção ilegal, "ou mesmo os governos estaduais e prefeituras, pois - embora possam investigar e indiciar  funcionários dessas entidades - o TSJ declara  antecipadamente a "nulidade absoluta e irrevogável" de todas as recomendações do Parlamento para a criação de comissões especiais para investigar as nomeações de dezembro".

                         O Presidente Maduro que já vive no caos administrativo de um governo ineficiente e incapaz, minado pela corrupção, e sabe-se lá o que mais, sob a inflação galopante e a consequente contínua desvalorização do bolívar, de que resulta o geral desabastecimento de  que padece o Povo Venezuelano, agora, para enterrar a estaca de cruel vindita imposta terrível à sociedade desse infeliz país, institui o caos jurídico, resmoneado por leguleios que na verdade não passam de capangas togados do Palácio de Miraflores.

                         Desvelando a estrutura e as falhas gritantes do poder chavista, gerido por Maduro e o antigo presidente da Assembléia Diosdado Cabello, a desordem é tamanha, que se tem a impressão de que a festa de Baltazar deverá findar breve. Na indizível confusão do soçobrar, na desmoralização da corte chavista, subsistem dúvidas se o Tirano dessa nova Babilônia poderá entrever nas paredes do palácio as azíagas sílabas da queda iminente.

 

( Fonte subsidiária:  O  Globo )  

Trump prevalece na Super-terça


                              
        O favorito no campo republicano, Donald Trump, venceu em Massachusetts, com 49% dos votos, e também em Alabama, Georgia e Tenessee, e com percentuais mais baixos, em Arkansas, Vermont e Virginia.

        Entre os adversários no GOP, o Senador Ted Cruz ganhou no Texas (44%), Oklahoma e Alaska, prevalecendo sobre o adversário direto, Sen. Marco Rubio, que venceu tão somente em Minnesota, com 37% dos sufrágios.

        Como Rubio antes reivindicara assumir o cetro de principal desafiador de Trump, esse sofrível desempenho  o deixa em posição bastante difícil.

         Os demais integrantes do pelotão do GOP tiveram desempenho medíocre na Super-Terça, e são sérios candidatos a pularem fora da competição.

          Trump, em verdade, não teve a performance avassaladora que se esperava (ou se temia). Somente em Massachusetts quase obteve a maioria absoluta do total, e nos demais estados, atingiu  percentuais  altos, porém longe dos 50%, por força do número de pré-candidatos restantes no campo do GOP (cinco).

           Ted Cruz semelha consolidar-se, assim, como o runner-up[1] de Donald Trump. Por sua vez, Marco Rubio, depois de alardear altas pretensões - oferecendo-se até para ser o adversário único  de Trump, e por conseguinte o campeão da causa da direção partidária do Grand Old Party - não é que, de repente, nesta manhã de 4ª feira, dois de março, olha para trás e vê as três vitórias de Ted Cruz, contra a sua magra performance, com uma vitória isolada (pouco mais do terço dos sufrágios, em Minnesota) .

           Por sua vez, a alta hierarquia do GOP, literalmente apavorada com o desempenho de D. Trump, que ela pensara fosse apenas figurar como o favorito do verão. Agora, ela o vê cada vez mais bem posicionado para arrebatar a nomination. Depara-se, por conseguinte, com o problema de o que fazer para tentar brecar ao maverick[2] Donald Trump. Como opção teria apenas o Senador pelo Texas, Ted Cruz, embora cogite igualmente de tirar do chapéu, se possível, um grande nome partidário, representante da elite dominante no Partido Republicano.

           Esta teme o independente Trump como que precipitando catastróficos comícios em novembro p.f. com a eventual perda do Senado pelo Partido  Republicano, o enfraquecimento do predomínio na Câmara - a que o gerrymander pró-republicano pós-shelacking (tunda) amortecerá o impacto da real maioria democrata (só um milagre político devolveria Nancy Pelosi à curul de Madam Speaker na Câmara de Representantes). O restabelecimento da normalidade republicana - e aqui me refiro não ao GOP,  porém aos Estados Unidos da América - deverá levar ainda tempo, para que tais empecilhos a que a Câmara reflita a realidade do pensamento político americano possam ser legalmente afastados....

 

( Fontes:  The New York Times, site de  O Globo )




[1] Adversário direto.
[2] Impetuoso, autônomo.

Boa vitória de Hillary


                              

        Contra Bernie Sanders, o rival que não está tão fraco quanto recentes comentários na imprensa anunciavam, Hillary Clinton obteve vitória maiúscula nesta super-Terça Feira.
         Fez uma razzia (devastação) no Sul profundo (Texas, Tennessee, Alabama, Georgia, Virgínia, Arkansas) e ainda vence no fio da navalha, no ultra-liberal Massachusetts (50%).
         A sua maioria no eleitorado afro-americano, está na base de 60% em quatro estados, inclusive o Texas, com 70% na Georgia e 80% no Alabama. Conhecedores da sua longa militância no Sul, o voto negro a apoiou de forma maciça, chegando em certos estados a ultrapassar o que Barack Obama tinha obtido desse importante segmento do eleitorado democrata. Com a quase nenhuma participação de B.Sanders em defesa dos negros - só conseguiu produzir uma foto desfocada de 1963 - este sólido ativo da ex-Secretária de Estado - o apoio do voto afro-americano, de grande peso nos sufrágios democratas - tende a ser trunfo temível para o adversário.

           Por outro lado, surpreende que arrebate Massachusetts, próximo da base de Sanders, e com menor participação do contingente afro-americano.

            No momento, Hillary tem já cerca de metade dos delegados 'pledged' (comprometidos) necessários para arrebatar a cobiçada nomination. Isto sem falar dos chamados superdelegados, que já afluíram para o seu ticket com grande vantagem em relação ao direto adversário. Bernie Sanders, além de vencer no estado natal, Vermont, ganhou tambem em Oklahoma e Colorado, estados com perfis liberais que se encaixam na respectiva base de apoio do Senador populista.

             O New York Times, nas suas habituais contradições, apesar de endossar a candidatura de Hillary Clinton (anteriormente havia apresentado artigos ambíguos com relação ao irmão de Hillary, e faz pouquíssimo publicou longo artigo[1] - em duas partes - no qual questiona a influência de Hillary no que concerne ao desastre na Líbia ), reconhece que Bernie Sanders  precisará de landslides (avalanches eleitorais) para mudar o jogo.

            

              Ainda falta muito para declarar que Hillary já tenha a vitória assegurada. Mostra, no entanto, ao contrário de muitos observadores, que a sua parcela no voto negro - e o apoio que tem de outros segmentos, como o da classe A, e dos idosos - semelha montar um percentual no sufrágio democrata, de que o concorrente Bernie Sanders careceria  de colher triunfos com sólidas maiorias, com pelo menos vinte por cento de vantagem,  o que por ora não se divisa no visível horizonte.

 
                Mas a política é o que é, e os triunfos surgem e são coroados pela Convenção. Antes disso, o caráter lábil dos sufrágios e as muitas armadilhas que cercam os grandes candidatos, aconselham cautela.

  

                Como diz o americano "so far, so good", i.e., por enquanto vai bem. O por ora especialmente  positivo é que, apesar do súbito crescimento do rival Sanders, Hillary mostra nesta Super-Terça-feira ótimo desempenho, com comportamento nas primárias que relembra - e aí está a ironia - aquele de seu rival vencedor em 2008, Barack  Hussein Obama.

 

 

( Fonte:  The New York Times )




[1] Oportunamente farei no blog resenha sobre esse artigo.

terça-feira, 1 de março de 2016

Problemas de Renan, Pimentel et al.


  Será a vez de Renan?

 
      Segundo notícia de O Globo, atualmente existem no Supremo sete inquéritos investigando Renan Calheiros, presidente do Senado Federal. Desses procedimentos, seis foram abertos no âmbito da Lava-Jato, e há também o que investiga originalmente o caso Mônica Veloso.

       No entanto, existe ainda outro processo: a PGR pediu abertura de novo inquérito contra Renan,  por suspeita de lavagem de dinheiro e peculato. Os indícios surgiram a partir de inquérito que investiga se uma empreiteira pagava pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem Renan tem uma filha.

        Além desses, se o Ministro Dias Toffoli concordar com a PGR, serão oito processos. A nova investigação foi conduzida internamente pelo MPF e tem 1922 páginas, divididas em nove volumes. O Presidente do Senado é suspeito de ter cometido "infrações penais tributárias", segundo os autos que estão sob segredo de Justiça.

        O caso original Mônica Veloso veio à tona em  2007 e levou à renúncia de Renan da presidência do Senado.  Em seguida, o chegou ao Supremo. Neste primeiro inquérito, Renan é acusado de falsidade ideológica, uso de documento falso e peculato. O inquérito já estava pronto para ser julgado e tinha sido liberado para a pauta de julgamentos no inicio do mês. Na penúltima semana de fevereiro, a defesa alegou falha processual.

        O relator, Ministro Edson Fachin, decidiu retirar o caso da pauta e o reencaminhou à Procuradoria Geral da República, que deverá emitir parecer sobre a suposta falha no processo.

         Qual o resumo de mais este processo contra Renan Calheiros. Na denúncia apresentada pela PGR ao STF, a Procuradoria-Geral  concluíu que  o parlamentar não tinha dinheiro suficiente para pagar a pensão alimentícia a Mônica Veloso. Segundo a denúncia, Renan apresentou documentos falsos para comprovar que tinha condições de arcar com a despesa.  Mas as quebras de sigilo bancário mostraram o contrário.  

 
 E que fazer do Caso Pimentel  et al. ?

 

                Não é decerto a primeira vez que o Governador Fernando Pimentel (PT) tem problemas na Justiça. Desta feita, tratam-se de suspeitas de pagamentos indevidos à mulher de Pimentel, Carolina Oliveira Pimentel, assim como sobre a prestação de contas à Justiça Eleitoral relativa à campanha que o elegeu governador. Nesse sentido, a PGR pediu para a Polícia Federal ouvir o Governador sobre essas duas questões.

                Assinale-se que Pimentel e Carolina são investigados  em inquérito no Superior Tribunal de Justiça (STJ) por conta da Operação Acrônimo, que apura um suposto desvio de recursos públicos para financiar campanhas.

                 Por outro lado, a casa da Primeira Dama de Minas chegou a ser alvo de mandado de busca e apreensão quando a operação foi deflagrada em maio de 2015. Um relatório da PF diz que uma empresa dela, antes de ser Primeira Dama das Alterosas, era de fachada. Assinale-se que o empreendimento em tela recebeu recursos do BNDES, que é vinculado ao Ministério do Desenvolvimento e Indústria, no período em que Pimentel foi titular da Pasta (2011-2014).

                  Outra suspeita sendo investigada  é que o Governador deixou de declarar à Justiça Eleitoral gastos com empresas em nome do amigo Benedito de Oliveira Neto, o Bené, que havia caído na malha da Operação Acrônimo.

                  Por fim, o Tribunal Superior Eleitoral manteve ontem a rejeição das contas de campanha de Pimentel. Os ministros, no entanto, decidiram por afastar uma multa de R$ 50,8 milhões, que tinha sido aplicada pelo TRE de Minas Gerais.

                   E ainda outro Governador, Beto Richa (PSDB) do Paraná caiu na malha da Operação Publicano.  Trata-se de engenhoso esquema em que auditores atuantes na Receita de Londrina reduziam dívidas tributárias em troca de propina e o esquema viria  a abastecer um Caixa 2 da campanha à reeleição de Richa em 2014, com a soma de R$ 2 milhões, conforme as investigações.

 

( Fonte:  O  Globo )

O Maior Vacilo de Dilma?


                         

      A História não é sequência ininteligível de fatos, mas livro aberto que os pósteros carecem de ler se querem entender mais um pouco do comportamento humano e da experiência de outros países.

      O México - que foi uma de minhas destinações diplomáticas - é terra de longa história, que a conquista marcou, e que por ser demasiado próxima do gigante do Norte disso sofreu as consequências.

      Mas não é para falar desse aspecto que hoje venho bater metaforicamente à porta de meus leitores. Pretendo discorrer de forma  breve para abrir-lhes uma janela na experiência política daquele país-irmão na imediata fase pós-grande Revolução, desencadeada pelo assassínio brutal do presidente Francisco I. Madero.

      Plutarco Elías Calles evoluiria mais tarde para principal líder pós-revolucionário. A nova Constituição mexicana lhe colocou uma Pedra no caminho: a proibição da não-reeleição. Fora justamente o abuso farsesco das reeleições do ditador Porfírio Diaz que desencadeara a primeira fase revolucionária, com o breve mandato de Francisco I. Madero, que se tornaria mártir nas mãos do traidor General Victoriano Huerta. Seguir-se-ía a grande revolução, com as suas principais lições, que vimos posteriormente repetidas nos governos que se sucederam, na quarta década do século passado, através dos lemas Sufragio efectivo y No-reelección.

       Infelizmente, dos dois, apenas o segundo seria respeitado, eis que nos anos quarenta, após a presidência de Lázaro Cárdenas, a ascendência do PRI (Partido Republicano Institucional) perduraria por longas décadas, com sexênios de presidentes (saídos muita vez de Gobernación - ministério do Interior), com o beneplácito do antecessor. E funcionou, a princípio bem, mas com a institucionalização, marcada crescentemente pela senhora Corrupção.

        Após o pandemônio da Grande Revolução, e findo o respectivo mandato presidencial, Plutarco Elías Calles resolveu instituir o maximato. Dentro desse contexto, tão mexicano e tão latino-americano, Dom Plutarco continuou o Líder Máximo, mas um presidente da república de turno - na prática, sob suas ordens - seria eleito. Surgia, assim, o período dos presidentes peleles (fantoches). Nesse ponto, creio que o meu leitor, porventura perplexo, já há de suspeitar a que tenciono referir-me.

         A situação entre o Líder Máximo - no caso Dom Plutarco - e o Presidente pelele indicava quem tinha realmente o mando. Este último se ocupava do dia-a-dia da rotina de um primeiro mandatário, mas as decisões que contavam, quem deveria tomá-las era D. Plutarco. Foi somente no governo do presidente - a princípio pelele - General Lázaro Cárdenas que a reeleição seria realmente varrida do mapa constitucional. Com dois anos de governo, Cárdenas colocou o Lider Máximo em um DC-3 com destino a Estados Unidos, e pode o General Cárdenas terminar o seu sexênio como um dos maiores presidentes da história mexicana.

           Como verá o leitor, a situação hodierna em Pindorama não é exatamente a mesma, mas há muitos traços similares.

            Primo, a relação da reeleita (e como!) Dilma Rousseff, no que tange ao grande líder petista Lula da Silva. Deveu a presidência ao Chefe, que a fez eleger, passando por cima de gente mais qualificada, como procederia um coronelão de seu velho Nordeste (a derrota de José Serra, a despeito de sua enorme experiência político-administrativa, ele a deve ao fato de ter sido quase cristianizado em Minas, além do presente-grego de vice inexpressivo, tudo isso graças,  sobretudo, ao sôfrego rival tucano Aécio Neves).  Secondo, não é aqui o local para reportar os estragos da indicação, mas o que importa é a força institucional da presidente em funções, e do aparelhamento dos órgãos competentes para impedir que viesse à tona antes da eleição o legado maldito do primeiro mandato de Dilma. Essa mesma força tornaria quase patética qualquer tentativa do ex-presidente de assumir-lhe o lugar na chapa.

              Dessarte, apesar de ter-lhe barrado o caminho em 2014, os vínculos de sua indicação e a virtual paternidade da primeira eleição - a tudo isso somada a força política de Lula no PT, e a crescente exasperação do velho cacique petista com o cerco que lhe estaria sendo feito pelo Ministério Público de São Paulo, notadamente o Promotor Conserino, a respeito do notório tríplex do Guarajá (além do sítio do Atibaia, que apesar de não ser de sua propriedade, como alega amiúde, para lá fez transportar mais de cem caixas com bebidas, ao terminar o segundo mandato, em 2010).

                Incomodado pelo cerco que vem enfrentando pela Lava-Jato, adotou duas providências, decerto ligadas entre si, mas a que falta certa coerência. De início, pediu ao Supremo, como foi referido, que o dispense de comparecer às audiências com o MP de São Paulo,  para responder a inquéritos sobre o tríplex do Guarajá e o sítio do Atibaia, de que há muitas suspeitas de que seja o verdadeiro proprietário. Terá consultado os seus traquejados advogados, mas como não tem privilégio de foro como ex-presidente, cabe perguntar qual a base jurídica de tal demanda.

                 Mais tarde, não se sabe com base em quê, Lula terá declarado que não mais iria comparecer a tais convocações.

                  De qualquer forma, a sua ex-pupila resolveu dispensar os serviços do Ministro da Justiça, que era um dos poucos que a acompanhara desde a fotografia do gabinete do primeiro mandato, de 1º de janeiro de 2011.

                  Conforme o seu currículo, Cardozo nunca cedeu à frenética pressão da bancada do PT no Congresso, do presidente do PT, o deputado Rui Falcão, entre outros mais, que buscavam controlasse a autonomia da Polícia Federal, em termos da Lava-Jato.  A informativa coluna de Merval Pereira de hoje agrega os seguintes informes sobre o seu digno currículo: ("A saída de José Eduardo Cardozo é o desfecho de uma relação tumultuada que, ele um dos fundadores do PT, sempre teve com Lula e dirigentes do partido, como José Dirceu. Nos anos noventa ele fez parte de comissão de investigação do PT em São Paulo sobre uma denúncia do economista Paulo de Tarso Venceslau contra o advogado Roberto Teixeira, o mesmo compadre de Lula que até hoje está no noticiário. (...) Os outros membros da comissão eram Hélio Bicudo (...) e Paul Singer. O diretório nacional do PT, controlado por Lula, rejeitou o relatório da comissão de averiguação, que viu sinais de corrupção nos contratos, e o único punido foi (o denunciante) Paulo de Tarso Venceslau, expulso da legenda."

                     Mas dona Dilma, como era de esperar, não se terá sentido com cacife para enfrentar o criador Lula da Silva e ainda por cima sobre questões éticas, buscando preservar o seu principal ministro, cada vez mais solitário remanescente do PT ético (que nos dias que correm virou espécimen de museu) .

                      Excluída essa batalha de Itararé - aquela que não houve -  a Presidenta se apequenou um tanto mais trazendo para o ministério da Justiça personagem da política estadual da Bahia,  Wellington César de Lima e Silva, ex-procurador de Justiça naquele estado, e indicado por Jaques Wagner (Casa Civil), a quem é ligado.

                      O que fazer da frase, muito repetida pela Presidenta: "O PT deixa investigar, não joga nada para debaixo do tapete", pois este lema partidário está em grave perigo de virar constrangedor anacronismo. Nas palavras do colunista, "começa a desmoronar a farsa petista e arma-se uma crise institucional".            

                      Como a Lava-Jato não é mais apenas uma política, mas vontade nacional e instrumento de primeira linha na luta contra a corrupção - mormente no grau de intensidade com que nos presenteou o Partido de Lula da Silva - cortar-lhe as verbas (da Polícia Federal e do MPF) ou pôr obstáculos no seu caminho, equivaleria a afrontar a opinião pública e a maioria do Congresso (não vejo parlamentar com desejo de reeleger-se que se proponha contrariar as finalidades éticas dessa grande cruzada contra a corrupção, cortando-lhe as verbas).

                     É luta comprida e dificultosa a batalha contra a corrupção. Tomando minhas liberdades com Camões, e pedindo licença a Lionel Brizola, não permitamos que a rainha fraca enfraqueça a forte gente da Polícia Federal, do M.P.F. e a própria opinião pública, porque a batalha já está mais do que encetada, e a longa noite há de passar.

 

(Fontes:Carlos Drummond de Andrade, Enciclopédia Delta-Larousse, O Globo, coluna de Merval Pereira)